A primeira vez que eu pensei neste texto, muitas e muitas dias atrás, a idéia para ele era algo com um início mais divertido e depois indo gradualmente tomando um tom mais sério.
Era para o Senhor Lemony Snicket, renomado autor de Desventuras em Série, após explanar os trágicos sofrimentos dos irmãos Baudelaire, se debruçar sobre as minhas desventuras. Eu própria iria interrompe-lo, e tomar as rédeas da situação. Afinal, ele iria pedir para que vocês não lessem (como ele costumava fazer com os Baudelaire) enquanto eu iria argumentar que eu precisava que vocês lessem.
Iria rolar até uma referência completamente nonsense sobre Bob Esponja e Siriguejo (não me perguntem. :P)
Mas, não consegui fazer isso... Tico e teco (os neurônios chefes do meu cérebro) andam mais que entorpecidos...
Enfim, o texto não vai sair exatamente como eu quero, mas senti necessidade de uma palavrinha com vocês...
Até porque, aparentemente, os sites parecem abandonados, mas não estão. Pelo menos não de todo.
A primeira parte de todas essas idas e vindas são por questões realmente técnicas... Primeiro o freewebs simplesmente parou de funcionar...depois sabe-se lá porque o Blogger.com e o nosso servidor parecem não se reconhecer...meu PC morreu e eu perdi praticamente TODOS os meus arquivos de fics antigas e futuras.
Algumas eu recuperei por back ups virtuais antigos, outras graças à Lulu e Juju.
Agora que tudo parecia estar indo bem, quando eu decidi voltar para o Blogger Brasil para quebrar o galho enquanto a Mel, amiga de longa data da Regis, está nos fazendo o favor de mudar para outro servidor, a mãe da Juju decidiu parar de pagar a Globo.com e a Juju ainda não teve tempo ela mesma de pagar pelo menos para dar tempo de a Mel arrumar o servidor novo.
Se a Juju não conseguir pagar até quarta, tento a minha terceira gambiarra, voltar a usar o blogger normal, mas com blogs mesmo (e aquela barra do blogger desarmonizado o layout dos sites). :P
Tem horas que eu acho que alguém jogou uma urucubaca em cima da gente, por que só está acontecendo pepino atrás de pepino...
A segunda parte dessas trancos e barrancos é de cunho pessoal... bem, parece que o universo conspirou para que até os membros mais ativos do grupo se enrolassem total e completamente.
Quem lê o Coruja em teto de zinco quente sabe que a Lulu (Mina) está às voltas com prova da OAB, estágios, pós-graduação e trocentas outras coisas.
A Juju (Samantha) está trabalhando quase dobrando todos os dias, de sair mais de 11 da noite do trabalho, sem falar que está às voltas com os preparativos do casamento dela.
A Lucilla (Adhara) nem no MSN consigo encontrar, ela está com dois estágios, uma faculdade e um namorado para se dividir...
A Regis (Raven) ficou quase um mês sem PC e ocupada com educacenso da escola onde ela trabalha.
Quanto a mim, não é que as coisas estejam mais complicadas que as das meninas, apenas posso dar mais detalhes pois dizem respeito à mim.
Desde que eu voltei de férias em meados de julho, me parece que eu estou na borda de um furação, rodopiando incessantemente. Algumas coisas boas aconteceram, claro, como meu namorado, a casa nova da minha mãe, meu aniversário, aniversários de amigos (setembro tem gente demais fazendo aniversários, os tais “filhos do ano-novo)...
Mas outras nem tão boas. Agosto foi basicamente infernal. Meu coordenador estava de férias e eu que assumi as tarefas dele, a moça que trabalhava comigo estava prestes a ganhar bebê, ou seja, estava fazendo o trabalho de duas pessoas e meia. Sem falar que meu chefe estava com um mau humor fora do normal, possivelmente com algum problema muito sério...
A coisa estava tão dificil que tinha dias que eu voltava chorando para casa...
E, no meio do caminho, uma tia minha morreu...
Setembro chegou e as coisas melhoraram um pouco...na verdade, melhoraram bastante. Tive algumas outras reviravoltas estressantes, mas daquelas que te ajudam de algum modo apesar dos pesares...
Só que, com a proximidade do Festival Internacional de Quadrinhos e do Anime Festival BH, eu estou trabalhando tanto que quando chego em casa, basicamente só consigo dormir ou fazer algo que não precise de cérebro ativado...
E eu estou com tantos planos para os sites... tem fics da Meri e do Kyle para escrever, um update na seção de scans do Amaterasu (estou querendo disponibilizar Perfect Girl Evolution para vocês e talvez coisas do Clamp), matérias para o Tsuru, capítulos novos de New Dawn.
Aliás, New Dawn é um caso a parte. A Luzinha e a De meio que estão off do projeto no momento e eu, com a permissão delas, daria continuidade quinzenal...
Mas, confesso que a minha mente anda seca e meus personagens todos calados. Não apenas a Bella e Edward... mas todos os outros também. Desde metade de julho que não consigo escrever absolutamente nada. Vocês não tem idéia do quando isso é frustrante...
Ás vezes as imagens surgem, sento na frente do PC e não consigo colocar nada na tela em branco...
I'm really sorry, folks.
Eu estou, na verdade, nós estamos nos esforçando para sairmos dessa névoa estranha que está nos envolvendo...
Não sei se acreditam nisso, mas estamos precisando que vocês nos mandem toda a energia positiva que puderem para ver se consegumos quebrar essa estranha maldição que parece ter recaído sobre nós.
Beijos esperançosos, Katchiannya (ouvindo Beatles até enjoar)
O dia amanhecera mais rápido do que Herman desejara. As últimas noites haviam sido mal dormidas e repletas de pensamentos frustrados, um sentimento que parecia reverberar por quase todos os integrantes da casa.
Contudo, ele havia combinado com Lusmore de começarem a treinar logo cedo, havia muito o que aprender, muito o que aprimorar. Se ele quisesse ver novamente sua família, se ele desejasse novamente ter Lorelai entre seus braços, ele deveria se esforçar para ajudar a terminar aquela guerra o mais rápido possível.
Herman espreguiçou-se, erguendo os braços à frente do corpo. Os olhos se fixarem na aliança dourada, um sorriso triste de saudades passou por seus lábios e ele pensou consigo o quanto ansiava que Lore estivesse bem em Hogwarts.
Sem mais delongas, ele se levantou, vestindo-se rapidamente, dirigindo-se para a saída do quarto. No corredor, acabou por encontrar Lusmore que, apesar da hora, parecia muito bem disposto.
- Bom dia, Mercury. Já decidiu por onde vamos começar o treino?
- Uáaaa – o grifinório bocejou – Bom dia, Mahala... ainda não pensei nisso... na verdade, minha primeira resolução do dia é tomar uma xícara de café preto para despertar direito... depois disso, podemos ver juntos por onde começar.
O bardo assentiu enquanto os dois cruzavam os umbrais que davam acesso à sala de estar, por onde precisavam passar antes de ir para a cozinha. Herman deu mais um bocejo antes de perceber que o outro rapaz havia cessado de caminhar. Demorou um pouco para ele perceber o que levara Lusmore a parar.
Mercury piscou algumas vezes antes de discernir completamente as duas figuras que repousavam no sofá da sala. Isaac estava com a cabeça recostada no braço do sofá, enquanto uma das gêmeas, que Herman desconfiou ser Clio, dormia encostada no peito de Cyan.
Ele se voltou brevemente para o bardo, notando a expressão sombria que o outro usava. Lusmore, contudo, não disse nada, apenas deu as costas à cena, voltando-se para a porta.
- Eu vou dar uma caminhada enquanto você toma seu café, Mercury.
Havia qualquer coisa de dura no tom com que o bardo falara, diferente da maneira geralmente tranqüila e bem-humorada de Lusmore. Sem esperar uma resposta, o rapaz deixou a casa, batendo ligeiramente a porta, mas não forte o suficiente para acordar o casal no sofá.
Herman dirigiu-se para a cozinha, para preparar o café para si, precisava estar um pouco mais desperto antes de tomar qualquer atitude. Pelo comportamento de Mahala, ele intuiu que não deveria esperar uma reação muito agradável por parte de Sam também, afinal, Mina era uma das melhores amigas dela.
Ele, por outro lado, preferia conversar com Isaac antes de tomar qualquer posicionamento. Por mais que visse Mina quase como uma irmãzinha caçula, as coisas entre ela e Cyan sempre foram complicadas demais para que ele pudesse julgar sem nenhuma ressalva.
Herman colocou o líquido escuro e fumegante em uma caneca, sorvendo um gole revigorante da bebida. Ele dirigiu-se novamente até a sala, talvez fosse melhor que os demais membros da casa descobrissem sobre o que quer que estivesse acontecendo entre Isaac e Clio quando todos os envolvidos estivessem completamente despertos.
- Isaac. – ele cutucou de leve o rapaz adormecido – Melhor vocês acharem um lugar mais confortável para dormir, daqui a pouco vão todos acordar.
O loiro abriu os olhos devagar, Clio ainda completamente alheia ao resto do mundo contra seu peito. Piscando algumas vezes, ele observou o outro se aprumar em pé, antes de finalmente fazer sentido do que estava acontecendo.
Com extremo cuidado, ele se desenroscou da garota, depositando a cabeça dela sobre uma das almofadas, pondo-se em pé e esfregando os olhos por alguns instantes, antes de se voltar para Herman.
- Que horas são?
- São seis e meia. - Herman respondeu.
Isaac assentiu, encarando por alguns instantes a janela através da qual o sol começava a surgir.
- Talvez seja melhor transferirmos a conversa para a cozinha. – ele observou – A propósito, a luz queimou ontem de noite.
- Eu troco ela mais tarde. – o moreno respondeu, abrindo passagem para o outro rapaz.
- Acho que vou pedir um emprego para você qualquer hora dessas. Mas agora que já pensamos sobre o futuro, vamos falar um pouco sobre o presente. Eu trouxe algumas coisinhas para você. Tinha pensado em começarmos nosso treinamento hoje, mas, já que você está de cama...
- Holly me disse que isso vai passar. Eu vou ter crises de vez em quando, mas não será sempre. Eu vou precisar me cuidar, fazer uma dieta, cortar coisas muito gordurosas do cardápio... – Mina suspirou – Lá se vão meus doces... Mas eu vou melhorar.
- Ótimo. – Elaine respondeu, levantando-se e se encaminhando até a porta, pescando do lado de fora um saco que deixara antes de entrar e voltando a se aproximar para despejar o conteúdo do saco diante da moça.
Mina arregalou ligeiramente os olhos, afastando-se minimamente na cama para não ser acertada por nada de potencialmente perigoso. E havia algumas coisas bem perigosas naquele saco.
- Em primeiro lugar... – Elaine continuou, separando as coisas e catando uma trouxa de roupas amarradas – Esse é seu uniforme como domadora. As calças e as blusas são de malha. E esse corpete... – ela puxou outra peça de roupa do monte de objetos – é de couro de dragão trabalhado. Vai protegê-la de muitas coisas. É quase como usar uma armadura, só que é bem mais leve que uma peça de metal.
- Possivelmente mais apertado também. – Mina suspirou – Porque um corpete e não uma capa?
- Porque o corpete é mais bonito. – Elaine sorriu, maliciosa – Agora, às armas. Sir Vincent me disse que você tinha tido o treino com arco. Então, vamos começar agora a lidar com bestas.
Foi Mina quem primeiro alcançou a arma, leve e fria, o metal negro, uma corda fina junto ao mecanismo de armar. Ela testou o fio. Era bem forte.
- As setas também são de metal? – Mina perguntou.
- São mais resistentes. E você não acha realmente que um gravetinho de madeira conseguiria penetrar no couro de dragão, não é? – Elaine respondeu – Mas tome cuidado com as flechas. E também com qualquer arma utilizada por um domador. Se você se ferir com uma delas, mesmo um pequeno arranhão, a ferida vai demorar para cicatrizar e deixará uma marca para o resto da vida.
Mina assentiu.
- Eu entendi. Vou tomar cuidado. – ela puxou uma longa espada, presa num cinto de couro, como o do corpete – Até onde tio Godfrey me ensinou, eu nunca ouvi falar de domadores usarem espadas.
- É simbólico. – Elaine respondeu – E fica bonito também.
A outra sentiu vontade de rir.
- Para quem? Até onde eu saiba, nunca ouvi falar de domadores capazes de seduzirem dragões...
- Eu nunca disse que era para ficar bonito para os dragões... – a loira retrucou, maliciosa.
Mina suspirou. Aparentemente, a prima era pior que Sam e Lore juntas. Onde ela fora se meter...
Mina levantou a cabeça, deparando-se com Elaine parada junto à porta. A garota se aprumou na cama, largando os joelhos, que, até então, estivera abraçando, ao mesmo tempo em que alisava os lençóis que a cobriam até a cintura.
A loira sentou-se na ponta da cama, observando a moça.
- Soube que você estava doente.
- É o que parece. – Mina respondeu, suspirando.
Elaine continuou a encará-la, pensativa, antes de continuar.
- Hiram, Holly e seu avô pareciam estar discutindo lá embaixo sobre o que fazer com você. Hiram queria que você tivesse repouso absoluto e fosse poupada de qualquer tipo de aborrecimento.
- Ele quer que eu definhe de tédio então. – Mina respondeu com a voz cansada.
Elaine suspirou.
- O que você tem, Mina? Digo, realmente, o que está sentindo?
Mina a encarou com os olhos sem brilho. Ainda se sentia ligeiramente zonza e enjoada, mas depois de um banho frio, seu corpo parecia começar a reagir. Ela estava pálida, os lábios quase sem cor; as mãos úmidas e o corpo dolorido. Ficar sentada pressionando a barriga era a única posição em que conseguia sentir algum alívio.
Mas não era aquilo que Elaine queria saber e Mina compreendera isso instantaneamente. Por alguns instante, a jovem apenas guardou silêncio, pensando em tudo o que acontecera nos dois últimos meses, na falta de notícias, na maneira como se sentia tão absolutamente...
- Inútil. – ela respondeu finalmente – Eu estou me sentindo uma inútil, presa aqui sem ter notícias de nenhuma das pessoas com quem me importo quando, na verdade, voltei do Japão exatamente por causa delas. Tio Godfrey sumiu, Lusmore foi embora, estamos completamente alheios ao que está acontecendo lá fora...
Elaine colocou uma mão sobre o ombro dela, sorrindo.
- Você não é uma inútil, Mina. Está indo muito bem ajudando na vila... E as pessoas precisam de você lá. Além disso, você não é a única que espera por notícias, por algum sinal de vida, qualquer coisa.
- Eu sei disso, mas...
- Ficar chafurdando na auto-comiseração não vai levar você a nada. – Elaine a interrompeu, séria – Em vez disso, porque em vez de ficar nesse estado lamentável, você não começa a imaginar e a planejar o que vai fazer quando estivermos livres de novo? – ela voltou a sorrir - Eu por exemplo, planejo tomar um porre homérico e, no dia seguinte, jogar uma mochila nas costas e passar os dois anos seguintes como andarilha, viajando pelo mundo todo.
Mina estreitou ligeiramente os olhos.
- Andarilha?
Elaine assentiu.
- Exatamente.
Um pequeno sorriso aflorou nos lábios da outra, enquanto ela refletia sobre as palavras de Elaine. A loira tinha razão. Assim, ela se esforçou para pensar em alguma coisa para responder.
- Eu... acho que vou começar fazendo uma grande festa. Tipo festa de arromba. Para virar a noite.
Elaine sorriu maliciosa.
- E daí vai beber todas, dançar até o sol raiar e arranjar alguém para dar uns amassos.
Mina olhou para a prima com um olhar desconfiado, o mesmo que, muitas vezes, usara com as amigas mafiosas.
- Nada de amassos.
- Hum... então, você é uma menina de respeito. – Elaine deu alguns tapinhas na cabeça dela – Muito bem. Então, nada de amassos. Mimi é para casar. Vamos arranjar um bom partido para você. Agora, continue.
- Eu preferiria que você não arranjasse nenhum bom partido para mim. – Mina respondeu.
- Então você prefere os bad guys?
- NÃO! – Mina meneou a cabeça veementemente – Eu só... Ah, deixa pra lá...
Elaine riu.
- Eu não sabia que era tão fácil deixar você sem graça. Isso é divertido.
- Você não é a única a pensar assim. – Mina respondeu, emburrada.
A loira sorriu, dessa vez mais gentil.
- Tudo bem... E depois da festa, o que você faria? Iria voltar para a escola? Viajaria comigo?
Mina meneou a cabeça.
- Eu não tinha pensado nisso, mas... Acho que eu não voltaria para Hogwarts. Eu ficaria aqui nas Hébridas. Continuaria meu treinamento. E, talvez... – o olhar dela caiu sobre a escrivaninha, onde alguns livros estavam amontoados – Acho que eu iria propor sociedade à Meri e ao Herman. Para abrirmos uma editora.
- Uma editora? – Elaine perguntou, surpresa.
Mina assentiu, mais segura agora.
- Sim. Eu abriria uma editora. Uma editora para poder começar um jornal. E ele iria se chamar “Olho do Grifo”.
- Parece que você já tinha seu futuro bem planejado. – Elaine observou.
A outra meneou a cabeça.
- Não. Eu me dei conta disso agora. Eu nunca tinha pensado muito a sério no que eu queria fazer... Mas eu gosto dessa idéia. Seria uma boa coisa para fazer.
Elaine assentiu, sorrindo.
Expresso no Scrap MTV
O Expresso Hogwarts apareceu no Scrap MTV. A estrela principal é o Robson Reis, autor do Crepusculinho, mas tem uma palhinha nossa por lá! Focalizando o layout com os desenhos da Dani.
O choro de uma criança ecoava pelos corredores do solar, alto e pungente. O homem avançou mais alguns passos, mancando fortemente, até finalmente alcançar a maçaneta do quarto da neta. - Mina, o que aconteceu com... Vincent interrompeu-se no meio da sentença, observando Kieran na cama, soluçante, iluminado pela luz que vinha do banheiro, de onde vinha um outro choro, mais baixo e dolorido, seguido pelos sons de alguém passando mal. Com o coração palpitando, ele caminhou até lá, encontrando Mina debruçada sobre a pia, os cabelos pregados no rosto suado, onde não parecia haver uma gota de sangue – talvez porque o sangue dela estivesse, nesse instante, sobre a louça branca da bancada. - Mina! Ela se virou, encarando-o com os olhos embargados, mas, antes que pudesse falar alguma coisa, a ânsia voltou a engolfá-la. Assustado, o velho rapidamente voltou para o quarto, tateando até encontrar uma corda junto à cama. Aquilo não era usado há muito tempo; ele não se lembrava de ter visto sequer seus pais utilizarem as campainhas que chamavam os empregados. Entretanto, quando ele puxou, pode ouvir o som estridente vindo do andar de baixo – o quarto de Mina, afinal, ficava exatamente em cima da cozinha. Em seguida, ele voltou para o banheiro, puxando os cabelos da neta para trás com uma mão, e, com a outra, abraçando-a pela cintura. Pouco depois, passos irromperam à porta e ele ouviu a voz de Holly tentando acalmar Kieran antes de alcançá-los. - O que aconteceu? – ela perguntou, com o menino no braço, aproximando-se – São duas e meia da manhã, o que vocês... Os olhos claros da mulher se arregalaram ao ver o estado do banheiro e a palidez da garota. Vincent voltou-se para ela, enquanto Mina escorregava ligeiramente por entre seus braços, a cabeça agora encostada em seu ombro. - Mi, mi, em! – Kieran soluçou, estendendo uma mãozinha na direção da irmã. - Não, Kieran, Mina não está bem. – Vincent respondeu para o neto – Eu não sei o quê aconteceu, quando cheguei aqui, ela já estava assim. Holly assentiu, antes de estender Kieran para ele, amparando Mina no momento em que o homem segurou a criança. - Mina, o que houve? – ela perguntou baixinho, alisando os cabelos de sua menina – O que está sentindo? O que você comeu? - Está doendo. – ela murmurou com a voz abafada contra o peito da mulher – Está doendo há dias, mas hoje... É como se estivesse queimando, como se o estômago estivesse em carne viva... E eu estou enjoada. Eu sei que não tem mais nada lá dentro... Mas... Holly ficou em silêncio, refletindo. Há dias que Mina não estava comendo direito; até mesmo seus chocolates estavam sobrando na despensa, quando não teriam durado muito mais que o tempo da menina descobri-los. - Venha, eu vou lhe dar alguma coisa para passar a dor e o enjôo. – ela guiou a jovem de volta para o quarto, sentando-a na cama. Vincent tinha saído com Kieran que continuava, impaciente, a balbuciar pela irmã – Agora que já colocou tudo pra fora de uma maneira ou de outra, vai se sentir um pouco melhor. Mina apenas assentiu. Holly observou-a por alguns instantes, para em seguida deixar o quarto apressada. Vincent estava no corredor, tentando acalmar o neto mais novo. - E então? – ele perguntou. - Eu não acho que ela tenha comido nada estragado. Há dias que ela tem se queixado do estômago. Pode ser uma gastrite nervosa ou alguma coisa do tipo. - Eu vou chamar Hiram amanhã para dar uma olhada nela. E não me olhe com essa cara, Holly. Eu confio em você, mas depois de ver minha neta vomitando sangue, eu dou um jeito até de interná-la no St. Mungus se for necessário. - Vou procurar alguma coisa para fazê-la dormir agora. – Holly respondeu – Deixe Kieran com ela, ele vai se acalmar na presença da irmã, e talvez a acalme também. Vincent suspirou, antes de assentir. Holly então sumiu na direção das escadarias, enquanto ele voltava para o quarto da neta. Mina estava encostada na cabeceira da cama, abraçando os joelhos, o rosto mergulhado contra os braços. - Mia! Ela só levantou a cabeça quando Kieran engatinhou na cama até alcançá-la, apoiando-se com algum esforço nas pernas dela para ficar em pé. - Mia? Os olhos claros do irmão a encaravam, curiosos. Mina deu um ligeiro sorriso, enquanto ele estendia a mãozinha, tentando alcançar o rosto dela. Voltou-se então para o avô, que se sentara na beirada do colchão, observando os netos, a preocupação visível em sua face. - Eu vou ficar bem. – ela murmurou com a voz rouca. Mina percebeu Vincent apenas assentir, antes de voltar-se para Kieran, que tentava chamar sua atenção. Mas, ainda que os olhos dela estivessem fixos no irmão, ela não o estava realmente enxergando naquele instante. Alguma coisa acontecera aquela noite. E não era pela dor que sentia na barriga que sabia disso. E sim pela dor fina e aguda que atravessara seu coração no momento em que acordara e pulara da cama para o banheiro. Alguma coisa acontecera aquela noite... alguma coisa se quebrara dentro dela em resposta... e, talvez, se quebrara para sempre
A parte mais estranha de uma insônia era quando, sem qualquer explicação aparente, abria os olhos em meio à escuridão, incerto se estava realmente acordado ou sonhando.
Por alguns minutos, ele permaneceu na mesma posição, observando o teto, enquanto ouvia a própria respiração, calma e ritmada em seu próprio compasso.
O sono não voltaria, por mais que ele quisesse. Há quase uma semana que não conseguia dormir direito, desde a noite em que tinham saído para resgatar os Hooper... e falhado.
A cena da família sendo levada pelos aurores ficara gravada em sua retina. A avó trouxa, os pais bruxos, as duas crianças e o bebê... E, enquanto eles eram trancados em um furgão negro, ele, Lusmore, Herman, Sam... Nenhum deles pudera fazer nada.
Detestava aquela sensação de impotência. E detestava ainda mais o fato de não poder fazer absolutamente nada sobre o assunto além de torcer para que, de alguma forma, aquela família estivesse bem.
Desistindo de continuar na cama, ele empurrou o lençol para o lado, puxando o roupão que estava sobre o estrado da cama e vestindo-o de qualquer jeito sobre o pijama, antes de alcançar o livro que estivera lendo mais cedo, guardado na gaveta da mesa de cabeceira.
Devagar, ele abriu a porta, passando para o corredor com os passos mais leves que podia fazer. Bastava um insone, não precisava sair acordando os outros – ainda que a idéia de ter alguma companhia não fosse de todo ruim.
Isaac seguiu então para a cozinha, colocando o livro sobre a mesa alta de cerâmica e voltando-se para a geladeira, quando uma voz fê-lo perceber que, ao final das contas, ele não era o único insone da casa.
- Olá, Cyan.
O rapaz estreitou ligeiramente os olhos, acendendo a luz e parando ao lado da geladeira. Apesar da lâmpada estar fraca – depois teria de ver com Herman para trocarem aquilo antes que ela queimasse – ele percebeu a figura de uma das gêmeas sentada sobre o banco alto na ponta da mesa.
Para tê-lo chamado de Cyan, aquela só poderia ser...
- Boa noite, Clio. – ele a cumprimentou de volta, abrindo a geladeira e puxando para fora a garrafa de água, depositando-a sobre a mesa – O que está fazendo por aqui às... – deu uma ligeira olhada no relógio sobre a porta - ...duas da manhã?
Ela deu um meio sorriso.
- Estava sem sono.
- E por isso você decidiu nos fazer uma visita no meio da madrugada? – ele questionou, puxando dois copos e servindo-os com água, antes de estender um para ela.
- Pensei que um de vocês pudesse estar acordado. – a loirinha deu de ombros – Lusmore, pelo menos, sempre foi de dormir quando o sol estava raiando.
- Aparentemente, então, ele mudou os hábitos. – Isaac retrucou, sentando-se à direita dela, começando a beber do seu copo.
Clio observou-o em silêncio por alguns segundos, antes de desviar o olhar para seu copo, os olhos escuros acompanhando os movimentos da borda de água contra o vidro. A luz piscou uma, duas, três vezes.
Os dois levantaram as cabeças para a lâmpada. Num último esforço, ela os mergulhou num brilho amarelado, para depois apagar completamente, deixando-os na companhia apenas do fraco luar que penetrava pelas janelas atrás deles.
- Cyan...
Ele voltou a atenção para ela, percebendo que Clio ainda brincava com seu copo, sem olhar diretamente para ele. A postura dela naquele momento estava muito diferente daquela com que eles tinham se habituado a enxergar as gêmeas – espertas, atrevidas e senhoras de si.
De certa maneira, aquilo o fazia se lembrar de uma outra jovem, numa outra época. Por mais clichê que pudesse soar, parecia fazer anos que tudo tinha acontecido... Numa outra vida, com outra pessoa, quem sabe?
- O que foi? – ele perguntou de uma maneira bem mais suave da que vinha tratando Clio desde que ela praticamente se jogara nos braços dele, duas semanas depois dele ter chegado ali.
- Eu sinto muito pela maneira como eu agi antes. – ela murmurou.
Foi a vez de Isaac desviar o olhar para seu próprio copo, um tanto incomodado pela sinceridade dela. Apesar disso, ele apenas meneou a cabeça, dando um ligeiro sorriso para Clio.
- Não se preocupe com isso.
Clio riu de leve, depositando o copo sobre o balcão e aninhando o rosto sobre as mãos postas em concha.
- Você se parece mais com ele do que eu pensei a princípio.
Voltando mais uma vez a fixar sua atenção sobre ela, Isaac estreitou ligeiramente os olhos.
- Ele?
O olhar de Clio perdeu-se em algum ponto além do companheiro, como se ela procurasse qualquer coisa, um resquício do passado, um sorriso, um breve lampejo de luz.
- Uma pessoa. – ela respondeu finalmente – Alguém que era importante para mim.
- Você não precisa dizer se não quiser. – Isaac observou, abaixando a cabeça. Os tempos que Clio usava estavam no passado e ele não tinha muita certeza se queria ouvir o que acontecera com a pessoa de quem ela falava – Eu sinto muito pela sua perda.
Ela riu de leve e, para surpresa de Isaac, colocou uma mão sobre a dele, encarando-o de maneira quase afetuosa.
- Ele era tão formal quanto você. Um pouco menos gentil, contudo. E bastante cabeça dura. Quando a guerra começou... ele disse que éramos muito diferentes. Que eu deveria deixar de procurá-lo porque estava me arriscando muito. Desde esse dia... – ela suspirou de leve, soltando-o – Embora eu saiba onde ele mora, embora às vezes freqüentemos os mesmos lugares, conversemos com as mesmas pessoas... Para ele, é como se eu não existisse.
- Ele é um idiota então. – Isaac se viu respondendo.
Clio voltou a colocar o rosto sobre as mãos, pensativa.
- Talvez. Ou talvez ele tenha razão. Nós somos mesmo diferentes... – ela deu um sorriso triste – São efeitos colaterais de uma guerra. Ela nos separa, nos machuca, nos enlouquece... Perdemos a sensação de certo e errado por não sabermos aonde nos levará o amanhã. E somos perseguidos por uma carência que nunca termina, por uma solidão que nunca diminui...
Isaac a encarou, sério.
- Você também me lembra uma pessoa. Só que, ao contrário da sua história, eu não tenho como vê-la, nem saber notícias dela. Não sei se ela está bem, se está comendo... – ele deu um ligeiro sorriso para si mesmo, abaixando a cabeça – E nunca pude saber o que ela sentia por mim.
- Bem, parece que a sua pessoa é mais idiota que a minha. – Clio observou, marota – Brincadeiras à parte, Cyan, você é do tipo que temos de agarrar e não soltar nunca mais.
Ele deu um meio sorriso, meneando a cabeça.
- Eu acho que ela não concordaria com você, Clio. Não exatamente por achar o contrário, mas por outros motivos... Em alguns pontos, ela é uma criança ainda. Em outros... Eu diria que é muito auto-suficiente. Apesar de tudo, eu não pude deixar de admirá-la.
- Deve ser uma garota muito especial. – Clio observou – Você realmente gosta dela, não?
- Eu não sei se vou voltar a encontrá-la algum dia. – foi a resposta dele.
Clio observou o rapaz se levantar, levando o copo vazio para a pia. Por algum tempo, os olhos dela se perderam na linha dos ombros de Isaac, até que ela mesma se levantasse, aproximando-se e parando logo atrás dele.
Isaac se virou devagar, encarando-a com uma face sem expressão, os olhos claros ligeiramente opacos. Com delicadeza, ela apoiou uma mão sobre o ombro dele, encostando a testa na dele.
Por um momento, as respirações de ambos se cruzaram, quentes e erráticas. Clio cerrou os olhos, esfregando a ponta do nariz bem de leve na dele. Isaac, por sua vez, estendeu as mãos, a princípio hesitantes, envolvendo a cintura dela.
Só então os lábios se encontraram, mornos e gentis, embora houvesse também por detrás daquelas sensações algo de desespero.
Foi ela quem primeiro se afastou, inspirando pesadamente. Diante do movimento dela, Isaac a soltou, antes de se deparar com os olhos escuros de Clio encarando-o com um brilho ligeiramente curioso.
- Clio, eu...
A loira não o deixou terminar, depositando um dedo sobre os lábios do rapaz enquanto meneava a cabeça.
- Nada de desculpas. Nem de promessas. Deixe as coisas acontecerem sozinhas. Mais tarde, quem sabe, pode ser que aqueles que realmente amamos percebam a burrada que fizeram. – ela sorriu, voltando a ficar na ponta dos pés, aproximando-se mais uma vez – E, até lá, ao menos teremos um ao outro.
As palavras dela ecoaram por algum tempo na mente de Isaac. O que Clio estava propondo não era exatamente certo do ponto de vista moral, nem de acordo com nada que ele aprendera. Apesar disso, naquele instante, ele não se importava realmente com isso.
- Como você queira então. – ele respondeu simplesmente, antes de voltar a beijá-la.
Nossa Volta, Níver do Amaterasu e Scrap MTV
Como prometido, estamos voltando a colocar os sites nos trilhos. Sei que deve demorar um pouco para todos voltarem a comentar, porque o problema demorou a ser sanado... Mas, esperamos que voltem logo a nos visitar.
Aproveitando a deixa, não deixem de passar no Amaterasu para comemorarmos dois anos do nosso site spin off!!!
E, claro, parabéns para mim, para a Lulu/Mina e para a Sel/Selune!!!!
E finalizando, sabiam que o Expresso Hogwarts apareceu no Scrap MTV em uma entrevista do Robson Reis (Crepusculinho). Pois é, mas colocaram a entrevista no dia errado. Por isso, também em apoio ao Robwan, vamos aderir à campanha: Reprisem o ScrapMTV
- Vamos dar uma volta. É melhor conversarmos a sós... - Ele falou.
Sem entender o que estava acontecendo Sam somente assentiu. Ela queria perguntar por que não conversariam na casa, mas ter um pretexto para sair era o que ela queria mesmo.
Os dois andaram um pouco em silêncio até que o rapaz decidiu falar.
- Eu... - Ele falou devagar, procurando as palavras. - Quando você desceu eu achei que o seu cansaço era pelo mesmo motivo que dos outros... Depois reparei que, como Mercury, você estava relaxando enquanto conversávamos. Mas assim que Mahala entrou o seu rosto mudou drasticamente.
Ao ouvir aqui Sam parou e encarou o rapaz tentando captar o que ele estava fazendo. Ela sentiu seu rosto esquentar, estava entendendo onde ele queria chegar só não viu o motivo.
- Melhor andarmos. - Ele voltou a falar serenamente. - Como eu disse, seu olhos se assustaram, como eu já observei em várias garotas antes. Mas o que me pareceu que deveria ser algo bom, estava te dando uma certa... dor...
Ele suspirou antes de continuar.
- Sabe, eu sempre fui muito bom em prestar atenção nos detalhes. Posso ignorar o que não quero ver, mas observo bastante coisa. Profº Flitwick falava que era um dom que eu tinha e até por isso os feitiços que escolhia eram os mais corretos para cada situação, mesmo tendo menos de um segundo para decidir o que fazer.
A morena ouvia tudo atentamente. Seu coração batia fortemente, ele estava deixando bem claro sobre o que estava falando. Sam colocou suas mãos nos bolsos e abaixou o rosto, não querendo olhar diretamente para Michael.
- Você já entendeu o que estou falando. Posso ser um pescador, como você diz, mas sou seu amigo. Afinal, se não me engano, fui a primeira pessoa que teve a honra de dar um cascudo na sua cabeça.
- Desnecessário o comentário... - Sam falou sorrindo ao ouvir aquilo.
- Ontem à noite Jon pediu para sair da Resistência. Ele me falou que não vai ter estrutura para isso e agora somos só eu e Troy. Posso pedir sua transferência para o meu grupo se quiser continuar perto de Mercury, mas não tão perto dele.
Michael parou e esperou a resposta de Sam. Ele estava com o rosto sereno, sem as brincadeiras de sempre. Ali ela entendeu o que ele estava fazendo naquela guerra, líder de uma célula, responsável por outras vidas. Que, como ela, ele também estava se tornando responsável por mais coisas que pessoas normalmente fariam naquela idade.
Carinhosamente Sam fez algo que estava precisando desde que sentiu seu coração se desesperar por um moreno de olhos azuis brilhantes. Ela abraçou o amigo, se deixando envolver pelos braços dele, como se pedisse colo.
O sol começava a despontar, mostrando que um novo dia se iniciava. O som de passos indicava que alguém já tinha acordado. O passo era leve, para não acordar os outros moradores da casa. Não querendo arriscar quem seria a pessoa, Samantha nem pensou em levantar também. Poderia ser justamente quem ela não queria e não iria encontrar.
Deitada na cama Sam olhava o teto do quarto, pensativa. Foram poucos os momentos em que conseguira fechar os olhos e os sonhos eram os mesmo, sempre com ele... Isso só fez a morena ter certeza que o que iria fazer era o mais correto. Era algo que não tinha outra opção.
Ela teria que mudar de célula.
O que não parava de vir a sua mente era se queria realmente sair da mesma casa da pessoa mais próxima de família que também estava lá. Achava os outros garotos legais, mas Herman era seu cunhado. Mesmo não contando todos os segredos do seu coração, saber que há alguém mais próximo no meio daquela guerra ajudava.
Sam se levantou sem saber ainda o que fazer. Achou que um banho poderia ajudá-la a limpar a mente, ver se era realmente aquilo que sentia e o quanto isso iria atrapalhar sua vida.
Deixou a água quente do chuveiro cair em sua nuca, massageando-a. Em sentido contrário, seu estômago gelou ao pensar em encontrar Lusmore naquela manhã. Sam passou a mão na barriga tentando se acalmar.
Não sabia como ia agir, o que ia falar se o visse. Era ainda uma jovem de 16 anos e não poderia dizer que tinha boas experiências de vida para se basear. A última marca em seu coração fora profunda e não queria mexer nisso novamente.
A morena se arrumou normalmente, não tinha porque ficar presa no quarto. Conhecia o instinto protetor dos outros garotos e eles provavelmente iriam perguntar se estava tudo bem com ela.
Esperou ouvir mais vozes até decidir que também iria para cozinha. Para a felicidade de Sam, lá estavam três rapazes conversando animadamente enquanto arrumavam a mesa.
Os pães frescos já tinham sido comprados e o suco estava sendo preparado por Michael enquanto Herman estava colocando ovos nos pratos deles. O cheirinho de café fresco era algo marcante quando Troy o fazia.
- Bom dia Sam! - Michael falou sorrindo. - Veio dar o toque feminino a nossa arrumação?
Ao contrário do loiro, Mercury percebeu que os olhos da amiga ainda estavam fechados. Ele foi até ela e a abraçou, trazendo-a para a mesa do café.
- Vocês realmente me mimam muito. - Sam falou, sorrindo.
- Nossa única princesa da casa, o que esperava? - Herman falou dando um beijo na cabeça da amiga. - Dormiu mal também?
A morena sorriu ao sentir o cheiro do café na sua frente. Sentiu-se aliviada ao pensar que os outros achavam que ela não dormira por causa da missão que fizeram dois dias antes.
Com os olhos semi-serrados, como uma criança, Sam deixou sua cabeça deitar no ombro de Herman, que sorriu ao ver aquilo.
Ele também estava com sono e volta e meia piscava mais lentamente do que o normal. O mensageiro até sorriu ao ver que conseguira fazer ovos sem queimar nada. Se quando não está com sono já é um desastre, achou que naquela manhã seria pior.
- Para não dizer que só eles estão de dando carinho e amor. - Michael falou colocando um prato com torradas e ovos estrelados para Sam. - Sempre aceitarei massagem nos pés como recompensa.
Como ela poderia deixar eles, Sam se perguntava. Parecia que aquilo tinha sido armado de manhã para que ela ficasse na dúvida e desistir de sair daquela casa.
Os quatro conversaram animadamente durante um tempo. Ninguém tinha pressa, naquela manhã não havia missões ou reuniões.
- Isso que vou contar deve ser mantido em segredo, mas ao mesmo tempo tem que ser contado. E lembrem-se que sou nascido trouxa... Cá estava eu no shopping comprando algumas roupas. - Para animar os amigos, Troy falava gesticulando mais ainda. - Terminei tudo e andei feliz e contente até o estacionamento. Andei, andei procurando meu carro e nada. Olhei em volta novamente e nada. Já comecei a ficar nervoso e liguei do meu celular para o meu pai. “Pai, roubaram o meu carro! Já andei uns 15 minutos nesse estacionamento e não acho o bendito!”. Para a minha surpresa meu pai falou calmamente do outro lado. “Mas meu filho, você foi de ônibus para o shopping”.
A risada deles foi abafada pela outra que vinha da porta. Lusmore já tinha acordado, mas preferiu não entrar enquanto ouvia o causo. Troy era famoso pelas boas piadas.
- Bom dia a todos. - O bardo abriu seu belo sorriso “animem seus dias, estou aqui”. - Cara, você é único! Espero que em campo não seja tão esquecido... - Ele falou dando uns tapas nas costas de Troy.
Ao ver Lusmore, Sam apertou a base da cadeira, se segurando. Por alguns minutos tinha esquecido essa sensação, mas agora ela voltara com força. A morena nunca reparara que de manhã cedo ele normalmente estava com o cabelo molhado, meio desarrumado e caindo no rosto e que isso fazia uma reação no seu coração que ela não sabia explicar de onde vinha.
Tentando disfarçar, ela desviou o olhar para a pessoa a sua frente. Para sua surpresa, Michael a olhava, examinando alguma coisa que ela não sabia dizer o que era. Sem saber o que fazer, ela desviou o olhar para o prato. Tentou não mostrar o que pensava pegando sua xícara de café e se concentrando no líquido quente.
Sam se sentiu uma criança escondendo algo errado que fizera. Ao olhar para a cadeira vazia ao seu lado ela gelou. Conhecendo bem Lusmore, seria ali que ele iria sentar.
“Podendo ficar ao lado de uma garota linda, por que eu ficaria ao lado de um marmanjo?”, ela já imaginava a fala.
- Sam? - A voz de Michael despertou a morena. - Posso falar com você na sala?
O loiro já estava se levantando ao terminar de falar, não dando chance da outra escolher. Não que quisesse ter a opção, aquilo era a desculpa que precisava para sair dali. Sem falar nada ela pegou sua xícara e foi para a sala atrás de Byrne, que estava parado ao lado da porta para rua, com dois casacos na mão.
- Vamos dar uma volta. É melhor conversarmos a sós... - Ele falou.
A noite estava em silêncio, dando a impressão que todos que estavam naquela casa estavam em sono profundo. Ao contrário dos amigos que descansavam, uma jovem de olhos cinzas encarava o teto do seu quarto, pensativa. Sam ficara acordada lendo, ou tentando ler, um dos vários livro que um dia começou e nunca terminou, mas sua mente escapava das letras e viajava para o rosto de uma pessoa de belos olhos azuis e sorriso sedutor. Ele aparecia em cada cena que lia, em cada pensamento que tinha e seu sorriso brilhava quando ela fechava os olhos.
You're only just a dreamboat Sailing in my head You swim my secret oceans Of coral blue and red
Desde que conhecera Lusmore, Sam somente o viu como o amigo da Mina. Não deixava de concordar quando falavam que ele era bonito, mas ele gostava da Mina e ela não estava nem pensando em ter algo com alguém tão cedo. Os dois tinham se tornado bons amigos desde então. Ela era uma das pessoas que ele se sentia a vontade para conversar e ela gostava das brincadeiras dele.
Quando decidira dar um tempo para seu coração, Sam não olhou nem pensou em nenhum rapaz. Não queria voltar a sentir a tristeza do ano anterior quando seu primeiro amor a magoara, mesmo sem querer. Esse era um dos motivos que Sam sempre conversou com Lusmore sem cair de amores e sem suspirar pelo moreno.
Your smell is incense burning Your touch is silken yet It reaches through my skin Moving from within Clutches at my breasts
Daquela vez tinha sido diferente. Ele tinha falado algo engraçado para todos e ao invés de rir, ela ficou olhando ele sorrir. Sentiu um calor gostoso na barriga ao vê-lo tão feliz e quando percebeu o que sentia, quis sair rápido dali. Ficou mais nervosa com o que pensou do que qualquer outra coisa.
Pediu licença para todos e quis ir embora logo, mas para seu azar ele foi perguntar se estava tudo bem. Ela somente disse que estava cansada e iria dormir. Lusmore sorriu e deu um beijo leve na testa da amiga, falando para ela descansar. Ali Sam teve certeza que sentia algo diferente, mais do que uma simples amizade. Seu coração disparou e seus outros sentidos começaram a perceber cada detalhe do rosto dele, o cheiro que vinha dele e quão macia a mão dele era.
But it's only when I sleep See you in my dreams Got me spinning round and round Turning upside down
Tentando espantar as imagens que teimavam em aparecer na sua mente, Sam virou para o lado tentando dormir. Acabou vencida pelo cansaço e seus olhos foram fechando aos poucos até dormir.
Agora a imagem que antes passeavam frente aos seus olhos, estava nos seus sonhos, se aproximando. Os olhos que antes ela só admirava pela beleza, agora a olhavam profundamente, querendo mostrar o que sentiam.
But I only hear you breathe Somewhere in my sleep Got me spinning round and round Turning upside down (Only when I sleep)
Sam estava estática em seu sonho, vendo Lusmore se aproximar. Ele a observava de um modo que nunca a olhou antes. Ele se aproximou sem falar nada, somente deu um beijo no pescoço dela e subiu até chegar aos lábios. Aquele beijo era diferente de tudo o que ela tinha sentido na vida, tinha o calor próprio dele.
Lusmore a abraçou e encostou a cabeça dela no seu peito. Sam sentiu a respiração dele e fechou os olhos, tentando se acalmar. Logo depois sentiu o seu mundo girar. Ela o abraçou com mais força, não querendo que fosse embora. Sentia que o estava perdendo nos próprios braços, até que olhou em volta e está só novamente.
When I wake up from slumber Your shadows disappear Your breath is just a sea mist Surrounding my body
Deitada de lado na cama, Sam abriu os olhos e viu um par de olhos azuis olhando para ela, sorrindo. Ela esticou as mãos querendo tocar o dono daquele sorriso que lhe era dirigido com tanta ternura. Sua mão passou pelo vazio, mostrando que era só uma ilusão da sua mente, ainda um sonho.
Ela fechou os olhos querendo voltar para onde estava, não queria ter acordado. Ainda conseguia sentir os braços de Lusmore a envolvendo, a respiração dele no seu pescoço, seu rosto refletindo nos olhos dele.
I'm working through the day time But when it's time to rest I'm lying in my bed Listening to my breath Falling from the edge
Sam virou para o lado e ficou olhando o vazio, pensando. Não era para sentir aquilo, era para ser só amiga. Como não percebeu que estava se aproximando demais dele? Teria se afastado... Seria mais fácil se simplesmente não sentisse nada por alguém que é apaixonado por outra pessoa, de novo.
Sabia que iria lutar contra o que sentia, não queria passar por nada daquilo novamente. A decisão seria dela, ele não sabia o que sentia e nunca iria saber de nada se dependesse dela. Sam não queria gostar de ninguém e era isso que iria fazer, iria afastar qualquer sentimento possível, nem que se afastasse dele.
Girou na cama novamente e ficou encarando o teto, as imagens do seu dia voltando à sua mente. Sam se concentrou em sua respiração, tentando acalmar seu coração que batia rapidamente somente com o pensamento do rosto de Lusmore. Balançou a cabeça negando o que sentia, sabia que estava perdida.
Com a presença de comensais na escola, a vida em Hogwarts começava a mudar. Quase um mês após as apresentações devidamente formais, a maioria dos professores e alunos pareciam tentar manter uma normalidade que soava explicitamente falsa diante do contexto que viviam. Alguns alunos foram postos em detenção, mas, por enquanto, nada muito diferente da época em que Dumbledore era o diretor. Havia vários murmúrios de aversão à direção escolar, onde Snape era o diretor e Amycus, o vice, mas ainda nada efetivamente estruturado em um grupo forte que pudesse fazer frente ao comando atual da escola.
