A Instrutora (Atualizado)
Ela desceu do cavalo apulso, caindo no chão como um saco de batata, os joelhos quase cedendo sob seu próprio peso. Mina passou uma mão pela testa, onde um suor frio escorria.
Respirou fundo, tentando controlar a ânsia. Aos poucos, o mal-estar foi passando enquanto ela caminhava na direção do solar. Aquela tinha sido uma tarde bem cheia na vila, em especial pela última pessoa que tivera de receber.
- Mina?
A moça levantou a cabeça – até então estivera andando e olhando para os próprios pés – encontrando a figura de Holly recortada contra a porta dos fundos. Ela forçou um sorriso, tentando esconder seu estado de espírito. Não precisava preocupar Holly com aquele tipo de coisa.
- Boa tarde, Holly. – ela cumprimentou, parando nos degraus, antes que a mulher lhe desse passagem.
- Boa tarde para você também, querida. Eu lhe fiz um lanche, o bolo inclusive ainda está quentinho.
- Desculpe, Holly, mas eu já lanchei na taverna. – Mina voltou a sorrir – Na verdade, tudo o que eu quero agora é tomar um bom banho.
Mina não esperou para ter uma resposta de Holly. Em vez disso, passou rápida para a sala, subindo as escadarias de dois em dois degraus.
A mulher deixou-se quedar, pensativa. Mina dificilmente deixava de lanchar de tarde. Em todo caso, ela dissera que comera na taverna... mas então, por que ela sentia que havia algo de errado naquela situação?
No andar de cima, Mina acabara de entrar de cabeça sob o chuveiro, fechando os olhos enquanto a água escorria por seu rosto.
"Eu quero saber onde está meu pai. Se você é agora a Senhora da Ilha, você tem que saber!"
Ela apertou os olhos com mais força, os ecos da voz de um menino de dez anos ecoando em sua cabeça.
"Você tem que saber! Mamãe está doente! Ele tem que voltar para casa antes que o bebê nasça! Você tem que trazê-lo de volta!"
Mina encostou a testa junto aos azulejos, desligando a água. Como dizer a uma criança que ela não podia trazer o pai dela de volta? A garota suspirou, antes de puxar a toalha, enxugando-se rapidamente para deixar o box do banheiro.
Pouco depois, estava sentada no chão, diante da cama, puxando uma caixa de madeira lisa de debaixo, abrindo-a para revelar um pequeno aparelho, a base de madeira escura envernizada contrastando com os pequenos e delicados circuitos de metal.
Colocando os fones no ouvido, ela ligou o interruptor. Como de hábito, contudo, desde que começara com aquilo, só teve estática como resposta. Ela suspirou, meneando a cabeça, perguntando-se se não trocara a freqüência sem perceber, mexendo nos sintonizadores com cuidado, tentando pegar algum ruído.
Nada.
A quem estava enganando? Era lógico que a freqüência não estava errada. Fora Lusmore quem se esquecera de usar o telégrafo, propositalmente ou não. Talvez as coisas estivessem piores do que tinha imaginado e ele não quisesse que ela soubesse...
Batidas leves na porta fizeram-na colocar esses pensamentos de lado. Rapidamente, ela empurrou o que estivera usando para debaixo da cama, levantando-se no momento em que a porta se abria, revelando, novamente, a figura de Holly.
- Vejo que já tomou seu banho. – ela sorriu – Seu avô está esperando-a lá embaixo. Há alguém a quem ele quer apresentá-la.
Mina assentiu, levantando-se, uma expressão curiosa no olhar. As duas seguiram em silêncio, encontrando Vincent ao pé da escada, conversando com uma moça não muito mais velha que a própria Mina.
A jovem MacFusty parou na escadaria, observando a imagem da outra. Ela era alta, com longos cabelos dourados descendo em pequenos caracóis até quase a cintura; tinha um rosto delicado de porcelana e olhos de um azul acinzentado misterioso.
Até um certo ponto, Mina poderia compará-la com Selune, mas, enquanto a amiga e comadre tinha um certo ar etéreo em sua expressão, a moça que conversava com seu avô demonstrava uma determinação férrea, além de uma ligeira malícia.
Havia qualquer outra coisa de familiar nela, algo que evocava suas memórias de infância, mas ela não saberia precisar exatamente o que seria.
- Mina, você já está aí. – seu avô sorriu para ela, notando-a apenas naquele momento – Desça aqui, quero lhe apresentar sua instrutora, Elaine McConnay.
Foi a vez de Mina sorrir, uma imagem destacando-se em meio as suas lembranças, da época em que Lusmore morava com eles e, por vezes, ela se juntava ao primo e seus companheiros.
- A filha de tio Lir, não é? – ela perguntou – É um prazer, Elaine.
- Eu digo o mesmo, Mina. – a loira se adiantou, estendendo a mão, apertando a dela firmemente – Parece que vamos ser parceiras durante seu treinamento como domadora, não é? Prometo que vou cuidar bem de você.
- Eu agradeço antecipadamente por isso, Elaine. – foi Vincent quem respondeu.
Mina riu de leve, parte das preocupações da tarde desanuviando-se pela presença calorosa e divertida de Elaine. De alguma maneira, Mina podia sentir que a outra seria uma valiosa companheira não apenas ao longo de seu treinamento, mas por muito mais tempo...
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