Ele olhou de soslaio, notando a moça concentrada em seus próprios esboços. O vienense deu um discreto sorriso observando a sonserina. Era fácil entender porque Meridiana se empenhara tanto em se aproximar da prima. Por trás da antiga camada de gelo, havia alguém com um grande coração, dedicada a quem lhe importava. Ele gostava da moça por aquilo que ela significava para a sua fraulein, mas percebia que aos poucos estava encontrando também em Adhara uma boa amiga.
A morena levantou o rosto, consciente do olhar do austríaco sobre si. Lucien tinha um sorriso amistoso, e ela sentiu-se compelida a corresponder o gesto.
- O que foi? – ela perguntou, sentindo-se curiosa acerca das ações de Lucien.
- Nada – respondeu o rapaz – Estava só pensando...
- Na Meridiana. – completou Adhara, voltando a atenção ao esboço que fazia da Fada Prensada.
- Não necessariamente. – ele deu outro sorriso – É verdade que, por causa das circunstâncias, a gente converse tanto sobre a Meri. Mas, estava pensando em você.
Ela largou o lápis que usava e virou-se para Lucien, avaliando o moreno de forma um tanto reservada. Francamente, aquilo a havia surpreendido. Nunca havia cogitado a hipótese de Lucien pensar nela, afinal ela era apenas a prima de Meri. O que mais havia para pensar além disso?
- Importa-se em reformular isso? – pediu Adhara.
- Bem... – ele começou, quase divertido com a expressão de curiosidade da morena – Eu sei que nossa convivência se deve primeiramente a Meridiana, mas, depois dessas semanas, trabalhando juntos aqui, eu comecei a perceber que aos poucos você estava se tornando minha amiga também, não apenas a “prima de fraulein”.
Adhara assentiu, ponderando sobre as palavras dele. Não havia pensado que Lucien a considerasse uma amiga... Aliada sim, mas não amiga. Amizade, como ela viera a descobrir nos últimos meses, era um laço muito mais íntimo e profundo do que uma aliança. Uma amizade não exigia apenas conveniência e objetivos em comum, mas também que você gostasse e se importasse com as pessoas envolvidas na relação. Não fazia idéia do que Lucien poderia ter gostado a respeito dela. Adhara sabia que não era uma pessoa particularmente amigável. Mas a questão não era essa, a questão era: ela também se importava com Lucien, também o via como um amigo?
A morena encarou os olhos bicolores do lufano. Era inegável que Lucien estava, aos poucos, ganhando um lugar na sua vida – um lugar independente de Meri. Ela sentia-se confortável e segura perto do austríaco e Adhara sabia, pela própria natureza de sua personalidade cética e reservada, que era raro ela se sentir daquela forma com alguém.
- Você já deve ter percebido que eu não tenho muitos amigos... – ela respondeu, ao que Lucien assentiu. Já havia percebido aquilo acerca de Adhara, estava acostumado a ver a morena quase que exclusivamente na companhia dos primos. Na verdade, agora mais de Kyle do que de Meri – Então acho que isso significa que não estou em posição de recusar um – encerrou a sonserina, com um meio sorriso.
- Eu fico honrado em ser considerado um amigo por você – o lufano respondeu com um aceno de cabeça. – Bem, melhor voltarmos ao trabalho. Posso dar uma olhada nos seus esboços?
A morena assentiu e passou as folhas em que estava trabalhando para o lufano avaliar. A verdade é que estava um tanto insegura quanto aos desenhos. Ela não estava acostumada a fazer aquele tipo de arte utilizada em quadrinhos trouxas, os desenhos da sonserina se restringiam mais a reproduções em grafite de objetos, lugares e pessoas – era algo bem diferente do que estava sendo exigido dela agora.
- O que acha? – Ela perguntou depois de alguns minutos.
Lucien desviou os olhos dos desenhos para o rosto da moça e deu um sorriso para ela.
- Estão muito bons, Adhara. Eu gostei do que você fez com a roupa da Fada. – O lufano a elogiou com sinceridade. – Posso perguntar de onde veio a inspiração?
Ela deu de ombros.
- Eu vi algo parecido em um desenho animado trouxa. Na verdade, foi Meridiana quem me mostrou. Era sobre um garoto que nunca crescia e podia voar...
- Ah, Peter Pan. – Lucien completou, lembrando-se do clássico trouxa que já havia assistido com a irmã, Selune adorava aquelas histórias fantasiosas e cheias de música. – É, eu achei mesmo que o vestido em lembrava o da Sininho.
- Eu só não acho que sapatilhas vá combinar muito bem com uma super-heroína. – disse Adhara, chamando a atenção de Lucien para os pés da personagem. – Em todos esses quadrinhos os heróis estão sempre usando uns tipos de botas.
O rapaz assentiu.
- É, tem razão. Eu acho que botas ficaria bom, mas não muito compridas. Mais pela altura da canela, o que me diz? – ele encarou Adhara então, com as sobrancelhas franzidas, buscando pela aprovação dela.
- Acho ótimo. Botas então. – ela pegou de volta o desenho e apanhou seu lápis para desenhar a última parte do uniforme da Fada Prensada.
Lucien a observou com um meio sorriso. Estava sendo fácil trabalhar com Adhara, ela era bastante talentosa para alguém que nunca havia estudado arte, era perfeccionista e tinha umas idéias bem pertinentes. E, para dizer a verdade, o lufano estava particularmente orgulhoso do trabalho que estavam realizando juntos. Estava sendo bom para ele ocupar seu tempo em um projeto que exigia tanto de sua criatividade, assim, ao menos por algumas horas, ele conseguia ocupar sua mente com outros pensamentos que não o destino sombrio e incerto de sua fraulein.
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