Estava um burburinho nos corredores, e um pequeno número de alunos resmungava coisas que Darien não entendia bem o quê, na verdade o rapaz havia se perdido com o horário. No corredor principal do colégio, um grande aviso anunciava aos alunos as mudanças que a nova direção queria impor sobre os estudantes.
- Darien, Hogwarts virou um campo de concentração!
Era Bruce, um dos seus colegas de classe, cujo irmão havia entrado também para a Corvinal, fortalecendo um pouco mais a casa de Rowena. Era um grande recado que explicitava bem todas essas novas normas, muitas delas lembravam os decretos inquisitoriais elaborados por Umbridge durante a traumática passagem dela pela escola. O recado estipulava uma lista de regras a serem seguidas:
Novas Diretrizes de Hogwarts
Liga de Jovens Bruxos – Terão a responsabilidade de monitorar os alunos da escola. Os membros da Liga serão convidados pelos professores Amycus e Alecto Carrow.
Hino de Hogwarts – Todas as manhãs todos os alunos devem cantar o Hino de Hogwarts com a presença de um professor previamente indicado ou um membro da Liga de Jovens Bruxos. A falta será punida com detenção.
Palestra Instrutiva – Todas as sextas-feiras à noite, após o jantar, o professor Amycus Carrow irá palestrar para o ensino coletivo. Antes todos devem cantar o Hino de Hogwarts. A falta será punida com detenção.
Defesa contra as Artes das Trevas e Estudos Trouxas – Matérias obrigatórias, todos os alunos devem cursar. A falta será punida com detenção.
Desporto – Será obrigatória a escolha entre Clube de Duelos e Vôo Ornamental. O aluno que não fizer sua escolha será comunicado por um membro da Liga de Jovens Bruxos em qual clube deve comparecer. A falta será punida com detenção
Quadribol não será considerado esporte, não podendo substituir Clube de Duelos ou Vôo Ornamental. Os treinos serão sempre supervisionados por um professor ou por um membro da Liga. Se não houver ninguém disponível para a supervisão, o treinamento será cancelado.
Fechamento do Clube de Teatro e clubes de literatura, artes e poesia – Todos os atuais clubes estão fechados e novos deverão ser criados baseados nas novas diretrizes de Hogwarts.
Todos os objetos trouxas encontrados na escola devem ser apreendidos e queimados - O aluno que for encontrado com tal objeto será punido com detenção.
Alunos não podem andar desacompanhados em grupos maiores que três pessoas - Exceção válida para os membros da Brigada Inquisitorial sempre que estiverem em serviço ou usando seu emblema de identificação. A quebra dessa regra implica em detenção.
Algumas coisas já haviam sido determinadas desde setembro, como Defesa contra as Artes das Trevas e Estudos Trouxas obrigatórias, os fechamentos dos clubes e apreensão e queima de qualquer objeto trouxa presente na escola. Era difícil esquecer a grande fogueira que se formou nos terrenos da escola na primeira semana de setembro.
- Isso está ficando cada vez melhor! – uma aluna da Sonserina falou.
Darien olhou bem para a menina, não a conhecia bem, mas já a havia visto pelos corredores às vezes, tinha um jeitão mais pesado do que as outras meninas, além de um corpo mais bem torneado. Darien preferiu não repará-la mais, pois achou que uma menina como ela não fosse gostar de ser observada por outro garoto como ele.
- Oi, D! Vixi, parece que os diretores novos querem que os alunos não entrem em contato um com o outro no intervalo das aulas nem nos tempos livres. – Jamal, que finalmente conseguira sair da aula de Transfigurações, foi se juntar ao amigo de casa. – E pelo visto, vamos ter que entrar no clube de Duelos, você me acompanha?
Duelos! Exatamente o que o Darien não gostava muito, mas sabia que estava passando por tempos difíceis, e depois do retorno para a escola no início do ano letivo o fez estremecer a alma e topar com o amigo.
Queria muito pedir desculpas pelos atrasos das postagens do site. Essa semana foi meio complicada. Eu estava (ainda estou um pouquinho) literalmente de cama,ontem, por exemplo passei o dia inteiro dormindo por conta de uma gripe que arrumei. E com isso, não consegui fechar os posts desta semana. Eram pequenos detalhes que dependiam de mim e, por conta da gripe, não consegui. Desculpem mesmo.
Para não deixa-los a ver navios, eu vou colocar aqui a resenha que a Lulu (Mina) publicou no blog dela (O Coruja em teto de zinco quente) sobre O Enigma do Príncipe.
Semana que vem voltamos à programação normal.
Abraços, Meri.
Antes de mais nada, gostaria de dar parabéns a todos os meus caros amigos, visto que hoje, dia 20 de julho, é o Dia do Amigo. Normalmente, eu escreveria uma longa e lacrimosa mensagem sobre a amizade e a importância dos meus amigos para mim, mas não estou sentimentalmente inspirada para tanto, já que de ontem para hoje estive lendo os primeiros contos de O Aleph (que se tem algo de filosófico, não se pode dizer que tenha de romântico e doce e delicado) e vendo filmes em que todo mundo sai apanhando (a culpa não é minha, é da TV, que não tinha nada mais que prestasse).
De qualquer forma, resolvi que deixaria que aqueles que sabem que são meus amigos soubessem que pensei neles e me dei de presente uma tarde na cinema. Assim, levei-me ao shopping, comprei ingresso para mim e depois fui fazer uma feira de chocolate no Bompreço.
Uma caixa Nestlé, uma barra uruguaia, um pacote de Suflair e de línguas de gato chilenas depois, saí do supermercado com 630 gramas de chocolate na bolsa (pouco mais de meio quilo! Há!), refletindo sobre amizade, comércio e nossos hermanos do Mercosul. Afinal, nunca tinha visto num supermercado chocolates de outros países da américa do sul (esse é o tipo de coisa que você encontra em lojas mais especializadas) e cheguei à conclusão que isso sim é que era amizade.
Se você não entendeu lhufas do que acabei de dizer, ignore. Às vezes eu também acho que não faço sentido.
Finalmente, carreguei-me ao cinema, primeira sessão, sem filas, sala praticamente vazia, exatamente como eu gosto. Acertei em cheio no presente para dar para mim. Preparei-me então para a primeira meia hora de propaganda e trailers, lembrando-me com certo saudosismo da época em que só havia trailers antes de começar os filmes.
Passou o trailer de Lua Nova, por sinal. Bem, quando chegar a época, eu vou assistir para poder fazer meus comentários, claro (de Crepúsculo saímos do cinema às gargalhadas, mas isso é história para outro dia...), mas, por hora, farei apenas duas menções a detalhes que não me agradaram muito.
Primeiro... que diabos é aquela arqueada de sobrancelha da Kristen "Bella" Stewart quando manda que Edward a beije? Sério, ela está com constipação? Um cisco no olho? Tentando mostrar que fez as sobrancelhas e erraram na hora de tirar os pêlos e tiraram demais?
Segundo... não é por nada não... mas o Pattinson podia dar um pouco mais de... sentimento ao personagem. Edward fala que Bella é sua vida e que é ela que dá razão a sua existência (ai, minha diabetes...), todas as sílabas no mesmo tom (é sério, são todas no mesmo tom!), repetitivo, quase forçado.
Não acredita em mim? Olha aqui:
Ok, feitas essas considerações iniciais, vamos finalmente ao que interessa: o filme. Já deixei clara aqui minha opinião sobre os últimos livros de HP em outra ocasião, então, não adentrarei (muito) na análise literária da história.
Eu gostei do filme. Achei-o mediano, mas, ainda assim, bastante palatável. Ron tornou-se figuração (huahuahuahua) e as participações da Hermione, especialmente quando está distribuindo livradas e tapas, foram hilariantes.
O melhor, é claro, foi a interação de Harry, Dumbledore e Slughorn. Sei que a Régis detesta profundamente o "Lesmão", mas eu o acho divertido e um bom personagem, que foi muito bem aproveitado no filme - especialmente na cena em que Harry o convence a entregar sua verdadeira memória.
Na verdade, acho que a melhor atuação do Radcliffe foi, precisamente, nessa cena. Ele é extremamente convincente de cara de bobo (como a poção Felix Felicis parece tê-lo deixado).
Admiro a inserção de humor no roteiro, mas gostaria que eles tivessem desenvolvido mais algumas cenas... Como aquela em que Dumbledore pergunta sobre o tempo livre de Harry, citando, especificamente o nome da Hermione...
Essa cena me deixou com a idéia de que, em outros encontros dos dois, Dumbledore serviu chá com biscoitos e eles dividiram histórias sobre suas vidas amorosas e outras decepções... E que Harry pediu ao seu mentor conselhos sobre como agarrar a caçula dos Weasley.
Deixa eu pular de assunto antes que eu coloque Dumbledore falando sobre os brotinhos de sua época.
O que me decepcionou no filme foi o final. Há muitas coisas que eu poderia dizer de HBP, mas ele tem um grande final, um final com uma batalha quase épica, um material que funcionaria de forma incrível na telona.
No entanto, os comensais só quebraram algumas janelas no Salão Principal e puseram fogo na casa do Hagrid antes de darem no pé e, enquanto isso, toda a escola dormia serenamente.
Totalmente anticlimático.
Há ainda dois detalhes a comentar. Primeiro, o romance do Harry com Ginny. Bem, eu preferi a forma como ele foi desenvolvido no filme - talvez se os atores fossem melhores, teriam sido mais convincentes, mas, ainda assim, eles se saíram bem melhor que a Rowling (perdoe-me os puritanos, mas a Rowling não sabe escrever romance).
O segundo... os Inferi. Bem, eu sou a única, ou eles pareciam um exército de clones do Gollum? Não me levem a mal, eu gosto do Gollum (my preciousssss), mas eu esperava que os inferi fossem algo mais... assustadores. Quer dizer, eles são cadáveres animados em variados estados de decomposição. Não são simplesmentes golems (mitologia judaica) feitos num mesmo molde, mas pessoas e, como tal, não deveriam ter todas a mesma cara, o mesmo corpo, a mesma quase careca.
Como já disse anteriormente, o filme não é necessariamente ruim. Para ser melhor, só se os roteiristas reescrevessem a coisa por completo. Vale à pena como divertimento "Sessão da Tarde".
Aliás, já que falei em Gollum... Sabiam que há uns rumores que Radcliffe teria sido chamado para O Hobbit? Eu não acredito que o Del Toro faria a burrada de colocar Radcliffe para ser o Bilbo, até porque no livro, Bilbo está entrando na meia-idade, não é nenhum hobbit adolescente. A turma dos rumores também cita os nomes de James McAvoy e David Tennant. Sobre Tennant, que não conheço, não posso dizer nada, mas eu certamente ficaria feliz com um Bilbo McAvoy... ainda que eu o ache jovem demais para o papel...
Mamãe está chamando para jantar. Depois nos falamos mais...
Alguns de nós ainda estão enrolados com formaturas, estágios e afins, mas estamos trabalhando para conciliar tudo isso com o nosso trabalho - que tanto amamos - aqui no Expresso.
Para começar com chave de ouro, apresento a vocês mais uma leva dos maravilhosos desenhos da Dani (eu não canso de repetir que sou fã dessa menina).
Comentário da Dani: Está bem simples , mas deu um certo trabalhinho já que é um personagem, como a Adhara, um tanto enigmático para mim, fiquei com medo de não captar a “essência” dele, mas acho que consegui (pelo menos, espero). O cabelo dele foi um drama (sempre arrumo problema com o cabelo) já que me inspirei nas dolls dele. Não consegui deixar idêntico, por isso tentei pegar o “estilo geral”. Não sei se ficou bom, fiz o máximo que pude.
Comentário da Dani:O primeiro é da Raven e o Luke numa situação...bom, na verdade não faço idéia do tema desse desenho!^^”Simplesmente saiu(às vezes isso acontece=))Depois de terminar a Rav percebi que ela ficou lembrando a Yuuki do Vampire Knight depois de virar vampira.
Comentário da Meri:Rav e Luke ficaram aquela coisa de eles se encontrarem e ao mesmo tempo não estarem completamente juntos. A Dani deu um ar de tão perto e tão distante que eu gostei bastante.
Comentário da Dani:Esse é um desenho da Selune, que até agora, para mim, foi a personagem mais fácil de desenhar. Ela me parece bem delicada e harmoniosa, tanto na personalidade quanto na aparência, e por isso não tive tanta dificuldade em caracterizá-la. Pelo menos espero que a tenha desenhado bem. Caso esteja confuso entender o desenho, é ela vista de cima usando um vestido longo e por cima um casaco, como se ela tivesse fugido de uma festa (cada idéia que eu tenho para desenhos...). O chão e a neve suja ao redor foram propositais, queria que criasse um conflito visual entre a sujeira do lugar e a delicadeza dela.
A idéia do desenho surgiu do filme "Moça com brinco de pérola", nas cenas finais, quando a Griet vai embora e pára num pátio. Tudo bem que o desenho não tem absolutamente nada a ver com a cena, nem mesmo o ângulo, mas foi daí mesmo que veio a idéia.
- Tem algo errado aqui... – Lusmore sussurrou para Sam.
A morena queria virar e olhar, mas sabia que estavam parados de um modo em que o bardo tivesse uma visão geral da rua e do movimento das pessoas. Eles haviam escolhido aquele horário à tarde pela grande movimentação de transeuntes na rua.
Dentro da padaria Herman estava encarregado de fazer os pedidos e ajudar ao Isaac controlar o homem que estava nervoso em ir em direção a sua casa. Ele havia pedido um lanche com refrigerante para poderem demorar um pouco mais. Ficaram sentados perto da vitrine onde conseguiam ver o casal à frente e a casa mais a frente.
- Droga... – Lusmore falou abraçando e segurando Sam. – Chegamos tarde demais.
O bardo viu um furgão negro com o símbolo do Ministério virar a esquina. Preocupado com a reação de Weed ele puxou Sam para atravessar a rua e encontrar com os outros.
Ao entrar no local viram Herman e Isaac puxando para longe da vitrine o senhor que não conseguia mais segurar sua preocupação. Eles não conseguiriam mais agir como esperando.
- Se acalme, existem muitos homens do Ministério lá fora. – Isaac falava baixo para Weed.
- Me acalmar?! Como se eu consigo ver daqui eles tentando arrombar minha casa. Temos que fazer alguma coisa! – Weed falou e tentou sair do estabelecimento.
Lusmore segurou com força o senhor e o puxou mais ao fundo da loja. Não poderia arriscar que o ouvissem. Os outros três ficaram parados na vitrine olhando, procurando alguma brecha para poderem agir.
- Por alto eu vi pelo menos uns 15 bruxos, alguns mal disfarçados e outros não. Você não vai conseguir ajudar em nada se for preso agora! – O bardo falou forte com o homem.
Algumas pessoas começaram a murmurar sobre o forte policiamento mais ao longo da rua, provavelmente estavam pegando grandes criminosos.
Em poucos minutos Herman, Isaac e Sam viraram os rostos para Lusmore que não via o que estava acontecendo pois tinha que conter Weed, não havia mais nada que eles pudessem fazer. Entendendo a mensagem deles o bardo assentiu, era hora de se retirarem.
Seguindo o planejado Isaac e Herman seguraram o homem que a cada momento tentava sair para ajudar sua família. Eles o puxaram para um canto mais discreto e aparataram. Sam e Lusmore esperaram pra ver se as pessoas dentro da padaria reparariam, mas estavam todos vendo a ação da “polícia” na casa ali perto. Aproveitando a distração dos trouxas, ela abraçou o bardo e aparatou com ele.
Quando a dupla aparatou no estacionamento, encontraram Weed caído dentro do carro.
- Tivemos que fazê-lo dormir, ele não se continha. – Herman falou.
- Ninguém percebeu nossa chegada. As pessoas que tomam conta do estacionamento continuam naquela casinha lá na frente. – Isaac falou olhando em volta.
Lusmore olhou as feições dos três e viu a tensão misturada com a tristeza. Voltariam para buscar o carro outro dia, ele ativou a chave de retorno a casa e, segurando Weed, falou para todos segurarem aquele lápis, iriam retornar.
*****
Lusmore andava de um lado para o outro enquanto esperava Sam acordar Weed. Tinham que tira-lo do país sozinho, mas antes tinham que fazê-lo entender que não deveria ir atrás de sua família. Herman olhou em volta esperando Isaac que havia saído da casa para buscar Godfrey.
- Pronto. – A jovem falou. – Ele está voltando a si...
Para a surpresa de Sam, o homem acordou rapidamente e furioso. Ele a empurrou para longe e somente não caiu porque Herman a segurou.
- Seus desgraçados, vocês não tinham o direito de me tirar de lá! Eu... – Sem que ninguém esperasse o que iria acontecer, o homem se ajoelhou no chão e chorou. – Eu errei... Foi tudo culpa minha...
O bardo rapidamente andou até Weed, havia mais para saber. Herman fez o mesmo que Lusmore e Sam sentou ao lado do homem no chão tentando acalmá-lo. O homem chorava sem conseguir se expressar, por mais que os três em volta esperassem que ele terminasse de falar o que havia acontecido.
Com um levantar da varinha Sam fez com que um copo d’água flutuasse até Weed.
- Quando paramos para comprar água eu... Enviei um patrono para eles avisando que estava chegando.
- Não acredito que você fez isso mesmo depois de tudo que foi explicado! – Lusmore exclamou. – Claro que eles viram o patrono, claro! Por isso sabiam onde estava a casa!
Ao ouvir o que o outro falou o senhor escondeu o rosto entre as mãos, envergonhado. Sam olhou atravessado para Lusmore, o senhor já havia perdido a família, não precisavam afundá-lo mais.
O bardo suspirou, sabendo que não havia muito mais que pudessem fazer agora.
- Vamos levá-lo para junto dos outros fugitivos. A partida deve ser em breve. Esteja preparado. – foi tudo o que ele disse, dando as costas para os outros, desaparecendo nas sombras da casa.
Sam observou a figura do bardo desaparecer, trocando um olhar com Herman. Ela sabia que tanto o amigo quanto Lusmore compartilhavam naquele momento do seu mesmo sentimento de decepção.
Tinham falhado.
Nota: Pelas confluências astrais, vulgo viagens, formaturas, estágios duplos, internet pifada e etc, vamos fazer um pequeno hiatus aqui no Expresso, que deve ir de hoje até o dia 20 de julho
Nesse meio tempo, aproveitem para ler, reler e comentar os nossos últimos acontecimentos (porque estamos sentindo falta dos pitacos de vocês)
O homem parado a frente deles tremia. O medo que sentia não era daqueles a sua volta, que aos seus olhos eram meras crianças ainda, mas sim do que iria acontecer a partir daquele momento.
Dois dias antes a família dele recebeu uma carta do governo pedindo para apresentar provas de como havia se tornado bruxo, pois sua bisavó era trouxa. Todos da comunidade bruxa inglesa já sabia o que isso queria dizer, seriam presos. Não só ele, mas toda a sua família.
Seu nome era Armand Weed e, após a morte de Scrimgeour, achou que estaria seguro pois tinha muitas riquezas e posses. Além disso, sua esposa era sangue-puro. Porém seu mundo desabou com a convocação e, em um ato de desespero, pegou sua família e os escondeu em uma de suas casas de veraneio.
Tendo a si próprio como fiel segredo da casa, Weed foi buscar ajuda para tirar sua família do país. Para a sorte dele, um amigo conhecia uma pessoa que sabia de um local para pedir ajuda.
E, por isso, naquele momento, explicava sobre a casa e a cidade onde sua família estava para Lusmore, Samantha, Herman e Isaac.
Era um local praiano ao sul do país, onde havia mais trouxas do que bruxos. Mas era uma de suas casas que eram detalhadas para o Ministério, ou seja, se eles estivessem procurando, seria um dos locais aonde iriam.
- Eu só não entendo o que algumas crianças podem fazer? Vocês... – Weed falou.
- Decidiram doar a vida deles para ajudá-lo. – Godfrey cortou Weed. – Eles estão qualificados e deve confiar neles.
A firmeza na voz de Godfrey não era totalmente compartilhada por todos. Fora Lusmore, que tinha treinamento de domador, os outros três não tinham experiência alguma, era a primeira missão daquela célula.
A missão era considerada algo simples. Eles leriam o papel com o endereço da casa e de lá ativariam uma chave que os levaria a um local de transporte para fugitivos. Como a cidade era longe de Londres, fariam grande parte do trajeto de carro.
- Vocês irão sair daqui uma hora. – Godfrey falou para todos. – O senhor deve seguir o que o líder do grupo mandar, no caso Lusmore. Lembre de todas as regras que foram passadas para você.
O homem assentiu e se levantou para mudar a cor do cabelo e o corte do cabelo. Não deviam mudar a aparência com magia, somente ao modo trouxa. Na sala ficaram todos em silencio que foi cortado por Godfrey.
- Há alguma dúvida de vocês antes de sair? Sei que é a primeira missão de todos, mas não se preocupem tenho certeza que dará tudo certo.
- Eu... Estou nervosa sim, mas acho que será sempre assim, não é? – Sam falou.
- Acho que sim, afinal estamos lidando com vidas alheias. – Lusmore respondeu. – Só confirmando, na direção do carro irei alterar com a Sam que é a única com carteira de motorista.
Eles voltaram o rosto para jovem que assentiu. Sam estava com os olhos castanhos como na foto de sua carteira trouxa que estava com seu nome verdadeiro, mas eles contavam com o fato dela dirigir bem e não teriam problemas.
Todos afirmaram que estavam prontos e em poucos minutos estavam na estrada.
A cidade não era muito longe e em menos de duas horas chegaram a Brighton.
Lusmore, que dirigia naquele momento parou em um estacionamento longe da casa para onde iam. Todas as cinco pessoas que saíram daquele carro não trocaram nenhuma palavra, o clima estava claramente ficando mais tenso.
- Antes de sairmos daqui, iremos ler o endereço. Senhor Weed, por favor? – Lusmore pediu ao senhor que escrevesse o local onde estava a casa.
Após a confirmação que todos leram o papel, Herman pegou o isqueiro e queimou, deveriam continuar a utilizar somente objetos trouxas para não chamarem atenção. Exatamente por este motivo ficou combinado que Lusmore e Sam ficariam com as mãos dadas, como um casal, onde o bardo a guiaria e Herman guiaria Isaac e Armand, sem deixá-los errar com os objetos sem magia.
Enquanto caminhavam eles procuravam aparentar uma conversa calma, mas olhavam em volta discretamente procurando por algum sinal de pessoas que não estivessem acostumadas ao mundo trouxa. Isso era considerado o primeiro sinal que havia bruxos e provavelmente bruxos trabalhando para o Ministério da Magia que tinha aversão a cultura trouxa.
Estavam a dois quarteirões de distancia para chegarem na casa quando Lusmore percebeu ao um homem com roupas pesadas para o clima quente do local. Como combinado caso fosse necessário parar, ele encostou-se a um muro e abraçou Sam. Entendendo o sinal Herman, Isaac e Weed entraram na padaria que tinha no outro lado da rua.
- Tem algo errado aqui... – Lusmore sussurrou para Sam.
continua...
Nota da Meri: Desculpem a demora em atualizar o Expresso, tive uma semana conturbada, entre coisas boas e outras realmente problemáticas e não pude passar por aqui.^^
Aproveitando a deixa, houve uma mudança de endereço para o evento de Amanhecer da Livraria Leitura, mais detalhes no site da loja
Na sala vazia de onde outrora fora o QG da Máfia, mas que agora era a sede oficial do Olho do Grifo, Lucien se debruçava sobre alguns esboços iniciais para a criação da tira em quadrinhos sugerida por Satanio e Kyle. Ele e Adhara haviam se reunido para poderem começar os estudos dos personagens principais.
Ele olhou de soslaio, notando a moça concentrada em seus próprios esboços. O vienense deu um discreto sorriso observando a sonserina. Era fácil entender porque Meridiana se empenhara tanto em se aproximar da prima. Por trás da antiga camada de gelo, havia alguém com um grande coração, dedicada a quem lhe importava. Ele gostava da moça por aquilo que ela significava para a sua fraulein, mas percebia que aos poucos estava encontrando também em Adhara uma boa amiga.
A morena levantou o rosto, consciente do olhar do austríaco sobre si. Lucien tinha um sorriso amistoso, e ela sentiu-se compelida a corresponder o gesto.
- O que foi? – ela perguntou, sentindo-se curiosa acerca das ações de Lucien.
- Nada – respondeu o rapaz – Estava só pensando...
- Na Meridiana. – completou Adhara, voltando a atenção ao esboço que fazia da Fada Prensada.
- Não necessariamente. – ele deu outro sorriso – É verdade que, por causa das circunstâncias, a gente converse tanto sobre a Meri. Mas, estava pensando em você.
Ela largou o lápis que usava e virou-se para Lucien, avaliando o moreno de forma um tanto reservada. Francamente, aquilo a havia surpreendido. Nunca havia cogitado a hipótese de Lucien pensar nela, afinal ela era apenas a prima de Meri. O que mais havia para pensar além disso?
- Importa-se em reformular isso? – pediu Adhara.
- Bem... – ele começou, quase divertido com a expressão de curiosidade da morena – Eu sei que nossa convivência se deve primeiramente a Meridiana, mas, depois dessas semanas, trabalhando juntos aqui, eu comecei a perceber que aos poucos você estava se tornando minha amiga também, não apenas a “prima de fraulein”.
Adhara assentiu, ponderando sobre as palavras dele. Não havia pensado que Lucien a considerasse uma amiga... Aliada sim, mas não amiga. Amizade, como ela viera a descobrir nos últimos meses, era um laço muito mais íntimo e profundo do que uma aliança. Uma amizade não exigia apenas conveniência e objetivos em comum, mas também que você gostasse e se importasse com as pessoas envolvidas na relação. Não fazia idéia do que Lucien poderia ter gostado a respeito dela. Adhara sabia que não era uma pessoa particularmente amigável. Mas a questão não era essa, a questão era: ela também se importava com Lucien, também o via como um amigo?
A morena encarou os olhos bicolores do lufano. Era inegável que Lucien estava, aos poucos, ganhando um lugar na sua vida – um lugar independente de Meri. Ela sentia-se confortável e segura perto do austríaco e Adhara sabia, pela própria natureza de sua personalidade cética e reservada, que era raro ela se sentir daquela forma com alguém.
- Você já deve ter percebido que eu não tenho muitos amigos... – ela respondeu, ao que Lucien assentiu. Já havia percebido aquilo acerca de Adhara, estava acostumado a ver a morena quase que exclusivamente na companhia dos primos. Na verdade, agora mais de Kyle do que de Meri – Então acho que isso significa que não estou em posição de recusar um – encerrou a sonserina, com um meio sorriso.
- Eu fico honrado em ser considerado um amigo por você – o lufano respondeu com um aceno de cabeça. – Bem, melhor voltarmos ao trabalho. Posso dar uma olhada nos seus esboços?
A morena assentiu e passou as folhas em que estava trabalhando para o lufano avaliar. A verdade é que estava um tanto insegura quanto aos desenhos. Ela não estava acostumada a fazer aquele tipo de arte utilizada em quadrinhos trouxas, os desenhos da sonserina se restringiam mais a reproduções em grafite de objetos, lugares e pessoas – era algo bem diferente do que estava sendo exigido dela agora.
- O que acha? – Ela perguntou depois de alguns minutos.
Lucien desviou os olhos dos desenhos para o rosto da moça e deu um sorriso para ela.
- Estão muito bons, Adhara. Eu gostei do que você fez com a roupa da Fada. – O lufano a elogiou com sinceridade. – Posso perguntar de onde veio a inspiração?
Ela deu de ombros.
- Eu vi algo parecido em um desenho animado trouxa. Na verdade, foi Meridiana quem me mostrou. Era sobre um garoto que nunca crescia e podia voar...
- Ah, Peter Pan. – Lucien completou, lembrando-se do clássico trouxa que já havia assistido com a irmã, Selune adorava aquelas histórias fantasiosas e cheias de música. – É, eu achei mesmo que o vestido em lembrava o da Sininho.
- Eu só não acho que sapatilhas vá combinar muito bem com uma super-heroína. – disse Adhara, chamando a atenção de Lucien para os pés da personagem. – Em todos esses quadrinhos os heróis estão sempre usando uns tipos de botas.
O rapaz assentiu.
- É, tem razão. Eu acho que botas ficaria bom, mas não muito compridas. Mais pela altura da canela, o que me diz? – ele encarou Adhara então, com as sobrancelhas franzidas, buscando pela aprovação dela.
- Acho ótimo. Botas então. – ela pegou de volta o desenho e apanhou seu lápis para desenhar a última parte do uniforme da Fada Prensada.
Lucien a observou com um meio sorriso. Estava sendo fácil trabalhar com Adhara, ela era bastante talentosa para alguém que nunca havia estudado arte, era perfeccionista e tinha umas idéias bem pertinentes. E, para dizer a verdade, o lufano estava particularmente orgulhoso do trabalho que estavam realizando juntos. Estava sendo bom para ele ocupar seu tempo em um projeto que exigia tanto de sua criatividade, assim, ao menos por algumas horas, ele conseguia ocupar sua mente com outros pensamentos que não o destino sombrio e incerto de sua fraulein.
Nota: Convido a vocês a conhecerem o blog de fics "Out of Reasons", que tem sua estréia oficial no Sábado. Noblog já tem um trechinho do capítulo para atiçar a curiosidade dos leitores! Basta clicar no bottom abaixo:
Ela desceu do cavalo apulso, caindo no chão como um saco de batata, os joelhos quase cedendo sob seu próprio peso. Mina passou uma mão pela testa, onde um suor frio escorria.
Respirou fundo, tentando controlar a ânsia. Aos poucos, o mal-estar foi passando enquanto ela caminhava na direção do solar. Aquela tinha sido uma tarde bem cheia na vila, em especial pela última pessoa que tivera de receber.
- Mina?
A moça levantou a cabeça – até então estivera andando e olhando para os próprios pés – encontrando a figura de Holly recortada contra a porta dos fundos. Ela forçou um sorriso, tentando esconder seu estado de espírito. Não precisava preocupar Holly com aquele tipo de coisa.
- Boa tarde, Holly. – ela cumprimentou, parando nos degraus, antes que a mulher lhe desse passagem.
- Boa tarde para você também, querida. Eu lhe fiz um lanche, o bolo inclusive ainda está quentinho.
- Desculpe, Holly, mas eu já lanchei na taverna. – Mina voltou a sorrir – Na verdade, tudo o que eu quero agora é tomar um bom banho.
Mina não esperou para ter uma resposta de Holly. Em vez disso, passou rápida para a sala, subindo as escadarias de dois em dois degraus.
A mulher deixou-se quedar, pensativa. Mina dificilmente deixava de lanchar de tarde. Em todo caso, ela dissera que comera na taverna... mas então, por que ela sentia que havia algo de errado naquela situação?
No andar de cima, Mina acabara de entrar de cabeça sob o chuveiro, fechando os olhos enquanto a água escorria por seu rosto.
"Eu quero saber onde está meu pai. Se você é agora a Senhora da Ilha, você tem que saber!"
Ela apertou os olhos com mais força, os ecos da voz de um menino de dez anos ecoando em sua cabeça.
"Você tem que saber! Mamãe está doente! Ele tem que voltar para casa antes que o bebê nasça! Você tem que trazê-lo de volta!"
Mina encostou a testa junto aos azulejos, desligando a água. Como dizer a uma criança que ela não podia trazer o pai dela de volta? A garota suspirou, antes de puxar a toalha, enxugando-se rapidamente para deixar o box do banheiro.
Pouco depois, estava sentada no chão, diante da cama, puxando uma caixa de madeira lisa de debaixo, abrindo-a para revelar um pequeno aparelho, a base de madeira escura envernizada contrastando com os pequenos e delicados circuitos de metal.
Colocando os fones no ouvido, ela ligou o interruptor. Como de hábito, contudo, desde que começara com aquilo, só teve estática como resposta. Ela suspirou, meneando a cabeça, perguntando-se se não trocara a freqüência sem perceber, mexendo nos sintonizadores com cuidado, tentando pegar algum ruído.
Nada.
A quem estava enganando? Era lógico que a freqüência não estava errada. Fora Lusmore quem se esquecera de usar o telégrafo, propositalmente ou não. Talvez as coisas estivessem piores do que tinha imaginado e ele não quisesse que ela soubesse...
Batidas leves na porta fizeram-na colocar esses pensamentos de lado. Rapidamente, ela empurrou o que estivera usando para debaixo da cama, levantando-se no momento em que a porta se abria, revelando, novamente, a figura de Holly.
- Vejo que já tomou seu banho. – ela sorriu – Seu avô está esperando-a lá embaixo. Há alguém a quem ele quer apresentá-la.
Mina assentiu, levantando-se, uma expressão curiosa no olhar. As duas seguiram em silêncio, encontrando Vincent ao pé da escada, conversando com uma moça não muito mais velha que a própria Mina.
A jovem MacFusty parou na escadaria, observando a imagem da outra. Ela era alta, com longos cabelos dourados descendo em pequenos caracóis até quase a cintura; tinha um rosto delicado de porcelana e olhos de um azul acinzentado misterioso.
Até um certo ponto, Mina poderia compará-la com Selune, mas, enquanto a amiga e comadre tinha um certo ar etéreo em sua expressão, a moça que conversava com seu avô demonstrava uma determinação férrea, além de uma ligeira malícia.
Havia qualquer outra coisa de familiar nela, algo que evocava suas memórias de infância, mas ela não saberia precisar exatamente o que seria.
- Mina, você já está aí. – seu avô sorriu para ela, notando-a apenas naquele momento – Desça aqui, quero lhe apresentar sua instrutora, Elaine McConnay.
Foi a vez de Mina sorrir, uma imagem destacando-se em meio as suas lembranças, da época em que Lusmore morava com eles e, por vezes, ela se juntava ao primo e seus companheiros.
- A filha de tio Lir, não é? – ela perguntou – É um prazer, Elaine.
- Eu digo o mesmo, Mina. – a loira se adiantou, estendendo a mão, apertando a dela firmemente – Parece que vamos ser parceiras durante seu treinamento como domadora, não é? Prometo que vou cuidar bem de você.
- Eu agradeço antecipadamente por isso, Elaine. – foi Vincent quem respondeu.
Mina riu de leve, parte das preocupações da tarde desanuviando-se pela presença calorosa e divertida de Elaine. De alguma maneira, Mina podia sentir que a outra seria uma valiosa companheira não apenas ao longo de seu treinamento, mas por muito mais tempo...
Meridiana observou a prima e o namorado entrarem praticamente juntos no cantinho particular que eles haviam conseguido para si na escola. Um sorriso extremamente divertido podia ser visto no rosto da moça, o que fez com que tanto Lucien quanto Adhara se entreolhassem intrigados.
-O que foi? – o lufano perguntou, arqueando a sobrancelha.
-Estou achando graça da ironia da situação, por ter sido justamente Theodore Nott a me dar uma idéia que pode ser útil para todos nós.
Adhara trocou um olhar com Lucien e viu refletido no rosto do lufano a mesma desconfiança que estava estampada no dela. Meri parecia estranhamente feliz, o que deveria ser considerado como uma boa coisa, mas o fato de a ruiva ter mencionado que Theodore havia dado uma idéia à ela... Bem, para a jovem Ivory qualquer coisa que tivesse o nome de seu primo sonserino no meio cheirava mal e de longe.
- E que idéia é essa, Meri? - a garota perguntou, em um tom reservado.
-Bem, ele estava observando vocês dois conversarem na última aula de Feitiços e veio me perguntar o que eu achava do fato de vocês dois estarem “namorando” pouco tempo depois de eu e Lucien termos “rompido”.
A morena se contentou em arregalar os olhos em espanto em um primeiro momento, enquanto o lufano encarava a namorada com uma expressão descrente.
-De onde Nott tirou esse absurdo? – ele falou, ligeiramente alterado – Eu nunca iria namorar Adhara. Ela é sua prima. Isso não faz sentido algum!
- É claro que faz sentido, Lucien. - a morena disse, chamando a atenção dele - Na cabeça doentia do Theodore isso faz perfeito sentido. E, para falar a verdade, eu não posso dizer que ele está sendo extremamente absurdo com essa teoria, não porque haja qualquer coisa romântica entre nós dois... - ela se apressou a esclarecer aquilo, gesticulando entre si e o lufano - Mas porque eu tenho que admitir que os dois únicos rapazes que se apromixaram de mim acabaram sendo meus namorados. Eu nunca tive amigos, então é estranho de repente me ver com um. - ela deu de ombros.
-Além disso – Meridiana completou, chamando novamente a atenção dos dois para si – vocês têm que considerar que mesmo fora de Hogwarts vocês dois dividem um círculo social relativamente próximo. Não apenas pelo fato de terem alguma ligação comigo, mas considerem que o Sr Ivory e o Sr Von Weizzelberg são aurores e já trabalharam juntos várias vezes. Um namoro entre vocês dois não pareceria nada absurdo.
Lucien olhou para as duas garotas, finalmente compreendendo que, apesar de amar sua ruivinha do fundo de sua alma, considerando apenas do ponto de vista lógico, não era tão implausível um envolvimento entre ele e a prima de Meri.
-Tudo bem, compreendo como Nott conseguiu chegar às conclusões dele, mas ainda assim, não consegui captar qual a idéia que a conversa dele possa ter te dado, fraulein.
-Bem... – a moça começou, bem devagar, para não assustar muito nem o namorado nem a prima – talvez vocês dois devessem considerar a idéia de fingirem estarem comprometidos como Theodore acredita que estão.
- O que? - Adhara sequer teve tempo de mascarar a sua surpresa antes que aquela pergunta tivesse deixado seus lábios.
Ela não podia acreditar que Meri estivesse sugerindo aquilo. Desejar uma aproximação com Nott e o círculo comensal da escola ela podia compreender, fingir romper o namoro com o Lucien e uma briga com ela também... Mas querer aque agora ela e Lucien fingissem um namoro?
-Eu não estou falando para vocês dois ficarem aos beijos e abraços pelos corredores do castelo – a ruiva respondeu, séria, ao rompante da prima e ao olhar incrédulo do namorado – Até porque – ela abaixou o rosto, sentindo as bochechas esquentarem – mesmo que fosse por fingimento, eu não suportaria a idéia de Lucien com outra garota.
O lufano sentiu-se estranhamente lisonjeado com aquela confissão, assim, apesar de ainda estar um pouco confuso sobre a proposta de Meridiana. Ele aproximou-se dela, pousando a mão no rosto de Meri, puxando-o com delicadeza para que ela o encarasse.
-O que exatamente você está sugerindo então? – ele perguntou, suavemente.
O olhar de Lucien fez com que a moça se sentisse mais confiante em explicitar para os dois a idéia que tivera.
-Apenas acho que poderíamos espalhar para o castelo inteiro a notícia do “namoro” de vocês dois, assim, para todos os demais, o fato de verem vocês dois sempre juntos seria encarado com naturalidade.
Adhara ainda estava tentando processar em sua mente o pedido de Meri. A principal razão pela qual ela agira com tanta cautela e reserva quando começara a conviver com Lucien era justamente porque ele era o namorado de Meridiana e, como ela já confessara para os dois há pouco, ela nunca havia mantido uma relação puramente platônica com um rapaz. Era diferente com Kyle, que era seu primo e com quem a afinidade viera fácil e de uma maneira fraternal... No início, ela não tinha idéia de como agir perto de Lucien, de até que nível uma aproximação seria tolerável. Aos poucos, conforme percebera que Meri confiava plenamente em tê-la perto do lufano e o quão confortável ela se sentia conversando com Lucien, ela fora pegando o jeito de como manter aquela amizade. Para dizer a verdade, causava irritação à sonserina saber que algumas pessoas pensavam que ela e Kyle ou ela e Lucien poderiam ser um casal. Então ter a própria Meri sugerindo que eles fingissem que tudo o que essas pessoas pensavam era verdade... Aquilo a deixava, no mínimo, desconfortável.
- Eu não sei, Meri... - Adhara deixou que a prima percebesse sua hesitação - Você acha que isso seria bom? Você acha que ninguém acreditaria que eu e Lucien somos apenas... - ela lançou um olhar incerto para o lufano - amigos?
-Você acha que acreditariam? – a ruiva devolveu a pergunta para a prima.
-Eu não sei... – a morena respondeu ainda um tanto hesitante – Eu gostaria que acreditassem nisso, mas, realmente, para alguém de fora, uma amizade entre um garoto e uma garota solteiros é algo estranho... Eu mesma, quando comecei a te conhecer, achava que existia alguma coisa entre você e o Herman.
-Eu concordo que seja uma besteira acharem tão difícil uma amizade entre um garoto e uma garota, mas a primeira coisa que passa na cabeça de todos é um relacionamento romântico – a ruiva prosseguiu. Além disso, eu não sei por que, mas, automaticamente, quando pensamos em um casal, a última coisa que imaginamos que eles estariam fazendo seria conspirar contra a atual diretoria. Isso tornaria a proximidade de vocês menos suspeita e facilitaria o trabalho que andam fazendo para o Grifo. Além disso, pode parecer besteira da minha parte, mas me tranqüiliza saber que estão tomando conta um do outro enquanto eu não estiver por perto.
O rapaz fechou o cenho, pensando consigo mesmo que, talvez, Meridiana devesse pensar um pouco mais nela própria que nos outros. Aquela idéia insana era o reflexo do quão desesperada a ruiva estava em poupar aqueles que amava. Embora, ele tivesse que admitir para si mesmo que, de um ponto de vista lógico, a idéia fazia certo sentindo, especialmente para acobertar o trabalho que ele e Adhara estavam fazendo para o Grifo.
-O que eu não quero, fraulein, é que essa idéia, cheia de boas intenções acabe magoando você, de alguma forma.
Meridiana balançou a cabeça, em negativa. Ela sabia que Lucien estava se referindo, ainda que indiretamente, aos problemas que tiveram no começo de sua relação, quando erroneamente a ruiva acreditou que o austríaco estava namorando Selune Priout.
-Você não precisa se preocupar. Se eu não confiasse em vocês, não teria nem mencionado essa idéia. Aliás, se eu não confiasse em você, meine Liebe, nós não estaríamos juntos.
Lucien sorriu, compreendendo exatamente o peso do significado daquelas palavras.
-Tudo bem, podemos espalhar o boato do provável namoro. – ele respondeu – Afinal, os Carrows andam paranóicos suficiente para não gostarem de ver alunos se agrupando pelos corredores. Qualquer conversa para eles é como se estivéssemos planejando um golpe de estado. Eu e Adhara como um possível casal justificaria nossas conversas, e, o mesmo poderia se aplicar a Kyle. Não seria estranho minha “namorada” andar também com meu amigo.
Adhara cruzou os braços quando o olhar de expectativa de Meri pousou sobre si. Pelo visto, Lucien já havia concordado, agora faltava apenas o aval dela.
Não podia negar que enxergava a lógica por trás do plano de Meri, por todos os motivos já exaustivamente elencados naquela conversa, mas não podia dizer que estava ansiosa por colocar aquele plano em prática. Alguma coisa dentro dela a fazia hesitar. De certa forma ela sabia que estava sendo um tanto infantil e irracional, não havia motivos palusíveis para ela relutar tanto... Ela não estava namorando e nem gostando de ninguém no momento, na verdade nem sabia se estava pronta para ter outra pessoa em sua vida depois do que havia feito com Trowa. Mas assistindo à devoção que Meridiana e Lucien, a cumplicidade de seu pai e Frida, o modo como os olhos de Kyle brilhavam toda a vez que ele mencionava a namorada que havia deixado na Grécia... A morena não conseguia evitar de se pegar desejando que aquilo acontecesse a ela também.
Porém, se todo o castelo pensasse que estava namorando com Lucien, bem, aquilo colocaria sua vida amorosa em modo de espera por tempo indeterminado. Mas talvez aquilo fosse uma coisa boa... Talvez ela não devesse sequer estar pensando na possibilidade de um romance enquanto aquela guerra não acabasse. Haviam coisas mais importantes no momento. A sua segurança, a de Lucien e o projeto em que estavam trabalhando era uma delas.
- Tudo bem. - a morena concedeu, com um suspiro - Eu concordo que é uma boa justificativa, vocês podem contar comigo.
Meridiana deu um sorriso de alivio, encarando os dois. Ela realmente se sentia muito mais tranqüila sabendo que Lucien e Dhara poderiam zelar mutuamente pela segurança um do outro, e, por conseguinte, também a de Kyle. Contudo, havia uma coisa naquela história que não mencionara nem à prim, nem ao namorado. A ruiva confessava apenas para si mesma que também seria deliciosamente divertido ver a cara de Theodore quando escutasse de outra pessoa sobre o tal namoro.
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Adhara estava tão distraída entre consultar seu caderno e mapas de anotações estelares e cruzar informações com a cartilha em que estava trabalhando para a sua aula de Astronomia daquela noite que só notou que alguém havia parado ao seu lado quando uma bolsa de couro pesada foi posta sobre o tampo da carteira ao mesmo tempo em que uma voz masculina chamava a atenção dela:
- Este lugar está ocupado?
Ela levantou o rosto, reconhecendo de imediato a voz risonha e o encontrando o rosto simpático de Lucien a lhe fitar. A moça sorriu para ele.
- Você sabe que ele nunca está. – ela respondeu com franqueza e um tom amistoso.
- Exceto quando eu decido ocupá-lo. – retrucou o austríaco, puxando a cadeira e sentando-se sem maiores cerimônias ao lado dela.
Eles estavam na sala onde os alunos do 7° ano tinham suas aulas de Feitiços. Faltavam ainda alguns minutos para dar o horário de Flitwick chegar à sala, de modo que havia muito burburinho de conversas pelo local.
- Ela está sentada lá no fundo. McMillan está na mesma direção, duas carteiras à frente, então se você quiser dar uma olhada eu diria que é seguro. – Adhara o informou em um tom calculadamente baixo, de modo que apenas o lufano a ouvisse.
Lucien assentiu e virou o corpo na cadeira, de modo que pudesse enxergar o fundo da sala. Seu olhar vagou pelos alunos até encontrar quem procurava. Não foi difícil, o cabelo ruivo se destacava facilmente. Meri estava sozinha, sentada em uma carteira ao lado da janela, os braços magros cruzados sobre o tampo da carteira e o olhar perdido na paisagem externa do castelo. Ela não virou o rosto e nem demonstrou perceber que Lucien a observava. O austríaco suspirou e acenou em reconhecimento para Ernest Mcmillan e alguns outros colegas lufanos para disfarçar, antes de endireitar o corpo na cadeira.
- Ela parece distraída. – ele comentou, com o cenho franzido.
- Então foi coisa de agora, ela estava olhando para cá antes de você chegar. – a garota o respondeu, sem desviar os olhos de seu dever de Astronomia.
O austríaco sentiu vontade de questioná-la a respeito daquilo, mas reconheceu que Adhara estava ocupada no momento e, ao vê-la trabalhando com tanto afinco naquele mapa estelar, ele próprio se arrependeu de ter deixado seus livros de Runas Antigas no dormitório – havia uma tradução particularmente extensa e complicada que ele teria que terminar para o dia seguinte. Ele provavelmente teria que passar parte da noite em claro na sala comunal para terminá-la a tempo.
Adhara suspirou e largou a pena, flexionando os dedos fatigados por algumas vezes antes de começar a fechar seus livros e juntar anotações. Percebendo o que a morena fazia, Lucien pôs-se a auxiliá-la na tarefa. Eles trabalharam em um sincronismo silencioso, em que ele guardava os materiais de Astronomia dela dentro da bolsa, enquanto a moça tirava os livros de Feitiços.
Nenhum dos dois percebeu o sonserino que passou rente à carteira, observando-os com sincera curiosidade, antes de seguir seu caminho para o fundo da sala.
Theodore Nott meneou a cabeça com um sorriso de escárnio para a interação tão confortável de Adhara com o rapaz Von Weizzelberg. Francamente, ele esperava mais dela. Não fazia nem um mês que Meridiana e Von Weizzelberg haviam terminado o namoro, e agora a sonserina, que era parente de Meri, era vista para cima e para baixo no castelo com o ex da prima. Theodore percebia agora que talvez tivesse dado à Adhara mais valor do que ela merecia durante todos aqueles anos se agora a garota se contentava tão facilmente com os restos de outra.
Nott então procurou Meridiana, a fim de conferir se a ruiva havia notado a mesma cena que ele. Foi com satisfação que ele constatou que sim. A grifinória estava com os olhos pregados no casalzinho, com uma expressão indecifrável nos orbes verdes. Theo notou que, muito providencialmente, a cadeira ao lado da prima estava vaga. Ele não precisou pensar duas vezes antes de seguir para se sentar com ela.
Foi apenas o vulto de Theodore que a fez sair das conjecturas sobre o quanto se sentia confortada em perceber que as pessoas que lhe eram caras, se toravam cada vez mais próximas, sendo capazes de se protegerem mutuamente.
Meri desviou o olhar mais que depressa de Lucien e Dhara quando notou a aproximação do sonserino, mas notou que era tarde demais. Nott já a havia flagrado olhando para o dois. A ruiva se sentiu estúpida por ter baixo a guarda tão facilmente, contudo, tentou não demonstrar apreensão, esperando que o comportamento do primo lhe desse pistas de como agir e minimizar seu deslize.
Theodore colocou seu material sobre a mesa e sentou-se sem sequer pedir licença.
- Inacreditável, não é mesmo? Os dois não estão sequer fazendo questão de serem discretos. – o sonserino indicou Adhara e Lucien com um gesto de cabeça, deixando bem claro a quem estava se referindo.
Meri franziu o cenho, se perguntado do que aquele maluco do Nott estava falando. Ela resolveu dar mais uma olhada na prima e no namorado, já que o sonserino claramente estava lhe dando uma brecha para fazê-lo sem parecer muito suspeita. Em um primeiro momento ela não entendeu o que Theodore estava vendo demais na cena. Dhara e Lucien estavam apenas sentados juntos. Ele a havia ajudado a guardar o material e agora eles estavam conversando. Mas então, em um segundo momento, a observação da ruiva se tornou mais minuciosa e ela começou a enxergar certos detalhes. Os mesmos detalhes que Theodore havia percebido.
O austríaco e a sonserina mantinham o contato visual enquanto falavam. Os dois tinham os braços apoiados sobre o tampo da mesa e estavam tão próximos que seus ombros quase se tocavam. Meri sabia que aquela proximidade toda provavelmente se devia ao fato de que Dhara e Lucien deveriam estar tentando manter a sua conversa particular, mas sabia também que tipo de impressão aquilo poderia causar em pessoas maliciosas como Nott.
-Isso não diz mais respeito a mim – a ruiva respondeu, em um tom baixo.
- É, não diz. - Theodore concedeu, antes de abrir um meio sorriso - Mas ainda assim não explica por que você estava olhando com tanto afinco para os dois.
-Pelos mesmos motivos que te levaram a fazer essas perguntas para mim, priminho – a ruiva virou o rosto, encarando Nott, enquanto apoiava a cabeça levemente inclinada em uma das mãos e brincava, usando o mindinho, com um cacho que se sobressaia , próximo da orelha. –Curiosidade.
Nott apenas arqueou uma das sobrancelhas para a grifinória, mas não a respondeu. Flitwick chegou à sala logo em seguida, cumprimentando a turma e mandando todos pegarem suas varinhas.
Meridiana sorriu para si mesma, satisfeita por ter revertido seu deslize em vantagem. Aparentemente ele não havia duvidado da pequena mentira dela. De fato, a ruiva talvez devesse agradecer a Theodore por ter lhe dado uma idéia que acabaria por corroborar a farsa de que cortara relações com seus antigos amigos, especialmente com Dhara e Lucien. Era apenas uma questão de ter a oportunidade certa, e ela exporia ao namorado e à prima o seu plano.
Para fechar com chave de ouro o nosso níver de seis anos, além do último post de De Repente 30, e dois CD especiais, temos a estréia da nossa galeria de ilustrações, todas feitas pela talentosissima Dani. Vocês já tiveram uma amostra do trabalho dela no nosso template.
O resto vocês podem conferir abaixo, com direito a alguns comentários da artista!
Comentário da Dani: Usei a idéia dos 3 núcleos, mostrando a Meri e a Dhara em Hogwarts, O Herman e a Sam em Londres, na Resistência (os prédios ao fundo foram inpirados nos da London Road), a Mina solitária nas Hébridas e, o cavalheiro simpático em cima, o nosso querido Voldie (que tá parecendo mais um dementador)"
Comentário empolgado da Raven: "o desenho ficou perfeitoso ao cubo, não sei como te agradecer. Acho que captou exatamente o tom que vamos adotar no ano 07. Adorei o modo como vc colocou a Dhara e a Meri "afastadas" e ainda próximas, e o o Herman e a Sam se apoiando mutuamente, e a forma como a Mina, mesmo presente nas hébridas, está com a mente o coração também mais além.Amei o detalhe das folhas, adorei também as unhas do tio Voldie, a impressão que eu tive é que ele estava estraçalhando a vida de todos ali, como, de fato, fez. Como uma influencia funesta externa."
Comentário da Meri: Eu até procurei o making-off da Dani, mas não consegui encontrar, desculpem. Mas, como deu para notar, esse é um trabalho imensamente elaborado, e mostra a Meridiana em seu lado Black-Thorne. Obvio dizer que eu sou apaixonada pelo desenho, não apenas por ser a Meri, mas pelo modo como a Dani conseguiu captar a força, a dualidade e a melancolia da ruiva no atual momento da história.
Comentário da Dani:Tentei caracterizar ao máximo com a idéia que eu tenho da Adhara. Deu um pouco de trabalho chegar ao tom preto-acinzentado do cabelo dela (pelo menos que eu imagino que ela tenha), mas acho que ficou bom.
Comentário da Dani:esse desenho é da minha idéia da Raven atual.
Comentário da Meri: Este desenho me lembrou bastante os posts da Raven logo no comecinho do sétimo ano, quando a Meri ainda estava desaparecida.
Comentário da Dani:Essa seria a nossa querida Mina em seu exílio nas Hébridas. Preocupada e afastada de tudo.(pelo menos é a idéia que eu tenho dela agora)
+ 9 beijos para fazer um dia feliz (CD) & A Máfia vai a Festa (CD)
Para fechar os especiais de Dia dos Namorados que a Lulu escreveu, ela preparou um CD com a trilha sonora de + 9 beijos para fazer um dia feliz.
E para animar a festa, ela resolveu presentear a todos com um CD temático do Expresso: Máfia vai a Festa, recheado de são coisas que as mafiosas ouviriam nas festas do pijama delas, se identificariam, ou fariam só de palhaçada.
Lore e Herman adolescentes- Rachel Bilson e Adam Brody Lore e Herman adultos - Jennifer Garner e Ben Affleck
+ 9 beijos para fazer um dia feliz
When all is said and done
(Meridiana e Lucien – Expresso)
Here's to us one more toast and then we'll pay the bill Deep inside both of us can feel the autumn chill Birds of passage, you and me We fly instinctively When the summer's over and the dark clouds hide the sun Neither you nor I'm to blame when all is said and done
It's so strange when you're down and lying on the floor How you rise, shake your head, get up and ask for more Clear-headed and open-eyed With nothing left untried Standing calmly at the crossroads, no desire to run There's no hurry any more when all is said and done
Havia cheiro de fumaça ocre no ar. Aqui e ali, pessoas choravam, riam, se regozijavam. No caos do final da batalha, todos se abraçavam, sem se importar com rivalidades antigas, simplesmente felizes por estarem vivos. Porque logo estariam em casa, brindando ou lamentando seus mortos, mas ainda assim contentes por saberem que tinha acabado. Que as mortes não tinham sido em vão. Que eles tinham significado alguma coisa.
Não havia acabado ainda para ela. Havia coisas que precisava fazer, coisas de que precisava tomar conta, tanto por resolver... A verdade é que aquele era apenas o início, pois, terminada a guerra, começava o esforço da reconstrução.
Não havia pressa, contudo. Eles agora tinham todo o tempo do mundo.
Mas essas não eram suas preocupações no momento. Ligeiramente nervosa, ela esquadrinhava a multidão, à procura da pessoa com quem queria comemorar aquele momento. Havia outros, é claro, seus amigos, sua prima, sua família... Mas ela precisava dele primeiro.
Foi ele quem a achou, contudo. Meri sentiu seus pés deixarem o chão, enquanto ele a rodava no ar, beijando-a quase imediatamente, as risadas de ambos sufocados por lábios e lágrimas até que estivessem sem fôlego, até que o mundo tivesse desaparecido num borrão de cores.
Lucien só a colocou de volta no chão quando ambos já estavam completamente sem fôlego. Ela o encarou ternamente, sem tirar as mãos de seus ombros; da mesma forma que ele mantivera seus braços em torno de sua cintura.
Não eram necessárias mais palavras. Depois de tudo dito e feito, eles podiam se dar ao luxo de um momento de absoluta serenidade, nos braços um do outro.
Para ler os demais beijos, visitem o Coruja em teto de zinco quente, o blog da Lulu
Mina adolescente- Amber Tamblyn Mina adulta - Jennifer Morrison
De Repente 30 - Sam
Sam adolescente- Jessica Alba Sam adulta - Kate Beckinsale
+ 9 beijos para fazer um dia feliz
From where I standing
(Raven e Luke – Expresso)
From where I'm standing, I think I caught your eye.. Were you looking at me? Cuz I swear I saw you smile. And I'm coming over.. gonna take things off your mind. And I bet you'll fine. And I bet you'll be fine. I guess it's not the way you always planned it. Looks like you're heading for a crash landing. That's just the way it looks from where I'm standing… From where I'm standing.
Então esse era o Memorial de Guerra de que estavam falando tanto nos últimos tempos... Ela tinha imaginado algo como a fonte no átrio do Ministério, pomposa e absolutamente falsa em sua idéia de “cooperação”. Mais para submissão, na verdade...
O obelisco era simples, apenas um marco, não muito distante do túmulo do professor Dumbledore. Um obelisco e um túmulo; essas eram as marcas que o final da guerra tinham deixado em Hogwarts.
- Eu imaginei que você estaria aqui. – uma voz soou às suas costas, pouco antes de uma mão morna envolver a sua.
Raven ergueu a cabeça, dando de cara com o meio sorriso de Luke.
- Você ainda não cortou o cabelo, ruivo? – ela questionou, rindo de leve ao perceber a careta que ele fazia toda vez que a franja caía sobre seus olhos.
- Nah... Eu estou pensando em deixar ele assim. Eu fico mais charmoso. – ele piscou o olho para ela.
A morena apenas balançou a cabeça de leve, voltando o olhar mais uma vez para o obelisco. Luke a observou em silêncio, ao mesmo tempo em que entrelaçava seus dedos aos dela.
O silêncio da moça era sinal de seu luto. Ainda que seu coração agora estivesse com o ruivo ao seu lado, ela nunca deixaria de lamentar seu primeiro amor. Severus Snape fora o Heathcliff para sua Cathy, o Senhor do Seu Coração.
Ela amara pela primeira vez com toda a intensidade de um coração jovem e acreditara que nunca vacilaria em sua afeição. Que nunca encontraria outro amor como aquele. Então, Luke ressurgira, assumindo o papel do Coronel Brandon para sua Marianne.
Fora um longo caminho até ali e, de onde ela se encontrava, podia agora admirar e até rir um pouco de si mesma.
Um sorriso tranqüilo abriu caminho em seus lábios e ela se voltou para o rapaz, colocando-se na ponta dos pés para salpicar-lhe um beijo na bochecha.
- Vamos ter de dar um jeito no seu cabelo de qualquer forma, ruivo. – ela observou, brincando – Não vamos querer que você fique tão charmoso. Se não, o que eu vou fazer? Terei de arranjar um bastão de quadribol para manter a mulherada longe de você.
Ele apenas riu em resposta, enquanto passava uma mão pela cintura dela, os dois começando a caminhar para os portões da escola... e para o resto de suas vidas.
Para ler os demais beijos, visitem o Coruja em teto de zinco quente, o blog da Lulu
Nossa, nem dá para acreditar que já se passaram seis anos desde o primeiro post publicado aqui oO O tempo voa, e tanta coisa aconteceu, não apenas com os nossos personagens, mas também conosco, com o site e creio que com vocês leitores também.
A única coisa que me vêm a cabeça no momento é agradecer a todos por nos acompanharem nessa nossa mágica jornada...Sem vocês, o Expresso não existiria!
Como manda a tradição, semana de aniversário, semana de postagens especiais e novidades.
A primeira de todas, é claro, foi a mudança de layout, junto vem a mudança das dolls dos persoangens (que vocês podem conferir nas páginas internas)
Segundo, vamos aos posts especiais. Temos duas séries que serão postadas simultaneamente aqui.
A primeira é "De repente 30/onde estarei aos 3o anos?". A idéia original era fazer uma fic sobre cada um dos nossos personagens aos 30 anos de idade, mas, como traria muitos spoilers, acabamos decidindo mudar para reflexões dos nossos personagens para quando chegarem aos 30 anos.
Por que 30 anos? ? Bem,pegamos novamente a idéia de um amigo meu diz que cada ano de vida de um site/blog equivale a 5 anos reais. De onde ele tirou isso eu não sei, mas acabou nos rendendo boas idéias.
A segunda série é + 9 beijos para fazer um dia feliz
A Lulu (Mina) resolveu aproveitar a semana do aniversário do Expresso e a semana do dia dos namorados e trazer um presente para vocês.
Passo a palavra para ela:
E qual seria a melhor maneira de comemorar o dia dos namorados se não com... beijos?
De segunda a sexta, publicarei uma pequena coletânea de cenas de beijos inéditas de todos os sites em que publico. O que significa que haverá para todos os gostos - Expresso, Amaterasu e New Dawn.
É quase como armar minha própria barraca de beijos sem ter que passar pelo processo de troca de saliva! Fantástico!
Os beijos do Expresso serão publicados simultaneamente aqui e no Coruja.
Bem, sábado teremos mais alguns presentes extras. Um deles acho que se vocês pensarem bem, já dá para desconfiar. Os outros serão CDs temáticos.
As postagens de aniversário serão diárias!
Esperamos que gostem e feliz aniversário para todos nós!!!
Beijos, Meri
De Repente 30 - Meri
+ 9 beijos para fazer um dia feliz
Falling Slowly (Mina e Isaac – Expresso)
Falling slowly, eyes that know me And I can't go back Moods that take me and erase me And I'm painted black You have suffered enough And warred with yourself It's time that you won
Take this sinking boat and point it home We've still got time Raise your hopeful voice you have a choice You've made it now Falling slowly sing your melody I'll sing along
Ele abriu os olhos devagar, momentaneamente confuso de onde se encontrava e porque estava dormindo sentado. Algo se mexeu em seu ombro e ele abaixou o rosto para dar de cara com Mina aninhada contra seu peito, encolhida sob a manta que envolvia precariamente os dois.
Isaac deu um meio sorriso. Eles ainda estavam sentados no balanço da varanda; neve caía silenciosa no pátio diante deles, flocos brancos banhados de luar.
Apesar do belo cenário, estava frio demais para que eles continuassem ali fora. E seus braços estavam dormentes por terem ficado muito tempo na mesma posição, de modo que não podia carregá-la para dentro. Teria de acordá-la.
Com a mais suave pressão, ele encostou os lábios à testa gelada da moça, ao mesmo tempo em que apertava de leve o corpo pequeno contra o seu.
- Mina?
Ela se encolheu ainda mais, fazendo uma ligeira careta.
- Não, Kieran, você não pode morder o Cão. – ela balbuciou, sem abrir os olhos.
Ele riu baixinho e o movimento dessa vez foi o suficiente para fazê-la despertar, erguendo os olhos para ele ainda meio grogue.
- Isaac?
Para ler os demais beijos, visitem o Coruja em teto de zinco quente, o blog da Lulu
Aproveito e convido a todos para conhecerem também o blog do nosso talentoso ilustrador do Amaterasu, o Rubem:
- Mas, como assim? - exclamou Ginny, desconfiada - Desde quando sonserinos se voltam contra eles mesmos? Isso é muito estranho!
- Tudo é possível para quem acredita na verdadeira magia - respondeu Satanio, brincalhão, com seu melhor sorriso - Mas, falando sério, não é porque algumas serpentes estão rastejando para o buraco que nós rastejaremos atrás, não é, Raven?
- É lógico - anuiu a moça – Nós não somos um rebanho, temos idéias próprias.
- Eu me lembro de você, Sinclair - comentou Longbottom, com um sorriso - De uma detenção com o Snape há uns dois anos atrás. Ele me deu uma montanha de caldeirões cascorentos para ariar, e você me ensinou um feitiço para limpá-los mais rápido. Sem a sua ajuda, eu teria ficado o final de semana inteiro naquela função.
- Também me lembro disso - comentou Luke, que até então se mantivera calado - Peguei essa detenção com vocês. Aquele seboso me deu um saco gigantesco de sementes para separar, e Raven ficou eviscerando lagartas. Excelente forma de se passar um sábado...
Um murmúrio ergueu-se entre todos os alunos. Uma parte dos integrantes da formação original da Armada juntou-se num canto, onde conversavam apressadamente, falando quase todos ao mesmo tempo, gesticulando e, de vez em quando, olhando na direção dos dois sonserinos. Satanio observava a movimentação de cabeça erguida, olhos brilhantes; Raven, por sua vez, levantara-se da poltrona e andava de um lado para o outro, cerrando e descerrando os punhos, a despeito dos pedidos de calma de Luke e de Lorelai.
- Eu disse que isso não ia dar certo - Raven rosnou, entredentes - Esse pessoal odeia sonserinos, aqui não há lugar nem para mim nem para o Sat.
A Fada chegou a articular uma frase, mas foi interrompida por Neville, que, batendo palmas, pedia silêncio:
- Gente, por favor, vamos conversar todos juntos, essa confusão não leva a lugar nenhum. O que vocês tanto cochicham aí nesse canto? Seamus, Lavender, Ernest?
Finnigan deu um passo à frente e disse, apontando os sonserinos:
- Nunca ninguém viu um sonserino a favor de Dumbledore ou de Harry Potter nessa escola. Também nunca se viu nenhum deles se juntar a nós para nada!
- E como nos juntaríamos, se nunca fomos convidados? - perguntou Satanio, erguendo os ombros - Não é educado ser penetra nas festas alheias.
- E quem garante - prosseguiu Seamus, exaltado - que esses dois não colaram aquele cartaz para chamar atenção dos Carrow para as nossas atividades? Para alertar o inimigo?
- O quê? - exclamou Raven, perplexa - Só pode ser brincadeira! Como você pode pensar uma asneira dessas?
- Asneira nada, o Seamus disse uma coisa muito séria! - gritou Lavender Brown, virando-se para Neville - Isso é uma estratégia para nos entregar! Esses dois são espiões dos Carrow! Temos que fazer alguma coisa!
- Calma, gente, calma! - pediu Luna, erguendo-se da poltrona de onde até então observara tudo, e postando-se entre Raven, que ofegava de raiva, e Lavender, que repetia serem os sonserinos espiões dissimulados - Vamos parar com isso! Não podemos nos dividir, precisamos esfriar a cabeça e pensar com clareza. Concordo com o Goddriac, os sonserinos nunca estiveram conosco porque nunca foram convidados; também é erro nosso achar que não há boas pessoas na Sonserina.
Ergueu-se um murmúrio de descontentamento, contido por um gesto de Neville.
- Sim, acredito que haja boas pessoas na Sonserina, como também pode haver mal intencionados nas demais Casas - prosseguiu Luna, indiferente aos murmúrios, sorrindo para Satanio e Raven - Temos que dar chance às pessoas de se revelarem. Não é a primeira vez que vejo estes sonserinos interagindo com alunos de outras casas; foram trazidos aqui pela Mercury, que é uma grifinória, e aqui estão com lufanos, corvinais e outros grifinórios. Não acho justo que sejam tidos como espiões apenas por Goddriac ter orgulho de ser sonserino e por Sinclair nutrir um respeito especial por Severus Snape.
Todos os olhares se fixaram em Raven, que, involuntariamente, se fez carmim.
- Ei, é isso mesmo! - exclamou Zacariah Smith, apontando a sonserina - Essa doida é a queridinha daquele assassino do Snape! Foi ele quem a mandou aqui para nos espionar e depois correr para contar tudo para ele!
- Como você ousa... - começou Raven, lívida, dando um passo na direção do lufano; foi detida por Satanio, que a segurou com firmeza.
- Acalme-se, Rav. Sente-se aqui com o Luke, vamos; deixe que eu cuido disso. Confie em mim - ele falou, olhando a amiga direto nos olhos. Depois, virando-se para os demais, disse:
- Com exceção de nossos amigos, algum de vocês realmente sabe alguma coisa sobre mim e Raven para nos acusar desse modo? – o tom dele era sério e bem diferente do sarcasmo usual.
Ninguém se pronunciou; um silêncio quase sepulcral se instaurou entre o grupo.
- Tudo o que vocês vêem são as nossas vestes, o prata, o verde e um amontoado de estereótipos de que somos sempre potenciais bruxos das trevas. Já cansei de escutar que a maioria dos bruxos ruins saiu da Casa da Serpente e que o próprio Você-sabe-quem era um dos nossos. – o loiro continuou – Isso é a mesma coisa de afirmar que corvinais são robôs racionais e sem sentimentos, que os grifinórios são arrogantes e metidos a sabe-tudo e que os lufanos são paspalhos e bobalhões.
- Ei! Também não é assim! – Smith gritou, enquanto os outros alunos murmuravam entre si pequenos protestos e autodefesas.
- Não? – Satanio retrucou, elevando um pouco mais a voz. – Querendo ou não, todas as nossas qualidades que o Chapéu Seletor enumera acabam virando defeitos na boca de detratores. Além disso, não sei se vocês repararam, mas o Chapéu nos seleciona para determinada Casa pelas qualidades que se destacam em nós, mas isso não exclui as outras. Eu sou corajoso como um grifinório, inteligente como um corvinal, leal como um lufano, mas são minha astúcia e minha ambição que me fazem um sonserino. Eu quero ser sempre o melhor no que faço, isso é tão errado assim? O problema é que confundem ambição com mesquinharia.
- Vocês não são mesquinhos, nem você nem Raven – Satanio escutou a voz firme de Lucien Von Weizzelberg se pronunciar ao fundo, o que fez o loiro dar um ligeiro sorriso antes de prosseguir em sua fala.
- Meu melhor amigo, Herman Mercury, nasceu de uma família quase completamente trouxa. Hoje ele está foragido, e não tenho nem certeza se ele ainda está vivo. Só tenho esperanças. A minha namorada, Yvaine Lancaster, também veio de uma família trouxa, e precisei mandá-la para o outro lado do oceano para que ela e os pais pudessem sobreviver. Raven pode até ter simpatia pelo Snape, mas a mãe dela era trouxa. Vocês acham que ela gosta de escutar falarem que a mãe dela vale menos que um verme? Os pais dela foram vitimados por Comensais com uma maldição que os fez morrer lentamente no decorrer dos anos, e ela viu tudo isso acontecer. Então, não nos digam que não temos motivos para estarmos aqui só porque somos sonserinos!
Sentada ao lado de Luke, Raven meneou a cabeça, em assentimento ao notável discurso do amigo. Sat fora certeiro em sua argumentação, e conseguira expor em palavras claras e francas tudo o que a sonserina trazia em seu peito. Assim, permaneceu calada, na esperança de que seu silêncio valorizasse a fala de Satanio.
-Acho que Goddriac já demonstrou que tem mais que motivos suficientes para estar aqui – Neville tomou a palavra, quebrando o silêncio pesado que caíra na Sala Precisa. Ninguém aparentemente se prontificara a discordar de Longbottom.
Todavia, Raven não era suficientemente ingênua para acreditar que o loiro conseguiria demover os demais da idéia de que toda maldade provém da Sonserina. Ela tinha plena consciência de que, apesar da tolerância e da simpatia que poderiam vir de Neville e de Luna, eles nunca seriam realmente aceitos na Armada de Dumbledore.
Um sorriso triste perpassou seus lábios ao tentar imaginar o que o próprio Albus pensaria disso.
Com este post, encerramos o mês de setembro nas aventuras do Expresso Hogwarts, semana que vem vai ser a SEMANA ESPECIAL DE ANIVERSÀRIO. Com fics especiais e outras surpresas!
Depois voltaremos com o mês de outubro e muitas, muitas reviravoltas!
Sentada em uma das poltronas que se espalhavam pela sala precisa, Lorelai Mercury relembrava os acontecimentos que a trouxeram àquela reunião da Armada de Dumbledore.
Quando Ginny Weasley decobriu sobre o Olho do Grifo, a Fada Prensada foi apresentada oficialmente para Neville Longbottom e Luna Lovegood, que eram os outros responsáveis pelo retorno do grupo subversivo.
Longbottom, que não parecia mais ser aquele garoto tímido e atrapalhado que vivia sempre perdendo seu sapo de estimação, mas assumira por completo o papel de liderança deixado vago por Potter desde seu sumiço, havia enfatizado para Lore que era melhor juntarem forças se tinham o mesmo propósito.
Mais que isso, o rapaz elogiara o trabalho do Olho do Grifo, o que fizera Lorelai corar involuntariamente, em um misto de encabulamento e orgulho.
Ela chegara a relatar para os três sobre quase tudo o que ocorrera com ela e seus amigos no ano anterior (apenas omitiu a traição da irmã, pelo modo dolorido com que aquilo ainda a afetava).
Aos poucos ela foi participando das reuniões da Armada, ora repassando informações para a turma do Grifo, ora levando um amigo consigo; contudo, aquela era a primeira vez que Lorelai conseguia levar quase todos os amigos para uma reunião da AD.
Além deles, deveriam ter mais ou menos oito pessoas no lugar, somando ao todo quinze alunos subversivos. A Armada estava no seu recomeço, mas tudo indicava, pelos efeitos das pichações que o grupo começava a realizar, e pelos murmúrios de insatisfação dos alunos, que aquele número só tendia a aumentar no decorrer dos próximos meses.
A exceção de Satanio e Raven, Lore percebeu que só havia membros das outras três casas no momento. Contudo, a grifinória fez questão de trazer os dois sonserinos naquela noite. O assunto principal a ser discutido foi o cartaz que a Fada descobrira depois ter sido obra dos amigos.
Não fora tarefa simples para Lore convencer Raven a vir. A sonserina acreditava que nem ela nem Satanio seriam bem recebidos pelos demais integrantes da AD, e não lhe agradava em nada ser alvo de hostilidades preconceituosas. Satanio, por outro lado, aceitara de pronto o convite, fosse por espírito de equipe, fosse pela simples vontade de testar a Armada.
Quando a Fada entrou na Sala Precisa com os amigos sonserinos, um momentâneo, porém significativo silêncio pairou entre os alunos que já haviam chegado e que conversavam animadamente entre si. Lore dirigiu-se às poltronas, ladeada por Raven, cujo corpo teso e o rosto sério indicavam seu desconforto, e seguida por Satanio, que caminhava descontraído, mãos nos bolsos, observando tudo.
- Eu disse a você que isso não seria uma boa idéia, Lore - murmurou Raven, tensa, depois que se sentaram - Está mais do que claro que eu e Sat não somos bem vindos aqui.
- Fique calma, Rav, eles estão apenas sob o impacto de nossas extraordinárias figuras - comentou o loiro, displicentemente sentado no chão ao pé das amigas - Assim que se acostumarem e puderem ter o prazer de saber quem somos, irão disputar nossa amizade a qualquer preço, você vai ver.
- Estou enganada, ou aquele sujeito ali é o tal do Zacariah Smith? Ele não pára de olhar para cá, parece que nunca viu um sonserino na vida - murmurou Raven, irritada.
- Deixa ele, Rav. Qualquer coisa, se estiver incomodando você além do tolerável, eu mando o Luke bater nele, pode ficar sossegada. E aposto que ele vai adorar fazer isso. - respondeu Satanio, piscando o olho para Lore, que sorriu de volta.
Mais alguns alunos chegaram e, assim que todos se acomodaram, Longbottom levantou-se e tomou a palavra:
- Bem, pessoal, conversei com Gina e achamos interessante convocar esta reunião para discutirmos o que aconteceu dias atrás no Salão Principal e que tanto desgosto trouxe para nossos queridos Irmãos Carrow.
Boas risadas encheram o ambiente.
- Fiquei surpreso quando vi aquele cartaz, porque até então eu imaginava que apenas nós estávamos a par das pichações e as colocando em prática; mas também me senti bastante satisfeito ao perceber que, mesmo sem pertencer à Armada, existem outros alunos que ainda amam Hogwarts e tudo o que ela representa, e não toleram os abusos que aqueles dois cretinos têm cometido a torto e a direito por aqui.
Palmas e palavras de apoio preencheram a pequena pausa de Neville.
- O que eu gostaria de pedir a vocês - ele prosseguiu - é que tentem descobrir quem foram os autores daquela façanha e os tragam para engrossar nossas fileiras. Quanto mais revolucionários tivermos, mais ações poderemos desenvolver. Vejo que hoje há novatos entre nós, que, pela proximidade, parecem ter vindo com a Srta. Mercury e são... meu Merlin, da Sonserina?!?
- Senhora Mercury, Sr. Longbottom, por favor - respondeu Lore, com um sorriso - Sim, eles são sonserinos e são meus amigos. Apresento a vocês Satanio Goddriac e Raven Sinclair, especialistas em fabricar e colar cartazes subversivos.
O tempo pareceu congelar os presentes em olhos arregalados e queixos caídos, enquanto Lorelai mantinha o sorriso, Raven corava e baixava os olhos e Satanio erguia altivamente a sobrancelha.
- Mas, como assim? - exclamou Ginny, desconfiada - Desde quando sonserinos se voltam contra eles mesmos? Isso é muito estranho!
- Tudo é possível para quem acredita na verdadeira magia - respondeu Satanio, brincalhão, com seu melhor sorriso - Mas, falando sério, não é porque algumas serpentes estão rastejando para o buraco que nós rastejaremos atrás, não é, Raven?
- É lógico - anuiu a moça – Nós não somos um rebanho, temos idéias próprias.
- Eu me lembro de você, Sinclair - comentou Longbottom, com um sorriso - De uma detenção com o Snape há uns dois anos atrás. Ele me deu uma montanha de caldeirões cascorentos para ariar, e você me ensinou um feitiço para limpá-los mais rápido. Sem a sua ajuda, eu teria ficado o final de semana inteiro naquela função.
- Também me lembro disso - comentou Luke, que até então se mantivera calado - Peguei essa detenção com vocês. Aquele seboso me deu um saco gigantesco de sementes para separar, e Raven ficou eviscerando lagartas. Excelente forma de se passar um sábado...
Um murmúrio ergueu-se entre todos os alunos. Uma parte dos integrantes da formação original da Armada juntou-se num canto, onde conversavam apressadamente, falando quase todos ao mesmo tempo, gesticulando e, de vez em quando, olhando na direção dos dois sonserinos. Satanio observava a movimentação de cabeça erguida, olhos brilhantes; Raven, por sua vez, levantara-se da poltrona e andava de um lado para o outro, cerrando e descerrando os punhos, a despeito dos pedidos de calma de Luke e de Lorelai.
- Eu disse que isso não ia dar certo - Raven rosnou, entredentes - Esse pessoal odeia sonserinos, aqui não há lugar nem para mim nem para o Sat.
Meridiana observava com os murmurinhos da platéia de sonserinos que estavam em volta dela. Não havia nenhum rosto cuja expressão não fosse de verdadeiro espanto, mesmo naqueles cujo deleite era notável.
Mesmo com todo o posicionamento pró-comensal que ela vinha demonstrando desde que se propusera a fingir diante dos colegas, parecia inconcebível – e quem sabe ousado – uma grifinória estar às portas da Sonserina com um lufano completamente detonado a tira colo.
Estereótipos acabaram se tornando uma verdade praticamente incontestável em Hogwarts no decorrer dos séculos.
“É hora de quebrar paradigmas”, a ruiva pensou consigo mesma. Mesmo que no caso dela fosse simulação, grifinórios não eram todos heróis, tampouco sonserinos eram todos vilões.
As conversas pareciam ter se ampliado, crescendo da porta da ala da casa das serpentes até onde a ruiva se encontrava, à medida que Theodore Nott e seu séquito abriam caminho por entre os outros alunos.
Meridiana sorriu de lado, satisfeita em perceber que o plano estava funcionando tão bem quanto um relógio suíço. Raven conseguira reter Satanio na ala, Theo aparecera sem problemas. Bastava apenas esperar um pouco até que Adhara pudesse dar as caras.
- Era exatamente o que você queria, não, primo? – a ruiva perguntou, dando um sorriso pretensamente malicioso – Um pouco de sangue derramado para compensar o que ele tirou de você.
- Bloody hell... – Blaise Zambini murmurou, assombrado, do lado direito de Theodore ao ver o estado deplorável do lufano.
Nott, entretanto, não foi tão efusivo em sua reação. Na verdade, exceto pelo arremedo de um sorrisinho jocoso, o sonserino manteve sua expressão guardada e evitou fitar por muito tempo a figura do quintanista machucado, preferindo focalizar sua atenção nos olhos de Meridiana.
- Você até que foi rápida, Black-Thorne. – ele comentou, embora sua voz não indicasse, ainda, sinais de satisfação.
- Sabe que foi mais fácil do que pensei. O garoto é muito crédulo. – Meridiana falou, apontando com a cabeça Kyle, que ainda flutuava inconsciente. A moça tentava não notar o modo como o sangramento causado pela nugá sangra nariz dos Weasley começava a empapar o cabelo do primo caçula. – Uma palavra doce, o sorriso certo, nada muito difícil de se fazer para convencê-lo me acompanhar, e, como eu tinha o elemento surpresa ao meu lado e mais experiência no manejo de varinha, não foi complicado nocauteá-lo.
Theodore assentiu e então deu alguns passos à frente, na direção da ruiva. O burburinho havia silenciado desde que Nott chegara com Blaise e Pansy e toda a ala sonserina observava, transfixada, enquanto Theo circundava Meridiana e Kyle, como um professor que avalia com olhos severos o trabalho de seu aluno.
A ruiva tentou manter uma expressão impassível enquanto o sonserino fazia a “vistoria”, torcendo para que tenha sido realmente convincente nos detalhes, e, feliz, por ter colocado o primo caçula para dormir. Duvidava que Kyle conseguisse permanecer quieto em meio a toda aquela atenção.
Depois de ter dado uma volta inteira ao redor dos dois, Nott parou novamente em frente à Meridiana. A grifinória sustentou o olhar impassível de Nott, mas só conseguiu respirar realmente quando uma expressão nojenta de deleite tomou as feições dele. Theo havia mordido a isca.
- Eu não achei que você tivesse a força necessária em você, Black-Thorne. Bom trabalho. – ele finalmente concedeu.
- Confesso a você que foi bastante divertido deixá-lo assim, especialmente agora vendo o quanto apreciou, primo – Meridiana respondeu, sorrindo de lado, internamente divertindo-se por sua extrema sinceridade naquele instante estar ajudando a tornar ainda mais crível aquela encenação.
Theo deu um meio sorriso e chegou mesmo a abrir a boca para fazer algum outro comentário, mas foi interrompido antes, por uma voz bastante conhecida:
- O que está acontecendo aqui?
Meri viu o sonserino franzir o cenho e virar o corpo para trás, na direção de onde a voz de Adhara vinha, um tanto abafada pelas dezenas de alunos.
Como se pressentissem que finalmente a última estrela do espetáculo havia chegado, os espectadores sonserinos foram abrindo caminho para que a morena passasse pelo corredor. À Meri parecia até que estava assistindo a Moisés separando o mar vermelho. Aquele, entretanto, estava mais para um mar verde e prata.
Adhara caminhou por entre os colegas de Casa com a altivez a que Meridiana, depois do convívio próximo com a prima, já havia se acostumado. Naquele momento a grifinória pôde constatar que, apesar do Sr. Ivory também ser uma pessoa que impunha extremo respeito, a altivez dele era algo sutilmente diferente da de Adhara... Seu padrinho era como um iceberg flutuando ao sabor das ondas de um mar gelado, e nunca se sabe quando ele irá causar algum estrago. Dhara era mais como um vulcão borbulhando sob a superfície e prestes a explodir. Era assim que ela parecia aos olhos de Meri agora, e a ruiva se sentiu internamente orgulhosa da capacidade de atuação de sua prima.
Dhara parou ao lado de Theodore, mas tão afastada dele quanto podia. Ela lançou um olhar fulminante para o primo sonserino por um instante e então os olhos dela registraram silenciosamente a figura estropiada de Kyle e, em seguida, pousaram sobre Meri.
- O que você fez? – ela perguntou, com um tom gélido.
- Apenas ensinei ao lufano onde é seu devido lugar. – a ruiva respondeu, fingindo indiferença – E, sinceramente, Dhara, não sei o que te interessa nesse garotinho aqui a ponto de tanto tumulto.
- Oh, eu sei o que ele tem que interessa à Ivory. – disse Pansy, com um sorrisinho de escárnio, e arrancando risinhos maliciosos de vários outros alunos, principalmente as garotas.
Meri acabou também se juntando ao coro de risos, afinal se queria convencer Theo que, apesar de grifinória, ela, por dentro, tinha o cerne de uma puro-sangue elitista, ali estava uma oportunidade perfeita para fingir que se assemelhava a garotas da laia da Parkinson.
Adhara virou-se para Pansy com uma expressão de tédio.
- É, e provavelmente é algo que você nunca experimentou. – ela respondeu com desdém.
Aquilo fez a cor fugir do rosto de Parkinson e calou a boca de todas as garotas que estavam rindo. Vários garotos fizeram sons de aprovação e incentivo e Meri girou os olhos ao perceber que, para eles, nada seria mais divertido que ver Dhara e Pansy se engalfinhando ali mesmo. Garotos podiam ser realmente muito bobos quando queriam.
A morena, no entanto, não havia esquecido que o foco daquela “operação” eram Meri e Kyle, ela poderia trocar amabilidades com Pansy Parkinson quando quisesse. Por isso, ela se voltou novamente para a prima.
- Honestamente, eu não sei o que está acontecendo com você, Meridiana. Será que você consegue ouvir as palavras que estão saindo da sua boca? – Ela fez uma pausa, encarando a ruiva com um olhar incisivo. – Eu sei que o que aconteceu nas férias foi difícil e você pode até estar um pouco confusa agora... Mas você não conversa mais com nenhum dos seus amigos. Você terminou com Lucien a troco de nada. E agora isso? – ela apontou Kyle, que ainda flutuava atrás de Meri, pingando sangue falso – Eu nem te reconheço mais. – Dhara finalizou, em um tom calculadamente mais baixo e ameno.
Meridiana sentiu uma pontada na altura do estômago ao escutar as “acusações” da prima. Embora cada uma delas fosse uma ação planejada para aquilo que Meri acreditava ser melhor para salvaguardar seus amigos, apenas naquele instante ela teve plena ciência dos sacrifícios que estava fazendo e daqueles que estavam por vir.
- Apenas abri meus olhos para a verdade, Adhara, e descobri quem eu realmente devo ser. – a grifinória finalmente respondeu com a voz altiva e determinada, camuflando a ligeira turbulência que se instaurara momentaneamente dentro dela.
Adhara cruzou os braços e meneou a cabeça, fingindo pesar.
- Se essa é a pessoa que você realmente é... Então eu não quero mais você na minha vida. – ela disse, encarando os olhos da prima, sendo assistida pelos colegas de Casa que bebiam de suas palavras em um silêncio sepulcral.
Com aquilo, Adhara tirou a varinha do bolso da capa e a apontou para Meridiana, torcendo o pulso duas vezes em um feitiço não-verbal que liberou um jato de luz prateada. Alguns olhos se arregalaram, achando que a morena estava atacando a grifinória. Meri, no entanto, não titubeou, ela sabia, afinal, que o feitiço não era direcionado a si, mas sim a Kyle. Porém, pela segurança da atuação que estavam fazendo, ergueu a própria varinha e assumiu uma posição de defesa.
Como combinado, o feitiço passou raspando por Meri e atingiu Kyle, envolvendo os ferimentos falsos do lufano em faixas e talas e conjurando uma pequena maca na qual o corpo desacordado dele repousou.
A ruiva empertigou-se e encarou a prima com um pretenso olhar fulminante, como se estivesse contrariada por Adhara ter tirado o rapaz da influência do Levicorpus.
- Não importa se vamos lutar do mesmo lado amanhã, o que você fez hoje é indesculpável. – a jovem Ivory continuou, em um tom firme. – Nós terminamos aqui, Meridiana.
A ruiva cruzou meticulosamente os braços, lançando um olhar pretensamente gélido para a morena.
- Se é assim que deseja, Ivory, é assim que vai ser. Garanto que não me fará falta.
Adhara assentiu com uma expressão fria, virando em direção ao corredor, tentando abrir caminho pela multidão que os cercava. Contudo, ao contrário do momento em que ela chegou, os sonserinos ao redor, ou por choque pela cena que se desenrolara ou por acharem que ainda não era hora do “show” terminar e queriam, talvez, um pouco mais de sangue, mantinham-se completamente estáticos.
- É melhor me deixarem ir embora ou vou conjurar um patrono e chamar a McGonagall. – a moça de olhos azuis meia-noite falou, em um tom de voz controlado e paradoxalmente autoritário – Não importa se estamos nas boas-graças do Diretor, atacar um aluno ainda é uma infração grave e eu não quero ter que começar a apontar nomes – ela completou, encarando abertamente Theodore.
- Deixem que ela se vá – disse Nott, com ares de arrogância e condescendência – Eu já estou satisfeito.
Com um último olhar gelado para Theo e Meri, Adhara se foi, levando a figura inerte de Kyle junto de si.
Naquele ponto, ainda de braços cruzados, a ruiva se permitiu sorrir enquanto via os primos se afastando pelo corredor. Possivelmente Nott interpretaria aquele sorriso como uma congratulação da grifinória a si mesma pelo feito daquela noite. Ele não estaria enganado sobre isso, apenas não poderia adivinhar que Meri estava satisfeita era por ter feito o primo sonserino de paspalho sem que ele ao menos percebesse.
Assim que intuiu que Adhara e Kyle já estavam longe o suficiente deles, e que a massa de sonserinos curiosos começava a se dispersar, ela voltou-se para Nott, ainda circundando por seu grupinho de “diletos seguidores”.
- Estarei esperando que cumpra a sua palavra, Theodore, uma vez que cumpri a minha.
- Não se preocupe Black-Thorne, eu tenho boa memória. – consentiu Nott, com um brilho de satisfação no fundo dos olhos castanhos.
Meridiana meneou a cabeça em despedida, seguindo rapidamente para o corredor que levava à saída das masmorras. Embora seu impulso fosse tentar ir atrás dos primos e ver como eles estavam depois do pequeno teatro armado, ela seguiu direto para a torre dos Leões, não podia se arriscar.
Amanhã o castelo inteiro saberia o que aconteceu. Depois daquela noite realmente não haveria mais volta para ela sobre suas decisões. De agora em diante ela seria vista como uma candidata a jovem comensal, exatamente como ela desejara. Meridiana precisava seguir em frente, mesmo em meio a receios e possíveis arrependimentos.
- Acordem! Acordem, suas preguiçosas!! O professor Carrow quer todo mundo no salão da escola agora! Andem, levantem-se!!
Dei um pulo na cama, mordendo o lábio para não xingar ao ser acordada daquele jeito por nossa nova monitora, que até então eu não tivera a mínima curiosidade de saber quem era. Também mordia o lábio para não rir, já que, se o Cenourão nos queria todos tão cedo no salão, era sinal de que tudo tinha dado certo.
Enfiei as roupas de qualquer jeito, tirei uma primeiranista do caminho do banheiro para poder lavar o rosto, engoli rápido o conteúdo de um vidrinho que já trazia no bolso da veste e despenquei escada abaixo, empurrando e sendo empurrada por outras garotas não menos curiosas. Os rapazes já se aglomeravam na Sala Comunal, e, assim que ficou claro que estávamos todos despertos e a postos, nossos monitores nos conduziram pelos corredores das Masmorras.
O burburinho era inevitável; os sonserinos se perguntavam por que motivo tio Cenoura Crua desejava nossa companhia assim tão cedo. A pretexto disso, percebi que Satanio se aproximava lentamente de mim, com uma cara de sono que mal escondia sua satisfação.
- Acho que vai chover – ele murmurou, passando seu braço pelo meu.
- Trovejar – respondi, enfiando a mão no bolso de minha veste e contrabandeando um vidrinho para o bolso da veste do loiro.
- Café da manhã? – ele perguntou, displicente.
- Proteção – murmurei de volta – Depois explico.
Quando alcançamos o final da ala das Masmorras, o Lesmão, suando em bicas, tomou a dianteira de nosso cortejo, ombreado pelos monitores. Não fui capaz de reprimir uma careta de desprezo para o nosso covarde atual diretor; fosse ainda Severus o responsável por nossa Casa, ele se nos apresentaria altivo e impassível...
Chegamos aos corredores principais e um murmúrio de espanto percorreu os sonserinos. Parecia que o Cenourão não desejava apenas a nossa companhia, mas a da escola inteira. Satanio mordeu o lábio e olhou para a ponta dos sapatos quando viu a massa de alunos e os respectivos diretores das Casas caminhando para o salão principal. Uma pontada de preocupação me fez cutucá-lo de leve.
- Beba de uma vez o que eu passei para você, Sat, por favor – murmurei – É uma poção de contenção de alegria, para que nossos sorrisos de gato de Cheshire não nos entreguem. Já tomei a minha.
- Ah, então é por isso que você está com essa cara de paisagem? – ele comentou, arqueando a sobrancelha – Me dá um minuto, então.
Quando passamos por um banheiro masculino, Sat nele entrou por alguns minutos e depois se juntou a mim novamente, esbarrando sem querer em Pansy Parkison ao retornar.
- Onde você estava até agora, Goddriac? – ela perguntou, desconfiada.
- Caminhando ao lado de Raven, minha querida, e no presente momento estou exatamente atrás de você – ele respondeu, displicente – Até um pouco atrás estive no banheiro, porque achei que não seria bonito deixar uma poça no meio do salão principal.
A garota fez uma careta de nojo.
- O que foi? – ele prosseguiu, mantendo o tom – Não tenho culpa de ter sido praticamente arrancado da cama por aquele idiota do Nott.
- Você não devia falar assim do Theodore, pode se arrepender depois – Pansy devolveu, com um sorrisinho torto – E você deve estar se sentindo bem sozinha, não, Raven, agora que a sua amiguinha Johnson acordou para a vida e se tornou Black-Thorne – ela completou, me encarando.
- Vá dormir, Parkison – respondi, com um suspiro de enfado – E olhe para frente, estamos quase chegando.
Com uma careta de desprezo, Pansy nos deu as costas. Realmente nos aproximávamos do salão e, mesmo com a poção contendo meus possíveis sorrisos de triunfo, ela não tinha o poder de sossegar meu coração, que me socava desesperado no peito. Porém, não era medo ou angústia que o descontrolavam, mas a sensação de que o plano tinha sido bem sucedido. Afinal de contas, se assim não fosse, porque o Cenoura nos convocaria com tanta urgência?
Quando entramos no salão, uma cena no mínimo burlesca se desenrolava frente ao grande quadro de avisos. Filch irritado, Amycus Carrow vermelho como um tomate, Alecto Carrow pálida como um fantasma, alguns alunos de várias casas bastante espantados e alguns professores a custo sérios encaravam, cada um a seu modo, um enorme cartaz firmemente pregado ao quadro, no qual se lia em grandes letras vermelhas:
Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma florde nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem,pisam as flores matam o nosso cão,e não dizemos nada. Até que um dia,o mais frágil delesentra sozinho em nossa casa,rouba-nos a lua e,conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta E porque não dissemos nada já não podemos dizer nada.
Meu rosto endureceu quando tentei sorrir ao ver nossa obra revolucionária exposta aos olhos de praticamente toda Hogwarts, resistindo bravamente aos repetidos feitiços que o Cenourão, quase apoplético, lançava para tentar arrancá-la do quadro. Wallus Firmare, o feitiço que Darien tão prontamente me ensinara e que eu e Satanio ensaiáramos às escondidas na sala precisa por três dias daquela ansiosa semana de preparativos, fora simplesmente perfeito. Encarei Sat e pude ver no brilho de seus olhos o enorme sorriso que minha poção, graças a Merlin, conseguia conter.
Procurei Darien com o olhar, em meio aos Corvinais, e o achei mais ao fundo, com Jamal, disfarçando um sorrisinho orgulhoso. Porém, como todos naquelas proximidades não tiravam os olhos do espetáculo proporcionado pela ira do Cenoura Crua, não me preocupei com a possibilidade de alguém ligar o Cabelo Azul àquela façanha.
- Raven, acho melhor chamarmos Madame Pomfrey para acudir o Cenoura, pobrezinho – comentou Sat, ao meu ouvido – Mais um feitiço perdido, ele explode.
De fato, a impressão que tínhamos era a de que Amycus Carrow entraria em combustão, de tanta ira. E, malgrado seu, quanto mais se esforçava em destruir o cartaz, mais atenção ele chamava, a ponto de haver alunos lendo à meia voz, ou uns para os outros, aquele que era um de meus poemas prediletos de Maiacovsky. E eu fazia votos para que a advertência do poeta preenchesse corações e mentes daqueles que o liam.
Percebendo que os esforços do irmão redundariam em nada, Cenoura Cozida deixou seu aparente estupor e pousou a mão no ombro de Amycus. Este, trêmulo do esforço e, era visível, também de pura raiva, encarou-nos todos e exclamou, apontando-nos sua varinha:
- Quem foi o insolente que ousou desafiar minha autoridade? Quem foi o engraçadinho que pensa que pode fazer o que bem entende dentro desta escola? Esta infâmia aqui é a prova de que Hogwarts ficou jogada às traças por todos esses anos, sob o falso comando de um bruxo velho que permitia a vocês acreditar que estavam em suas próprias casas! Pois fiquem avisados de que esse tempo acabou, ouviram! Acabou!
Um murmúrio de indignação mesclado ao medo se fez ouvir entre os estudantes. Carrow ergueu imperiosamente a mão, e o silêncio retornou.
- Não pensem vocês que isso vai passar em branco! – ele retomou, emputecido, literalmente espumando enquanto gritava – Não descansarei enquanto não descobrir quem foi, ou quem foram os responsáveis por esta palhaçada! E, quando puser minhas mãos nele, ou neles... Eu chego a sentir até pena – completou, com um sorriso cruel.
Lamentei pelos alunos novatos, que se encolheram, amedrontados, diante da ameaça do Cenoura. Porém, por meu lado, não chegava a sentir medo; eu e Sat fôramos muito cuidadosos tanto nos preparativos quanto na execução, e déramos a sorte inesperada de não cruzarmos com ninguém no caminho, na noite anterior, enquanto nos dirigíamos ao salão principal. A Mão do Invisível acolhera nossa pretensão e, protetora, nos auxiliou todo o tempo.
O Cenourão, agora, recrutava os professores ali disponíveis para que algum deles retirasse o maldito cartaz do quadro. O Lesmão, por entre suores e pulinhos, desculpou-se dizendo que feitiços não eram sua especialidade, mas apenas as artes do caldeirão. A Profa. Sprout se ofereceu para fabricar um removedor, mas a receita só ficaria pronta em sete dias. A Diretora da Grifinória, com olhos brilhantes por detrás dos óculos, lançou um feitiço que parecia poderoso, mas que também foi inócuo. Por fim, sustentando o olhar agora assassino de Amycus Carrow, o Professor Flitwick segurava o queixo e explicava que aquele feitiço lhe parecia muito peculiar, e exigia concentração para ser desfeito.
Bendita a hora em que preparei a poção de controle para mim e Satanio, caso contrário estaríamos rolando pelo chão de tanto rir. Não sabíamos o que era mais engraçado: se o piti de raiva de Amycus, se a inércia estúpida de Alecto ou a dita concentração do pequeno diretor da Corvinal.
Nisso, outro rumor perpassou os alunos. Estiquei o pescoço na direção para onde todos se voltaram e meu coração falhou uma batida.
Severus.
Enrolado à capa, altivo e frio, dirigiu-se lentamente até onde nos aglomerávamos. Os alunos abriram caminho para que ele passasse e pudesse ficar frente ao quadro de avisos. O Cenourão começou a dizer algo, mas o Senhor de Meu Coração ordenou que se calasse, apenas erguendo a mão. Meu eu interior urrou de satisfação.
Respirei fundo para não ofegar enquanto os olhos negros de Severus percorriam o texto de Maiacovsky. Assim que encerrou a leitura, ergueu uma sobrancelha, ignorou uma vez mais uma nova tentativa de manifestação de Amycus e, dirigindo-se ao Professor Flitwick, disse, ao seu modo perigosamente suave:
- Seria muito pedir-lhe, senhor Professor, que retirasse imediatamente este acintoso cartaz de nossas vistas?
- De forma alguma, senhor Diretor - respondeu Flitwick - Como eu disse ao Professor Carrow, este feitiço é bastante peculiar, uma variante incomum e potencializada do Feitiço Adesivo básico, digamos assim. Existe um antídoto para seus efeitos cuja base é o ácido do estômago de um dragão jovem, mas sua elaboração é bastante trabalhosa e demorada. Porém, creio que há um feitiço mais forte dentro da família Evanescere que pode funcionar neste caso. Vejamos, então. Por favor, afastem-se.
E, tomando posição ao sacar a varinha, o pequeno diretor da Corvinal invocou o feitiço, mas, ainda assim, o cartaz permaneceu preso pelas beiradas. Foi apenas na segunda tentativa que, após uma pequena explosão, nossa preciosa obra soltou-se do quadro de avisos e fez-se pó em pleno ar. Foi quando Severus retomou a palavra:
- Bem, creio que agora não há mais justificativa para não mantermos nossa rotina. O café da manhã será servido e, após isso, que todos retomem suas atividades. Professores, encaminhem seus alunos para as mesas das Casas e, em seguida, para as salas de aula. Srta. Carrow, coordene os trabalhos. Filch, assessore no que for preciso. Quanto a você, Amycus, acompanhe-me até meu gabinete; temos assuntos a tratar.
Por fim, lançou-nos um de seus usuais olhares inexpugnáveis e se retirou a largas passadas, sua capa enfunando-se às suas costas, obrigando o deselegante Cenourão a praticamente correr para alcançá-lo.
Satanio, então, tocou meu ombro e despertou minha atenção para a fila de sonserinos que seguiam Slurghorne para a mesa de nossa Casa; eu o segui, em silêncio. Contudo, por dentro eu sorria, a despeito de tudo, numa estranha satisfação, em notar como era diversa a matéria amorfa donde se moldara o Intragável Carrow do poderoso metal em que se forjara o Senhor de Meu Coração.
Plano Anti-Cenouras – Parte 3 Em busca do Feitiço Perdido
Voltando para a mesa onde antes da amiga chamá-lo se encontrara, Darien pôs-se a pensar um pouco. Matutou bem a cabeça e não havia se lembrado de nenhum feitiço específico como o que Raven e Sat precisariam.
- O que foi, D? – Jamal perguntou ao amigo, virando mais uma página do largo livro que liam.
- Nada de mais, apenas a Raven me pediu por um feitiço adesivo, coisas dela. – Darien preferiu poupar Jamal do segredo, para sua própria segurança.
- Eu nunca vi nada do tipo. Se perguntássemos ao Professor Flitwick? Talvez ele...
- Não, não... Melhor não perturbarmos o Flitwick com isso, Jamal. Ele tem coisas mais importantes para serem resolvidas do que uma simples necessidade de alunos loucos como nós. – Interrompeu Darien com um risinho ao final.
Prosseguiram com a leitura, naquele fim de tarde; logo seria hora do jantar e os meninos estavam bastante empoeirados de tanto que mexeram em livros velhos. Ao terminarem com o tópico: Os usos possíveis para o estômago de salamandra. Riram bastante com alguns usos de outras vísceras animais e estavam receosos ao perceber que o cérebro de ghoul é ótimo para poções instantâneas da verdade. Guardaram os livros em seus lugares, deixando a velha mesa bem arrumada; algo que alegraria bastante à Madame Prince.
Já a caminho do quarto, passaram por alguns quadros de Hogwarts; Darien se viu perguntando a alguns amontoados de senhores de chapéus estrelados cor de âmbar se eles saberiam uma forma de ficarem grudados firmemente e fixamente numa parede.
- Jamal! Já sei... Eu lembrei do casamento de minha mãe!!!
- Como assim, o casamento de sua mãe!? O que isso tem a ver com toda essa história da Raven e desses quadros?
- No dormitório conversamos melhor... – Disfarçou o corvinal de cabeça azulada, sabendo que nessas épocas em que estavam o melhor era a discrição.
Chegando ao dormitório, os rapazes trataram de retirar parte das vestes, Darien ficou apenas com a camiseta que tinha por baixo das vestes, enquanto Jamal apenas estava de calças, virado de frente ao seu baú, provavelmente procurando por algumas peças de roupa.
- Então... – Dizia Jamal. – O que essa mistureba toda tem de relacionado com a Raven e os quadros da escola?
- Com os quadros, de nada têm a ver, mas eu me lembro bem de como alguns pôsteres que decoravam o casamento de minha mãe foram colocados presos nas paredes, sem que o vento os levantasse. Algo do tipo não-sei-bem-o-quê-Firmarea. Lembro que uma tia do Lars quem o havia conjurado, e que perto do dia de voltar para casa que a moça tinha ido lá remover as imagens. Talvez tenha algo disso na biblioteca. Depois do jantar voltarei lá. Jamal, se você não quiser, não precisa ir.
- Sério? – Olhou Jamal, um pouco cabisbaixo. Jamais havia pensado que Darien sugerisse que eles se separassem por um momento.
- Não falo sério, seu tolo. Mas se você já se sentir cansado de tanto ler e mexer em livros empoeirados, não me importaria se preferisse ficar aqui no quarto, deitado na cama; escrevendo ou lendo alguma coisa.
- Está certo... – Balbuciou o rapaz mais alto.
E como idealizara, Darien jantou rapidamente e saiu em disparada para a biblioteca, madame Pince já se encontrava lá e olhou por entre os dentes para o garoto, que parecia eufórico.
- Calma, Sr. Semog! Os livros ainda não têm capacidade própria de saírem dos muros do colégio.
- Oh, sim. Desculpe, Madame Prince. – Darien desculpou-se à bibliotecária da escola.
Resolveu procurar na seção de feitiços estranhos, e nada encontrou. Na seção Oriental nada apontava rastros de algo parecido, apenas verificou um título interessante: Apanhando de sonhos com mandrágoras, um conto de dois irmãos que se perdiam no nascimento e um deles crescia no meio de mandrágoras, tornando-se imune a elas.
- Droga! Não acho nada por aqui.
De um estalido no ouvido esquerdo, o garoto seguiu para a seção que continha livros de feitiços para fins específicos. Darien não sabia ao certo por onde procurar, mas dada a finalidade para a qual o feitiço foi utilizado, o garoto foi objetivo; seção de decoração de interiores. Algo que particularmente não o interessava, mas, naquele momento serviu como luvas de ferro em meio ao ácido que escorria pelos corredores de Hogwarts.
- Espero que aqui tenha alguma coisa.
- Sr. Semog, o senhor tem vinte minutos aqui dentro.
Darien não percebeu que o tempo fora curto, e passara muito rápido. Ninguém mandou não pensar antes, foi se apegando às lembranças do casamento de Becky aos poucos.
Folheou todo o livro e nada parecia servir, até que: Feitiços colantes/adesivos. Finalmente havia achado algo próximo, mas todos pareciam ter período de duração, quando já não tinha mais esperanças alguma de ajudar a amiga, encontrou Wallus Firmare, um feitiço adesivo muito forte e eficiente, para removê-lo apenas ácido de estômago de dragão jovem.
Darien transcreveu os procedimentos para o feitiço, guardou bem a pronúncia forte e arrastada que deveria fazer ao pronunciar o Firmare, seguiu feliz de volta ao dormitório. Darien, finalmente, havia escolhido um lado desta guerra. E, estranhamente, se sentiu mega contente ao ser um rebelde na escola.
Agora era necessário avisar à Raven quem o feitiço estava a mãos, e por em prática tudo o que ela e o Sat estavam tramando.
No dia seguinte à minha conversa suspeita com Satanio no jardim, saí em busca de Darien para falar-lhe sobre nosso plano e perguntar se ele poderia nos ajudar com o feitiço de que precisávamos. Era comum acharmos que os Corvinais eram os melhores em termos de feitiços, devido à assessoria direta do Prof. Flitwick, e a lembrança do Cabelo Azul também foi pontual, levando-se em conta a destreza com a varinha que ele demonstrou quando daquele antigo episódio do Plano Contra os Sonserinos...
Rodei o castelo e nada de achá-lo; desanimada, rumei para a biblioteca. Talvez se eu mesma procurasse nas estantes dos livros mais antigos e esquecidos poderia achar o que precisava.
Pois foi justamente quando desisti da busca e esperei que a Mão do Invisível colocasse o Cabelo Azul em meu caminho que então o achei. Sentado a uma mesa ao fundo da biblioteca, Darien lia um grande livro em comum com Jamal; formavam uma dupla concentrada, as cabeças muito juntas, atentos ao que estava escrito. Um mar de pergaminhos os circundava.
Fiquei sem saber o que fazer. Atrapalhá-los me pareceu de uma extrema indelicadeza, já que estavam tão absortos em coisa a princípio mais relevante do que procurar meios para disseminar o caos entre as Cenouras. Entretanto, no que poderia ser uma transmissão de pensamento bem a propósito, Jamal ergueu a cabeça, chegou sua cadeira um pouco para trás e estirou-se num delicioso espreguiçar. Quando retomou a posição de leitura, nossos olhos se cruzaram; sorri para ele, que me sorriu de volta e cutucou Darien, dizendo:
- Veja, D, é a sua amiga sonserina, a Sinclair.
Darien ergueu o olhar na minha direção e também sorriu, acenando para que me aproximasse.
- Olá, Raven! – ele me cumprimentou, gentil – Veio procurar alguma receita complicada para alguma poção especial?
- Não, meu caro... Eu estava, na verdade, procurando por você – respondi, baixando um pouco a voz – Será que eu poderia atrapalhar um pouco seu estudo? É coisa rápida. Preciso fazer uma pergunta para você, Cabelo Azul... – E completei, dirigindo-me a Jamal: - Me empresta o Darien uns minutinhos? Prometo que o devolvo direitinho.
- Se você jurar que cumprirá a promessa, empresto sim – respondeu o rapaz, ainda sorrindo – Enquanto isso, vou adiantando a leitura aqui, D.
Levei Darien para perto de uma estante e escolhi um livro. Abri-o e, enquanto o folheava à procura de coisa alguma, expliquei ao corvinal:
- Darien, eu e o Sat estamos com um plano para fazer os Cenouras de bobos. É coisa simples, tem a ver com as pichações que o pessoal da AD, segundo a Lore, quer fazer em Hoggy, lembra?
O Corvinal anuiu. Parei em uma página qualquer do livro, deslizei o dedo por ela e apontei um parágrafo. Continuei com a explicação:
- Entretanto, precisamos de um Feitiço Adesivo que seja mais forte que o usual, mas nem eu nem o Diabo Loiro temos idéia de como se faz uma coisa dessas. Ficamos algum tempo pensando até que o Sat lembrou de você, e eu concordei com ele.
- Obrigado, Raven, pela confiança, e adorei a idéia! – disse Darien, com os olhos brilhantes – Eu não sei exatamente, de cabeça, como incrementar o Feitiço Adesivo, mas vou procurar saber o mais rápido possível e o ensino a você. Ou, se achar melhor, me junto a vocês na hora da ação e faço o feitiço. Quando será o ataque?
- Ainda não sabemos, Azul... Eu e Sat estamos esperando o feitiço para poder bolar a estratégia de ação – expliquei, folheando novamente o livro – Hm, talvez seja melhor você me ensinar o feitiço... Veja bem, Darien, não quero excluir você, mas é que, para executarmos o plano, teremos que usar a capa de invisibilidade do Sat, e acho que não caberemos nós três debaixo dela... Porém, tudo ainda está na fase de esquematização, podemos ver o que combinamos.
- Entendi... Mas, o feitiço vai aparecer, palavra de Corvinal! – exclamou Darien, esfregando as mãos.
- Obrigada, Cabelo Azul! – falei, com um sorriso – Ah, mais uma coisa: comentei o plano só com o Sat não porque não confie em nosso grupo, ou nos ache melhores nisso que os demais. É apenas um costume antigo nosso, de dividir mal feitos... e confesso que fiquei com medo de envolver mais pessoas. E se formos pegos? Contudo, Darien, se você quiser, pode comentar com nosso pessoal sobre a idéia. Só não sei se será possível incluir todos na ação.
- Tudo bem, mas acho que só falarei se tiver oportunidade. Talvez seja arriscado convocar uma reunião... Vamos ver como as coisas vão ficar. Assim que conseguir o feitiço, passo para você, ok?
- Valeu, Darien! – exclamei, sorrindo. Depois, guardando o livro de volta à estante, brinquei: - Acho melhor voltar para a sua mesa, antes que Jamal pense que eu seqüestrei você...
Despedimo-nos, sorridentes, e deixei a biblioteca com a sensação de que aquele plano tinha tudo para dar certo. Em breve Hogwarts sentiria cheiro de cenoura queimada no ar...
- Rav, ouça essa pérola: Ao entrar em contato direto e inesperado com um trouxa, não se preocupe; ele é suficientemente imbecil para não entender que se deparou com um bruxo. Basta desaparecer imediatamente de sua frente e o inepto trouxa acreditará que esteve sonhando.
Segurando o riso, Satanio lia, com doutoral entonação, um trecho de nosso atual livro de Estudos Trouxas. Irritada, externei minha opinião com uma careta, que depois escondi mergulhando o rosto no barrigão gordo de meu gato Jack, que se lambia filosoficamente.
- Achou pouco, querida? Tem mais. Uma advertência para jovens bruxos sobre as perigosas trouxas: Mulheres trouxas são insípidas e insignificantes. Não é aconselhável a nenhum jovem bruxo, principalmente os de estirpe, misturar seu sangue puro ao dessas frágeis criaturas. O mesmo se aconselha às jovens bruxas em relação aos trouxas do sexo masculino. Orgulhem-se de seu nascimento. Preservem a raça. Trouxas são diversão, não compromisso.
- Que bonito, isso! – exclamei, com um sorriso maldoso – A mestiça aqui agradece a gentileza!
- Desculpe, Rav, eu estava só... – começou Satanio, jogando o livro no gramado.
- ... lendo essa porcaria que a Cenoura Cozida chama de livro didático – cortei, ao perceber que o loiro achava que me magoara de verdade – Esquenta não, Sat, apenas comentei como é agradável nosso atual curso de Estudos Trouxas...
Satanio, então, juntou algumas folhas de pergaminho meio escritas que eu havia espalhado na grama à nossa frente e sentou-se um pouco mais perto de mim. Olhou, distraído, os poucos estudantes que também desfrutavam do fraco sol daquela tarde e só então me fez a pergunta que eu imaginava que já estivesse a queimá-lo já há algum tempo.
- Rav, eu quero ser um pufoso rosa choque se você realmente me trouxe pelo braço até o jardim de Hogwarts para estudar essa droga – ele comentou, cutucando o livro que ele jogara na grama e olhando-me nos olhos com uma expressão séria – Sou seu amigo, não me maltrate; conte logo a porcaria que vamos fazer antes que eu tenha um treco de curiosidade.
Sorri. Respirei fundo, olhei ao redor buscando algum traço cenoural, mas nada vi. Então, expliquei:
- Tenho pensado muito na questão das pichações, sabe? Que a Lore comentou sobre o pessoal da AD estar planejando. É uma excelente idéia, mas queria armar uma coisa que não só desafiasse os Cenouras, mas também os envergonhasse na frente dos alunos. E acho que tive uma idéia que pode dar certo, se você topar me ajudar.
- Mande a idéia. Sou todo ouvidos.
Abri o livro de Estudos Trouxas novamente e, apontando um parágrafo a esmo, murmurei o esboço de meu plano para um Satanio cada vez mais animado. Em seus lábios lentamente se desenhava aquele seu meio sorriso característico de quando era capturado por um mal feito irresistível... Quando me calei, ele passou a folha do livro e me apontou um outro parágrafo qualquer.
- A idéia é excelente, Rav. Na verdade, o mundo está perdendo uma extraordinária mentora de planos malignos... Ah, se você ficasse um pouco mais Sonserina! – ele comentou, matreiro.
- Se eu ficasse um pouco mais Sonserina, Sat, me tornaria... uma deles – respondi, com um arrepio.
O loiro e eu nos entreolhamos, e então ele bagunçou meu cabelo num gesto estabanado. - Raven Sinclair, o dia em que você se tornar uma Comensal da Morte eu desfilo pelado no salão principal desse castelo!!! – ele exclamou, morrendo de rir.
Fiz menção de me levantar, mas Sat me segurou pela manga da veste.
- Ei, onde você pensa que vai? – ele exclamou, surpreso.
- Vou imediatamente ao gabinete do Professor Snape! – afirmei, segurando o riso – Depois dessa, ele acaba de ganhar mais uma serviçal para Tio Voldão e Hogwarts poderá presenciar um acontecimento que renderá um capítulo inteiro de Hogwarts – Uma História!!
- Putz, Raven, estou realmente surpreso! – Sat retrucou, o corpo sacudido pelas risadas – Nunca imaginei que você teria tanto empenho em me ver sem roupa!
- Meu amigo, conheço uma lista de gente aqui que adoraria ver essa cena, mas, para seu governo, eu não estou nela. Eu preferiria...
- Não! NÃO! Eu não quero ouvir isso!! Não quero sequer pensar numa coisa dessas!! Pelo amor de Merlin, vamos voltar ao plano imediatamente!!! – o loiro exclamou, frenético, agitando as mãos e esbugalhando os olhos, arrancando-me risadas e um profundo rubor que esquentou minha face.
- Melhor nos contermos, mesmo, porque estamos arruinando nosso disfarce – asseverei, mais calma – Ninguém ri às gargalhadas enquanto estuda, a não ser que seja um ataque de riso histérico por incompreensão – acrescentei, lembrando-me das malditas aulas de Aritmancia.
Sat anuiu. Pegou a pilha de pergaminhos e entregou-me um deles; apontou-me seu conteúdo – que nada tinha a ver com o que conversávamos – e enumerou, concentrado:
- Para o plano funcionar, temos a minha Capa de Invisibilidade, o texto que você escolheu e a cara de pau necessária. Só nos falta o ingrediente principal, o feitiço aditivado que nem eu nem você sabemos fazer.
- Pois é – suspirei, entristecida – Se a Meri estivesse conosco...
Sat, em silêncio, perdeu o olhar no jardim. Até que exclamou, satisfeito:
- Perdemos a Grifinória, mas temos um Corvinal de plantão. O Semog saber o feitiço e, se não souber, tem o Prof. Flitwick à mão. Está resolvido, Ravenzinha: sua missão agora é procurar nosso amigo Cabelo Azul e pedir-lhe ajuda. Aposto que ele vai adorar participar da festa.
- Sem dúvida, Sat, mas tenho medo de envolver muita gente nessa tramóia. Se formos pegos...
- Ah, quer dizer que eu posso ser pego e torturado junto com você, mas o coitadinho do Semog não? Ele faz parte da resistência também! Que proteção é essa? – o loiro exclamou, indignado.
- Mas, Sat, você não entendeu, não é nada disso! É que... Ei, por que você está rindo?? Sat, seu implicante, você está impossível hoje! – exclamei, batendo nele de leve com o livro de Estudos Trouxas enquanto ele rolava de rir na grama, troçando de minha cara culpada.
cá estou eu de novo para dar um sinal de vida para vocês. A Lucilla (Dhara) ainda continua enrolada com a faculdade, e me mandou um e-mail avisando que só estará plenamente livre no dia 24 ou 25. As coisas estão um pouco pesadas para ela, com dois estágios, faculdade e uma internet carroça dividida por três pessoas.
Enfim, novamente peço desculpas e compreensão.
Para não deixar vocês "no vácuo", vou fazer duas coisinhas. A primeira - logo abaixo - é um preview da segunda parte do arco.
A segunda é que na sexta feira colocarei no ar o começo de um arco estrelado por Raven,Sat e Darien, em um elaborado plano anti-cenouras!
bjs, Meri
Payback – Parte 2 - Preview
Meridiana observava com os murmurinhos da platéia de sonserinos que estavam em volta dela. Não havia nenhum rosto cuja expressão não fosse de verdadeiro espanto, mesmo naqueles cujo deleite era notável.
Mesmo com todo o posicionamento pró-comensal que ela vinha demonstrando desde que se propusera a fingir diante dos colegas, parecia inconcebível – e quem sabe ousado – uma grifinória estar às portas da Sonserina com um lufano completamente detonado a tira colo.
Esteriótipos acabaram se tornando uma verdade praticamente incontestável em Hogwarts no decorrer dos séculos.
“É hora de quebrar paradigmas”, a ruiva pensou consigo mesma. Mesmo que no caso dela fosse simulação, grifinórios não eram todos heróis, tampouco sonserinos eram todos vilões.
As conversas pareciam ter se ampliado, crescendo da porta da ala da casa das serpentes até onde a ruiva se encontrava, à medida que Theodore Nott e seu séquito abriam caminho por entre os outros alunos.
Meridiana sorriu de lado, satisfeita em perceber que o plano estava funcionando tão bem quanto um relógio suíço. Raven conseguira reter Satanio na ala, Theo aparecera sem problemas. Bastava apenas esperar um pouco até que Adhara pudesse dar as caras.
-Era exatamente o que você queria, não, primo? – a ruiva perguntou, dando um sorriso pretensamente malicioso – Um pouco de sangue derramado para compensar o que ele tirou de você.
Pessoas amadas e queridas que lêem o Expresso Hogwarts, fomos obrigados a dar uma pequena pausa. A Lucilla (Dhara) foi pêga de surpresa por algumas provas de última hora (professores adoram fazer isso) e o fechamento do arco do Payback precisou ser momentaneamente adiado.
Talvez sexta a gente consiga trazer o resto do arco para vocês, mas é mais provável que fechemos a história na semana que vem.
Pedimos desculpas pelo transtorno, mas, espero que compreendam a situação. Apesar de nossa paixão pelo Expresso, os estudos vêem em primeiro lugar.
Enquanto isso, aproveitem as fics das últimas semanas e dêem uma olhadinha nos nossos outros trabalhos, Amaterasu e New Dawn.
Em uma das masmorras vazias da escola, Meridiana olhava pela fresta da porta o fluxo de sonserinos que se dirigiam para a ala das serpentes. Se Theodore queria uma vingança em grande estilo contra Kyle era exatamente isso que ela daria a ele, um espetáculo com direito a platéia. Fazia cerca de quinze minutos que a ceia findara. Ela viu o vulto de Adhara passar pouco tempo antes, juntamente com alguns poucos sonserinos que saíram mais cedo do jantar. Raven e Satanio também já haviam seguido sala comunal adentro. Ela combinara com a amiga para que ela contivesse o loiro e não estragasse a atuação. Estava tudo saindo perfeitamente conforme o combinado entre eles. A ruiva olhou para trás, vendo Kyle encostado na parede, um pouco constrangido pelo resultado final da maquiagem de teatro que a prima lhe aplicara. - Cara, nem nas piores brigas que eu me meti na Grécia eu acabei tão detonado – ele murmurou baixinho. Meridiana saiu de perto da porta aproximando-se dele com um pequeno sorriso. - Isso significa que temos uma excelente chance de nos sairmos bem dessa enrascada. – ela falou, pousando a mão no ombro dele. Pela expressão do rosto de Kyle, parecia que finalmente ele começava a compreender a gravidade da situação em que haviam se metido. - O que estamos esperando? – ele perguntou, fitando a prima grifinória com relativa apreensão. - O bobo da corte de nossa peça. Sem Theodore, não podemos começar. – ela virou-se momentaneamente, tirando do bolso uma pequena pílula e entregando para o lufano, que a engoliu sem pensar duas vezes. – Logo, logo o “nugá sangra-nariz” vai fazer efeito, mas antes... - Antes o que? – Kyle perguntou, sem perceber que Meridiana tirara a varinha da capa. - Preciso te colocar para dormir ou seu pavio curto vai estragar tudo. Não vai doer, eu prometo. Sem esperar que Kyle pudesse contestá-la, ela murmurou Morpheus Serenati, fazendo com que o primo caísse em um sono suave, porém profundo. Ela reconheceu a voz de Theodore vindo pelo corredor e se apressou até a fresta da porta. Ele estava rodeado de colegas, inclusive Pansy Parkinson e Millicent Bulstrode. Parecia que o antigo grupinho do Malfoy havia abandonado o loiro quase por completo agora que ele parecia ter caído em desgraça e se juntara em torno de Nott como figura de destaque. Revirando os olhos, ela deixou que eles alcançassem a entrada da ala das masmorras, e, depois que mais um grupo de sonserinos além deles passou, ela virou-se para Kyle, apontando a varinha para o rapazinho desacordado. - Levicorpus. O corpo do lufano começou a flutuar desajeitadamente como se uma mão invisível o segurasse pelo pé, o sangue – efeito do nugá – pingava pelo nariz de Kyle, sujando as pedras cinzentas do chão. A ruiva abriu a porta pesada da masmorra com um forte puxão e saiu à frente, trazendo o corpo de Kyle flutuando molemente como um marionete atrás de si. - Com licença – Meridiana se aproximou, cutucando as costas de um primeiranista que estava prestes a entrar na ala das serpentes. – Poderia chamar Theodore Nott para mim? O garotinho virou-se para responder, mas não conseguiu articular palavra alguma ao notar o contraste da cena que via: uma moça bonita, com um sorriso insinuante nos lábios, ao lado de um rapaz desacordado e aparentemente muito machucado que flutuava no meio do corredor como um fantasma. Ele apenas assentiu, correndo para dentro da sala comunal verde e prata. A ruiva escutou novas vozes vinda de suas costas. Alguns sonserinos retardatários se aproximavam. O sorriso dela aumentou. O circo estava se armando.
*****
Adhara havia se posicionado estrategicamente em uma poltrona que ficava no lado oposto da lareira do salão comunal, o lugar que outrora fora o ponto de encontro de Draco Malfoy e seus comparsas mais próximos, mas que hoje era ocupado por Theodore, Zambini e todos os demais veteranos proeminentes da Sonserina. Apesar de estar longe, ela podia ter uma visão bem clara do que estava acontecendo no grupo de Theodore. Eles estavam conversando e rindo enquanto saboreavam alguns petiscos que os elfos domésticos agora sempre deixavam à disposição dos alunos da Sonserina no salão comunal. Pansy estava sentada no braço da poltrona de Theodore e ria com especial entusiasmo de tudo o que ele falava. Em dado momento, ela colocou a mão sobre o ombro de Nott e se curvou para ele, mas Theo, muito discretamente, retirou a mão dela e voltou sua atenção para dizer algo a Blaise Zambini. Adhara deu um meio sorriso de apreciação ao ver a expressão contrariada de Pansy. Ela se forçava a admitir que Theodore tinha pelo menos um ponto positivo a seu favor – ele tinha um melhor gosto para mulheres do que Draco. - Nott! Nott! Quase todas as cabeças do salão comunal da Sonserina se viraram para observar o menino magricela que irrompeu pela porta, gritando pelo nome do setimanista. Adhara se esqueceu no mesmo instante da satisfação de ver Pansy ser rechaçada e focou cada fibra de sua atenção na figura do garotinho. Ele parecia estar aterrorizado, atônito e, ao mesmo tempo, excitado. Ele correu aos tropeços para o grupo de Theodore assim que os localizou, e, por causa da distância, a morena não pôde ouvir o que ele dizia a Nott e nem tentar fazer uma leitura labial, pois o primeiranista ficara de costas para ela, mas ela podia ver o semblante de Theo e notar as sobrancelhas do rapaz se unirem em uma expressão que mesclava desconfiança e curiosidade.
Theodore se levantou, flanqueado por Blaise, Pansy e Millicent, e seguiu o garotinho para fora do salão comunal, sob os olhares de diversos outros alunos. De seu lugar a jovem notou que alguns grupinhos de curiosos, uns discretos, outros nem tanto, tinham decidido seguir os quatro setimanistas.
Ela soltou um curto suspiro, recostando-se melhor na poltrona, e tateou o bolso de sua capa para retirar de lá um relógio redondo e prateado. Adhara abriu a tampa do visor e checou a hora: 8:15 da noite, exatamente o horário que havia combinado com Meridiana. Havia começado.
A morena fechou o tampo do relógio e cruzou os braços. Daria à Meri os dez minutos que a prima pedira para conversar com Theodore e mostrar ao sonserino o resultado final da “lição” que a ruiva dera em Kyle, e então partir para cumprir o seu papel na pequena peça que orquestraram.
Ela inspirou fundo e fechou os olhos. Aqueles provavelmente seriam os dez minutos mais longos de sua vida.
Era uma manhã calma, especialmente pelo fato de quase todos os habitantes da casa estarem ausentes. Não que houvessem muitos: somente quatro moradores para aquela casa grande. Os três rapazes tinham saído para fazer compras no mercado e aceitaram quando Sam pediu para ficar em casa.
Lusmore não tocara no assunto do dia em que viu a morena chegar abalada, mas entendeu que ela estava dando um tempo em casa. E por isso convenceu os outros rapazes a deixar a única garota da casa ganhar uma manhã de madame como presente.
Sam estava sentada no sofá lendo um livro que Cyan a emprestara sobre feitiços defensivos. Um ou outro ela tentava fazer com sua varinha, mas sabia que precisaria de alguém junto para praticar direito.
A porta da sala se abriu e os olhos cinzas da jovem olharam para a pessoa que entrava, Godfrey McKinnon. Ele sorriu para ela enquanto dava passagem para três pessoas que vinham atrás dele entrarem.
- Bom dia, Samantha. Tenho novidades. Onde estão os outros moradores da casa? - ele perguntou bem humorado, tirando um sapo de chocolate do bolso e jogando na direção dela, que o pegou no ar.
A garota se levantou, com um meio sorriso, mas antes que pudesse responder alguma coisa, um dos rapazes que chegara com Godfrey andou rapidamente até ela, abraçando-a.
- Samizinha! Não acredito que você está aqui! - ele a levantou no ar. - Ao menos um rosto familiar nessa bagunça de país.
Ainda meio tonta, Sam olhou para o rapaz que ainda a abraçava e reconheceu o amigo de infância, vizinho de anos, Michael Byrne.
A família dele se mudara três anos atrás do prédio onde Sam morava com seus pais e desde então não falara mais com o rapaz. Os dois tinham uma pequena diferença de idade, somente dois anos, mas fora o suficiente para que em Hogwarts praticamente se ignorassem.
- Oi, Michael. - ela respondeu, soltando-se.
- Vejo que ao menos dois de vocês já se conhecem, o que facilita a adaptação de vocês. - Godfrey observou - Eu gostaria de explicar só uma vez, sabe se os rapazes vão demorar?
Como se em resposta à pergunta de Godfrey, os outros três ocupantes da casa chegaram, carregados de sacolas. Lusmore, que até então estivera cantarolando uma melodia alegre, silenciou-se, os olhos se fixando nos três desconhecidos com suas malas ao pé do sofá.
Herman e Isaac se encararam, mas foi o bardo quem colocou em palavras o que ambos tinham pensado.
- Substituição do time?
- Entrem, entrem. - Godfrey respondeu, ignorando o olhar inquisitivo do sobrinho - Guardem suas compras e voltem para cá, temos algumas coisas para conversar. E vocês não vão ser substituídos, relaxem.
O silêncio reinou na casa enquanto os que estavam na sala se acomodavam e esperavam os outros retornarem. Parecia que ninguém, sem contar Godfrey, sabia o que estava acontecendo.
Nas regras passadas aos participantes da Resistência, cada célula tinha até três participantes. A célula comandada por Lusmore era uma exceção, com quatro pessoas juntas – mas isso era obviamente explicado pelo fato de que eles tinham formado um time mesmo antes de seguirem para aquele lugar.
Também fora informado que ficaria uma célula em uma casa e que nenhuma saberia da outra, haveria troca de informações entre elas apenas em situações de necessidade, e, mesmo assim, através dos contatos que usualmente faziam essa ponte de ligação, como o próprio Godfrey McKinnon.
Aquela situação naquela sala de estar era inusitada e inesperada por todos.
Quando os recém-chegados afinal se juntaram a eles, sentando-se no sofá e olhando para o homem, este começou a falar.
- Como vocês já sabem normalmente uma célula não teria contato com outra. Mas devido a um problema interno, vocês serão exceção novamente. Essa casa é grande o suficiente para acomodar vocês sete. - ele se interrompeu, como se esperasse por perguntas. Como estas não vieram, continuou. - Tenho certeza que não irão comentar sobre suas missões e nem entrar em detalhes que não diga respeito à outra célula. Em compensação terão mais pessoas para trocar experiências.
Os rostos confusos e pensativos fizeram Godfrey se perguntar se era correto aquilo, mas ao mesmo tempo não tinha escolha. Aquela casa estava bem protegida e até aquele momento não estavam conseguindo novas casas para esconder o pessoal da Resistência.
- Perguntas? - ele falou, tentando puxar algumas reações dos outros.
- Eu tenho uma. – Lusmore levantou a mão, voltando-se para os novos inquilinos – Algum de vocês sabe cozinhar?
Herman deu um meio sorriso fraco, enquanto Isaac revirava os olhos. Sam meneou a cabeça.
- Você realmente não tem jeito, não é?
- Bem, se eu não cozinho, ninguém come nada que preste por aqui. – o bardo observou – O cão aqui não sabe descascar uma batata e Herman é distraído demais para deixar qualquer coisa no fogo com ele vigiando. Minhas costelas que o digam, elas ficaram intragáveis de tão queimadas.
- Eu ajudo! – Sam exclamou.
Ele deu um meio sorriso de lado, mas não respondeu. Um dos garotos ergueu a mão.
- Eu cozinho. Ajudava minha mãe quando estávamos sozinhos.
- Ótimo. Sejam bem-vindos à casa. Hoje você cozinha.
*****
O loiro deixou sua mochila cair no chão e olhou para Sam. Os dois estavam sozinhos agora, já que Isaac e Godfrey tinham se retirado para conversar alguma coisa sobre a questão das comunicações entre cada célula e seus dirigentes – o ex-corvinal ficara responsável por ajudar naquela questão – e Herman e Lusmore tinham seguido com os outros dois novos companheiros.
Lusmore, aliás, desaparecera em direção à cozinha com Troy, conversando animadamente sobre como eles poderiam revezar na cozinha para fazerem almoços decentes e não “essas coisas sem gosto e extremamente nocivas à saúde desse povo que inventou fast-foods”.
Aquela era uma coisa que ela só viera descobrir sobre o bardo quando tinham passado a morar em Londres. Em Hogwarts, ele nunca reclamara de sua comida. Ali, contudo, eles tinham acabado por descobrir que, por conta dos muitos anos vivendo nas florestas de Lyon com druidas e druidesas, Lusmore era absolutamente contra qualquer tipo de comida enlatada, condicionada ou minimamente industrializada.
E, embora ele não fosse um cozinheiro de primeira, isso significava que, pelo menos, estavam livres de alimentarem-se apenas de hambúrgueres, batata-frita e milkshake até a guerra terminar.
- Não acredito que você está na Resistência, não tem nem 17 anos. - Michael virou para Sam - Principalmente conhecendo sua mãe...
- Estão todos na França. Eu pedi para ficar aqui e meu avô deu uma ajuda. - ela sentou melhor no sofá e virou o corpo para ele. - E a Tia Jacy?
- Minha mãe conseguiu fugir, mas meu pai foi pego e preso. Não sei onde ele está... - ele baixou os olhos levemente. - Até por isso eu estou aqui. Quero encontrá-lo.
Sam levou sua mão até a do rapaz. Conhecia a família dele há anos e saber que o Sr. Byrne, que ela chamou de Tio Bill por tanto tempo, sumira a fez querer ajudar Michael. Um sorriso surgiu no rosto do loiro ao sentir aquela mão quente sobre a sua.
- Você cresceu e está tão bonita quanto sua irmã.
Sam se lembrou do jeito de ser de Michael, que sempre tentou namorar sua irmã, e puxou sua mão. A última coisa que a morena queria era pensar em romance, principalmente no meio de uma guerra.
- Certas coisas não mudam, não é? - ela falou. - Se cair na rede é peixe...
O rapaz sorriu e pegou sua mochila.
- Vai me mostrar onde é meu quarto? - o loiro falou piscando para Sam.
A resposta dela foi um virar de olhos e o abrir do livro que estava ao seu lado, enquanto levantava o dedo mindinho para Michael. Quando crianças seus pais os proibiram de xingar um ao outro e eles passaram a usar símbolos nas mãos para burlar os adultos. Levantar o dedo mindinho era equivalente a levantar o dedo do meio.
- Vejo que seu bom humor continua o mesmo. - Michael passou a mão na cabeça dela, bagunçando o cabelo, antes de subir.
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Alguns Comunicados
Título auto-explicativo. XD
Bem, brechinha para contar algumas novidades e também algumas pequenas mudanças.
A primeira é que eu resolvi mudar o ator do Kyle. Eu gosto do Zac Efron, contudo, o Thomas Dekker, que já fez Heroes e faz o John Connor em Terminator: The Sarah Connor Chronicles, tem com "cara mais de meninão perdido no meio do furacão" que o Zac, e também mais cara de moleque, apesar da cara sujinha. Sem falar que o Christian Bale (Ludo) faz o John Connor no cinema e estou juntando as duas coisas XD
Além disso, quero usar a Lena Headey, que faz a Sarah Connor na série, como a Lucy mais velha, já que dá para achar fotos dos dois juntos. E, embora ela faça mais papéis de "mulheres fortes", como a rainha de Esparta, a própria Sarah e a mocinha de Irmãos Grimm, ela tem fotos mais doces e melancólicas. Sem falar que, apesar da aparente fragilidade, a Lucy é uma mulher (muito) forte.
A segunda mudança diz respeito tanto ao Fogo e Gelo - cujo link está na parte de "Outras Histórias" e que, quando a inspiração vier, pretendo fazer um bottom mais arrumadinho - e o Dolls da Katchoo - que deve ter atualização hoje a noite, estão com um novo sistema de comentários
Muita gente reclamou que não conseguia usar o sistema de comentários do Blogger e para dar vazão a todos coloquei nos menus aquelas caixinhas de comentários. Usem e abusem:
A terceira notícia é 100% novidade. A Lulu, para dar (ainda mais) vazão a sua fome de escrever, criou um blog, o Coruja em Teto de Zinco Quente, onde ela pode colocar todas as loucuras que não consegue postar aqui, no Amaterasu e em nenhum outro lugar.
Mina deu um meio sorriso, virando ligeiramente a cabeça para ver o irmão sentado desajeitadamente no chão, tentando fazer as peças de um quebra-cabeças se encaixarem – que consistiam, naquilo preciso instante, em fazer caber um quadrado dentro de um círculo.
- Muia!!!
- Sinto muito, Kieran, mas eu tenho de terminar de arrumar meu guarda-roupa. – Mina respondeu – Ordens da Dona Holly. Se eu não obedecer, sabe-se lá o que ela pode fazer comigo...
- Oly nã ma. Oli, oly!
A moça riu de novo, voltando a atenção para as gavetas abertas diante de si, onde as roupas acumulavam-se, amassadas ou jogadas de qualquer jeito. Aos pés dela, já havia uma pilha de blusas e calças que, para surpresa da garota, já não lhe serviam mais.
Tudo parecia muito curto. Ou muito folgado. O que significava que ela estava crescendo... e perdendo peso ao mesmo tempo.
- A continuar nesse ritmo, eu vou virar um palito... – ela resmungou para si mesma.
Essa não era sua principal preocupação, contudo. Considerando que mais da metade de seu guarda-roupa estava jogada aos seus pés, isso significava que não tinha sobrado muita coisa para ela vestir. O que a levava para outro dilema: como faria para arranjar mais roupas? Ela não podia ir a Londres comprar. E também não ia fazer Holly de sua "escrava particular" para apertar todas aquelas calças.
Sempre podia procurar o alfaiate de Prydery... Só que existia um pequeno problema nessa condição... A moda das Hébridas parecia ter simplesmente estacionado no tempo. Qualquer um que fosse à vila e não estivesse acostumado ao modo de viver do lugar, pensaria seriamente que fizera uma viagem para o passado.
E tudo o que ela precisava era de corseletes medievais impedindo-a de respirar...
Talvez pudesse dar uma olhada no sótão depois. Havia baús e baús de roupas antigas lá. Quem sabe não tinha a sorte da avó ser do seu tamanho? As fotos que mostravam Stella MacFusty pela casa sempre a traziam em roupas aparentemente confortáveis. E isso era tudo do que ela realmente precisava.
Foi nesse instante que os olhos dela bateram em um objeto esquecido nos fundos do guarda-roupa. Um sorriso melancólico surgiu nos lábios da menina, enquanto ela puxava o cãozinho de pelúcia que ganhara de Lorelai no Natal do ano anterior.
- Napoleão... Eu tinha praticamente me esquecido de você... – ela desculpou-se, abraçando o bichinho – Kieran! Eu tenho alguém para te apresentar!
- Enta! Eeee! Em, em, Mi!
Ela caminhou até o irmão, sentando-se de frente para ele, colocando o brinquedo entre os dois.
- Kieran, esse é Napoleão. Mas você pode chamá-lo carinhosamente de Napinha.
- Inha! – o menino respondeu, batendo palmas, antes de puxar o pobre Napoleão pelas orelhas, mordendo-lhe o focinho.
- Ei! Peraí, não é para você morder o coitado! – Mina tentou, o mais gentilmente possível, tirar o focinho de pelúcia de Napoleão da boca de Kieran – Eu não sabia que já estava na hora de começar a procurar mordedores para você...
- Mmmmm... – ele respondeu, lutando ainda por alguns segundos, antes de soltá-lo – Inha!
Ela não pode se impedir de rir quando afinal recuperou Napoleão para seu colo, ainda que um tanto babado e amassado.
- Depois eu vou arranjar alguma coisa para você morder, mas não faça mais isso com o Napoleão, certo? – ela pediu, abaixando a cabeça até ficar no mesmo nível do irmão – Obrigada, Kieran.
- Mia?
Ela sorriu, afetuosa. Desde o dia anterior, quando conseguira fazer alguns pequenos fiapos de vapor prateado deixarem sua varinha enquanto tentava mais uma vez executar o feitiço do patrono, ela se sentia um pouco mais leve. E devia isso ao irmão. Fora apenas após passar uma tarde toda envolvida em brincadeiras com o pequeno que ela sentira-se suficientemente contente para evocar o encantamento.
Ainda estava um pouco deprimida, é verdade; o sentimento de impotência que a dominava desde que tinha deixado Hogwarts no meio da noite, após a morte do professor Dumbledore, continuava lá... Mas com o passar dos dias, com o trabalho que começara a fazer, com as aulas que tinha com Holly e o avô, aos poucos, as coisas pareciam estar voltando aos seus lugares.
Demoraria para que ela pudesse voltar a ser a Mina de sempre. Mas ainda havia esperanças. Ela não podia deixar de acreditar. Se deixasse de crer, o que mais lhe restaria?
Tinha de conseguir se comunicar com Lusmore. Tinha que descobrir o que acontecera com os amigos. Tinha de fazer o possível e o impossível para atender as expectativas de seu avô, de Holly, dos domadores, dos aldeões... e, acima de tudo, às suas próprias expectativas.
Haveria momentos em que iria desanimar. Mas então, poderia olhar para o sorriso alegre e ainda sem dentes do irmão e pensar que ela ainda não terminara seu trabalho. - Há ainda muito o que fazer para que eu possa me dar ao luxo de me desesperar... Não é, Kieran? – ela perguntou, sem deixar de sorrir.
- Hum! – ele respondeu entusiasticamente, engatinhando para o colo da irmã, erguendo os braços para o pescoço dela – Mia!
A cruz é um dos simbolismos mais antigos usados pela humanidade. Emprestada a diversas religiões, para cada uma delas tinha seu próprio significado: ela poderia ser uma representação do sol no Extremo Oriente, ou uma mórbida aranha a girar em sentido anti-horário, trazendo marcas e lembranças de um passado doloroso e cruel.
Podia significar tormento, suplício – a palavra Cruz vinha afinal do latim, Crucio, como a Maldição Imperdoável. Podia ser uma rosa dos ventos, a apontar cada um dos pontos cardeais, ao mesmo tempo em que representava os quatro elementos. Ou a união do divino, na linha vertical e do mundano; a horizontal.
Vida ou morte, todos os significados de que ele conseguia lembrar-se para a figura de uma cruz estavam representados naquela sala: o Ankh sobre a porta; o cruxificado na parede atrás da mesa, a cruz grega na moldura do espelho, a suástica na imagem de Buda, a pequena cruz celta em pé sobre a escrivaninha, as bandeiras da Escócia e da Inglaterra lado a lado – a cruz de Santo André e a cruz de São Jorge...
Godfrey McKinnon não era um homem de se impressionar facilmente. Mas o escritório de August Chenoweth sempre exercera sobre ele um estranho misto de fascínio e temor. E não era apenas pelas cruzes que imperavam por todo o aposento. Dos livros aos objetos sobre sua mesa, August parecia ter se cercado de tudo aquilo que havia de mais representativo da Cultura Humana.
Naquela tarde, contudo, pela primeira vez desde que passara a freqüentar a casa do velho jornalista, o domador não deu atenção a qualquer uma das metáforas escondidas por trás daqueles objetos. Ele estava mais preocupado com aquilo que trouxera enrolado dentro do forro do casaco, e com os significantes que existiam por trás dele.
- Clio já tinha me ligado de madrugada para avisar, mas eu não tinha como sair sem despertar uma suspeita. – August quebrou o silêncio que se instalara entre eles após o pôster ser desenrolado sobre sua mesa – Ela passou a madrugada no jornal, junto com vários outros funcionários... Mas ninguém sabe quem fez isso, ninguém viu como foi feito, não há nada, nem uma única pista que possa nos levar ao autor ou autores dessa façanha.
- O pessoal da limpeza já estava quase terminando de rasgar todos os papéis quando eu cheguei. – Godfrey confessou – E havia uma turma de aurores por perto, além de vários outros funcionários do Ministério. Eles estavam furiosos.
- Não é para menos. Ninguém ousou a acusá-los tão abertamente até agora. – o jornalista suspirou, sentando-se em sua cadeira, massageando a nuca – Eu só não entendo como conseguiram fazer isso sem serem pegos. Isso simplesmente não me entra na cabeça. Dentro do Beco Diagonal, Godfrey! Como eles conseguiram burlar a vigilância?
O outro apenas meneou a cabeça em resposta, os olhos claros encontrando-se com os do velho.
- O que realmente me preocupa, August, é quem são eles. Desde a morte do Professor Dumbledore, a Ordem começou a se fragmentar; não há mais um nome que consiga agregar as opiniões e valores de todos que estão envolvidos com a Resistência. Com isso, nós perdemos força; nos deixamos levar pelas picuinhas de esse e aquele grupo, por pessoas que estão mais interessadas em fortalecer o próprio poder do que em se opor verdadeiramente ao que está acontecendo.
- Mais que isso, Godfrey... – Chenoweth suspirou, cansado – Estão surgindo grupos que acham que nós somos tão culpados quanto os Comensais. Que não fazemos o suficiente. Que estamos apenas nos escondendo como velhos covardes. Meadowes veio discutir comigo no outro dia pelo fato de eu estar “monopolizando” a juventude.
- Ele deve ter ouvido sobre a casa que você fez o filho de Alexis comprar. Não deixa de ser verdade, contudo. Todos os adolescentes que me aparecem, eu mando para você. Nenhum deles está muito satisfeito com isso.
August suspirou.
- Dorcas era muito jovem quando foi assassinada. Ele deveria entender o que estou tentando fazer. Mas parece que a morte da irmã apenas o deixou mais amargo. Ele sacrificaria quem fosse necessário para ter uma chance de vingança. – o mais velho abaixou ligeiramente a cabeça – Eu sei que é contra as regras, mas juntar os mais jovens num lugar só, onde eles pudessem ter um pouco de liberdade... Nós devemos isso a eles.
Ele desviou o olhar para o papel sobre sua mesa, um anúncio de propaganda do Profeta Diário pixado com letras rubras e raivosas: Aquele que se rende é meu inimigo. Aquela era apenas uma das muitas inscrições que tinham surgido durante a noite em vários muros e paredes do Beco Diagonal.
- Eu temo que isso seja só o começo. – August continuou – Palavras são o primeiro degrau na escalada do terror. Não sou um profeta, Godfrey, mas eu sinto que daqui para frente, comecemos a nos deparar com alguns atos extremistas. Eles acabarão colocando inocentes na linha de fogo.
- Eles já colocaram. – o domador respondeu – Todos os dias eu me deparo com faces cada vez mais juvenis querendo abrigo, proteção ou vingança. Eu não sei como o Hades' Gate e Omar conseguiram se tornar tão populares. – ele olhou para a mão enluvada, pensando na tatuagem que havia sobre o couro de dragão.
- Os amigos de sua sobrinha estão todos comigo. – August observou – Mercury e Cyan me encontraram através de minhas netas. A jovem Blair veio com Peter, Mahala também está conosco... Se Mina estivesse aqui...
- Eu a despacharia de volta para casa no mesmo instante. – Godfrey o interrompeu – Eu não posso impedir que todos que chegam até mim entrem nessa vida, August. Muitos estão desesperados, muitos não têm absolutamente mais nada a perder. Mas, se eu pudesse, eu jamais traria essas crianças para você ou para qualquer outro núcleo de resistência.
August deu um meio sorriso.
- Eles estão ficando mais jovens a cada dia que passa. A juventude parece ter muito mais consciência do que está acontecendo; os velhos, como nós, só fazem se acovardar e correr para debaixo da cama.
Godfrey se levantou.
- Eles estão perdendo a inocência cedo demais. E, cedo demais, nós os estamos perdendo.
- Ou talvez sejamos nós que tenhamos agido tarde demais, Godfrey. – o jornalista respondeu, melancólico – Não tão cedo... mas sim, muito tarde...
- Você tem um minuto antes de ir? – ela perguntou.
O austríaco assentiu. Se a morena havia esperado Kyle ir embora para lhe dizer alguma coisa, na certa deveria ser um assunto delicado.
- Eu só queria te agradecer. Por antes. – Adhara começou a explicar. Ela deu um suspiro e cruzou os braços antes de continuar – Eu estava apenas sendo idiota e sentimental e passando um sermão na Meri e no Kyle e não sendo de ajuda nenhuma quando era minha obrigação estar ajudando.
Lucien franziu o cenho. Ele não estava entendendo muito bem onde a moça queria chegar, e nem porque ela parecia estar tão frustrada.
- Adhara, por que você está agindo como se estivesse em falta com alguma coisa?
Ela deu de ombros.
- Por que eu estou? – a moça meneou a cabeça, balançando seus cachos negros – Vamos encarar os fatos Lucien, essa porcaria toda que está acontecendo é minha culpa. Fui eu que sugeri a Meri ir atrás do Nott. E Kyle deu aquele soco em Theodore porque estava me defendendo... Eu não deveria ter contado ao Kyle que Theodore havia tentando me beijar. Eu deveria apenas ter mantido isso para mim mesma. – ela suspirou de novo – E, honestamente, eu conheço Theodore Nott, mais do que eu gostaria de conhecer na verdade. Esse papo todo de família se unindo e troca de favores que ele usou com a Meridiana? É, isso é bem típico dele, mas não é tudo o que há nessa história. Ele está tentando usar a minha prima para machucar o cara com quem ele acha que eu estou saindo. É bem óbvio que ele está tentando acertar dois gnomos com um feitiço só: ele se vinga do Kyle e gera uma animosidade entre mim e a Meri.
A reação do austríaco não foi esperada pela morena. Lucien deu um meio sorriso, como se ela tivesse acabado de lhe contar uma piada particularmente divertida.
-Olhando dessa perspectiva, talvez você devesse se congratular, porque, no fim das contas, Nott não vai conseguir nenhum dos seus objetivos. Ele sim é o idiota da história, não você. Você não tem razão para se sentir culpada.
Adhara entortou um pouco a cabeça enquanto encarava o lufano. Ela nunca havia pensado nas coisas daquele ponto de vista tão... Otimista. Na verdade Adhara Ivory nunca fora do tipo que vê sempre o lado bom das coisas, e agora que o mundo bruxo estava em guerra e o destino da sua recém-formada família estava girando muito próximo do olho do furacão ela não se sentia muito inclinada em aderir a perspectivas mais otimistas. Mas, por mais estranho e improvável que fosse, o argumento de Lucien havia conseguido acalmá-la. Logo Lucien, a quem ela via como um rapaz tão prático e racional.
- Bom, eu não posso discordar de você em uma coisa. Theodore é um idiota - ela disse, dando uma ênfase especial no "é".
-Vamos torcer para que ele seja idiota suficiente para cair na nossa armação – Lucien respondeu – embora, por tudo o que vocês já falaram sobre ele, não acho que tenhamos muito com que nos preocupar.
A moça não podia dizer que concordava com Lucien daquela vez. Ela achava Theodore um idiota, é claro, mas ele não era exatamente burro. Se agissem com cautela e extenso planejamento, o embuste poderia dar certo - em um primeiro momento. Mas e depois? E se, mais para a frente, algo acontecesse que levasse Nott a descobrir tudo? Ela não queria mais ver Kyle sendo perseguido. E aquela era apenas o primeiro favor que Theodore havia pedido à Meridiana. Ela sabia que haveria outros vindos, talvez não dele, mas de pessoas mais perigosas e bem posicionadas do que ele. E nem ela, nem Lucien ou Kyle, poderiam armar um teatrinho para livrar Meri de fazer o trabalho sujo.
Adhara considerou dizer tudo isso a Lucien, mas o austríaco tinha uma expressão tão serena naquele momento, um meio sorriso fácil nos lábios. Ele parecia simplesmente feliz por eles terem resolvido o problema mais imediato e a sonserina simplesmente não teve coragem de despejar seus temores em cima dele. Assim, ela apenas assentiu.
- Você tem razão. Provavelmente vai dar certo. - ela fez uma pausa, reconhecendo que sua voz não parecia nada otimista - Obrigada, Lucien. De novo. - a morena resolveu encerrar sua fala por ali antes que sua tendência a pensar negativamente colocasse tudo a perder.
-Sempre que precisar – ele respondeu, acenando a cabeça. – Melhor irmos, não?
Adhara assentiu, seguindo em direção à porta. Lucien seguiu logo atrás. Apesar do teor das palavras da moça, ele percebera a leve hesitação na voz da sonserina. Ele não podia culpar a moça por se preocupar com o que estava por vir, ele próprio se sentia ansioso na maior parte do tempo.
Contudo, pela experiência, ainda que pouca, trabalhando na resistência bruxa, ele sabia que existiam situações muito mais desvantajosas para se entrar em ação. Hogwarts era um terreno conhecido, um lugar mais fácil de controlar as variáveis, eles tinham noção de onde e como agir, portanto, eram esses pequenos aspectos que faziam com que Lucien se prendesse à esperança de que as coisas poderiam dar certo. Ele simplesmente precisava acreditar naquilo.
Nota - Cerca de 90% da equipe viajando no feriados, passei aqui correndo para desejar a todos um ótimo descanço.
A ruiva sentou-se no chão, encostando o corpo e a cabeça na parede, refletindo sobre o modo como as coisas estavam se encaminhando. Se, por um lado, ela estava satisfeita com a aproximação de Theodore, o que, em breve, lhe garantiria um passaporte para o círculo interno da juventude comensal de Hogwarts, por outro, a idéia de ter que usar Kyle para atingir esse objetivo não lhe agradava de forma alguma.
A moça baixou a cabeça, deixando os orbes verdes se dirigirem para a entrada da sala secreta que o padrinho revelara a eles. O primeiro a entrar foi Lucien.
Assim que seus olhos se encontraram, ambos deixaram que um sorriso leve se formasse em seus lábios. O moreno abaixou-se, dando um beijo suave em Meridiana, antes de sentar-se ao lado da namorada. As mãos de ambos se entrelaçaram, e, a grifinória recostou a cabeça no ombro de Lucien, tentado aproveitar plenamente aqueles breves momentos que conseguiam ficar juntos.
Poucos minutos depois, Kyle apareceu, seguido por Adhara. Estando os quatro reunidos, a ruiva levantou a cabeça, para explicar aos demais a razão de tê-los convocado ali.
- Houston, nós temos um problema – ela falou.
Adhara, Lucien e Kyle trocaram olhares entre si. A morena foi a primeira a quebrar o silêncio.
- Que tipo de problema? – a sonserina desconsiderou a tentativa de Meri de fazer uma piada e foi direto ao assunto.
-Theodore. – a ruiva respondeu da mesma forma direta – Ele me garante acesso aos comensais de Hogwarts desde que eu o vingue do soco que Kyle deu nele.
Os olhos de Kyle se arregalaram em surpresa. Ele imaginou que Theodore era alguém indescritivelmente cretino pelo que fizera com Adhara, mas nunca imaginou que o nível de boçalidade do sonserino pudesse atingir um patamar tão alto.
- Você está brincando, não está? – ele perguntou, lançando um olhar interrogativo para ambas as primas, que conheciam Theodore há mais tempo que ele.
A ruiva revirou os olhos, sentindo uma onda de asco percorrer sua coluna.
- Nas palavras de Theodore, nós somos parentes e devemos cuidar um do outro. Eu faço esse pequenino favor para ele e ele me faz outro, em troca.
Adhara suspirou e levou suas mãos até as têmporas. Aquilo era exatamente o que ela havia temido em primeiro lugar. Era exatamente o que ela sabia desde o início que iria acontecer. Theodore era um rapaz orgulhoso e rancoroso... Na verdade, a maioria dos sonserinos eram orgulhosos e rancorosos, ela mesma não podia dizer que se esquivava daquelas características. Ela tinha certeza que o rapaz não se contentaria em apenas ver Kyle cumprindo uma detenção e perdendo pontos para a Lufa-Lufa. Ela tinha certeza que o rapaz não se contentaria em apenas ver Kyle cumprindo uma detenção e perdendo pontos para a Lufa-Lufa. Theodore iria querer pagar na mesma moeda, e com juros exorbitantes.
- Isso é exatamente o motivo pelo qual eu lhe disse que não valia à pena comprar briga, Kyle. – ela se virou para o primo, lançando um olhar de censura para o garoto – Não estou tentando fazer você se sentir culpado ou coisa assim, mas eu te disse que isso teria conseqüências maiores. O que foi feito está feito, mas eu espero que você pense melhor no que vai fazer da próxima vez que um sonserino te provocar. Porque, acredite em mim, vai haver uma segunda vez. Agora que você se tornou um alvo, vai ser difícil eles te deixarem em paz. – ela então se virou para Meri e voltou a falar antes que Kyle tivesse uma chance de abrir a boca para se defender – E você? – a moça cruzou seus braços e fixou um olhar duro sobre a ruiva – O que você vai fazer agora que o barqueiro resolveu cobrar a passagem?
A ruiva suspirou ruidosamente.
- Sem nenhuma idéia do que fazer. Exatamente por isso chamei vocês. Eu preciso encontrar um modo de dar a Theodore o que ele quer sem ferir Kyle. O problema é que Nott deseja sangue. Literalmente falando. Ou pelo menos algo pior.
Por alguns minutos, os quatro permaneceram em um pesado silêncio, tentando descobrir uma solução para aquele maldito impasse que acabaram por cair. Foi Lucien, que desde o começo da conversa estivera apenas escutando e ponderando sobre os fatos, que primeiro se pronunciou.
- Adhara, você acha que Nott se contentaria em ver apenas o resultado da vingança?
A sugestão do lufano a pegou de surpresa. Ela encarou Lucien por um longo momento com uma expressão neutra e ele manteve o olhar. Ela podia ver claramente o que o austríaco estava implicando e, honestamente, a morena se sentiu um pouco tola por estar tão irritada com a situação que não teve a racionalidade de pensar naquele plano antes. Ela estava deixando seus sentimentos entrarem no caminho e sendo mais parcial do que deveria – e, obviamente, aquilo não estava ajudando nenhum deles.
- Claro. – ela assentiu – Claro, faz perfeito sentido. Acho que ele vai ficar satisfeito contato que ele saiba que o serviço está feito... Theodore não é do tipo que se sente particularmente ansioso em sujar as mãos e assistir a barbáries, ele não tem estômago para tanto... Do contrário ele mesmo se vingaria. – ela então voltou o olhar para Meri, dessa vez com um meio sorriso – Essa pode ser a sua brecha.
A ruiva deu um meio sorriso, compreendendo exatamente o que o namorado e a prima estavam insinuando. O grego franziu a testa. Kyle observou cada um dos três, ainda sem entender exatamente qual era o grande plano que eles haviam elaborado.
- Eu ainda estou meio perdido. – ele confessou.
- Lucien sugeriu uma pequena encenação, Kyle – a ruiva voltou-se para o primo, o sorriso ainda ampliando-se mais. – Tendo você como astro principal.
- Ahhhhh – foi tudo o que ele respondeu, finalmente deixando a “ficha” cair.
- Com um pouco de maquiagem e quem sabe "nuga sangra nariz" para dar um toque mais realista, acho que podemos simular uma boa surra. – foi a sugestão de Lucien.
- Perfeito! – Meridiana falou, entusiasmada. – Assim que conseguirmos tudo o que precisamos, colocamos nosso plano em ação!
A moça levantou-se, seguida pelo namorado. Ela pousou os lábios sobre os do austríaco, antes de virar-se para os primos.
- Eu preciso ir agora, mas nos mantemos em contato. – e com uma expressão bem mais confiante, Meri seguiu em direção à saída.
Adhara levantou-se também após aquilo, seguida por Kyle.
- Quer saber, eu vou indo também. Ainda tenho que pegar a biblioteca aberta para devolver um livro de Transfiguração. – disse o mais novo, apontando para a porta.
- É, é melhor você fazer isso mesmo. Você não vai querer entrar na lista negra da Madame Pince por atrasar com os livros, acredite. – Lucien o aconselhou, fazendo um pouco de graça.
Kyle concordou e se despediu dos dois setimanistas. Quando o rapazinho cerrou a porta, Adhara voltou-se para Lucien.
- Você tem um minuto antes de ir? – ela perguntou.
Meridiana estava sozinha à mesa da Grifinória naquela manhã, sentada na ponta mais isolada de seus colegas. A ruiva comia silenciosamente o seu mingau e tentava ser discreta ao deixar seu olhar vagar pelo Salão Principal, fingindo que não estava observando ninguém em especial, quando na verdade seus olhos ora se pregavam na mesa da Sonserina, ora na Lufa-Lufa. Raven estava sentada junto de Satanio, como costumavam fazer, mas evitando trocar muitas palavras, pois sabiam que haviam muitos ouvidos atentos a cada sílaba que diziam. Adhara estava em outro banco, alguns metros mais à frente de Rav e Sat, sozinha e em silêncio, como a própria Meri. Lucien estava com Luke e Kyle e o clima entre os três era mais descontraído – seu primo estava rindo de algo que Hunter dissera. Lucien levantou seus olhos bicolores no mesmo instante em que Meri olhava para ele, como se sentisse a atenção da ruiva.
Os olhos do casal se cruzaram por um momento e Meri sentiu o coração apertar. Ela desviou o olhar rapidamente para o seu prato. Se a pessoa errada a visse encarando Lucien, aquilo poderia pôr muito a perder. A ruivinha suspirou e mexeu com a colher em seu mingau, subitamente sem apetite. Não conseguia se lembrar de uma época na escola em que estivesse tão solitária. Desde o primeiro dia em Hogwarts ela sempre tivera Herman como companhia na mesa da Grifinória. Com o passar do tempo seu círculo se expandiu para abrigar Selune, Bianca, Mina, Lorelai... Agora Herman e Mina não estavam mais na escola, Bianca havia ido embora já fazia mais de um ano, Selune e Lorelai não podiam mais ser vistas com ela e todos os seus outros colegas de Casa a evitavam depois que ela começou a exigir ser chamada de Black-Thorne e demonstrar uma aberta simpatia à nova política de ensino da escola.
Agora ela era uma pária dentro da Casa dos Leões. Uma estranha. Uma traidora. E aquele era apenas o começo, ela sabia disso...
A linha de pensamentos pessimistas de Meri foi quebrada quando ela ouviu o pio de uma coruja bem acima de sua cabeça. A ave era pequena e coberta de penas inteiramente negras. A ruiva achou aquilo estranho, ela nunca havia visto uma coruja daquela cor. A ave circundou o ar mais algumas vezes antes de pousar na mesa bem diante de Meri e estender a pata para a moça.
A ruiva viu suas iniciais – M. A. Black-Thorne – escritas no envelope em uma caligrafia fina que ela não conhecia e apanhou a carta com uma curiosidade crescente em seu peito. Depois que desamarrou a correspondência da pata da coruja, esta sacudiu as penas negras e alçou vôo para fora do Salão enquanto Meri abria o selo do envelope e tirava uma página de pergaminho de qualidade mais fina – e cara – do que aquele que os alunos utilizavam em seu dia-a-dia. A carta lia o seguinte:
“Prezada Meridiana,
Espero que perdoe a minha indelicadeza ao interromper seu desjejum, mas creio que é chegada a hora de termos outro de nossos diálogos estimulantes. Se tiver a bondade de me seguir neste momento, há algo que gostaria muito de discutir com você.
Minhas cordiais saudações, T. Nott.”
Meri mal terminou de ler as últimas palavras e levantou seu olhar para a mesa da Sonserina, procurando entre os rostos dos alunos os traços aristocráticos de Theodore Nott. Ela o encontrou rapidamente, Theodore já estava olhando para ela. O sonserino a cumprimentou com um aceno de cabeça e levantou-se de seu lugar à mesa. Meri entendeu que aquela era a sua deixa e dobrou a carta, voltando a guardá-la dentro do envelope que, por sua vez, foi parar dentro de um bolso na capa da moça, antes que ela seguisse o primo para fora do Salão Principal.
Ela viu as costas de Theodore se afastando na direção que levava para as masmorras e a ala da Sonserina. Meri sentiu uma pontada de apreensão ao notar para onde o rapaz a guiava. Ela – assim como todos os alunos que não pertenciam à Sonserina – não conhecia nada daquela área do castelo, exceto pelo caminho até a sala de Poções. As masmorras construídas sob o lago não eram exatamente o lugar favorito dos estudantes. Mas, bem, aquilo era exatamente o que ela queria quando foi procurar Nott na ala hospitalar, não era? Ela queria que ele a levasse até o círculo Comensal da escola e que lugar mais apropriado para Comensais do que o território sonserino?
Assim ela seguiu Nott com a cabeça erguida até que ele entrou em uma sala pequena, cavada na parede de pedra escura como se fosse a entrada de uma caverna. A sala, ou talvez túnel fosse mais preciso para descrevê-la, era iluminada por archotes e Meri podia ver a entrada, mas não o final. Theodore a esperava lá dentro, com os braços cruzados e um rosto inexpressivo.
Ele não se parecia muito com o rapazinho irritantemente irônico e aversivamente malicioso que ela conheceu na ala hospitalar. Ele estava sério. Sério demais. O sexto sentido de Meridiana lhe dizia que o que quer que Nott tivesse a lhe falar, coisa boa não seria. Se a ruiva estivesse ouvindo sua intuição, teria dado meia-volta e saído de lá antes que ele pudesse lhe dizer qualquer coisa. Mas seguir sua intuição não a levaria para frente agora, apenas para trás. E ela precisava avançar.
- Bom dia, Meridiana. – Theo a cumprimentou com polidez, mas sem muita simpatia.
- Bom dia. – a ruiva respondeu à saudação em um tom cautelosamente neutro.
- Fico satisfeito por você ter resolvido vir. – Mas ao contrário da voz dele, o rosto de Nott não demonstrava muita satisfação ou mesmo qualquer outra emoção. – Eu gostaria de conversar com você sobre uma sugestão que Ivory me fez no início do mês.
Meri notou que Theodore havia usado o sobrenome de Adhara e se perguntou se deveria mencionar aquele detalhe à prima, provavelmente Theodore ainda estava zangado com Dhara em virtude de toda a confusão que houve com Kyle, o que talvez, considerando a viscosidade aversiva que Nott emanava, era, no fim das contas, algo bom para Adhara.
- E qual sugestão seria essa? – ela perguntou, no mesmo tom de antes, tentando não demonstrar ansiedade.
- Ivory me disse que você tem interesse em se juntar a um grupo seleto de alunos do qual eu faço parte e ajudo a organizar desde o ano passado. Ela está correta?
A grifinória assentiu, mantendo firme seu olhar ao de Nott para que o primo soubesse que ela falava a sério.
- Bem, você deve entender, Meridiana, que mesmo que você seja minha prima eu não posso simplesmente lhe dar um passe livre para o grupo. Especialmente considerando a Casa em que você está e suas condutas no passado. – O tom dele era de flagrante censura – Mas eu posso fazer a sua entrada acontecer. Desde que você se prove digna e confiável.
- Eu entendo perfeitamente, Theodore. Meu comportamento nunca foi dos mais adequados para o seu círculo de amizade – ela respondeu, séria, fingindo um leve pesar sobre seu verdadeiro caráter – Percebo que deseja alguma prova de minha parte.
- Eu apreciaria se você fizesse alguma coisa por mim, já que somos uma família e devemos nos apoiar mutuamente. – Theo deu a ela um meio sorriso que fez o estômago de Meri se embrulhar – Veja bem, eu não estou de acordo que aquela detenção patética que Sprout deu ao selvagem do O’Neil seja o bastante para incutir arrependimento naquele moleque. O’Neil está em mais falta do que ele pode imaginar com seu cérebrozinho limitado. Eu quero vê-lo pagar do mesmo jeito que eu paguei, eu quero ver o sangue daquele moleque. – O rapaz praticamente cuspiu essas palavras – Você me faz esse favor, e eu lhe farei o meu.
Meridiana trincou os dentes enquanto fazia um esforço descomunal para manter um ar blasé e indiferente. Ela intuiu, desde que soubera da animosidade entre Kyle e Theodore, que má coisa acabaria vindo da impulsividade do primo mais novo.
- Acha mesmo que vale a pena perder seu tempo com alguém tão insignificante e digno de atenção? – ela revirou afetadamente os olhos fingindo estar enfadonha, enquanto tentava buscar alguma solução que livrasse Kyle – Ele é apenas um moleque ignorante, dar tanta atenção ao ele seria o mesmo de rebaixar ao nível do O’Neil.
Theodore meneou a cabeça.
- Não. – o rapaz foi taxativo – Ele precisa ser feito de exemplo. Já é hora dessa gentinha perceber quem dá as cartas agora que não há mais o bom vovozinho Dumbledore para passar a mão na cabeça deles. Eu pensei em você porque achei que seria uma boa oportunidade de provar para mim e para todo o castelo de que lado a sua lealdade reside agora. Mas se você não quer fazê-lo, então tudo bem. Eu encontrarei outro que o faça.
Por breves segundos, Meri sentiu-se insegura sobre o que fazer. Ela não queria machucar Kyle. Contudo, se ela se negasse a atender ao pedido de Nott, poderia esquecer qualquer outra chance de se infiltrar no círculo comensal. Pior, se outra pessoa fosse incumbida de executar a vingançazinha patética de Theodore, Kyle poderia se ferir muito gravemente. Isso, Meri, não poderia permitir.
- Não será preciso. – ela respondeu lançando um sorriso sedutor para o sonserino – Eu farei o que meu caro primo pedir para provar minha sinceridade.
O rapaz assentiu. Porém, apesar de Meri ter concordado com o seu pedido, ele ainda não parecia completamente satisfeito, o que fez a ruiva perceber que Nott deveria estar mesmo possesso de raiva a respeito de Kyle.
- Muito bem. Avise-me quando você resolver dar cabo disso. Apenas não demore muito. – e com esse aviso final ele descruzou seus braços e começou a andar, passando direto pro Meri para alcançar a saída do túnel.
Assim que Nott desapareceu por completo, a ruiva soltou um suspiro, em parte de alívio por se ver longe daquele verme em figura de gente, em parte de preocupação. Theodore não ficaria realmente satisfeito até que conseguisse, literalmente, derramar o sangue do lufano.
Meridiana mordeu os lábios com força. Seu tempo era curto e havia muito em jogo. Ela teria que encontrar uma solução que contentasse o desejo quase homicida de Nott e que ao mesmo tempo pudesse poupar Kyle. Seria difícil, mas ela acabaria descobrindo um jeito de agradar sonserinos e lufanos.
A garota que abria a porta de casa estava apática e sua mente longe, presa no que acontecera algumas horas antes. Sam só pensava em cair na sua cama e tentar apagar as imagens da sua mente. Não estava preparada para lidar com o que tinha acontecido.
Entretanto, não parecia que conseguiria realizar seus planos já que, logo que seus pés avançaram para o primeiro degrau, ela sentiu alguém parar atrás dela, segurando-a delicadamente pelo pulso. Virando-se, ela acabou por se deparar com a figura de Lusmore, que a observava com um semblante preocupado.
- Sam? - Ele questionou em voz baixa, os olhos claros encarando-a com cuidado.
Ela abriu a boca para tentar falar algo, mas toda a sua força estava sendo usada para controlar suas lágrimas, controlar a dor que sentia na altura do peito. Sam soltou sua mão que começara a tremer e deu um passo para trás, sem saber exatamente o que fazer.
Como se adivinhando o que a moça estava sentindo, ele estendeu as mãos, puxando-a delicadamente pelos ombros até acomodá-la contra seu ombro, abraçando-a.
- O que aconteceu, Sam? Por que você está assim? - Ele perguntou, passando uma mão de leve pelo cabelo dela.
A resposta de Lusmore foi sentir o soluçar da jovem e também as lágrimas dela em sua roupa. Ele esperou sentir a respiração dela se acalmar. Depois ouviu, entrecortadamente, ela falar.
- Eu falhei...
Uma pequena idéia do que podia ter acontecido surgiu na mente do rapaz enquanto ele a trazia consigo, fazendo-a se sentar no sofá em que ele estivera até a chegada dela.
- Seja lá o que tenha acontecido, Samantha, não foi culpa sua. - Ele murmurou numa voz calma, quase melodiosa, sem deixar de abraçá-la.
Os olhos, agora azuis, da jovem olhavam o vazio. O que passava em sua mente era o que poderia ter feito ou que deveria ter se movido antes. Automaticamente ela limpava o rosto, tentando novamente controlar as lágrimas, chorar não iria trazer a vida de volta ao garoto.
Apesar de ter ouvido e sentido as mãos de Lusmore, Sam não prestava atenção nele diretamente. Sua mente parecia trabalhar rapidamente em muitas coisas diferentes, o que deveria aprender para melhorar, em que ordem, quem ensinar. Ao mesmo tempo pensava no rosto da jovem que perdera o namorado naquela tarde e que tivera a vida mudada para se esconder do Ministério.
Lusmore olhou para a garota sentada a sua frente preocupado com a falta de ação de Sam. Observou que apesar da diferença do cabelo e dos olhos, ele reconheceria o rosto dela facilmente. O tempo em que ficaram em Hogwarts, só eles conversando no antigo QG da máfia, fez com que os olhos dele identificassem os jeitos dela.
Querendo confortá-la, ele levou uma das suas mãos levemente até a maçã do rosto de Sam, secando uma lágrima que caía solitária. Como se a despertasse, ela virou o rosto e contou o que acontecera mais cedo após sair para um passeio.
- Eu... Preciso melhorar... - Ela falou e virou o rosto para ele.
- Todos nós precisamos, Sam. E vamos - Ele falou com uma seriedade desmedida refletida em olhos azuis usualmente marotos.
- Obrigada, por se importar. - Ela respondeu, dando um sorriso pálido.
- Sempre que precisar, Sam. Sempre que precisar.
Sam deu um leve beijo no rosto de Lusmore em retribuição e se levantou. Iria para seu quarto descansar e depois... Depois iria pensar melhor onde falhou e seguiria em frente.
O tempo não estava favorável a passeios, volta e meia caía uma chuva fina, mas mesmo assim Samantha quis sair da casa da Resistência. Há dias que a jovem somente treinava e estudava. Algumas vezes conversava com os rapazes de sua casa, mas não precisavam de tempo para se conhecerem. Herman se tornou família após se casar com Lore, Lusmore dispensava apresentações e Cyan deixou de ser o ‘Cão’ para ser seu amigo.
Ao lembrar que teria que se disfarçar para passear, Sam pintou seus cabelos de loiro e colocou lentes azuis. Não queria arriscar feitiços xxxx, então ela mudou sua aparência ao modo trouxa. Com um sobretudo discreto, a garota era somente uma pessoa na multidão.
Após uma hora olhando vitrines e deixando sua mente relaxar, Sam decidiu que deveria voltar para casa. Ela parou ao ouvir algumas vozes e identificar “Ministério da Magia” no meio das palavras. Discretamente ela atravessou a rua, ficando no lado oposto de onde ouvira as pessoas. Conseguiu ver claramente 3 homens que pareciam ser caçadores de recompensas e um casal que estava sendo empurrado para o beco pelos ‘homens do Ministério’(???).
Com um movimento leve das mãos, como se arrumasse o cabelo, Sam encaixou no ouvido uma massa que para leigos poderia parecer um aparelho auditivo. Aquilo era na verdade uma evolução das ‘orelhas extensíveis’ que os Gêmeos Weasley fizeram exclusivamente para a Resistência. Desse modo, ela conseguia ouvir o que acontecia no outro lado da rua.
- Parem de no empurrar! - O rapaz ruivo falou, puxando a namorada para ficar atrás dele.
- Nós n-não fizemos nada de e-errado... - A garota falou, nervosa.
Os três homens usavam vestes surradas e seus cabelos estavam bagunçados e sebosos, como se não tomassem banho há dias. Eles sorriram maldosamente e ignoraram o que os dois falaram. O menor deles parecia ser o que mais provocava, apontando sua varinha para os dois.
- Fiquem quietos e colaborem. A gente somos oficiais e temos poder para fazer vocês sumirem. - Ele falou ameaçadoramente.
Ao ouvir isso Sam escorregou sua mão até onde sua varinha estava, presa no braço, embaixo da manga da blusa. Pensou em estuporar os 3 pelas costas e aparatar com o casal. Teria que tirá-los antes que chegasse alguém do Ministério.
Ela desistiu ao ouvir o que um deles, que parecia ser mais velho, falou.
- Se acalme Sol, viemos brincar um pouco e descobrir se eles são fujões da escola. - O tom da voz dele era jocoso.
- Ele não vai se acalmar. Estamos sem achar nada há dias, o dinheiro já está acabando. - Falou o terceiro.
Sam achou melhor esperar para ver o desenrolar da cena. Ela poderia complicar a vida do casal se agisse sem pensar. Eles, e sua família, teriam que se esconder ou sair do país se parecer aos olhos do Ministério que estavam contra o governo.
- Nós dois somos maiores de idade e saímos de Hogwarts ano passado. Não fizemos nada fora da lei. – O rapaz falou.
- Se fizeram ou não, quem decide é nós. - O que estava mais perto falou e segurou o pulso da garota com força.
O rapaz reagiu imediatamente tentando pegar sua varinha, não iria deixar machucar ou se aproveitarem na sua namorada. A resposta e o reflexo dos caçadores foram mais rápidos. Um “expelliarmos” atingiu o ruivo no peito, o lançando contra a parede. Ele caiu no chão, desacordado.
A garota gritou desesperada ao ver uma poça de sangue se formar nas costas do namorado, uma quantidade que aumentava a cada segundo. Ela puxou o braço tentando se soltar, olhava para o rosto dos homens tentando entender porque eles fizeram aquilo. Ela só saíram com o namorado para tomar um café e agora o via caído, sangrando.
- Droga, ele bateu naquela ponta de metal que o perfurou. Agora teremos que ---
A frase foi cortada e os três homens caíram desacordados. A garota olhou espantada para a loira que estava parada perto dos caçadores, com a varinha em punho. Depois ela correu para o namorado que jazia sem vida no chão.
Sabendo que não tinha muito tempo, Sam andou até os dois e se abaixou, olhando tristemente a cena onde a garota chorava abraçada ao corpo do namorado.
- Preciso tirar vocês daqui, o segure com força. - Sam falou.
Em resposta a garota apertou o corpo do rapaz contra o seu, dado a certeza para Sam que ela a compreendera.
Kyle caminhou a passos pesados em direção da sala da tapeçaria de centauros. Aquela saleta acabara por se converter em ponto de encontro dos poucos que sabiam das verdadeiras intenções que Meridiana escondia sob a fachada de pró-comensal. Naquele dia, a própria ruiva havia marcado um encontro através de Lucien.
O grego estava exausto, acabara de sair da detenção que pegara por ter socado as fuças de Theodore Nott, contudo, não se sentia particularmente punido. A professoura Sprout o submetera a uma tarefa enfadonha e maçante. Ele passou toda aquela tarde de sábado catalogando uma a uma das folhas, raízes, sementes e plantas da estufa. Tarefa que possivelmente só se veria completamente livre em meados de outubro. Ou seja, mais de um mês de detenção.
Contudo, pelo pânico de Adhara quando toda a confusão se desenrolou, ele acreditou que seria submetido a algo terrivelmente pior.
Com um bocejo, ele entrou na sala secreta, dando de cara com a prima mais velha. Meri estava parada junto à parede, braços cruzados, olhar sério, quase assustador.
-O que foi? – ele perguntou, os olhos arregalados de surpresa e preocupação.
-Eu é quem pergunto – a ruiva retrucou, com um olhar repreensivo. – Onde você estava com a cabeça ao quebrar o nariz do Nott?
-O que você queria que eu fizesse? – Kyle respondeu, se defendendo. Da perspectiva dele, não fizera nada de errado, apenas estava protegendo Adhara de um canalha. Simplesmente não conseguia entender o alvoroço que suas primas estavam fazendo sobre o fato. – E as coisas não acabaram tão ruins. A detenção ‘tá um saco, mas não é nada tão horripilante quanto Dhara pintou que poderia ser.
Meridiana meneou a cabeça, incrédula diante da inocência que Kyle transparecia naquele momento.
-Você deu sorte porque a Profa Sprout é abertamente contra a posição da nova diretoria. Contudo, de agora em diante, o cerco vai estar mais apertado. A sua briga com o Nott, e outros incidentes envolvendo alunos tão ingênuos quanto você fizeram com que os Carrows pedissem a Snape que reavaliasse os métodos punitivos. Parece que, finalmente, Filch vai poder tirar suas correntes da aposentadoria.
Kyle sacudiu os ombros, como se pouco importasse com o que Meridiana acabara de lhe contar. Ele não podia simplesmente ter ficado de braços cruzados, não era da natureza dele agüentar as coisas calado.
-Pois eu teria feito exatamente do mesmo jeito, mesmo sabendo das conseqüências. Você e Dhara são minha família agora e eu não poderia simplesmente ignorar qualquer um que faça algum mal a vocês duas!
Meridiana cerrou os olhos por alguns segundos. Ela conseguia compreender plenamente os sentimentos de Kyle, exatamente porque se sentia do mesmo modo, contudo, sabia, por experiência própria, que o ataque abertamente declarado não iria funcionar. Pelo menos não no contexto em que viviam. Mas, como explicar àquilo para um garoto de quinze anos, esquentado, cabeça-dura, que cresceu em um ambiente completamente oposto ao que viviam na Grã-Bretanha.
A ruiva chegou a abrir a boca para tentar explicar tudo isso para o primo, contudo, Kyle voltou novamente a falar, em um tom um pouco menos exasperado, mas igualmente sério.
-Não sei se foi o fato de eu ter crescido só com minha mãe, ou por toda admiração que sempre tive por minha madrinha Lachesis, ou mesmo por ter me apaixonado por Leda ainda criança, mas, para mim, é inconcebível que um homem force uma mulher a fazer o que ela não deseja. Entende por que eu não poderia simplesmente ignorar o que Nott fez com Dhara?
Meridiana assentiu, compreendendo muito mais do que Kyle disse em palavras. Eles nunca conversaram abertamente sobre Ludovic, mas, a ruiva poderia imaginar o quão terrível deveria ser para aquele garoto, tão nobre e de bom coração, saber que ele foi gerado por um ato de violência, que ele só existia por terem feito à sua mãe algo que cada partícula dele abominava.
-Quer conversar? – ela perguntou, em um tom de voz mais suave.
-Sobre o que? – o lufano piscou os olhos, sem compreender o significado da questão que Meri lhe lançara.
-Sobre seu pai. – ela respondeu no mesmo tom que empregara anteriormente.
Kyle deu um sorriso amargo, virando o rosto. Desde que fora à biblioteca e pegara os anuários com as fotos dos pais, ele não conseguia parar de pensar naquele assunto. Em toda a história do passado deles que levou ao seu nascimento.
Durante as férias, depois do retorno de Meri, ele acabou desviando sua atenção para conhecer um pouco mais sobre a família recém-descoberta. Quando fizera as pazes com a mãe, os dois conversaram muito mais sobre os avós maternos e a infância de Lucy do que sobre qualquer coisa relacionada ao período em que ela esteve sob o jugo de Ludovic.
-É tão obvio assim o quanto isso está me incomodando? – ele perguntou, ainda sem fitar a prima.
-Na realidade não – a grifinória se aproximou, pousando a mão no ombro de Kyle – para alguém tão cabeça quente, você está escondendo bem.
O rapaz levantou o rosto, os olhos ligeiramente lacrimantes.
-Eu não sei o que sentir. Mesmo sem conhecê-lo, eu já odeio Ludovic. Por tudo o que ele fez minha mãe sofrer, por tudo o que ele fez você sofrer, contudo, eu devo a minha existência a ele.
Meridiana não soube o que dizer a princípio para o primo caçula. Ela retirou a mão do ombro dele, enlaçando a mão do rapaz, fazendo com que ele sentasse no chão, diante dela. Aquela seria uma conversa longa, difícil e dolorida, tanto para ele, quanto para ela.
-Eu poderia dizer que existe alguma bondade em seu pai – ela começou, segurando as mãos do primo, mas incapaz de fitá-lo nos olhos – mas estaria mentindo. Poderia dizer que o amor que ele diz sentir por sua mãe e por mim seria algo possível de levá-lo a alguma redenção capaz de amenizar todos os crimes que ele cometeu, mas, isso seria muito mais cruel do que ser sincera com você.
A moça deu um suspiro profundo antes de prosseguir.
-Ludovic é um monstro além de qualquer salvação. Ele torturou e matou mais pessoas do que podemos imaginar, de formas que estão em um patamar muito mais alto que qualquer tipo de crueldade que nós dois possamos conceber.
Kyle apenas continuava escutando, em silêncio, tentando absorver cada palavra que a prima dizia sobre Ludovic. Fosse qual fosse a verdade, ele precisava saber.
-Ele esteve envolvido na morte de nosso tio, Aldebaran, a quem ele odiava... ele matou a minha mãe, por amor, segundo ele, para purificá-la... – a voz de Meri falhou nesse ponto, e ela se calou, engolindo seco antes de prosseguir. Ainda não era capaz de dizer em voz alta que seu pai também estava morto.
A ruiva suspirou novamente, antes de continuar.
-Ele chegou a seqüestrar Adhara para se vingar do Sr Ivory, que o havia prendido anos atrás. Dhara voltou muito ferida, e demorou um bom tempo para que ela se recuperasse física e emocionalmente.
O rapaz assentiu. A Sra Ivory, que na época ainda assinava como Black-Thorne, já havia lhe mencionado alguns daqueles fatos, contudo, escutar da boca de Meridiana, com tanto suplício, trazia outra dimensão àqueles acontecimentos.
-A primeira vez que eu estive cara a cara com Ludovic, - ela prosseguiu – meus amigos foram ao meu resgate. Hoje percebo quão sortudos fomos por meu tio ter sido invocado pelo Lorde das Trevas na ocasião, caso contrário, ele teria facilmente matado todos ali e teria me levado com ele. Eu passei dois meses com ele... Dois meses que eu nunca vou ser capaz de esquecer. Sendo doutrinada... o que consistia em tortura física e psicológica...ele chegou até mesmo a me bater uma ou duas vezes, a pior de todas quando eu tentei fugir.
A ruiva parou, incapaz de continuar, sentido as lágrimas querendo forçar passagem através de seus olhos. Era a primeira vez que ela, por vontade própria, falava ainda que minimamente, sobre seu cativeiro. Kyle percebeu que a prima comprimira suas mãos com um pouco mais de força. Dois meses e Meridiana já possuía traumas que a marcaram profundamente. Ele preferia não tentar imaginar tudo o que sua mãe sofrera durante quase dois longos anos ao lado daquele homem.
-Meri... – ele a chamou baixinho – Você não precisa continuar...
A moça balançou a cabeça em negativa, finalmente levantando o rosto, e deixando que seus orbes verdes se encontrassem com os olhos também esmeraldinos do primo.
-Eu preciso sim, nós dois precisamos. – ela falou com firmeza. Kyle notou que os olhos dela estavam úmidos, mas as lágrimas não haviam alcançado o rosto da prima – Você precisa entender que não há motivo algum para você se sentir culpado por odiar seu próprio pai, você precisa entender quem ele realmente é para não vacilar ou perder o controle quando estiver diante dele. E mais do que qualquer coisa, você precisa entender que, apesar de tudo, sua mãe te ama muito, ou não teria vindo da Grécia atrás de você. Eu acho que você deu uma razão para ela tentar ser um pouco feliz depois de tudo o que passou. Você é a única coisa boa que Ludovic fez na vida, Kyle! Você não deve nada a ele, absolutamente nada!
Ele assentiu, com veemência. Sentia-se exaurido por tudo o que ouvira, e, imaginava que a prima deveria se sentir muito pior pelo esforço descomunal que precisara fazer para lhe falar tudo aquilo. Entretanto, finalmente ele compreendia. Ele não devia nada ao pai, e, ele não iria pautar a sua vida pelo modo como fora concebido, mas pelo amor que recebera de sua mãe e de todos os outros, apesar de suas origens.
-Obrigado – ele murmurou, soltando suas mãos das de Meridiana, para envolver a moça em um abraço.
A ruiva correspondeu ao gesto, sentindo, através daquilo, que ele sentia não apenas grato e aliviado por aquela conversa, mas que também estaria ao lado dela sempre que ela precisasse.
-Não precisa agradecer... – ela respondeu – Basta que você sempre se lembre que eu, nós, estamos felizes por você existir.
- Vá até o terceiro andar e pegue o primeiro corredor à esquerda, você vai achar uma tapeçaria de um grupo de centauros olhando as estrelas. Aponte a varinha para a tapeçaria e diga “Regulus et Denebula”, haverá uma porta na parede depois disso. Entre lá e se esconda. Não pare pelo caminho. Não converse com ninguém. Eu vou até a Enfermaria pegar alguma coisa para a sua mão antes que mandem Theodore para lá.
Adhara disse aquilo tudo aos sussurros enquanto galgavam os degraus de mármore e adentravam o hall do castelo. E, no instante seguinte, Kyle não sentia mais os dedos dela apertando seu braço, sua prima estava deslizando para longe dele, os cabelos ondulando e as vestes farfalhando, e o lufano se viu sozinho em meio à torrente de alunos que entrava e saía do Salão Principal no horário de almoço.
O rapaz abaixou a cabeça, tentando não chamar a atenção para si. Provavelmente ninguém sabia da briga ainda, mas era apenas uma questão de tempo até a notícia se espalhar pelo castelo como fogo em rastilho de pólvora. Definitivamente haveria conseqüências não muito agradáveis para o que ele fizera, mas Kyle não estava nem um pouco arrependido.
Não foi difícil achar a tapeçaria que Adhara descrevera. Era grande, com pelo menos dois metros de altura. Seguindo as instruções da sonserina, ele usou o feitiço que fez com que as estrelas bordadas na tapeçaria começassem a se mexer, agrupando-se em uma formação específica, que parecia ser a de uma constelação que Kyle não reconhecia.
A tapeçaria se transformou em uma porta de madeira, igual a todas as portas de sala de aula de Hogwarts. Quando Kyle entrou, a passagem selou-se atrás dele e o garoto imaginou que, do lado de fora, a porta deveria ter desaparecido e voltado a ser uma peça de arte.
A sala era arredondada, espaçosa, mas não chegava a ser realmente grande. Ao contrário do resto do castelo, o piso ali era de madeira e estava forrado por um tapete com estampas florais. Os únicos móveis eram uma mesa de madeira mediana e duas cadeiras, também de madeira. Kyle enxergava um toque distintamente feminino naquela arrumação.
Havia um janelão com parapeito interno, cuja vista dava para os terrenos da escola. Ele se aproximou, à esquerda enxergava uma parte do lago bem ao longe e, à direita, uma cabana de aparência rústica e os restos do que um dia deveria ter sido um grande canteiro de abóboras, plantadas pouco antes da orla da Floresta Proibida.
Kyle desviou o olhar para a mão, ela não saíra completamente ilesa do soco, estava esfolada nas juntas dos dedos. Talvez fosse resultado da imensa cara de pau de Nott. O rapaz sorriu para si mesmo diante deste pensamento jocoso, foi então que ele ouviu o clique da porta sendo aberta atrás de si.
Ele se virou de imediato, Adhara já estava fechando a porta e trazia consigo um vidrinho com um ungüento amarelo e uma toalha pequena.
A morena rumou para Kyle, o rosto bastante grave e sério, e, sem dizer nada, indicou para que ele se sentasse em uma das cadeiras. Depois de acomodados, Adhara abriu o vidro e empapou a toalha com o ungüento. O líquido tinha um cheiro forte e até um pouco desagradável. Ela segurou a mão machucada do garoto com a maior delicadeza possível e começou a espalhar o remédio.
Aquilo ardia, mas Kyle não reclamou. Na verdade, o silêncio dela o incomodava muito mais.
- Que sala é esta? – ele perguntou, tentando quebrar o clima pesado.
- Apenas mais uma entre as centenas de salas secretas do castelo. Meu pai me falou sobre ela no verão e disse para eu usá-la, caso precisasse de um esconderijo ou de um lugar para conversar com discrição.
Adhara então suspirou e levantou seus olhos para o primo. A expressão de seriedade não havia deixado-a, mas ao menos seus olhos estavam mais brandos.
- Kyle, o que estava pensando? Por que fez aquilo? – ela o questionou e, embora não houvesse mais sombra da irritação de antes, a morena ainda não parecia feliz.
- Porque o Nott merecia e como você mesma não podia dar uma lição nele, alguém teria que fazer. Decidi que seria eu.
Ela meneou a cabeça e soltou a mão dele.
- Se os tempos fossem outros, eles te dariam uma detenção e tirariam pontos da Lufa-Lufa por você ter brigado na escola. Mas agora... – Adhara o encarou e ela parecia quase desesperada para que ele compreendesse a gravidade da situação – Você viu como essa escola está, Kyle. O diretor é um Comensal da Morte, e você bateu no filho de um Comensal. Theodore não é só um cara babaca da escola que implicou comigo, ele é o filho de um agente do alto escalão Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Eles não vão deixar um desafio desses passar em branco. Eu não sei o que vão fazer com você, mas sei que vai ser sério. E a Profª. Sprout não vai poder interceder por você nessa. Ninguém vai poder.
- Eu sei, Dhara. – ele encarou a prima, dando um sorriso para tentar tranqüilizá-la – Mas, qualquer que seja a punição que eu receba, eu não faria diferente. Valeu a pena ver a cara de tacho do Nott toda arrebentada.
Adhara sorriu, mas o gesto foi amargo. Ela estendeu uma das mãos até o rosto de Kyle, afastando a franja castanha que caía sobre os olhos esmeraldinos.
- Kyle, o que quer que digam ou façam comigo, eu não ligo. Eu posso suportar. Mas como você acha que eu me sentiria se visse você ser punido por minha causa? – a mão dela, que antes mexia com os cabelos do primo, encontrou apoio em uma das bochechas do lufano – Eu odeio admitir isso, mas Theodore estava certo em ao menos uma coisa... – e ela sussurrou a frase seguinte – Eu não valho à pena.
- Como você pode dizer isso, Dhara? – o lufano retrucou com desmedida seriedade – Eu não acho isso, a Meri também falaria a mesma coisa se estivesse aqui, assim como a Sra. Ivory, seu pai e qualquer um que realmente te conheça.
Ela suspirou e olhou para o teto da sala. As palavras de Kyle a deixavam, de certa forma, feliz. Era grata pelos esforços do primo, pelo cuidado e a preocupação dele. Mas aquilo também a afligia.
Adhara então voltou a fitar o primo caçula.
- Eu só não quero que ninguém te machuque. – ela começou, com o tom de voz baixo e dotado de mais emoção do que Kyle já a vira usar – A você e ao resto da nossa família... Eu me sentiria péssima se soubesse que qualquer um de vocês se prejudicou apenas para defender algo tão bobo quanto a minha honra. Eu seria desonrada e feliz se apenas soubesse que todos vocês estão seguros...
- Acho que você não entendeu direito o que eu fiz, Dhara. – Kyle a fitou, dando um meio sorriso – Eu não fui atrás de Nott para defender a sua honra, eu fui para ele saber que existem pessoas que gostam de você e estão dispostas a te proteger. Se fosse o inverso, imagino que você faria o mesmo por mim.
A morena arqueou uma sobrancelha.
- De um modo bem menos espalhafatoso e com menos sangue envolvido, é claro...
- Claro. – Kyle concordou, em um tom meio jocoso.
- Mas eu entendo o seu ponto, e você tem razão. – e então, ela finalmente sorriu. Era um sorriso de canto, como o de alguém que dá o braço a torcer um tanto relutantemente, mas, ainda assim, era um sorriso – Eu faria exatamente o mesmo.
Kyle sorriu em resposta, percebendo que finalmente Adhara conseguira compreender o que ele sentia. Foi como se chegassem a um acordo silencioso de que, no fim das contas, eram uma família e estavam ali para se protegerem mutuamente, independente das conseqüências.
- Acho melhor nós sairmos daqui, não? Esconder vai ser pior.
A sonserina acabou tendo que concordar. Quanto mais tempo demorasse para encontrarem Kyle, mais irritados eles ficariam e pior seria a punição do garoto. Assim, mesmo com relutância, ela levantou-se, não se preocupando em recolher o ungüento e a toalha e deixando-os esquecidos sobre a mesa, não era como se alguém mais fosse usar aquela sala ao final das contas.
Quando estavam quase chegando à porta, Adhara parou, dando-se conta de que, afinal, ela sequer agradecera ao lufano por tê-la defendido.
- E, sabe de uma coisa, Kyle? – ela disse, chamando a atenção do rapaz para si.
Ele voltou-se para ela, uma mão na maçaneta e uma expressão interrogativa no rosto. A morena sorriu de maneira conspiratória antes de continuar:
- Você é o melhor primo pavio-curto e super-protetor que uma garota poderia querer.
Kyle riu da fala dela, mas, tinha que admitir, sentia-se intimamente satisfeito por aquilo. Ao menos era uma demonstração de que Adhara o apreciava pelo que ele verdadeiramente era.
Sem dizer nada, ele girou a maçaneta, mantendo a porta aberta para que a prima passasse. Juntos eles deixaram seu esconderijo, prontos para encarar qualquer que fosse a tempestade que se armava para eles do lado de fora.
Kyle caminhou a passos decididos para o Salão Principal. Ele sabia que, sendo horário de almoço, provavelmente o lugar estaria apinhado de alunos, mas, para ele, pouco importava. O lufano pensara consigo mil e uma maneiras de abordar Theodore Nott, contudo, chegou à conclusão que era melhor encarar abertamente o sonserino. Definitivamente Kyle não era homem de se esconder no meio das sombras e armar emboscadas.
Assim que cruzou a porta de folhas duplas do refeitório, seguiu imediatamente para a mesa da Sonserina, ciente de que, possivelmente, quase todos os alunos estariam observando seus atos. Desde a posse dos Comensais na escola, segundo ele ouvira dos amigos, era ainda pouco menos comum os alunos das outras casas se dirigirem abertamente ao reduto das serpentes.
Em sua trajetória, Kyle parou apenas por breves segundos para trocar olhares com Adhara Ivory, que o fitava com uma expressão interrogativa.
Ele caminhou mais alguns passos, parando defronte a Theodore Nott.
- Nott. Eu preciso conversar com você. – Kyle disse, o cenho fechado e os braços cruzados.
O sonserino, até então, conversava com alguns colegas, e todos se voltaram para o recém-chegado. O garoto, entretanto, não parecia nada abalado por seu subitamente o centro das atenções de uma horda de cobras.
Theodore o avaliou dos pés à cabeça, seus olhos se demorando por um segundo a mais no brasão da Lufa-Lufa, antes de encarar os olhos verdes e determinados de Kyle.
O sonserino tinha a distinta impressão de que já vira aquele garoto em algum lugar, que ele já chamara sua atenção em alguma ocasião em especial, mas, no momento, não conseguia associar o rosto de Kyle a nenhuma memória específica.
- E quem, exatamente, é você? – perguntou, não com desdém, apenas uma curiosidade pretensamente educada.
- Meu nome é Kyle O’Neil. Você não me conhece, mas eu conheço muito bem você. Nós temos assuntos de comum interesse a resolver.
Theodore não respondeu de imediato, ao invés disso tomou alguns instantes para si, ponderando a situação.
De imediato não se lembrava de nenhuma família puro-sangue com o sobrenome O’Neil, mas para o rapazinho à sua frente estar em Hogwarts naquele ano, significava que ele deveria ter origens dignas. Tornara-se bem mais fácil saber com quem lidar desde que a escola havia refinado seu corpo discente.
E Nott tinha uma ligeira desconfiança – e geralmente suas desconfianças se provavam corretas – de qual era o interesse em comum que aquele garoto poderia ter consigo. Quem sabe, se tudo corresse bem, ele poderia conseguir um novo aliado.
- Está bem. – ele por fim concedeu – Você tem minha atenção.
- Se não se importa, seria melhor conversarmos do lado de fora, já que é um assunto particular. – Kyle insistiu.
Nott apenas anuiu, levantando-se da mesa da Sonserina, seguindo lado a lado com o outro garoto para fora do Salão Principal.
De seu lugar na mesa, Adhara observara discretamente a interação entre Kyle e Theodore. Não conseguira ouvir o que disseram, pois estava longe e os dois falaram em um tom moderado, mas, pelo fato dos rapazes terem deixado o Salão Principal juntos, imaginou que terminariam aquela conversa em outro lugar.
Sabia que, qualquer que fosse a intenção de Kyle ao procurar Nott, aquilo deveria estar relacionado com o que contara ao primo nos jardins, alguns dias atrás, sobre Theodore ter tentado beijá-la. Afinal não havia outra coisa que pudesse despertar o interesse do lufano em Nott. Kyle já deixara claro que, ao menos por enquanto, não desejava que seu parentesco com Ludovic Black-Thorne fosse conhecido pelo restante da escola.
Se ela sequer suspeitasse que as coisas pudessem terminar daquele modo, com Kyle indo atrás de Nott, ela jamais teria mencionado o ocorrido com o sonserino para o primo caçula. Kyle era um bom garoto, mas era um tanto impulsivo, e a morena sabia por experiência própria o quanto Theodore era bom em provocar alguém. Temia que o lufano se metesse em encrenca por causa daquilo.
Assim, ela esperou até que a atenção do Salão tivesse se dispersado um pouco antes de levantar-se da mesa da Sonserina e ir ao encalço dos dois.
* * * * *
- Então, em que posso lhe ser útil? – Theodore perguntou, dando um sorriso cortês e convidativo, se sentindo alguém verdadeiramente importante dentro da atual elite da escola.
Kyle sentiu o estômago embrulhar ao perceber a expressão do outro rapaz, compreendendo imediatamente a aversão que Adhara sentia pelo sujeito. Theodore parecia ser pegajosamente aversivo.
- Sei que muitos dessa escola acham que a Lufa-Lufa é sinônimo de paspalhões sem uma fibra de valentia neles. – o lufano começou – Mas, pelo que eu entendi, a característica principal da minha casa é a lealdade.
Nott arqueou uma das sobrancelhas enquanto ouvia o discurso do garoto. Realmente, a Lufa-Lufa era um recanto dos otários, mas acreditava que, assim como na Sonserina poderiam haver exceções à nobreza da Casa, o mesmo poderia ocorrer em qualquer outra Casa de Hogwarts. Esse menino O’Neil já estava demonstrando uma boa parcela de coragem por vir conversar com ele, e isso era algo que apreciava em seus aliados. Além do mais, a lealdade era uma das características mais apreciadas pelo Lord em seus servos.
Foi a lealdade inabalável à causa que manteve o pai de Theodore vivo após o fiasco ocorrido no Departamento de Mistérios, dois anos antes.
- E eu sou leal àqueles que eu gosto e não tolero que eles sejam molestados, ou feridos. Então, eu vou ser bem direto com você, Nott. Não gostei do modo como você tratou a Dhara da última vez que se falaram.
Theodore sentiu-se confuso após aquilo. Primeiro, o garoto estava exaltando as qualidades dos lufanos, e agora estava falando sobre Adhara?
E foi então que ele se lembrou de onde conhecia o rosto de Kyle O’Neil. Havia visto o garoto em King’s Cross, no dia do embarque para Hogwarts, acompanhado exatamente de, ninguém mais, ninguém menos, que Adhara Ivory e a família da moça.
Aquele lufano deveria ser, no mínimo, o novo namoradinho de sua prima.
Para a surpresa de Kyle, o sonserino começou a rir.
- Dhara? Então é disso que se trata? – Theodore meneou a cabeça, ainda rindo com escárnio, antes de se aproximar de Kyle e colocar uma mão no ombro do lufano – Ouça, garoto, porque eu fui com a sua cara, vou lhe dar um conselho sobre Adhara Ivory. Ela pode até ser bonita e ter toda aquela aura de mistério a rodeando, sim, eu concordo, mas, como alguém que a conhece há sete anos e é primo dela, acredite em mim quando lhe digo: ela não vale à pena.
Neste ponto o lufano sentiu o sangue ferver. Quem Nott achava que era para falar da prima dele daquele jeito como se ela fosse uma qualquer, ainda mais depois do que ele tentou fazer? Sem refletir sobre o que fazia, Kyle levantou o punho e deixou que este caísse como uma pesada marreta sobre o rosto de Theodore.
No instante seguinte, o sonserino estava no chão, mas a raiva do lufano ainda não havia se amainado. Se Theodore se achava “homem” o suficiente para abordar Adhara do modo como fizera, ele deveria ser homem suficiente para arcar com as conseqüências.
O’Neil se abaixou com a intenção de levantar Nott pelo colarinho e continuarem a briga, não era covarde para bater em alguém caído, contudo, não chegou a terminar a ação. Subitamente, Kyle sentiu seu braço ser seguro com força por trás. Quando virou o rosto, ele encontrou os olhos azuis daquela que era justamente a razão por ter ido ao encontro de Nott.
Os orbes de Adhara faiscavam enquanto encaravam os seus e o aperto dela em seu braço era surpreendentemente forte para alguém de aparência tão frágil.
- O que você está fazendo? – ela sibilou e os olhos dela correram para a figura de Theodore, caído na grama dos jardins de frente ao castelo e com o nariz sangrando – Vamos sair daqui.
Ela puxou Kyle pelo braço, fazendo-o andar ao seu lado. Quando já tinham dado quase meia dúzia de passos em direção aos degraus de mármore do castelo, ouviram a voz de Nott atrás deles:
- Então é isso, Dhara? Você gosta de diversidade? – sua voz estava um pouco engrolada por causa de todo o sangue que escorria do nariz provavelmente quebrado – Primeiro um corvinal, depois um grifinório e agora um lufano? – e ele cuspiu uma mistura de saliva e sangue no gramado antes de continuar, forçando um sorriso sedutor para a prima – Me avise então quando resolver experimentar um sonserino.
Adhara sentiu Kyle se mexer ao seu lado, tencionando avançar novamente sobre Theodore, e intensificou seu aperto no braço do garoto.
- Kyle, não! Vamos embora.
O lufano a encarou, e não foram os dedos dela, enterrados com força em seu braço, que o fizeram assentir – ela era forte, mas ele poderia se livrar da morena se quisesse –, mas sim o que viu nos olhos da prima. Além da aparente irritação, havia apreensão no fundo das íris azuis.
Kyle apertou os punhos com força, tentando se conter. Nott realmente merecia uma sova bem dada para quebrar aquela crista dele, contudo, para ele, aquietar as visíveis apreensões da prima lhe pareceram bem mais importantes.
Kyle estava sentado, sozinho, as costas apoiadas na borda da fonte de Belerofonte. Meridiana havia comentando com ele sobre aquele lugar quando estavam a caminho da escola. Era uma espécie de refúgio dela e dos amigos, uma vez que a construção era cercada de arbustos e pouco visitada pelos demais alunos.
Foi ali que a ruivinha conhecera Raven Sinclair, e, também foi ali que ela e o namorado patinaram em um dia de inverno. O rapaz sorriu ao lembrar-se das histórias da prima. Hogwarts deveria ser um bom lugar para se viver antes dos Comensais assumirem o poder.
Agora, contudo, a situação era outra. As regras eram mais rígidas, os alunos pareciam viver em constante estado de alerta e medo sobre seu próprio bem estar, uma vez que, ao menor deslize, aqueles que contradiziam abertamente a ordem vigente sofreriam inúmeras represálias.
Para Kyle, aquela mudança de rotina parecia, por vezes, asfixiante. Os muros do castelo lhe lembravam uma prisão. Ele sempre crescera ao ar livre, passando os dias nas praias de sua terra natal, escalando as escarpas, se metendo em aventuras típicas de uma criança curiosa demais para seu próprio bem.
Mesmo os estudos não eram como em Hogwarts. Romulus Lycan era um professor exigente em termos de matérias trouxas, mas nada comparado aos professores de Hogwarts. E, o aprendizado de magia que Lucy e Lachesis, a falecida madrinha de Kyle, ministravam era algo bem mais fluído e lúdico, quase intuitivo.
Estava sendo difícil adaptar-se a toda aquela mudança. Sentia falta da Grécia... De sua mãe... De seus amigos, Órion, Ariadne, e, principalmente, Leda.
Também sentia falta de Meridiana. Com os planos da prima em fingir-se adepta aos atuais preceitos que regiam a escola, era comprometedor para ambos conversarem com a mesma freqüência, intimidade e naturalidade que adquiriram durante a estadia dele na casa de Frida.
Ao menos, ele podia contar com os demais amigos da ruiva, que acabaram se tornando também seus próprios amigos.
E, havia também, sua outra prima. Adhara, que se tornara uma excelente amiga, a quem ele também passara a enxergar como parte importante de sua família.
Lembrando-se da morena, ele olhou no relógio de pulso, franzindo o cenho. Dhara estava atrasada, e, ela era alguém bastante séria em relação a horários. Talvez houvesse acontecido alguma coisa. Mas sua preocupação se desvaneceu quando avistou a morena surgir por entre os arbustos, afastando os galhos e folhas com as mãos. Com o uniforme de detalhes verdes ela quase desaparecia em meio às folhagens.
Aquela divisão dos alunos entre Casas era outra coisa que Kyle não entendia muito bem. Parecia besteira dividi-los com base em suas personalidades e aptidões... Aquele tipo de coisa só servia para criar um abismo entre todos eles. Além do mais, se uma pessoa conviver apenas com outras que são iguais a si, nunca descobrirá toda a diversidade que existe no mundo.
Mas as conjecturas do garoto foram esquecidas quando o rosto de Adhara entrou em sua linha de visão. Havia alguma coisa errada ali.
Depois de dois meses de convivência na mesma casa, ele já havia se acostumado com o jeito da prima. A morena era um pouco séria e rigorosa, embora sempre tenha lhe tratado com afeição, e também parecia ser uma pessoa muito tranqüila, do tipo que não se zanga com facilidade e não responde a provocações. Entretanto, ali estava ela, com a expressão mais fechada que Kyle já vira naquele rosto e os olhos azuis faiscando de ira.
Ela caminhava em sua direção com passos pesados, os lábios apertados, e, quando chegou ao seu lado, sentou-se no chão e jogou a bolsa de lado com bem menos cerimônia e cuidado do que lhe era de costume.
- Desculpe o atraso, fiquei presa em Transfiguração. – disse Adhara, sem olhar para ele, já abrindo a bolsa e procurando os livros que veriam naquele dia.
- Dhara, espera. – Kyle segurou os braços da prima, pois, com a ferocidade com que ela remexia naqueles livros, certamente acabaria por arrancar a capa de algum – Calma. Me conta o que aconteceu.
Adhara suspirou e encarou o primo. Os olhos verdes de Kyle brilhavam com seriedade e preocupação. Ela poderia até se esquecer que o garoto era dois anos mais novo do que ela quando ele a olhava daquela forma. Ele parecia quase uma versão masculina de Meridiana...
Mesmo em meio à sua raiva por Theodore, ela não pôde evitar um singelo sorriso ao pensar daquela forma. Kyle era sua família tanto quanto Meri, ela poderia confiar nele, como aprendera a confiar na ruiva.
- Nott estava me esperando na porta da sala de Transfiguração, foi por causa dele que me atrasei.
Kyle franziu a testa, se lembrava da morena lhe indicando Theodore Nott no Salão Principal, um sonserino que também era primo deles. Tinha que admitir que, apesar de nunca ter trocado uma palavra com Nott, não simpatizara com o sujeito desde a primeira vista e sua impressão apenas piorara quando Adhara lhe contara o que aquele rapaz era.
- Não me diga que ele estava tentando te convencer a se juntar ao clubinho dele, de novo?
Adhara meneou a cabeça, os olhos fechados. Kyle sentiu os pulsos dela tremerem sob suas mãos e ele soube que, o que quer que Nott tenha feito, deveria ser algo muito sério. Algo que, para a prima, fosse pior do que tentar convencê-la a se tornar uma Jovem Comensal. Nada menos do que isso deixaria Adhara tão descontrolada.
- Ele tentou me beijar. – ela disse, entredentes, quase como se tivesse vergonha demais em admitir aquilo.
Kyle fechou o cenho, estreitando os olhos. Talvez fosse o fato de ter sido criado pela mãe e pela madrinha, ou talvez fosse o modo como as coisas se encaminharam entre ele e Leda desde a infância, mas, a verdade é que, para o rapaz, obrigar uma mulher, na realidade, obrigar qualquer pessoa a fazer aquilo que não desejava era um abuso intolerável.
- O que você fez? – ele perguntou, sério. Pelo que conhecia de Adhara, sabia que ela tinha toda a capacidade de se defender sozinha.
- Infelizmente, bem menos do que eu gostaria. Mas, dadas as nossas atuais circunstâncias, acho que eu não poderia torturá-lo e matá-lo mutilado. – ela confessou, parecendo contrariada.
Kyle cruzou os braços, assentindo. Ele também sabia que, mais do que qualquer outra pessoa do seu novo círculo de amizades, era a prima sonserina quem estava em situação mais complexa. Qualquer posicionamento, qualquer deslize poderia repercutir de modo negativo, até mesmo trágico, sobre o pai e a madrasta da garota. Para alguém tão altiva quanto Adhara, fingir submissão deveria beirar à tortura.
- Bem... Você não pode ficar remoendo a raiva desse jeito. – ele falou, sabendo que, do jeito como a sonserina estava furiosa, estudar estava fora de questão naquele exato momento – O que quer fazer para extravasar a raiva? Digo, outra coisa que não seja matar o Nott.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Kyle estava certo, ela não poderia ficar remoendo aquilo. Tinha que aceitar o que aconteceu não poderia ser mudado e estava fora de seu alcance retaliar contra Theodore – ao menos no momento.
- Tudo bem, Kyle, eu já estou mais calma. – ela respondeu, abrindo os olhos e falando em um tom mais controlado – Conversar com você já ajudou. Obrigada. – a morena acrescentou, com uma expressão mais amena.
- Fico feliz em ter ajudado. – ele respondeu, com uma expressão terna – Então, como o Nott melou nossa tarde de estudos, que tal uma pausa? A gente podia ir na cozinha filar alguma coisa. A Raven já me apresentou aos elfos do lugar.
Adhara sorriu levemente, pelo jeito não precisava se preocupar com o entrosamento do primo se ele já conhecia até os elfos domésticos do castelo.
- Acho a cozinha uma boa idéia. – e, de fato, se tinha uma coisa que aprendera nas suas excursões ao mundo trouxa durante as férias foi que comida sempre era uma boa forma de distração.
Assim os dois se levantaram, reunindo os livros e espanando as folhas que ficaram presas aos uniformes. Discutiram amenidades durante todo o caminho de volta para o castelo, mas parte da atenção de Kyle não estava presa à conversa com a morena.
O lufano deixou que seus lábios se curvassem em um discreto sorriso torto ao perceber que, se Adhara não podia agir contra Nott, o mesmo não se aplicava a ele próprio. Contudo, preferiu guardar a idéia que acabara de ter para si, pelo menos por enquanto. Contaria para a prima os louros da vitória se ele fosse bem sucedido.
Theodore Nott tivera muito o que pensar nos últimos dias. A conversa que tivera com Adhara, algumas noites atrás, abrira seus olhos para possibilidades ainda não contempladas. Algumas desagradáveis, outras nem tanto, mas, no geral, sabia que teria de reavaliar certos pontos que concerniam a prima.
Desde que conhecera Adhara, sete anos antes, sua mente começara a traçar cenários envolvendo a garota. Ela era uma sonserina, assim como ele, ela tinha o mesmo sangue que o seu e um sobrenome que incutiria reverência nos melhores círculos bruxos. Ele era curioso o suficiente acerca de suas origens para saber exatamente quem eram os Ivory e o prestígio e influência de que o clã gozava na Europa continental.
Para Theodore parecera que havia descoberto um novo mundo inteiro para explorar, conquistar e governar. Dadas as devidas proporções, ele até se identificava com os primeiros bruxos que partiram para as Américas. E Theodore sempre sonhara com a grandeza, parecia uma ambição natural para alguém nascido entre nobres.
Mesmo quando criança Adhara já era altiva, elegante, inabalável. Um olhar frio e cheio de veneno de seus olhos azuis meia-noite era o suficiente para calar e impor respeito até entre os sonserinos mais velhos. Mesmo dentro da alta estirpe na qual ele crescera a prima era uma raridade. Assim ele pensara que, se a tivesse ao seu lado, poderia alçar uma posição que provavelmente não conseguiria galgar se estivesse sozinho.
Entretanto, extraordinária como era, Adhara se provara difícil de dobrar. Ela era independente, não confiava em ninguém, e o orgulho a impedia de ver que eles poderiam conquistar muito mais juntos do que se estivessem por conta própria. Porém a jovem Ivory ainda era humana, e ainda estava sujeita a cometer erros.
Theodore não poderia fingir que não lhe doera ver sua prima, dia após dia, ano após ano, ser maculada e envenenada por pessoas de sangue inferior e visão deturpada. Primeiro Cyan, aquele corvinal cínico e aproveitador, e então a garota Deveraux – a qual, graças ao Bom Slytherin, havia sumido –, Johnson, a outra prima grifinória, filha da traidora do sangue, e por último houvera Barton, o mais perigoso de todos eles, o que chegara mais perto de arrastar Adhara para o fundo de um abismo do qual não teria volta. E o pior era que a moça se recusava a deixar que ele, Theodore, se aproximasse para resgatá-la.
Felizmente aquele período negro não perdurara. Pelo que descobrira posteriormente, Adhara havia tido um encontro com Ludovic Black-Thorne durante as férias de páscoa e, fosse lá o que o Comensal dissera ou fizera, sua prima retornara para a escola redimida. Parecia que o Sr. Black-Thorne tinha um certo dom para doutrinar e purificar aqueles que se perdiam do rebanho.
Mas, pelo jeito, aquilo ainda não fora o suficiente... Havia algo em Adhara que parecia ter se perdido para sempre: a sua ambição, o seu desejo de controlar, a sedução que a promessa de poder exercia sobre todo sonserino. Ela não era mais a mesma. Ela havia amolecido.
Theodore suspirou. Ele havia sido derrotado pelo Destino até certo ponto. Adhara não poderia mais ser a sua guerreira. Mas, mesmo dócil e desinteressada como era agora, ela ainda poderia se provar útil, se fosse usada da forma adequada. Ela não poderia mais lutar por ele, mas ainda poderia abrir algumas portas se ficasse ao seu lado, como um bom bibelô.
E, é claro, ela ainda era bonita.
Suas conjecturas se encerraram quando ele ouviu o som de cadeiras sendo arrastadas e um burburinho de conversas antes da porta da sala de aula à sua frente ser aberta. Ele se endireitou em sua posição: as costas apoiadas contra a parede do corredor e os braços cruzados sobre o peito. Os alunos do sétimo ano da Sonserina e da Corvinal deixavam a sala de Transfiguração, a última aula do período da manhã. Ele não avançara naquela matéria após os N.O.M.s, mas Adhara sim, e era por ela que Nott esperava.
Acenou para a morena quando a viu, fazendo sinal para que ela viesse até ele. Adhara obedeceu, encarando-o com uma expressão de educada curiosidade quando parou à sua frente.
Havia uma mecha negra escapando da trança em que a moça prendera o cabelo e ele estendeu o dedo para mexer no cacho, antes de colocá-lo atrás da orelha dela. Ela tremeu ligeiramente sob o seu toque, mas não fez menção de afastá-lo. Ele sorriu.
- Eu gostaria de falar com você. Tem um minuto?
- Claro. – concedeu a morena, sem maiores questionamentos.
Theodore desencostou-se da parede e apoiou uma das mãos nas costas da prima, na altura da cintura, guiando-a para longe dos demais alunos. Seguiram em silêncio pelo corredor, encontrando cada vez menos pessoas pelo caminho, até que chegaram a uma área completamente deserta. Foi então que pararam.
Adhara não estava gostando nada daquilo. Uma coisa era aceitar conversar com Theodore no salão comunal repleto de pessoas, outra muito diferente era estar sozinha com ele. E tudo pareceu piorar quando a mão magra dele percorreu toda a extensão de sua coluna sobre a capa do uniforme, indo até seu ombro antes do rapaz circundá-la e parar de frente para ela. Os olhos escuros dele brilhavam com a mesma excitação de um predador que prepara o seu bote.
E Adhara odiava pensar que, para Theodore, ela era a presa.
- Eu estive pensando em nós dois, Dhara. – ele começou, e seus dedos faziam um leve carinho no ombro dela – E naquilo que você me disse na última vez em que conversamos.
Ela apertou os lábios, forçando-se a ficar em silêncio. Sabia que se abrisse a boca naquele momento não conseguiria controlar seu asco e acabaria por colocar tudo a perder.
- É claro que eu entendo o seu lado, minha querida. E você está coberta de razão: você já fez bem mais que o suficiente. Já honrou seu sangue e o brasão que carrega no peito. – a sua mão subiu até a gola da camisa de Adhara e continuou até o pescoço da garota, maravilhando-se com a textura daquela pele pálida e a pulsação sob as pontas de seus dedos – O próprio Lord em pessoa certamente se sentiria satisfeito com os seus esforços, e se orgulharia por saber que tem uma serva assim tão devotada... E tão linda.
Quando os olhos negros de Theodore se cravaram nos seus, Adhara teve apenas um instante para compreender o que ele pretendia antes que fosse tarde demais.
Nott já se curvava sobre ela, buscando seus lábios, e se ela tivesse demorado um segundo a mais não teria tido tempo de virar seu rosto e evitar que ele a beijasse.
Adhara respirou fundo e espalmou as mãos no peito dele, empurrando-o para longe de si ao mesmo tempo em que dava um passo para trás.
- Theodore, pare com isso. – ela pediu, sem olhar para ele. No fundo temia que se visse o rosto de Nott não resistiria à tentação de arrancar a cabeça dele naquele exato instante – Você é meu primo e eu não te enxergo como nada além disso... Por favor, não tente forçar algo que não existe.
Apenas a jovem sabia o esforço quase sobre humano que havia sido forçar aquela renúncia gentil e quase recatada quando tudo o que queria era ver o sangue de Theodore tingindo o chão.
Ele franziu o cenho, avaliando a reação dela. Aquela não era a Adhara que ele conhecia e admirava... A sua Adhara o corresponderia com paixão ou então o rejeitaria com um ódio frio e implacável. Sua prima estava mais perdida do que ele pensava... E por isso ele não tentou detê-la quando ela lhe deu as costas.
- Eu tenho que ir. Tenho coisas a fazer.
Aquilo era verdade, ela tinha combinado de se encontrar com Kyle depois de sua aula de Transfiguração, o garoto já deveria estar esperando por ela. Mas, acima de tudo, não conseguia mais tolerar sequer um segundo na presença de Theodore.
Sem esperar por uma resposta, Adhara seguiu a passos ligeiros para longe do sonserino. Porém a distância que impunha entre eles não ajudava em nada a amenizar a sua ira e o seu nojo.
Com o pouco que ainda restava do verão, apesar do clima tenso e pesado que recaía sobre a escola, muitos alunos aproveitavam o sábado à tarde, enquanto os passeios a Hogsmeade ainda não haviam sido anunciados, nos terrenos externos de Hogwarts.
Com o interior do castelo praticamente vazio, não foi tão difícil para Lorelai chegar sem ser notada até a entrada do QG da Máfia, imaginando que os amigos deveriam ter tido a mesma facilidade.
A moça pensou consigo mesma o quanto as coisas pareciam se convergir para um único ponto. Mal ela pensou em convocar os demais para contar sobre o que conversara com Ginny Weasley, Kyle pedira para que ela fizesse o mesmo.
O lufano, que ela sabia ter se tornado um grande amigo de Herman durante o verão, havia se encontrado com ela para pegar uma carta de Jack Mercury. O tio de seu marido preferira que Lore fizesse às vezes de mensageira ao invés de escrever diretamente para Kyle. Jack queria que a situação fosse “mais pessoal”.
Assim, ambos ficaram sabendo que Jack e Lucy começaram a namorar e que para oficializar a situação, Jack pedia permissão a Kyle para “cortejar a mãe dele”. O rapazinho ficou feliz com a notícia, pois tudo o que desejava era ver a mãe feliz, e Lore também ficou feliz por eles; gostava de Kyle o suficiente para se alegrar por ele se tornar “primo” dela e do pombo.
Contudo, no fim da conversa animada dos dois, ele pediu, com bastante seriedade, que reunisse todos os demais para anunciar a idéia que ele e Raven haviam tido para ajudar no Olho do Grifo. Ele contou sobre a idéia dos quadrinhos, o que Lorelai achou sensacional.
Com esses pensamentos animadores na cabeça, a grifinória parou diante da imagem de Sir Úrico, que fez uma reverência antes de fazer a pergunta de praxe.
-O que vamos cozinhar hoje, my lady? – ele perguntou.
-Suflê de Cenoura – Lore respondeu sem esconder um meio sorriso.
Quando a moça finalmente adentrou no recinto, percebeu que todos os amigos já estavam ali reunidos. Todos se viraram ansiosos para ela, contudo, era uma ansiedade esperançosa. Possivelmente, Sat, Kyle ou Raven pudessem ter adiantando alguma coisa da idéia da tirinha ou a expressão confiante da Fada Prensada acabou se refletindo em seus amigos.
-Boa tarde – ela cumprimentou – Todo mundo bem?
-Não poderíamos estar melhor – Satanio respondeu, com um sorriso matreiro, enquanto se espreguiçava displicentemente – Não penso em uma maneira melhor de passar meu sábado do que em reuniões conspiratórias contra os Cenourões. Então, Lore? Quem começa a contar a novidade, Chefinha?
-Eu faço uma introdução geral, mas acho que devemos deixar a explicação da novidade os donos da idéia. Como todo mundo sabe, nós vamos voltar a escrever e distribuir o Olho do Grifo e eu até estou rascunhando umas coisinhas, mas o Kyle e a Raven tiveram uma idéia genial para dar um upgrade no jornal.
A moça de olhos caleidoscópicos virou-se para os dois amigos naquele instante, dando a deixa para continuarem. Kyle olhou de soslaio para Raven, percebendo que a sonserina enrubecera momentaneamente.
- Hm, você me desculpa? É que eu não sou boa para falar em público... – ela murmurou baixinho para o lufano mais novo.
Kyle meneou a cabeça, ligeiramente divertido, percebendo que cabia a ele contar as novidades. Apesar de ser o novato da turma, e, de alguns deles ainda não saberem completamente sobre os detalhes de sua relação direta com Meridiana, ele se sentia confortável entre eles.
-Eu e a Sinclair pensamos criar uma série de quadrinhos para o Grifo. Lucien e Dhara poderiam desenhar, já conversei com os dois, e todos os demais podem ajudar nos roteiros.
-Vão ser histórias satirizando os Carrow? – Darien perguntou, sentado ao lado de Selune.
O rapazinho grego meneou em negativa.
-A Sinclair deu outra sugestão. – ele olhou de soslaio para a sonserina, indicando que, apesar de timidez, a palavra agora cabia a ela.
Raven levantou-se, tentando se acostumar com todos os olhares que se dirigiam a ela. Era fácil cantar em público, como fizera com Luke no festival da Primavera, dois anos atrás; contudo, fazer quase um discurso eram “outros quinhentos”.
- Bem... eu sugeri tentarmos uma série de quadrinhos de super-heróis, já que o Herman era fã desse tipo de HQs e também é a que a maioria do pessoal daqui conhece mais. Com personagens baseados nos escritores do Grifo, sabe? Tipo o Mensageiro, a Fada Prensada e a Domadora combatendo os Cenouras ou algo parecido!
-Você está falando sério? – os olhos de Lorelai se arregalaram e ela falou um pouco mais exaltada do que desejava.
Raven baixou o rosto, segurando um dos braços, encabulada.
-Não gostou?
-Muito pelo contrário! – disse a Fada Prensada, aproximando-se da sonserina e surpreendendo-a com um abraço, sentindo os olhos lacrimejarem em emoção. – Se estivesse aqui, Herman seria o primeiro a amar a idéia. É simplesmente a cara do meu chuchu.
A sonserina deixou-se sorrir, feliz por ter contribuído com o movimento revolucionário e por ter deixado Lorelai um pouco feliz. Todos podiam ver o quanto ela estava sofrendo com a separação entre ela e o Pombo, e fazer o Grifo funcionar, fazer aquelas tirinhas era um modo de fazer com que Herman, e também Mina, estivessem, de certo modo, junto com eles.
A partir desse ponto, todos começaram a discutir e trocar idéias sobre as possibilidades da história, e decidiram que só iriam lançá-la quando estivesse tudo planejado, definido e aprovado.
-Eu tenho outra coisa para falar para vocês – Lore anunciou, quando o assunto dos quadrinhos se esgotou. – Ginny Weasley descobriu que eu sou a Fada Prensada. E nos convidou para nos juntarmos a eles na Armada de Dumbledore. Eles estão querendo voltar à ação.
Todos os amigos se entreolharam. Um silêncio profundo de plena surpresa caiu sobre todos, sendo quebrado, depois de alguns minutos, por Kyle O’Neil.
-Armada de Dumbledore? – ele perguntou, confuso. A única coisa que ele reconheceu ali foi o nome do falecido diretor da escola.
-História longa... eu te conto com calma depois – Lucien respondeu, pousando a mão no ombro do lufano mais jovem.
-Eu gosto da idéia... – Selune falou, os olhos brilhando. Todos anuíram, concordando com a francesinha.
-Então, nós vamos ser o quê? Seria Armada do Grifo ou Olho de Dumbledore? – Satanio perguntou, brincalhão.
-São duas coisas diferentes, Sat – Lore respondeu, rindo – Mas, olha, pelo que eu conversei com a Weasley, você vai ter oportunidade de contribuir com muitas idéias. Ela falou sobre algo como pichações.
-Huahuahuahuahua – o loiro soltou, esfregando maliciosamente uma mão contra a outra – vejo muitas possibilidades interessantes aí!
- Eu acho que você não devia ficar tão animado, Sat – comentou Raven, cruzando os braços com um ar sério – Tenho minhas dúvidas de que o pessoal da Armada vá aceitar sonserinos em suas fileiras. Ainda mais agora, que nossa reputação está mais suja do que poleiro de coruja.
- Se for assim, eles só vão provar que são tão preconceituosos quanto os Carrow. - Luke tomou a palavra - Não dá para colocar todo sonserino na mesma categoria ou grifinórios ou corvinais ou lufanos. Tem gente ruim e gente boa em tudo quanto é lugar.
- Muito bem, ruivo, eu concordo plenamente com você – comentou Sat, passando o braço sobre os ombros do amigo – E você fala com conhecimento de causa, pois ninguém é mais especialista em sonserinas aqui do que você, eu creio – ele completou, com um sorriso torto.
Luke olhou de soslaio para Darien, que também havia sido namorado de Katarina Star; contudo, o corvinal pareceu não se importar com a insinuação de Satanio. Depois olhou para Raven, sentindo as orelhas esquentarem, percebendo que, felizmente, ela não havia compreendido as implicações daquela afirmação. Implicações que ele próprio não compreendia por completo.
-Bem – Lore chamou a atenção para si novamente – acho que tudo é conversado, e, a Weasley, e, principalmente, o Longbottom, que parece ser quem está organizando tudo, são pessoas sensatas.
-Tomara que sim – Rav murmurou, baixinho.
Notas Queria agradecer à Pups e ao mesmo tempo pedir desculpas por não ter solicitado, mas, aquele lance da AG e OD ficou tão genial que não resistimos em colocar no post. Todos os créditos sobre AG/OD são dela!
Outro recadinho é que, todos nós do Expresso desejamos a nossos amados e queridos leitores um excelente feriado e uma páscoa cheia de chocolate, sejam coelhos, ovos ou sapos!
Algumas pequenas explicações...O post que deveria entrar no ar hoje não ficou pronto...Por problemas pessoais relativamente sérios, que não vem ao caso detalharmos aqui, não deu para fechar. Desculpem-nos.
Em todo o caso, para o dia não passar em branco, estou invertendo um pouco a ordem das coisas. Coloco aqui mais um "singelo" presente da Anna, que iria ao ar mais para o fim da semana antes de ir para a Fanarea. Com toda sinceridade, ela conseguiu ser ainda mais cruel com a Selune XD.
Abraços a todos e novamente desculpas,
Meri
**Então vamos às 10 Maneiras de irritar Selune Priout**
1-Pergunte a ela o nome do descolorante capilar que ela usa
2-Siga-a por toda a Hogwarts e toda vez que ela falar algo, repita acentuando o sotaque quinze vezes mais que ela. Por exemplo “ Querrrro comerr torrte de aboborra”
3-Quando ela te pedir para parar, coloque a mão na testa em sinal de desolação e diga “Isso é mal dos franceses, tre sensible”
4-Pergunte a ela se ela já ouviu Joss Stone
5-E se ela acha a Joss Stone gatérrima
6-Roube o diário dela e sublinhe todas as vezes que o pai dela a chama de “papillon”, depois mostre isso para ela e pergunte se papillon é nome de doença degenerativa da língua
7-Quando ela estiver dormindo, desenhe com tinta permanente uma estrela e uma lua na testa dela e quando ela perguntar por que você fez isso, diga que foi para honrar o nome dela “Céu Lune”
8-Pergunte se ela já foi ao ortopedista olhar seus tornozelos fracos
9-Diga-lhe que Mary Poppins é o musical mais brega e sem noção da história da humanidade
10-Por fim, se você ainda for um ser humano inteiro, e se o Tristan não tiver te pegado em algum beco escuro para acertar as contas, e agora você está lendo isso de uma cama de hospital, pegue todos os diamantes dela e troque por cacos de vidro, quando ela perguntar quem foi, jogue a culpa em cima de Lucky.
Lorelai Mercury aproveitara o sossego e a privacidade do dormitório para tentar escrever alguma coisa para a nova edição do Olho do Grifo, mas estava difícil desenvolver uma linha de raciocínio. Havia tantas e tantas coisas que queria dizer, reclamar, protestar, tantas injustiças que estavam vivendo dentro dos muros de Hogwarts, e, outras ainda maiores do lado de fora do castelo.
Escrevera algumas frases espaçadas, mas nada que se configurara como um texto realmente nexo, estavam mais para começos de vários futuros artigos.
-Nem só de flores e chocolate é feito o mundo. Mas a gente pode tentar dar um jeito de plantar mais flores e distribuir alguns bombons quando a gente pode. – Lorelai Mercury, disse para si mesma, pousando a pena em cima do pergaminho, tentando dar-se uma dose de ânimo.
Ela estava cansada e com a cabeça quente de tanto pensar, apenas isso. Se ela tomasse um banho e conseguisse uma boa noite de sono, ela poderia pegar pelo menos um daqueles inúmeros tópicos que começara a trabalhar e destrinchar um bom texto.
Ela guardou apressadamente as folhas em uma gaveta próxima, pegando a toalha, escova e sabonete para tomar o banho. Era o melhor que tinha a fazer naquele momento.
Já debaixo do chuveiro, a Fada Prensada deixou seus pensamentos viajarem nas coisas que desejava escrever, nas saudades que sentia de seu Mensageiro, da família e das mafiosas. Era por eles que ela estava lutando, ao seu modo.
Concentrada em espalhar a espuma do xampu em seus cachos, ela começou a murmurar baixinho uma música trouxa que já havia escutado seu tio músico cantar várias vezes:
-We don't need no education …We dont need no thought control…No dark sarcasm in the classroom…Teachers leave them kids alone…Hey! Teachers! Leave them kids alone!...All in all it's just another brick in the wall…All in all you're just another brick in the wall….
Era impossível não associar aquela música aos Carrow e à situação de Hogwarts. Ela acabara por se tornar um hino pessoal de Lorelai diante de toda aquela situação absurda e a ajudava a pensar no que fazer.
O mantra acabara realmente ajudando, pois, ao final do banho, já vestida com seu pijama, cabelos quase secos pela toalha felpuda, Lore já sabia exatamente qual dos tópicos ela começaria a desenvolver no dia seguinte.
O sorriso vitorioso que a grifinória tinha nos lábios morreu no instante seguinte em que viu uma ruiva, sentada na cama ao lado da sua, lendo seria e concentradamente o pergaminho onde até então estivera rascunhando suas idéias. Ela tinha certeza que pertencia a ela, pois, a cor salmão do papel não era algo de uso comum na escola. A própria Lorelai usava aquelas folhas para cartas ou textos pessoais.
Naquele instante, ela percebeu o quão descuidada estava sendo. Ela deveria ter apreendido melhor com os problemas que tiveram no ano anterior.
-Estava no chão ao lado da sua cama. Deve ter caído e você não viu – a ruiva falou, fixando sua atenção em Lore.
A jovem escritora não conseguiu responder de imediato, os olhos caleidoscópicos ainda arregalados de espanto. Contudo, diante da situação, não poderia negar aquela verdade tão óbvia.
-Sim... fui eu – ela murmurou.
A ruiva deu um meio sorriso antes de se dirigir à Lorelai.
-Quem diria que a minha nova companheira de quarto era uma das autoras do Olho do Grifo. Sempre gostei de vocês, sabia? Desde a época da Umbridge – Ginny Weasley falou, simpática – Você é quem?A Domadora de Dragões ou a Fada Prensada?
- A Fada... – Lorelai respondeu, em meio a um suspiro de alívio diante da reação de Ginny. Não que ela tivesse algum motivo para temer a companheira de quarto no que dizia respeito aos Carrow. Grande parte do susto se devia a ter sido pega em flagrante.
-Eu realmente gosto dos seus textos – a ruiva estendeu o papel para Lorelai, que o pegou prontamente – Mas você devia ser mais cuidadosa com eles, sobretudo agora.
-Eu sei, vou tomar mais cuidado, obrigada – Lorelai respondeu, guardando o texto na gaveta da cômoda junto aos demais, selando-a com a varinha que acabara de apanhar na mesma gaveta.
Lorelai sentou-se, então, na própria cama, diante de Ginny, sem saber o que falar para a companheira de quarto. Alguns minutos de silêncio se passaram antes da ruiva tomar a iniciativa novamente.
-Então vocês vão continuar escrevendo... – ela falou.
-Eu vou continuar – Lorelai respondeu em um súbito acesso de sinceridade, não via razões para esconder as coisas de Ginny agora que a moça já sabia do principal segredo . – O Mensageiro e a Domadora não puderam voltar para a escola.
-Mas você tem outras pessoas te ajudando, não? – a ruiva perguntou, exprimindo uma pontada de preocupação.
-Eu não estou sozinha nisso - Lorelai assentiu.
O sorriso amplo e convidativo se formou no rosto de Ginevra, como se uma grande idéia houvesse se formado em sua mente, o que, de fato, acontecera.
-Bem, acho que você se lembra da Armada de Dumbledore – ela começou, duvidando que Lore não soubesse do que Harry, Mione e o irmão haviam criado no ano em que Umbridge se tornara diretora, afinal toda a escola soubera do feito – Neville quer retomá-la, e, bem, eu acho besteira fazermos as coisas separadas se nosso objetivo é o mesmo. O que acha, Lorelai, de você e seus amigos unirem forças a nós?
Foi a vez, então, da moça de olhos caleidoscópicos sorrir.
Sentada sozinha na bancada da sorveteria estava Sam. Ela olhava para dentro do balcão com a mente longe, quase não percebendo as pessoas que passavam a sua volta. Não era o correto, mas às vezes a jovem não ficava vigiando em volta todos os segundos. Ainda mais quando ela mudava o cabelo e colocava lentes de contato, para não ficar tão óbvio que era bruxa. Olhos cinza eram algo exclusivo do mundo mágico.
Uma grande taça de banana split foi colocada na frente da garota pelo atendente do balcão. Os olhos dela brilharam de felicidade e os dedos de Sam foram direto pegar a cereja que estava em cima do chantilly.
- Humm... – Foi tudo o que ela conseguiu murmurar após mastigar.
- Eu ia perguntar se estava afogando as mágoas em um sorvete, mas pelo som que acabou de fazer já tive minha resposta. – Lusmore falou ao sentar no banco ao lado da garota. – Adoro banana split. – Ele pegou rapidamente a colher que estava na mão de Sam.
O bardo voltava para casa quando reparou em uma silhueta conhecida na sorveteria que ficava no caminho. Algumas vezes ele pensara em parar e experimentar o sorvete do local, mas acabava deixando pra depois. Ao ver que teria companhia de alguém que gostava, ele se convidou a sentar ao lado de Sam.
- Oi Lusmore, tudo bem? Quer um pouco do meu sorvete? Claaaro que pode pegar minha colher e comer antes de mim, fique a vontade. – Sam falou rindo ao ver o outro já puxando seu sorvete para ele.
Ela pediu uma outra colher para poder comer algo antes que o bardo terminasse com a banana. Se ela não quisesse a fruta, teria pedido um sundae.
Um pequeno duelo ocorreu quando Sam tentou pegar o final da banana que Lusmore quase terminara em dois segundos. A agilidade do bardo fez com que ele ganhasse a disputa e fizesse a garota a frente fazer beiço. Ela perdera e nem provara a banana gelada...
- Está bem, está bem... Pode ficar com esse pedaço. Tenho um bom coração e não resisto a um rostinho lindo fazendo carinha triste. – Lusmore levou sua colher na boca de Sam que aceitou sem hesitar. - Agora que terminarmos nossa luta, o que faz aqui sozinha?
- Levando um bolo... Marquei de sair com um rapaz lindo agora à tarde, mas ele ligou avisando que ia atrasar. Então decidi... – Ela sorriu de lado pra ele. – ‘afogar minhas mágoas’...
O moreno olhou de soslaio para a amiga. Tinha mais coisa ali do que ela estava falando e sua curiosidade falava mais alto. Ele decidiu, então, entrar na brincadeira.
- Fui enviado por Merlin para te fazer companhia. Ele me falou que era um pecado deixar uma gata sentada sem ninguém ao lado, principalmente para ela comer todo esse sorvete sozinha... – O bardo falou pegando uma generosa colher do sorvete de chocolate. – Isso engorda.
Sam riu ao ouvir aquilo. Lusmore tinha um grande poder além da antiga magia que corria em seu sangue. Ele tinha a capacidade de fazer os outros rirem e se alegrarem. Ela virou o rosto para ele e estranhou o fato dele estar examinando ela, meio sério.
- Tenho sorvete no rosto? – Ela perguntou, passando a mão na buchecha.
- Eu definitivamente não gosto quando você muda seu cabelo assim... Nem seus olhos... – Ele falou.
Ela ainda estava com o cabelo liso e loiro e os olhos azuis claro. Antes de sair de casa decidiu colocar um longo casaco vermelho sobre a roupa preta, algo discreto e que não chamasse atenção. No meio da multidão londrina, era mais uma.
- Ah, é meio chato mudar toda hora pra sair. Então resolvi deixar mais alguns dias. Vou voltar ao normal quando eu voltar mais tarde. – Sam brincou balançando os cabelos. – Achei que todos os homens gostassem mais das loiras.
- Não se muda o que é perfeito. – Ele falou sorrindo.
- Se isso é uma cantada para eu pagar seu sorvete, deu certo. Vamos pedir outra banana split que essa mal deu para sentir o gosto.
O bardo olhou para a amiga e riu ao ver que sua cantada nem ao menos a fez se encabular. Ele anotou mentalmente que deveria procurar algo novo para ver se conseguiria fazer o rosto de Sam ficar vermelho ao menos uma vez. Não podia ser possível alguma mulher resistir às suas cantadas e ao seu charme.
- Espere. – Lusmore falou chamando a atenção de Sam.
Ele pegou o cardápio e olhou por um tempo com um semblante sério, como se estivesse decidindo algo importantíssimo. Ele fechou o menu e olhou para a outra, decidido.
- Iremos pedir um top-sundae. Porque, se eu me lembro bem, a senhorita come razoavelmente bem. – Lusmore virou para o atendente e fez o pedido. – E nem pense que irá pagar. Como vai ficar minha fama de cavalheiro se a dama da mesa pagar a conta?
- Já que faz tanta questão, quem sou eu para contestar.
Em poucos minutos uma grande taça com três tipos diferentes de sabores de sorvete estava na frente dos dois. Rapidamente Sam pegou as duas colheres e Lusmore a olhou tentando entender o que acontecia.
- Você *chomp* comeu quase todo o meu *chomp*. É justo que eu tenha uma vantagem *chomp*
Um sorriso largo e sincero apareceu no rosto de Lusmore, gostava de ver a outra se divertindo, quase como se estivesse levando uma vida normal. Ele compartilhava o que Godfrey achava, eram todos muito jovens para estar em uma guerra.
- Está bom o suficiente, me dá aqui esta colher! – Ele esticou o braço pegando a colher que Sam escondida nas suas costas
- Pegue. – Um sorriso maroto apareceu no rosto dela.
Aceitando o desafio o bardo se levantou e prendeu os dois braços da jovem atrás dela com facilidade. Mesmo com o que tinha aprendido na resistência ele tinha mais força e agilidade do que Sam.
- Realmente me deixou em uma posição comprometedora bardo. Você ganhou. – Ela sorriu para ele.
Brincando mais um pouco ele não a soltou e foi pego de surpresa por quem chegou até os dois.
- Eu corri achando que iria deixar Sam sozinha me esperando, triste, mas vejo que ela me trocou. – Herman falou rindo.
A cena que ele viu ao se aproximar foi meio estranha, afinal Sam estava presa entre os braços de um homem. Ao ver que era Lusmore ele olhou intrigado o que parecia ser um casal brincando.
- Samantha tem bom gosto se prefere bardos morenos do que... – Lusmore respondeu ao amigo.
- Se falar homens casados apanha. – Ela completou.
O Mensageiro sorriu ao vê-los animados. Havia combinado de ir ao cinema com Sam exatamente porque os dois precisavam sair um pouco do clima de luta e, na opinião dele, o mundo trouxa era um lugar seguro para andarem.
- Virá conosco ver um filme? – Herman perguntou.
- A proposta é tentadora, mas ser a vela no meio de vocês... Ai Sam, isso dói. – Ele passou a mão na parte do braço onde a outra o beliscara. – Tenho alguns relatórios a preencher. Divirtam-se.
Sam pediu duas casquinhas, para ela e Herman, na conta de Lusmore e deu um beijo no rosto do amigo em agradecimento. Segurou o braço do cunhado e brincou com o bardo antes de sair.
- Acho que agora você que irá afogar suas mágoas ao pensar na loira que o trocou...
O rapaz sorriu de volta, ele teria o grande trabalho de comer o restante do sorvete sozinho. Sabia que atrasou o trabalho um pouco, mas valeu a pena. Momentos como aqueles eram tão importantes quanto os treinamentos.
Notas: (1)Por favor, deixem um comment no post abaixo, nem que seja para dizer "O Kyle é fofo", é triste entrar aqui e não ter nem um comentário.
Caminhando um pouco a esmo pela escola, Kyle O’Neil deixou-se levar para os terrenos externos do castelo. Setembro ainda evocava um resquício de verão, fazendo com que o rapazinho, acostumado ao calor mediterrâneo e aos espaços livres de sua vila natal na Grécia, buscasse um pouco de conforto para além dos muros cinzentos de pedra.
Seus olhos acompanhavam displicentemente o cenário verdejante, entremeado de gramas verdes e árvores, até que eles acabaram por pousar em uma moça de cabelos azeviche e olhos castanhos e pensativos, que segurava entre as mãos uma enorme barra de chocolate.
Ele a reconheceu de imediato. Era a amiga de sua prima, a mesma que estivera na reunião do Olho do Grifo poucos dias atrás. Aquela de quem ele já escutara várias histórias vindas de Lucas Hunter. Kyle gostou da moça desde o dia que a conheceu na casa de Lucien, apenas não tivera a oportunidade de estreitar os laços com a morena. Pelo menos não até agora.
-Boa tarde, Sinclair. – ele se aproximou, comprimentando-a com um sorriso.
- Boa tarde, O’Neil! Passeando? – ela exclamou, retribuindo, surpresa, o sorriso do rapaz. Raven simpatizara com o primo de Meri desde quando se conheceram, mas ainda surpreendia a moça que Kyle, tão gentil e tão lufano, pudesse ser filho de quem era.
-Matando o tempo – ele respondeu – Apesar da quantidade de deveres que nos dão por conta daqueles tais de NOMs, eu estou com um tempinho livre e sem muito saco para ficar dentro do castelo.
- Eu também venho me sentindo assim, infelizmente – disse Raven, balançando a cabeça – É uma pena que você tenha vindo para Hogwarts justamente nestes tempos, O’Neil. Precisava ver como isso aqui era bom e divertido e extraordinário. As férias chegavam e nós íamos para casa com pena de deixar o castelo, e doidos para retornar. Agora, sob este Ataque das Cenouras Assassinas, toda a vontade que se tem é de ir embora! Que droga!
Kyle fez uma careta ao lembra-se dos professores Carrow. Se não fosse toda a seriedade da situação que viviam, a atitude dos dois beiraria o patético e o ridículo. Ele suspirou, percebendo que não era apenas ele quem se sentia acorrentado naquele lugar.
-Meri e Dhara sempre falam muito bem daqui quando o Dumbledore era o diretor – o rapaz respondeu, sem pensar muito, até perceber a pequena gafe que cometera, afinal, para todos os efeitos, não mantinha mais contato com a prima ruiva. – Quer dizer, - ele tentou se emendar - A Dhara fala, Meri costumava falar... antes.
- E ainda fala, meu caro, ainda fala – emendou Raven, piscando o olho para um Kyle bastante confuso – Eu sei o que se passa, pode ficar sossegado. Mas, não fique aí de pé; sente-se um pouco aqui e aceite um pedaço desse chocolate divino. Acho que, pelo menos por enquanto, tomar sol e comer ainda são atividades dignas da Juventude Bruxa.
O lufano sorriu, compreendendo que, de algum modo, Raven descobrira a farsa de Meridiana; possivelmente, a própria prima havia encontrado um modo contar a verdade para a melhor amiga.
Kyle assentiu ao convite, sentando-se ao lado da sonserina e aceitando um pedaço da barra de chocolate que ela lhe oferecia.
-Acho que não há nada de reacionário em comer e tomar sol – ele deu uma mordida no doce, antes de voltar-se novamente para a moça – Sabe, fico até feliz por você estar sabendo... espero que isso ajude, ela é tão teimosa! Não que eu tenha moral para criticar, meu histórico não é dos mais corretos nesse quesito. Acho que é mal de família.
- Hm, pode ser... Mas eu acho um mal, de certa forma, admirável. Também fico feliz em saber que ela dividiu um pouco o problema, porque a mania usual de sua prima é carregar sozinha o mundo às costas. – comentou Raven, fitando Kyle com um meio sorriso.
O lufano anuiu, refletindo sobre as palavras da Raven. Era irritantemente angustiante para ele não saber o que fazer para ajudar Meridiana. Ele se sentiu inútil quando ela contou a ele e a Adhara sobre suas resoluções, se sentiu um peso para a prima grifinória. Apenas agora ele percebeu que estava fazendo por ela muito mais do que imaginava. Só o fato de ela confiar nele dizia muito do que ela considerava por ele. E, até aquele instante, ele não sabia o quanto.
-Hum... – ele murmurou para si mesmo , pensativo.
Raven observou o perfil bonito do rapaz agora perdido em seus próprios pensamentos e percebeu que Lucien acertara em incluí-lo nas atividades do Olho do Grifo. Kyle parecia inteligente, determinado, e poderia ser de grande ajuda.
- Hum... – ela repetiu, arremedando o rapaz – Seria muita indiscrição minha saber o que anda caraminholando esta cabeça grega?
-De forma alguma, eu só, sei lá, queria fazer um pouco mais do que já estou fazendo, mesmo percebendo agora que é mais do que eu achava. Minha prima está se arriscando tanto pela gente, sem falar do pessoal que está fora do castelo. Eu gosto do Mercury, por isso queria também dar uma força maior para a Lorelai.
- Eu também gostaria muito de poder fazer alguma coisa para infernizar essa gente que estragou nossa escola – comentou Raven, franzindo o cenho – Essa gente mesquinha e intolerante! Porém, me sinto um pouco perdida, sem saber por onde nem como começar...
Kyle deu outra mordida no chocolate que a sonserina lhe dera antes de pensar em uma resposta.
Uma parte dele estava admirado e satisfeito em perceber o quão fácil era conversar com Raven. A verdade é que, por mais que estivesse se dando relativamente bem com seus colegas de classe, era nos amigos de Meridiana que estava encontrando seus próprios amigos. Talvez porque, com muitos deles, Kyle podia baixar a guarda sobre quem ele verdadeiramente era, não precisava fazer segredos de suas origens e das razões que o trouxeram para a Inglaterra; talvez, também, porque os laços que via entre eles eram tão fortes quanto aqueles que existiam entre ele, Òrion, Ariadne e Leda. Era fácil se identificar com aquele sentimento de união.
Outra parte do rapaz buscava freneticamente uma idéia para as dúvidas que ele e Raven compartilhavam. Pelo que Lucien lhe contara, Herman, Lorelai e Mina – que não chegara a conhecer – usavam o jornal como um modo de difundir suas idéias. Combater palavras com palavras.
Era exatamente aquilo que precisavam combater ali. As idéias, ou melhor, a lavagem cerebral que os Carrows estavam fazendo.
-Eu também não sei. Acho que a gente não tem só que irritar os Cenouras, mas arrumar um modo de mostrar as idiotices que eles falam. Imagino que os textos da Lore devem ser ótimos, mas não dá para colocar tudo nas costas dela; e eu admito que não tenho vocação para escritor de textos sérios. A verdade é que eu nem tenho uma noção de verdade dessa guerra toda que está acontecendo. Ás vezes eu fico até imaginando o Mercury e todo mundo do lado de fora lutando como nos filmes, quase como super-heróis. Idiotice, não é?
-Idiotice não, O’Neil, é mais ou menos isso que está acontecendo... Pessoas se sacrificando pelo bem de todos e lutando por aqueles que amam e pelo que acreditam... – respondeu Raven, séria. E, de repente, o rosto da moça se iluminou com um sorriso, e ela exclamou: Meu caro, você acaba de me dar uma ótima idéia com essa história de super-heróis! Já que você disse que não tem vocação para textos jornalísticos, por que não tenta algo diferente? Algo tipo... quadrinhos?
Kyle enrugou a testa, meio sem compreender a proposta da sonserina.
-Quadrinhos?
-É!!! – Raven respondeu, cada vez mais empolgada – E seria uma boa forma de homenagear o Herman também, ele é vidrado com HQ’s. A Lore ia gostar.
-Eu nunca escrevi nada, Sinclair. Só tenho algumas idéias absurdas de vez em quando.
-Não seja por isso, você tem a mim, e com certeza, ao Sat para te ajudar, já que gostamos do gênero. O Lucien pode desenhar...
-Dhara também desenha – o rapaz mencionou pensativamente, lembrando-se de alguns esboços que vira a prima fazer no apartamento de Frida durante o verão.
-E a Lore pode ajudar a revisar, já que ela tem mais experiência em escrever. – Raven completou.
Um sorriso ampliou-se no rosto de Kyle, sentindo-se realmente satisfeito com a idéia que acabaram tendo meio que por acaso.
-É uma boa. Podemos propor na próxima reunião para ver o que o resto do pessoal acha.
-Sim, e eu posso comentar com o Sat também, ver a opinião dele. Aposto que o Diabo Loiro vai ficar encantado com a idéia – emendou Raven, sorridente.
Como de hábito nessas situações, minhas pernas me levaram automaticamente para o sossego e o frescor das margens do lago da escola, cercado pelo misterioso verdor da Floresta Proibida. A impressão que eu tinha era de que, por mais que a infestação comensal se espraiasse pela escola, aquele local permaneceria sempre limpo e preservado de qualquer corrupção.
Encontrei um canto discreto e sentei-me na relva, pousando a testa sobre meus joelhos flexionados. Imaginei uma cavalgada selvagem de centauros furiosos invadindo Hogwarts e carregando consigo os Intragáveis Cenouras, desaparecendo com eles da forma que melhor encontrassem.
Também me passou pela cabeça ir ao gabinete do Diretor e reclamar, idéia patética que me trouxe amargas risadas. Falar do roto para o esfarrapado? Pois se Severus também era...
Para quê isso? Essa disputa desenfreada, cruel e inescrupulosa pelo poder? Homens dominando e subjugando homens, que ao fim e ao cabo são feitos todos do mesmo barro! Que ridículo, um amontoado de pó se achando melhor do que outro, sendo que, mais tarde, o vento dissipará a todos!
A frustração escapou de meu peito sob a forma de uma canção antiga, mas naquele momento muito pertinente...
I close my eyes, only for a moment, and the moment's gone
All my dreams, pass before my eyes, a curiosity
Dust in the wind, all they are is dust in the wind
Same old song, just a drop of water in an endless sea
All we do, crumbles to the ground, though we refuse to see
Dust in the wind, all we are is dust in the wind
Don't hang on, nothing lasts forever but the earth and sky
It slips away, and all your money won't another minute buy
Dust in the wind, all we are is dust in the wind
Dust in the wind, everything is dust in the wind...
Com um suspiro, apanhei uma pedra e a lancei no lago, distraindo-me com as ondulações que marcaram sua superfície tranqüila. Ouvi sons de passos e, com uma careta, virei-me para encarar o chato que vinha atrapalhar minha reflexão; corei ao ver quem era.
- Bem, acho que enquanto há música, há esperança, não? - disse-me Luke, parando de pé a meu lado, olhando o lago com as mãos enfiadas nos bolsos.
- Ah, oi, Ruivo... Desculpe a cara feia, pensei que poderia ser um dos Carrow ou algum coleguinha de Casa vindo saber se eu estava melhor.
- Sem problema, estou acostumado a ser maltratado por sonserinas - ele comentou, sorrindo abertamente.
- Besta - resmunguei, tentando segurar o riso - Só você e o Sat para me fazerem rir nestes tempos tão sem graça nenhuma... Quer sentar-se? Só não tenho nada de comer para oferecer.
- Melhor assim - disse Luke, sentando-se ao meu lado com as pernas cruzadas - Daqui a pouco tenho aula com aquela mulher horrível, acho que vai me fazer menos mal se eu estiver com o estômago vazio - ele completou, com uma careta.
- Nem me fale! Acabo de me retirar justamente daquela porcaria que ela tem a audácia de chamar de aula; fingi que estava passando mal e que precisava ver Madame Pomfrey - expliquei, atirando outra pedra no lago, porém com mais força - Ruivo, não agüento mais as asneiras que os Carrow dizem e fazem. Preciso criar vergonha e fazer alguma coisa além de reclamar e resmungar!
- Mas nós vamos começar a agir, Raven - disse Luke, observando discretamente os arredores e baixando a voz - Não foi o que ficou mais ou menos combinado naquela reunião? Só falta decidirmos o que faremos, como e quando.
Atirei outra pedra no lago, agora com raiva. Em seguida, encarei o ruivo e exclamei, num esforço enorme para manter a voz baixa:
- Luke, estou cansada desses dois. Não suporto nem pensar neles. Sei que não são os únicos, mas são os responsáveis diretos por esse clima insuportável que estraga Hogwarts. Gostaria de poder vê-los pelas costas, ou não vê-los nunca mais! Você sabia que já pensei até em preparar...
- Pode parar por aí, Raven Sinclair! - exclamou Luke, subitamente irritado - Até tolero que você admire aquele sujeitinho seboso, mas por nada nesse mundo vou concordar que pense e aja como ele! Se bem que, conhecendo você, acredito que possa cozinhar qualquer porcaria perigosa e até letal, mas duvido que seria capaz de dar para alguém beber ou comer. Duvido!
- Não duvide de mim, Lucas Hunter. Você não sabe do que sou capaz - desafiei, apontando-lhe um dedo que desejava ser bastante ameaçador.
- Eu sei que você é capaz de milhares de coisas nesse mundo, Raven, mas não desse tipo de atitude. Tenho certeza disso - ele retrucou, segurando minha mão para abaixar meu dedo.
- E desde quando você me conhece tanto assim? - teimei - As pessoas mudam. Veja só o que aconteceu com a Meri - blefei, num teste para o disfarce de minha querida amiga.
Luke suspirou e balançou a cabeça.
- Meridiana só pode estar sob algum feitiço daquele comensal. Sabe lá o que ele fez enquanto a manteve presa? Agora você, Raven, não tem de onde tirar a maldade necessária para mudar de lado - ele asseverou, olhando-me nos olhos - Você pode até querer, mas seu coração nunca irá permitir. E nem eu.
- Mas que conversa é essa, Luke? Desde quando você foi promovido a Especialista no Comportamento de Raven Sinclair??? - exclamei, emputecida - E mais: que história é essa de você permitir ou não que eu faça o que me der na telha???
- Caso a senhorita não se lembre - ele retrucou, com um ar de seriedade absolutamente desconcertante - Há alguns anos atrás Sir McAllister, seu padrinho, me incumbiu de cuidar de você na ausência dele. E, como sou um sujeito de palavra, vou levar a cabo a tarefa que ele me deu.
Encarei o ruivo, incrédula.
- Veja bem, Samwise querido, ouça aqui o que Ravenzinha vai lhe dizer agora, sim? - ironizei, sorrindo com todos os dentes e dando tapinhas no ombro do ruivo - Eu não preciso nem de uma babá, nem de um escudeiro, ok? Sou uma bruxa moderna e descolada, sei me cuidar muito bem sozinha, viu?
- Bruxa moderna e descolada que lê Jane Austen e Emily Brontë? Faz-me rir! - ele exclamou, erguendo as mãos.
Pensei em retrucar à altura, mas o comentário de Luke só me trouxe de volta à memória a visão da pilha incandescente de livros fazendo-se cinzas no meio do pátio de Hogwarts, apertando meu coração.
- Eu lia Jane Austen, ruivo... Agora, aqui dentro da escola, dela e de tantos outros grandes autores não restaram nem cinzas... - foi o que consegui dizer, meneando a cabeça com desolação.
Calado, com o cenho franzido, Luke tateou a grama em busca de uma pedra; quando a encontrou, fechou-a na mão com força e depois a atirou no lago, com uma praga.
-As coisas vão melhorar, Raven, eu te prometo que vão. - o lufano falou, com veemência- Do que depender de mim, elas vão melhorar.
- Eu quero acreditar, de verdade... Obrigada, Ruivo - murmurei, pousando a cabeça no ombro de meu amigo.
Ele levantou o braço, pousando-o em meus ombros e aconchegando-me em um abraço mais próximo e aconchegante. Era reconfortante perceber que estar ao lado de Luke era como estar de volta aos tempos em que tudo era bom e divertido. Com aquele gesto eu finalmente percebi que ele definitivamente me perdoara pelo modo como eu o tratara nas férias.
-Acredite, eu vou fazer o possível para ver você voltar a sorrir - Luke falou, tão baixo que eu quase não o escutei.
-Isso não é tão difícil - eu respondi, dando o sorriso que ele pedia, ainda que melancólico - E, obrigada, por estar sempre ao meu lado, mesmo quando eu não mereço e vivo dando as minhas ratas.
- Agora sim esta sala de aula, e também nossa escola, estão dignas de nossa presença. Depois da eliminação de todo aquele lixo trouxa que se acumulou aqui por todos esses anos, podemos nos sentir mais à vontade, mais limpos. Vocês não concordam comigo, meus caros amigos? – perguntou a intragável Alecto, cruzando as mãos às costas.
Trinquei o maxilar de pura raiva, e para segurar minha vontade de avançar no pescoço daquela maldita Cenoura Cozida e quebrar-lhe os dentes. Minha disposição para com os infames Carrow, que já não era das melhores, azedou de vez depois daquela fogueira que consumiu não só grandes obras da Literatura Universal, mas, mais do que isso, fez cinzas de muitos de nossos sonhos e alegrias. Isso era simplesmente imperdoável.
Ironia das ironias, eu que sempre gostei de me imaginar vivenciando as histórias de meus personagens prediletos, nunca poderia sonhar que presenciaria na vida real um conto de Ray Bradbury. E, do jeito que as coisas caminhavam, daqui a pouco estaríamos ou num pesadelo de George Orwell ou num horror de Lovecraft...
Ou seja, as perspectivas só se mostravam cada vez piores.
Alecto não parava de falar. Seu discurso antitrouxa era intolerante e repelente. Os babacas deslumbrados emitiam grunhidos de satisfação e concordância; muitos alunos mantinham ares de paisagem, sem vontade ou com medo de se comprometerem; outros, uma minoria, demonstravam acintosamente seu desagrado. E eu uma vez mais me sentia miserável, pois estava no segundo grupo quando ansiava por estar no terceiro.
Levei discretamente a mão ao interior de minha veste, e deslizei os dedos pelo livro que conseguira salvar da fogueira. Desde aquele dia eu o trazia sempre comigo; ele era um sinal da Mão do Invisível, e eu ainda não sabia – ou tinha medo, talvez – de interpretá-lo. Mas, eu não podia adiar minha decisão por mais tempo. Precisava me posicionar. Precisava fazer alguma coisa contra aquela gentinha fanática que se empenhava em destruir tudo aquilo que eu prezava.
Mas, o que eu ia fazer? Impulsiva, pateticamente transparente, não podia interpretar nenhum papel nem dissimular nada; infelizmente, não possuo nem o talento de Meri nem a fleuma natural de Adhara Ivory.
- Inútil – murmurei, de mim para comigo – Você não passa de uma covarde inútil.
A voz de Alecto alteou-se, num frenesi de intolerância:
- Chega de misturas. Chega de profanações! A classe superior dos bruxos precisa entender de uma vez por todas que não há lugar em nosso mundo para a inferioridade e a aberração! Somos mais fortes, mais rápidos, mais capazes; o que pode um trouxa contra um bruxo? Nada! Então, meus jovens, brilhantes jovens bruxos, entendam isso de uma vez por todas: o mundo pertence a nós! Apenas a nós! Trouxas são fracos, e como tal devem ser ignorados... Melhor, devem ser removidos! Removidos como o lixo que são!
Aquilo foi demais para mim. Até uma covarde inútil tem seus limites. Peguei meu rolo de pergaminho, minha pena – as duas únicas coisas que me dignava levar para aquela palhaçada que Alecto ousava chamar de aula – levantei-me da carteira e caminhei em direção à porta.
- Srta. Sinclair? – a Intragável me chamou, às minhas costas – Aonde vai? Algum problema?
Respirei fundo, refreei a vontade de mandá-la fazer supositório de sua curiosidade, virei-me para ela e respondi, o mais polidamente que consegui:
A Cenoura (mal) Cozida encarou-me de forma avaliativa e pareceu acreditar em mim.
- Pois então vá direto para a Ala Hospitalar e cuide-se. Não queremos nenhum sonserino doente ou incapacitado; vocês são muito importantes para nosso trabalho. Está dispensada.
Sei que não deveria ter feito, mas fiz. A tal importância sonserina lembrou-me uma página vergonhosa da história mundial e isso me levou, ao ser dispensada, a adotar uma patética posição de sentido, empertigando o corpo e unindo bruscamente a lateral interna dos saltos de minhas botinas. Só Merlin sabe o que me impediu de erguer a mão direita e berrar uma saudação ridícula.
Dei imediatamente as costas a Alecto Carrow e ganhei os corredores, em direção aos jardins; precisava de ar fresco, ou sufocaria de raiva e frustração.
Ela estava sentada diante do espelho partido, a imagem fragmentada nas diversas facetas da superfície reluzente. O namorado o havia quebrado em um dos seus cada vez mais freqüentes acessos de fúria.
Mesmo assim, ela continuava penteando quase que automaticamente os cabelos longos e castanhos, os olhos azuis, vazios, fixos em sua imagem quebrada e distorcida. Ela poderia facilmente usar um reparo e voltar a ver a si mesma inteira e completa, contudo, preferia daquele modo, pois refletia muito mais verdadeiramente quem ela era e como ela se sentia naquele momento.
Quando os comensais finalmente assumiram o poder, ela poderia ter saído das sombras, ter voltado ao convívio social, entrado nas altas rodas da nova elite bruxa, com sua beleza não seria difícil colher os louros da vitória.
Entretanto, para ela não houve realmente vitória, mas sim vergonha, culpa e arrependimento.
Desse modo, ela preferiu continuar escondida... muitas vezes servindo de isca para que seu namorado exercesse seu papel de assassino... outras vezes lidando com aspectos mais administrativos...Mas ainda sujando as mãos a ponto de se perguntar se algum dia seria capaz de limpá-las.
Desde criança, a mãe lhe fez acreditar que ela era uma pequena princesa, cujo pai, um rei perdido e desaparecido, iria resgatá-las da vida de mediocridade. Isso foi antes de ela descobrir que, na realidade, a mãe apenas a usara para tentar subir na vida. Primeiro com uma gravidez de interesse que acabou não dando resultados, depois com sua cada vez mais notória beleza, incentivando-a a seguir uma carreira de modelo, buscar relacionamentos amorosos com herdeiros de famílias bruxas importantes, como os Goddriac ou os Gauthier.
Por causa dessa sede de poder de sua mãe, Melinda Dashwood se deixou cair completamente...Ela gostara de Satanio, mas abrira mão dele por perceber que o rapaz estava destruindo sua reputação meticulosamente construída, Gauthier foi um passatempo que não deu certo, então, houve Ian MacNair.
Com ele, Melinda acabou adentrando cada vez mais nas trevas, sendo apresentada a comensais influentes, como Jarno de Camposanto, se tornando ela própria um deles, envergando a marca negra no braço por incentivo da própria mãe que via com bons olhos a relação da filha com aqueles que pareciam ser os prováveis novos donos do mundo.
Ironicamente, foi dessa relação com os comensais que ela travou conhecimento sobre quem era seu verdadeiro pai, sobre quem eram suas irmãs e irmãos. Graças a eventos nos quais acompanhava Ian ou mesmo comparecia como aspirante a modelo, ela acabou conhecendo, através de Camposanto, Norwood.
O homem pertencia à mesma família de seu pai, era, inclusive, padrinho de uma de suas irmãs...
Foi então que Mel soube ser filha do Inonimável Madison McGuire, e soube estar próxima de suas irmãs há muito mais tempo do que supunha.
A aproximação foi mais lenta do que Melinda desejou, mas, quando finalmente aconteceu, foi como se ela tivesse finalmente voltado para casa. Todos eles, inclusive a esposa do pai, a receberam de braços abertos, e, ela decidiu esquecer todos os planos da mãe em extorquir o pai...
Madison era um homem reservado, mas nem por isso a destratara. Mary Elizabeth, sua madrasta, foi, por pouco tempo, muito mais mãe para ela do que sua mãe de verdade um dia tinha sido, e, quanto aos irmãos... como ela não poderia ter se apaixonado por cada um deles?
Ainda assim, ela estava presa ao compromisso com o Lord das Trevas. Continuava se correspondendo com Ian, já percebendo em cada linha escrita por ele que a deformidade das queimaduras que ele sofrera no ataque às Hebridas, que vitimara Victor Fenwick, haviam acentuado as deformidades de caráter que Ian possuía.
Ela continuava trabalhando para eles em Hogwarts... Distribuindo o Olho da Serpente, junto com Theodore Nott, recrutando candidatos em potencial para se tornarem Jovens Comensais.
Pensava na própria família como um modo de conseguir fugir daquele inferno que sua vida estava se tornando, contudo, a ironia do destino fez com que ela fosse designada para descobrir quem estava por trás do Olho do Grifo, o jornal estudantil que parecia não apenas destratar os comensais, mas cujos responsáveis estavam cada vez mais próximos de saberem a verdade sobre as atividades comensais dentro de Hogwarts.
Com surpresa, ela descobriu que uma das responsáveis pelo Olho era sua própria irmã, Lorelai.
Melinda tentou se equilibrar no fio da navalha por muito tempo, selecionando meticulosamente as informações que tinha acesso, tentando ganhar tempo para descobrir uma forma de ajudar, alertar ou mesmo proteger as irmãs e os amigos delas.
Então, veio as férias de Páscoa, e com elas, uma das cenas mais bizarras que Melinda presenciara em sua vida. Norwood aproveitou que Lorelai estava sozinha na casa da avó e abordou a menina, com motivos escusos, tanto do ponto de vista pessoal quanto de interesse prático em crescer junto aos seus novos parceiros de negócios, aqueles que serviam ao futuro senhor da nação.
O modo como Norwood segurava a sobrinha, as mãos se insinuando de uma maneira que não cabia em uma relação entre tio e sobrinha, o choro de Lorelai, as tentativas do homem em arrancar dela a verdade sobre o Olho do Grifo. Se Melinda não houvesse intervindo, ela não gostaria nem de imaginar até que ponto o homem teria ido com Lorelai.
Depois disso, ela tentou reclamar, argumentar com seus colegas que serviam ao Lorde, a resposta que recebeu foi uma ameaça contudente. Ou ela seguia a risca o que mandavam ou eles não se importariam em matar as irmãs de Melinda, mesmo estando debaixo das barbas de Dumbledore.
Ela, então, obedeceu...Protegeu as duas como pode... fez de sua traição um modo de assegurar a segurança de sua família. Para eles ainda havia salvação, mas para ela, não mais. Ela se conformava em ser a traidora... Estar ali, dividindo aquele apartamento com outros como ela, Christopher, Amelie, e, especialmente, Ian, era o castigo que ela merecia por todos os pecados que cometera.
Fogo e Gelo - Capítulo 02
Agora, tudo dando certo, todo sábado vamos ter um capítulo inédito de Fogo e Gelo. Como a Jujubs (a nossa Sam) é a responsável pela postagem, pode ser que entre no ar um pouco mais tarde que a fic que estiver no Expresso no dia. Portanto, se Fogo e Gelo não estiver atualizado, paciência, volte aqui no fim do dia. ^^
Vocês podem conferir F&G clicando no endereço abaixo:
Por favor, comentem e façam a Jujubs muito feliz, afinal, ela merece!!!!
Notas: Recado duplo para a Liv: (1) recebemos seu e-mail, mas deixei para a Jujubs as honras dos comentários, (2) o Chris não pulou do penhasco, ele aparatou para o continente para trabalhar para o Lord das Trevas. Sim, temos um traíra na Hébridas e ele é (outro) primo da Mina.
Havia cheiro de chuva no ar. As nuvens juntavam-se mais além, sobre o oceano, e ele podia ouvir dali o som das ondas quebrando-se com força sobre as pedras mais abaixo do penhasco. A noite não tardaria a chegar, juntamente com os primeiros sons da tempestade.
Sentado sobre um dos monolitos maiores que dominavam aquela parte da ilha desde muito antes dos MacFusty terem chegado às Hébridas, Christopher observava o vazio diante de si. A imensidão do céu, refletida na superfície das águas, a falta de estrelas, o vento gelado que soprava... Era quase como um espelho do que lhe ia por dentro.
A besta estava caída aos seus pés, assim como o carcás de setas. Erin descansava um pouco mais atrás, pastando tranqüilamente. Apesar do dia difícil, a égua não sofrera sequer um arranhão, graças aos cuidados do seu cavaleiro. O mesmo, entretanto, não se poderia dizer dele. O sangue ainda escorria pela ferida no pescoço, ardendo com o efeito do remédio que um dos outros domadores passara para anular o veneno das garras do dragão com que tinham lutado mais cedo.
Não que ele se importasse com isso. Havia marcas brancas de feridas já cicatrizadas por toda a extensão do seu corpo. Nunca se preocupara em cuidar das feridas para que elas sumissem. Ao final das contas, como já dizia um outro domador, elas faziam "parte do currículo". Um charme adicional ao par de turmalinas que eram seus olhos, aos cabelos negros presos num rabo de cavalo junto à nuca, à franja que caía, escondendo parte do rosto... Ou, pelo menos, era isso que diziam as garotas com quem ele já saíra.
Christopher suspirou. Uma casca vazia coberta de cicatrizes. Era daquela maneira que ele se via naquele momento. Não havia nada que o prendesse àquele mundo, nenhum laço de sangue, nenhuma grande amizade, absolutamente nada com que se importar. Ainda assim, entretanto, era um sobrevivente.
Sentiu uma ardência no braço. Levantando a manga da camisa, ele observou a Marca Negra se fazer visível em sua pele, delineando-se ao mesmo tempo em que queimava, como ferro em brasa. O gado do Lorde das Trevas... O rapaz sorriu, irônico, enquanto se levantava.
- Hora de trabalhar... - ele ouviu a própria voz soando amarga, um instante antes de desaparecer do penhasco, como se jamais houvesse existido.
O barulho de asas poderosas batendo contra o vento fê-la despertar de seu torpor e Mina percebeu que deixara as áreas de planície para alcançar o início das reservas dos dragões.
Mais que rapidamente, ela se desviou da picada, dirigindo Finvara para o meio das árvores. De lá, ela pode enxergar um ponto negro afastando-se rumo ao alto das colinas que os cercavam.
- Ele deve estar levando comida para os filhotes.
Mina sentiu o pescoço estalar ao girá-lo, enquanto Finvara pateava sob ela, visivelmente alegre.
- Ai... – ela gemeu, passando uma mão pelo pescoço – Olá, Chris. Não tinha percebido você.
A moça desmontou, observando o rapaz que tinha diante de si. Christopher Morel era pouco mais velho que ela. Graduara-se domador no ano anterior, depois de uma temporada fora do país. E, como Lusmore, era seu primo, embora os dois rapazes não se dessem muito bem.
Além disso, a égua que ele segurava pelas rédeas era Erin, a mãe de seu Finvara.
- Você deveria estar andando por aqui sozinha, Mina? – ele perguntou com um sorriso divertido, enquanto se aproximava, dando algumas palmadinhas na cabeça do outro cavalo.
- Eu tenho permissão para explorar toda a ilha. – ela respondeu – Só não posso atravessar para as outras e nem entrar sozinha na área de reserva.
- Onde você quase entrou um instante atrás. – Chris observou, meneando a cabeça – Não deveria andar tão distraída nas Hébridas, Mina. Essa é a primeira lição para aprender como domadora.
- Desculpe... – ela ergueu uma mão, apoiando-a na base do nariz, como se estivesse pressionando os óculos para cima.
Exceto pela fato de que não havia óculos.
Chris riu, escondendo a boca com uma mão, enquanto Mina fazia uma careta cômica.
- Não é tão engraçado. – ela resmungou, cruzando os braços.
- Desculpe. – Chris controlou-se, embora houvesse ainda um visível ar de riso em seu rosto – O que aconteceu com seus óculos?
Ela suspirou.
- Meu irmão tem uma estranha fascinação por eles, então, para não correr o risco de ele se machucar, eu comecei a usar lentes.
Ele voltou a menear a cabeça, dando um peteleco de brincadeira na testa dela.
- Eu acompanho você de volta para o solar. Não vamos correr o risco de você andando por aí sozinha com a cabeça perdida nas nuvens – ele voltou-se para Erin, montando-a – Vamos indo?
Ela deu de ombros.
- Tudo bem.
Metade do caminho foi feito em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos, até Chris puxar novamente assunto, emparelhando os cavalos.
- Por onde anda Lusmore? Tinha ouvido dizer que ele estava de volta.
- Ele sumiu. – ela respondeu de cabeça baixa, observando os arreios que segurava – E eu não faço a menor idéia de onde aquele desgraçado se meteu.
Chris voltou a sorrir.
- Ele sempre fez esse tipo de coisa muito bem. – o rapaz observou – É por isso que você estava tão distraída?
Finalmente ela se voltou para o primo.
- Eu estava pensando que se houvesse alguma maneira de ter notícia dele e dos meus amigos também... as coisas seriam mais fáceis.
Mina não esperava uma resposta, mas dividir aquele sentimento com alguém era estranhamente reconfortante. Entretanto, Chris pareceu dar mais tempo do que necessário para apreciar a questão, antes de voltar a encará-la, dessa vez, sério.
- Há uma maneira.
Ela ergueu para ele olhos surpresos e até um pouco assustados.
- Há?
Ele anuiu.
- Você pode mandar um Patrono para eles.
Por um momento, a moça chegara até mesmo a segurar a respiração, ansiosa. Mas logo a esperança voltou a sumir.
- Eu não sei conjurar um patrono, Christopher. E, mesmo que soubesse, a proteção que está sobre a ilha impede esse tipo de comunicação.
- O fato de você não saber o feitiço é realmente um problema. – ele concordou – Mas há algumas coisas que você parece ignorar, Mina. O encanto que protege as Hébridas é complexo e incomum. Ele possui tanto elementos de magia quanto caracteres das próprias ilhas.
- O que está querendo dizer, Chris? – ela estreitou os olhos – Eu sei disso, mas o que tem a ver...
- Apenas a ilha principal, Fyglia, possui todos os encantamentos de proteção. – ele respondeu, interrompendo-a – Isso não significa, obviamente, que as outras ilhas estão à mercê de quem não pertence às Hébridas. Todas estão bem escondidas, repletas de feitiços de confusão capazes de enlouquecer qualquer pobre coruja que tente trazer correspondência... Mas uma magia como a do Patrono conseguiria atravessar esse “escudo protetor”...
Mina ficou em silêncio diante dessa revelação. Então ainda existiam esperanças ao final das contas.
O solar apareceu após dobrarem a última curva entre as colinas e Christopher freou Erin.
- Bem, creio que daqui em diante você possa chegar em casa sozinha. Espero ter ajudado, Mina.
- Ajudou muito, Chris. – ela sorriu – Obrigada.
Ele fez uma mesura com a cabeça.
- Disponha.
E após as despedidas, ele lhe deu as costas, rapidamente sumindo das vistas da garota. Mina então se voltou para o solar, esporeando de leve Finvara. Teria uma nova programação noturna a partir daquele dia: aprender a conjurar um Patrono.
- Você já comeu? - Holly perguntou, surpresa, enquanto Mina colocava o prato na pia, o qual imediatamente começou a se lavar sozinho.
Mina apenas deu um meio sorriso em resposta. A verdade é que mais da metade de seu almoço fora para debaixo da mesa onde Loki - o filhote de Freyr e Lucky que ela tinha dado ao avô - esperava ansiosamente.
- Ão, oli! Mi ão mi!
As duas se voltaram para Kieran, que parecia protestar alguma coisa de seu lugar, batendo no prato ainda meio cheio de papa. Se Holly tivesse dado um pouco mais de atenção às palavras do pequenino, teria descoberto que Kieran estava querendo brincar com o gato, como a irmã fizera.
- Holly, você termina de dar de comer para Kieran? - Mina perguntou, já alcançando a capa que deixara jogada de manhã sobre um dos bancos da cozinha - Eu ainda não fui ver Finvara hoje.
A mulher assentiu, muda, observando com uma expressão desconfiada a jovem sair, antes de se sentar defronte ao menino.
- Você também acha que sua irmã não está bem, Kieran? - ela perguntou, pensativa.
- Ato meu íngua.
Ela sorriu bondosamente.
- Eu sabia que você iria concordar comigo.
Enquanto isso, Mina se dirigia rapidamente para os estábulos, tentando controlar a ligeira ânsia que sentia.
Há tempos que ela estava daquele jeito, meio enjoada, sentindo dores no estômago, perdendo peso... Desde a viagem para o Japão, para ser exata. E ainda que Holly estivesse sempre fazendo seus pratos favoritos, ela sentia quase nenhum apetite.
- Boa tarde, Paddy. - ela cumprimentou com um meio sorriso o senhor responsável pelos cavalos do solar - Finvara...
- Eu posso selá-lo em um minuto, Mina. - o velho respondeu, antes mesmo que ela pedisse alguma coisa.
Ela anuiu, com um sorriso de agradecimento. Pouco depois, estava cavalgando, o solar tornando-se rapidamente um ponto indistinto atrás de si enquanto avançava ao longo das estradas de Donn, o primeiro MacFusty que achara ser uma boa idéia abrir picadas em meio aos campos para facilitar o trabalho dos viajantes.
Lusmore tinha deixado as Hébridas há um bom par de dias. Nem seu avô, nem Holly tinham comentado nada - ela percebera algumas trocas de olhares preocupados entre eles, mas se os dois tinham discutido a partida do sobrinho dela, certamente não achavam que Mina deveria ser incomodada com o assunto.
Naquele meio tempo, ela passara todos os dias numa rotina confortável - acordava cedo para dar mamadeira a Kieran, depois saía com Finvara passando mais da metade da manhã a explorar a ilha, voltava para o almoço, brincava ou lia para o irmão e, após o jantar, sentava-se para escrever alguma coisa e estudar Código Morse.
Essa manhã, contudo, o equilíbrio tinha se quebrado. Seu avô a chamara na biblioteca antes que ela saísse para poderem conversar. Primeiramente, a partir da semana seguinte, ele e Holly começariam a tutorá-la e, assim que ele designasse algum domador para ajudar, ela começaria seu treinamento de domadora.
Além disso, Vincent pedira a ela que assumisse parte das obrigações que Godfrey tinha – visitando a vila duas vezes por semana para decidir sobre questões administrativas ou de justiça entre os aldeões, levando para ele os casos mais graves; relatando tudo de diferente que ocorresse nas ilhas e chegasse ao seu conhecimento e transmitisse também as ordens deles aos outros domadores.
Mina aceitara a tarefa de bom grado. Não era nada tão difícil – muito de seu trabalho era servir de pombo-correio entre o solar e a vila e usar um pouco de bom senso de vez em quando. A idéia de ser útil, fosse que de forma fosse, lhe era certamente muito agradável. E voltar a estudar, especialmente tendo Vincent e Holly como professores, era ótimo.
Mas embora as coisas estivessem começando a entrar nos eixos, ao menos aparentemente... ela não estava contente.
Desde que Lusmore fora embora, ela tentava entrar em contato com o primo através do telégrafo. Ainda que não tivesse dominado ainda o Código Morse para que pudessem realmente conversar, tinha esperanças de pegar pelo menos um sinal do rapaz.
Entretanto, toda vez que colocava os fones no ouvido, tudo o que conseguia ouvir era estática.
O barulho de asas poderosas batendo contra o vento fê-la despertar de seu torpor e Mina percebeu que deixara as áreas de planície para alcançar o início das reservas dos dragões.
Era um lugar agradável. A música que tocava era um rock estilo anos 60. O ambiente era climatizado de modo que, apesar da efervescência da pista de dança, não estava muito quente. Uma penumbra suave finalizava o conjunto.
- Lembra um pouco o Hades’ Gate, mas sem tantas cabeleiras coloridas e com música mais leve. – Euterpe observou – Vamos procurar uma mesa?
- Lá em cima. – foi a resposta de Lusmore, mostrando uma escadaria que levava ao mezanino superior, onde ficava também o bar – De lá podemos ver tudo e estaremos perto da bebida. Um sorriso apareceu no rosto de Samantha ao olhar em volta. O local parecia animado e não era algo barulhento como imaginou de fora. - Bebida? Vamos ter que te carregar para casa depois? - ela olhou para o bardo. - Eu quero é ir para a pista de dança...
- Você acha realmente que nosso Lusmore aqui vai precisar ser carregado? – Euterpe riu, meneando a cabeça – Isso é um monstro. Você precisava ver, quando tínhamos quinze anos e ele veio passar uns dias com vovô, nós...
- Euterpe, por favor, não vamos relembrar o passado. – Lusmore deu um meio sorriso – Clio acaba de fazer uma careta.
- Não são lembranças das mais agradáveis. – a outra loira observou. - Teu passado te condena, hein? - Sam piscou para o bardo. - Você não tem idéia do quanto... – Clio observou, estreitando os olhos. Lusmore riu, sem graça. - Hum... vamos pular essa parte, sim? Ao chegarem na mesa a morena viu que Euterpe esperava Herman sentar. Sem pensar duas vezes ela puxou o cunhado pelo braço fazendo com que sentasse entre ela e Isaac.
- O que vamos beber? - Isaac falou ao ver o garçom parado ao lado da mesa.
- Eu quero uma soda. - Sam falou enquanto olhava o cardápio. - Eu quero ver algo para comer antes de experimentar algo mais forte...
- Sábia idéia. – o loiro observou num murmúrio, sem perceber que Clio tentava olhar o cardápio por cima de seu ombro.
Lusmore cerrou ligeiramente o cenho ao perceber a ação da prima. No dia em que tinha chegado à Resistência, Euterpe dissera que “Clio já encontrou um novo alvo”. Então... Clio estava interessada no Cyan?
Isso não era bom. Definitivamente, não era bom. Por outro lado, podia ser o que ele precisava para ter certeza de que podia deixar sua Mimuca ir. Clio poderia, na verdade, facilitar sua vida.
Ele se voltou para Sam, que estava ao seu lado, passando um braço por cima do espaldar da cadeira dela.
- Quando você quiser ir para a pista, é só me avisar. – ele observou com um meio sorriso – Pelas trombas desses dois aí, não acho que nenhum deles se empolgue muito para descer, ainda que Euterpe e Clio possam ser bastante... convincentes.
Ao ouvir o comentário de Lusmore, Sam percebeu o que Clio estava fazendo. Apesar de achar que era cristalino o sentimento Isaac por Mina, Sam não tinha intimidade de fazer algo. Fora que era a domadora que fugia do cão e não o contrário.
Pouco depois a bebida foi servida e junto alguns petiscos que os rapazes pediram. Por algum tempo eles conseguiram conversar sobre coisas amenas e Sam teve que admitir que as gêmeas eram animadas para conversar, apesar de ainda não gostar delas.
Em um momento de silêncio do grupo a morena se levantou e encostou na bancada, olhando o pessoal dançando lá embaixo. Estava começando a se aquecer para cobrar do bardo o que ele falara antes.
Aparentemente, contudo, ele percebeu isso antes mesmo que ela dissesse alguma coisa, encostando-se na bancada ao lado dela, de costas para a pista.
- Então... você já quer descer?
Sam sorriu para o amigo e assentiu. Nunca negou que se estivesse ao lado dele e não levasse a sério as cantadas, a diversão era garantida.
Lusmore também sorriu, estendendo a mão para ela, que imediatamente aceitou. Os dois passaram pela mesa e o bardo ainda teve chance de um último comentário antes de seguir para a escada.
- Hei, zumbis, tentem não morrerem de tédio enquanto não voltamos, ok?
- Você não devia ser tão mala, Lusmore. – Sam observou, rindo, enquanto desciam – Tente entender o lado deles, Mina e Lorelai não estão aqui... Suas primas não têm como competir com elas.
- Eu não sugeri que eles subissem na mesa e fizessem um show de strip-tease, Sam. – ele respondeu, dando um meio sorriso – Mas ficar com aquelas caras não vai levá-los a lugar algum. Nós não temos idéia do que pode acontecer conosco daqui a algumas horas. Para que então ficar desperdiçando tempo? Divertir-se um pouco não é errado. Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais tio August juntou vocês... e me colocou por perto. Se bem que, pensando dessa maneira... o velho acha que eu sou um palhaço?
A outra riu ao ouvir aquilo. O sr. Chenoweth estava certo, Lusmore conseguia aliviar o clima pesado que vinha com as responsabilidades deles na Resistência. Fora o fato dele ser bem responsável quando era necessário.
Ela se deixou levar para a pista pelo bardo e por mais de meia hora dançou com ele não se importando com o que acontecia com o resto do mundo. Lusmore também gostava de dançar e naquele momento os dois estavam se divertindo bastante.
- Beber algo... - Sam chamou a atenção do seu par.
- Excelente idéia. – ele respondeu, um tanto ofegante – Vamos ver se eles já conseguiram se matar de tédio.
Lusmore pegou a mão de Sam abrindo passagem entre as outras pessoas da pista para chegarem até a escada. Enquanto subia a escada ela agradecia pelo amigo tê-la levado lá, sentia-se mais leve.
Antes de chegar na mesa Sam parou no bar e pediu uma garrafa d’água. Virou para a mesa dos amigos para ver o que estavam fazendo.
- Não exagere ou vou ter que te carregar para casa. - Lusmore brincou com Sam antes de ir para a mesa.
Quando o bardo chegou viu que Cyan não estava lá. Herman falou que outro saíra para ir ao banheiro há mais de quinze minutos e ainda não tinha retornado. Lusmore olhou para Clio se perguntando o que ela tinha aprontado.
- Lusmore, sinto que agora nós dois somos votos vencidos. Está na cara que eles querem ir. - Sam falou em pé ao lado de Herman.
- Se um dia Cyan voltar do banheiro, vamos embora. – ele respondeu com um ligeiro sorriso – Será que a essa altura ele já se afogou?
- Eu vou ir buscá-lo. – Herman se ofereceu, levantando-se – Vocês podem ir descendo já.
Euterpe balançou a cabeça, observando o rapaz se afastar.
- Ele está realmente aflito para ir embora, praticamente nos enxotou agora... – ela suspirou de lado – Que desperdício...
- O que você aprontou, Clio? – o bardo perguntou, colocando uma mão sobre o ombro da prima.
- Eu caí acidentalmente no colo dele. – a loirinha respondeu – Ele pareceu que ia ter um enfarte aqui mesmo. Nunca pensei que seria responsável por esse tipo de reação em um garoto...
Sam abriu a boca, disposta a falar umas boas verdades para a garota, mas de repente, havia uma mão sobre sua boca, impedindo-a de falar. Erguendo a cabeça, ela se deparou com um olhar surpreendentemente sério de Lusmore, que apenas meneou a cabeça.
- Não vamos estragar a noite logo no fim. – ele murmurou – Meninas, vocês podem ir descendo; a Sam vem comigo enquanto eu pago a conta.
As duas assentiram, deixando-os sozinhos. Lusmore a encarou de lado.
- Desculpe por elas.
- Tudo bem. – ela respondeu – Não vou deixar elas estragarem minha noite. Obrigado por ter nos trazido, Lusmore.
Ele deu um meio sorriso, passando uma mão pela cabeça dela, bagunçando-lhe os cabelos.
Pessoas,tudo bem? Estou querendo unificar todas as comunidades relacionadas ao Expresso Hogwarts, New Dawn, Madame Malkins, Amaterasu e cia em um único lugar.
Por isso, criei a comunidade do Crimson Mark Group, que o nome do nosso grupo de fic writers.
Para participar da nova comu, basta se adicionar no link abaixo:
Lembram da fic passada em Hogwarts da Idade Média, escrita pela Jujubs (a nossa Sam) e a Raíssa Arlequina (do extinto Accio Cerebro/Accio Past)? Pois bem, ela ganhou página própria, que vocês podem conferir clicando no endereço abaixo:
A noite estava quente, suficientemente agradável para que eles pudessem ter dispensado o uso de casacos, coisa que, nos últimos tempos em Londres era bastante raro.
A pé, o grupo caminhava tranqüilo pelas ruas do centro, observando o movimento e as luzes que praticamente afastavam a idéia de que o período noturno era de descanso. Lusmore ia mais a frente, comentando tudo como se fosse um guia turístico, o braço de Sam bem seguro no seu, Herman logo em seguida, de cabeça baixa, com Euterpe ao seu lado, cantarolando e, por último, Isaac e Clio.
Os outros dois rapazes tinham relutado um pouco em aceitar a idéia de sair para um pequeno “rendez-vous”, como dissera o bardo, mas tinham acabado por ser voto vencido. Tinham passado o dia treinando feitiços e duelos nos porões do casarão que agora chamavam de casa e certamente teriam preferido ficar dormindo.
- Você sabe, Lusmore... Seu conhecimento da vida noturna de Londres é ligeiramente assustador, considerando que você passou tantos anos na França no meio do mato. – Euterpe observou, cruzando os braços às costas, espreguiçando-os.
O rapaz deu um meio sorriso, voltando a cabeça para a prima.
- Você já deveria ter aprendido a essas alturas com seu avô que conhecimento é poder. Eu sempre fui um estudioso acerca das culturas que me rodeiam.
- E certamente estudou apenas buscando o conhecimento, não é? – Clio comentou mais atrás – Você nunca pensou que poderia colocar esses importantes dados em uso, certo?
Sam observou a cena onde três 'casais' saiam para passear. Ela se deixara levar pelo convite de Lusmore para dar uma volta. Estava bem cansada do treinamento do dia, mas queria que sua mente tivesse direito a um descanso também e ouvir as histórias do bardo era algo cômico e, não poderia negar, agradável.
O único e maior contragosto para sair foi ver que as gêmeas Chenoweth iriam também. Ver Clio tão próxima de Isaac não a agradava, e menos ainda ver Euterpe tão perto, e risonha, do marido de sua irmã.
Não querendo criar um clima ruim entre todos ali, ela aceitou que somente ficaria de olho nas loiras e não falaria nada, se elas não a provocassem, claro.
- Vamos onde, ó senhor conhecedor da vida boêmia londrina? - Sam perguntou ao seu 'par'.
- Por hora, estamos apenas observando. – ele respondeu – Dizem que há alguns excelentes pubs por aqui. Bebida, comida e música. É uma boa combinação, não é? – o rapaz sorriu – E o melhor de tudo é que fica tudo por minha conta hoje.
- Onde você arranjou o dinheiro para isso, Mahala? – Isaac perguntou, o cenho franzido, pela primeira vez participando da conversa – Você não acha que...
- Eu não sei se você sabe, Cyan, mas ser um domador de dragões é uma profissão muito bem remunerada. – ele respondeu, sem se alterar – O que eu tenho não é nada comparado com a renda que os MacFusty retêm... Mas eu poderia nadar em rios de ouro se eu quisesse. Não se preocupe, não estou desviando verbas da Resistência para levar vocês para comer.
Clio observou curiosa o semblante do rapaz fechar-se ainda mais, ainda que ele acabasse por se decidir a não responder. Ela deu um meio sorriso, pensando no quão fofo ele ficava com aquela cara de emburrado.
Ela alcançou a mão dele, enlaçando-a, piscando um olho marotamente quando ele se virou para ela.
- Relaxa, Cyan. Ninguém vai morder você. A não ser que você queira, obviamente. – ela acrescentou, divertida.
Isaac arqueou uma sobrancelha, soltando-se dela devagar, tentando não ser rude.
- Eu creio que estou bem assim, obrigado. – ele respondeu.
- Ei, aquele lugar parece promissor. – Euterpe levantou o braço, apontando para um pub mais adiante, onde uma fila de jovens esperava para entrar, a música escapando, abafada, toda vez que os leões de chácara abriam a porta para deixar alguém passar.
- Nunca vamos conseguir entrar. – Herman observou, colocando as mãos nos bolsos – Primeiro que vamos ter de entrar na fila, e até que chegue a nossa vez...
- Você nunca ouviu falar em convidado vip, Herman? – Euterpe respondeu, maliciosa.
A cena das loiras cantando os dois rapazes do grupo não passou despercebida por Sam que olhou atravessado para elas. Estava começando a concordar com Herman em não ir naquele lugar, mas a música que volta e meia saía da sala fazia com que automaticamente alguma parte do seu corpo se movimentasse.
- Eu tenho certeza que entraremos, quem topa? - Clio falou sorridente.
- A maioria quer. As três garotas e eu, logo Mercury e Cyan não farão essa desfeita a todas e certamente irão também. - Lusmore falou já decidido. - Antes que fale alguma coisa, sei que você vai fazer esse sacrifício, de se divertir, por mim. - O bardo completou segurando uma das mãos de Sam entre as suas.
- Como negar um doce a uma criança? - A morena falou com um meio sorriso.
Herman olhou para os amigos pensando no que fazer. Não estava com nenhuma vontade de entrar em um lugar daquele, ainda mais sem sua fadinha. Quando aceitou sair com o grupo pensava que no máximo iria dar uma caminhada para espairecer, não cair na gandaia dançando. Viu pelo rosto de Isaac que o loiro tinha o mesmo pensamento.
- Então? - Euterpe olhou para os dois rapazes.
- Se não quiserem podemos ir comer algo e voltar para casa. - Sam falou ao ver os outros dois com os rostos indecisos.
- Ah, não podemos não, eu vou te levar para dançar, beber, conversar e relaxar. - Lusmore pegou a mão de Sam e a puxou para perto dele. - Se vocês dois marmanjos quiserem ir, venham agora e entrem conosco. Senão terão que pegar toda a fila.
A troca de olhares dos dois foi o suficiente, não teriam opção novamente. Herman podia ver o olhar de felicidade no rosto de Sam. Depois dos acontecimentos recentes, e todo o esforço que vinham fazendo no treinamento, ela merecia se divertir um pouco como uma adolescente comum. Foi a alegria de antecipação da cunhada que fez com que ele anuísse ao pedido silencioso dela.
Euterpe foi na frente e eles não chegaram a ouvir o que ela disse para os seguranças, mas, no segundo seguinte, eles se viram dentro do pub.
Lore sentou ao lado de Satanio que estava em pé. Todos os olhos voltaram para ele. Era o esperado afinal era o sonserino quem havia convocado aquela reunião junto da grifinória. Uma pontada de tristeza bateu no coração do loiro ao ver que faltavam amigos ali...
O rosto do rapaz ficou sério, diferenciando do Sat brincalhão que todos estavam acostumados.
- Não deve ser uma grande surpresa esse encontro para vocês, apesar da demora. Eu e Lore preferimos aguardar um pouco para vermos como ficaria a vigilância interna. – Ele olhou para sua afilhada que tinha determinação em seu olhar. – Eu acredito que como esta sala ainda esta inteira e estamos aqui há mais de 15 minutos, ao menos eu estou à meia hora, sem nenhuma interferência de Filch logo nem a Melinda nem a Meridiana entregaram este QG aos comensais. Pode ser coincidência ou não, eu prefiro não arriscar. Os olhos de quase todos da mesa foram automaticamente para as entradas do local. Provavelmente não tinham lembrado que alguns do outro lado conheciam aquela sala.
- Conversei seriamente com Sir Cardogan e ele acabou cedendo ao meu pedido. A partir de hoje ele terá um novo código para abrir a entrada que falarei no final. Também fechei a entrada do pula-pula, não podemos arriscar acharem o QG na sorte, como as meninas fizeram.
Uma mão se levantou meio tímida chamando a atenção do loiro que falava. Ele olhou para Selune esperando que ela falasse.
- Essas medidas de segurança todas são para que? Continuaremos a vir aqui?
- Na verdade, quem irá entrar nesse assunto será nossa remanescente do Olho do Grifo. Eu falei a Lore que eu seria o Consigliori e que iria criar a base e a proteção que ela necessitasse para suas idéias.
Satanio sentou e simultaneamente Lore se levantou. A grifinória passou os olhos por cada um dos amigos que ali estavam. Passaram por tantas coisas juntos, algumas boas e outras muito ruins. Apoiaram-se mutuamente, e, graças a isso, conseguiram superar todos os infortúnios. Lore sabia que era aquilo que faria eles também sobreviverem àqueles tempos tão terríveis.
Sabia também que cada um ali tinha parentes na linha de ataque contra o regime comensal. Era em nome daqueles que estavam lá fora, como seu amado Herman e sua irmã de coração, Sam, que Lorelai se decidira por trazer a luta para dentro da escola. Não ficaria apenas observando todas as injustiças que estavam ocorrendo. Como a única integrante do Olho do Grifo que restara em Hogwarts, ela tinha não apenas o dever, mas o desejo de continuar o legado que Herman iniciara dois anos atrás.
- Bem... depois do que aconteceu no fim do ano letivo passado, - ela fez uma pequena pausa, pensando tristemente no modo como a irmã mais velha traira a todos - eu fiquei imaginando se aqui ainda seria um lugar seguro, e após conversar com o Sat vimos que nada pareceu indicar que os jovens comensais voltariam aqui. Então, em primeiro lugar, gostaria de pedir a vocês que não falassem sobre esta sala para ninguém sem o prévio consentimento da maioria. Atualmente ninguém é o que parecia ser...
Alguns assentiram com as cabeças e outros concordaram falando que iriam manter o segredo. Era unânime que estavam dispostos a ter um lugar livre da influencia da nova direção de Hogwarts.
- Com todos concordando o enigma atual para entrar nesta sala é “Pergunta: O que vamos cozinha hoje? Resposta: Suflê de Cenoura”. Idéia do Sat e que agradou Sir Cardogan e sua fixação por comida – Lore deu um pequeno sorriso antes de retomar sua expressão séria - O que quer dizer que possamos vir quando quisermos, pois para manter esse lugar em segredo temos que ser discretos e muito cuidadosos.
Satanio virou para Lore quando ela terminou de falar.
– Temos no máximo 30 minutos até o começo do jantar.
A jovem assentiu e continuou a falar com seus amigos.
- Acho que todos aqui concordam que não dá para simplesmente ficar sem fazer nada. Eu quero manter o Olho do Grifo e também pensar em outras possibilidades de fazermos frente à nova diretoria. – A grifinória viu em alguns olhar de desânimo, o mesmo que via em Sam quando ela não participava diretamente do Olho. - Nem todos precisam escrever textos como eu, Herman e Mina fazíamos, toda e qualquer forma de mostrarmos que ainda existem alunos que não vão aceitar quietos nossa escola ser uma escola de comensais é válida.
Naquele ponto as conversas foram inevitáveis e um sorriso surgiu no rosto de Sat, eles queriam agir também. Precisavam ainda conhecer um ao outro e confiança não viria da noite para o dia, mas ele estava certo que ali estava um bom grupo para começar algo.
- Eu posso desenhar caricaturas e ilustrar os textos – Lucien falou.
- Eu posso... Não sei o que posso, mas estou à disposição para o que precisarem. – Luke completou ao ver que não tinha idéias.
Alguns riram do jeito do ruivo que levou um leve tapa na cabeça da amiga que estava ao seu lado.
Lore sorriu com orgulho para Sat, estavam conseguindo.
- Ótima idéia Lucien e ótimo sentimento Luke, os lufanos sempre de corações grandes. – Satanio sorriu para os amigos e depois continuou sério. - Devemos voltar agora e cada um deve pensar e ver se surge alguma coisa que possa fazer. Não anotem nada em lugar algum, guardem tudo na mente. O próximo encontro será marcado como esse, em conversar informais entre um e outro. Nunca em grupos. Até por isso o ideal é que saiam do mesmo modo que vieram, aos poucos.
- Na nossa próxima reunião teremos algumas apresentações, mas o principal é que cada um aqui sabe o outro sentado nesta sala está do mesmo lado, mesmo sendo todos de casas diferentes. – Lore falou pensando principalmente em Darien e Kyle, que, de certa forma, eram os novatos naquele tipo de trabalho. – Melhor começarmos a sair.
Adhara, Kyle e Lucien assentiram e se levantaram, apesar de saberem que a sonserina deveria se afastar deles assim que passassem do quadro.
- Selune, pode sair com o Darien? Eu gostaria de falar com o Sat antes de ir... – Lore falou para a francesa.
- Oui, ma cherrie. – Selune respondeu.
Darien sorriu ao ouvir a língua que também amava. Os dois saíram conversando sobre amenidades da língua francesa, sorrindo como se fossem bons e velhos amigos. E logo atrás deles saíram Luke e Raven.
Lore esperou até que todos saíssem para relaxar. Naquele momento ela sabia que precisava manter a força de suas palavras em seu rosto, para que todos tivessem a mesma coragem para lutar contra os Carrows.
O loiro viu um leve tremer em uma das mãos da garota e se lembrou de algo importante, ela ainda era jovem. Era uma senhora casada, mas ainda muito nova para passar por aquilo sozinha. Sat abraçou Lore que apoiou sua cabeça no ombro do amigo.
- Deu tudo certo, vieram todos. Herman ficaria muito orgulho se você. – Ele deu um leve beijo no topo da cabeça dela, como um irmão mais velho faria.
A grifinória sorriu levemente ao ouvir aquilo.
- Tanta coisa e tão rápido, não é? Eu me pergunto se ele está bem, se lá está como aqui...ou pior...
Aquilo era algo que Satanio não poderia responder, também se perguntava isso. Mas sabia que tinha algo que ele sempre poderia fazer, fazer seus amigos sorrirem. Ele se afastou de Lore e colocou a mão dela encaixada no seu braço, para que os dois saíssem da sala.
- Não se preocupe com certeza ele está em algum lugar onde terão várias enfermeiras para cuidar dele... – Ele falou desenhando as curvas de uma mulher com uma das suas mãos.
- Ei!
- E conhecendo o Herman como conheço, ele ficará vermelho como um pimentão...
Ao imaginar a cena descrita pelo amigo, Lore não teve como não rir. Sabia que aquilo era algo impossível, mas que seria a cara de seu marido seria.
-Bem, duvido que ele me apronte uma coisa dessas, afinal, ele sabe que tem um rolo de macarrão esperando por ele lá em casa se fizer alguma gracinha.
Foi então, a vez de Satanio rir.
-Sabe, Herman não poderia ter escolhido esposa melhor – ele piscou – Vamos, agora que a Operação Suflê de Cenoura está oficialmente em prática, a gente pode aproveitar comida de verdade no jantar.
-Não poderia imaginar uma idéia melhor no momento – a moça respondeu, um pouco mais animada.
Enquanto ambos saiam, ainda de braços dados do QG, Lorelai não pode deixar de pensar consigo mesma que, apesar das trevas que os rodeavam, ainda havia uma chama de esperança, e que, assim com ela estava cercada de amigos que poderiam apóia-la, possivelmente Herman teria a mesma sorte onde quer que estivessem
O horário para aquele encontro fora escolhido de modo que não chamasse atenção dos professores. Alunos andando pelo castelo entre a última aula e o horário do jantar era normal, como ele queria aparentar.
Desde que retornara à Hogwarts Satanaio viu que tudo estava diferente, bem mais do que imaginava. Duas de suas afilhadas não retornaram. Ao menos podia dizer que Mina estava segura, mas não tinhas notícias de Sam. Seu amigo e companheiro se casou e precisou fugir. O loiro tinha certeza que Herman estava na Resistência, conhecia o amigo. E sua amiga grifinória de tantos anos, após passar por algo complicado nas férias, decidiu mudar de lado, ajudando os professores comensais.
Ao menos uma coisa fazia o sonserino se sentir melhor, saber que sua amada e idolatrada Cabeça de Berinjela - ou melhor, de Inhame - estava longe daquela guerra, segura em Los Angeles.
Sentado na cama elástica, o consigliori das antigas mafiosas olhava em volta com um olhar saudoso. O QG ainda estava arrumado como elas deixaram, o mural com os textos do Grifo e ao lado as fotos das garotas e das festas.
Sat acordou dos pensamentos quando seu amigo lufano entrou pelo quadro de Sir Cardogan. Luke falou que chegaria um pouco antes do combinado com os outros.
- Você não vai precisar de um lenço, vai? - O ruivo falou ao ver o amigo com o rosto melancólico.
- Está me estranhando? Foi um cisco que caiu no meu olho... - Sat respondeu fingindo tirar uma lágrima.
Aquele encontro tinha sido idéia dos dois junto com Lorelai no dia em que o loiro foi perguntar onde estavam suas outras meninas. O olhar decidido da grifinória falando que continuaria com o legado das mafiosas fez o sonserino pensar que não só ele, mas o restante daquele grupo de amigos deveriam se tornar mais ativos dentro de Hogwarts.
A idéia foi firmada ao conhecer os novos professores e ver como estavam sendo aplicadas as detenções, principalmente naqueles que tinham algum familiar foragido. Luke e Raven concordaram no mesmo momento e a antiga Mamma sugeriu convidar todos que já sabiam a existência do QG para ao menos confirmar que não entregariam o local, já que tinham aprendido a lição com a Melinda no ano anterior
- Definitivamente Sam faz uma falta nessas horas... - Sat falou ao sentar em um pufe.
Luke olhou para o loiro intrigado. Não resistiu e perguntou por que exatamente a ex-lufana fazia falta e não Mina ou Herman.
- O café, os pãezinhos, os brownies... Agora vamos viver de luz se ninguém for até a cozinha. - O sonserino falou passando a mão na barriga.
- Se é tão importante assim para você, posso fazer esse sacrifício algumas vezes. - O ruivo virou uma cadeira para o amigo e sentou.
- A moça do café é insubstituível. Você só vai ser um cara que pode trazer coisas. - Sat levantou uma sobrancelha ao ter uma idéia. - Humm, podemos providenciar uma peruca e uma saia para você...
Antes que o lufano respondesse o quadro abriu novamente dando passagem para Raven, que entrava com um pacote de bolachas na mão. A morena parou ao ver os dois olhando para ela com olhos sério e rostos pensativos.
- Queee? - Ela olhou para sua roupa procurando algo sujo. - Deve ser por que estou de verde...
- Ela serve? - Luke perguntou seriamente.
- Vai ter que servir. - Sat concordou com a mesma seriedade.
- Dá para pararem de falar em código e me contarem logo o que foi?!
Com o rosto centrado Satanio se levantou e apoiou o braço no ombro de Raven. Ele caminhou com ela um pouco roubando uma bolacha do pacote e olhando todo o QG como se procurasse algo importante para mostrar para a sonserina.
- Aimeumerlin, vai Sat, diz logo! - Raven parou o loiro que fez uma feição compenetrada.
- É que estávamos conversando, antes de sua chegada, sobre o que achamos que poderíamos fazer dentro das possibilidades de cada Casa. Quem irá agir nas masmorras somos nós e na Torre serão os grifinórios e assim vai... - Sat fez uma pausa e esperou para ver a reação da morena. - Já começamos a ter algumas idéias, mas teve algo muito importante que não tínhamos noção de quem teria a capacidade de fazer. É algo complicado e Luke falou que assumiria isso, mas eu achei muito complexo para ele.
Raven baixou o pacote de biscoito esperando para saber o que era. Pelo o que conseguira ouvir no final da conversa deles era algo que caiu para ela. E o modo de falar do Sat parecia ser algo um pouco difícil, provavelmente envolvendo poções, que a sonserina era muito boa.
- Raven, minha amiga. - Sat colocou as mãos nos ombros da sonserina e fitou os olhos dela. Deu um leve sorriso ao ver a atenção dela totalmente voltada para o que ele falava. - Você pode se tornar a pessoa responsável por trazer café e comida para cá?
Ao ouvir a missão tão importante a sonserina começou a rir, colocando a mão no joelho para se apoiar. Raven se perguntava como pode ter sido pega tão facilmente pelo sonserino. Ela demorou a conseguir parar para responder
- Claro meu bem. - A morena falou entrecortadamente, tentando controlar o riso. - No momento se contentem com o final dos meus biscoitos.
O som de mais uma pessoa os fez olhar para a porta. Faltavam chegar ainda dois convidados e o corvinal que entrava devagar era um deles. Raven chamara Darien Semog, pois se lembrara do rapaz em algumas festas das meninas no ano anterior.
Quando ela contou o motivo da reunião, no caso dele para principalmente se falara do local para algum professor, Darien se mostrou com vontade de fazer algo mais e por isso ele estava lá.
- Boa noite. – o rapaz de cabelos azuis falou educadamente. Ele viu Hunter ali e ficou um pouco receoso se era bem vindo. O histórico entre os dois rapazes não era dos melhor, por amores ou por amizades.
- Entre Semog, a Lore já deve estar chegando. - falou Satanio
A grifinória chegou no exato momento em que Sat falou seu nome. Ela estava acompanhada de Selune Priout. Apesar de todo o passado confuso envolvendo as duas e um certo pombo, Lorelai deixou qualquer ciúme bobo infundado de lado. Com a ausência das amigas e o comportamento estranho de Meridiana, ela e a francesinha acabaram se aproximando de uma forma que ela não poderia imaginar.
-Já que estão todos aqui, acho que podemos começar – Satanio falou.
-Ainda faltam três pessoas – Lorelai interrompeu.
-Três? – o sonserino franziu a testa. Pensando bem, ainda havia o Von Weizzelberg, mas quem seriam as outras duas?
A resposta para as dúvidas do loiro chegaram poucos minutos depois. O austríaco vinha acompanhado por Adhara Ivory, que, o sonserino se lembrava de terem lhes ajudado contra os JCs no ano anterior. Pouco atrás dele vinha um rapazinho da Lufa-lufa que ele já vira várias vezes em companhia de Luke e Lucien. Kyle O’Neil era o nome dele, se o sonserino se lembrava bem.
- È melhor todos nos sentarmos, pois a conversa vai ser longa – Lorelai anunciou.
Aproveitando (1) a sexta-feira 13 de ontem, (2) o Dia do Crepusculo - evento em que o pessoal da Crimson Mark (para quem não sabe, nós desses sites que vocês costumam acompanhar) está ajudando, (3) o fim do hiatus da nossa fic vampírica New Dawn - amanhã dia 15 -, aproveitamos a deixa e estamos fazendo um Tsuru especial só de vampiros!
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Assim que os passos da ruiva se distanciaram, Adhara e Lucien se viram completamente sozinhos. A morena começou a mostrar intenções em também partir, quando foi pega de surpresa por um pedido do lufano:
- Eu queria conversar um pouco com você, Adhara.
A sonserina suspirou e postou as mãos na cintura antes de encarar o rapaz.
- Escute, Lucien, se a sugestão que eu fiz para a Meri sobre o Theodore lhe incomodou, então eu lamento. Confesso que também não estou muito satisfeita com a decisão de Meridiana, mas dei minha palavra a ela de que a ajudaria mesmo assim. E esse é o meu jeito de ajudar. – Adhara tentou soar o mais educada e menos agressiva possível. Não tinha absolutamente nada contra Lucien, muito pelo contrário, e podia apenas imaginar o quanto aquela situação deveria estar beirando o insuportável para ele, mas precisava manter firme a sua posição.
O rapaz passou a mão por entre os cabelos, não escondendo sua apreensão.
- Não é isso, Adhara. Eu entendo a natureza da sua sugestão, talvez mais até que você supõe – ele falou, sem explicitar sua curta experiência sob a tutela de August Chenoweth – Eu apenas queria conversar com alguém sobre fraulëin. Alguém que sei que posso confiar e ao mesmo tempo teria a visão prática da situação que eu preciso. Poderia tentar conversar com os demais, mas, eu não conheço ninguém do nosso grupo que seja mais prático que você.
A garota sentiu-se internamente aliviada por perceber que não havia se indisposto com o austríaco, tanto que acabou deixando que sua postura relaxasse sem mesmo perceber.
- Deve ser efeito colateral de ser criada por um pai que é Auror. Você também parece ter a sua própria dose de pragmatismo. – ela deu um meio sorriso, como se convidando Lucien a deixar de lado suas apreensões – O que você precisa saber de mim?
- Quero apenas que seja franca comigo sobre o que acha disso tudo em que Meridiana está se envolvendo. Talvez meus sentimentos por ela estejam embotando as minhas impressões. Apesar de se mostrar tão forte, tão determinada, às vezes eu sinto que, na realidade, fraulëin está tão frágil e quebradiça como uma boneca de porcelana mal-remendada. Como se a qualquer pressão maior ela fosse se estilhaçar e eu não sei exatamente como impedir isso.
Adhara suspirou e encarou as estampas do tapete da sala por alguns instantes. Não sabia exatamente como poderia responder aquilo... Não havia nenhuma resposta pronta para aquela questão. Talvez suas impressões estivessem tão erradas e parciais quanto Lucien temia que fossem as dele. Mas o austríaco lhe pedia franqueza, e a própria sonserina temia que aquilo fosse tudo o que tivesse para oferecer a ele.
- O que eu acho é que tudo isso é uma droga. Essa situação toda é ridícula e estupidamente perigosa, por motivos óbvios e não óbvios também, e eu queria que ela não estivesse acontecendo. Mas ninguém além de Meri o poder de impedi-la. – ela então levantou seus olhos para o lufano, pois sabia que aquele não era o tipo de conversa que se poderia ter evitando um contato visual. Lucien precisava saber o que ela estava sentindo para poder confiar nas palavras dela – Eu não creio que você esteja tão errado assim. Ninguém passa pelo que a Meri passou sem levar um buraco enorme dentro de si. A sensação... O pavor de estar sob a mercê de alguém que pode te matar em um piscar de olhos... De perder todo o controle sobre si mesmo, de não saber nem se você será capaz de fazer algo tão simples quanto respirar pelos próximos segundos. A impotência e o desespero são opressores, tanto que depois de um tempo se fica entorpecido e vem a desistência. E então, quando por um milagre, porque só mesmo um milagre traria a salvação, você se vê são e salvo e rodeado pelas pessoas que ama... Há a vergonha de olhar para aquelas pessoas que demonstram tanta fé e amor e saber que, por um segundo, você desistiu, você abriu mão de todas elas, você descumpriu seu dever de lutar. O trauma é horrível, é absurdo, ele melhora, mas nunca vai embora. O monstro nunca vai embora... Então, é, a Meri deve estar um caco por dentro. Mesmo por fora ela é só um arremedo da garota que um dia ela foi, e eu não acho que ela vá conseguir voltar a ser aquela garota até que ela tenha destruído o monstro dela. Ela sequer conseguiu visitar o túmulo do Sr. Nicholas e a antiga casa dela ainda... – a morena suspirou – Se você queria a minha opinião, aí está ela. Eu espero, sinceramente, que a Meri não se quebre... Mas há chances de que isso possa acontecer. E pode ser que o baque seja ainda pior se nesse meio tempo ela fizer coisas ruins e censuráveis. Entretanto, tudo o que eu e você podemos fazer é estar lá, para amparar os estilhaços e remontá-los, caso o pior aconteça.
Lucien abaixou o rosto, soltando um ruidoso suspiro antes de encarar novamente a prima de sua fraulëin.
- Eu não teria descrito a situação de maneira melhor. – ele falou – Realmente fiz bem em decidir vir para Hogwarts junto com ela. Eu só concordei com esse plano todo porque eu sei que não adiantaria me opor, ela está tão ferida que acabaria fazendo até mesmo algo mais perigoso ou estúpido. Eu quero estar ao lado dela para ajudá-la, mas às vezes, tenho medo de não ser o suficiente.
Adhara esboçou um sorriso triste. Parte dela sentiu o impulso de ir até Lucien e abraçá-lo, oferecer conforto a ele como havia oferecido a Meri quando a prima comunicara a ela e a Kyle sobre a sua decisão. Mas ela silenciou esse impulso, reconhecendo-o como inadequado. Não conhecia o austríaco tão bem assim para tomar esse tipo de liberdade com ele. Além do mais, ele era o namorado de Meridiana.
- Você só pode esperar pelo melhor, Lucien. Meri perdeu o pai dela, o maior porto-seguro que tinha, no meio disso tudo. Mas talvez, se ela tiver o restante das pessoas que ama por perto... Talvez seja o bastante. Ainda assim, a maior parte do trabalho tem que ser feita por ela. Ela tem que se remendar sozinha.
- Eu sei disso. É frustrante saber que não posso fazer muito mais do que já faço, que, no fim das contas, o principal depende dela. – o moreno falou, balançando a cabeça. – Obrigado, Adhara. Pela sinceridade e por me lembrar que fraulëin tem muitas pessoas que zelam por ela.
A morena assentiu.
- Não foi nada, Lucien. De certa forma, falar sobre isso ajudou a mim também. É melhor irmos.
-Pode ir na frente – o rapaz falou – Melhor nós dois também não sermos vistos juntos com muita freqüência. Além do mais, gostaria de ficar um pouco mais sozinho.
Adhara concordou silenciosamente, despedindo-se de Lucien com um “boa noite”, seguindo, então, para fora da sala. O moreno voltou novamente sua atenção para a paisagem que se descortinava pela janela, observando os movimentos indistintos que aconteciam no meio das folhagens da floresta. Animais entremeados nas sombras, escondidos, assim como estavam escondidos os sentimentos funestos que preenchiam o coração de sua fraulein. Ele prometera a ela, e principalmente a si mesmo, que, se as trevas clamassem demais o coração de Meridiana ele iria resgatá-la. Custe o que custasse ele iria cumprir sua palavra.
Lucien observava a orla sombra da Floresta Proibida através do janelão da sala onde se encontrava. Estava sozinho, à espera de Meri e Adhara, com as quais marcara um encontro. O lufano havia se adiantado na hora, preferindo esperar ali pelas garotas. Havia muito em sua cabeça e ele poderia fazer bom uso de um tempo sozinho, onde ninguém pudesse interrompê-lo.
A sala, oculta na parede por uma tapeçaria de centauros e uma senha, havia sido cortesia de Adhara para reuniões secretas. Não era nem de longe tão espaçosa e aconchegante quanto o QG da Máfia, mas servia ao seu propósito. De toda forma, não poderiam arriscar uma ida ao QG – não sem antes terem certeza que o local ainda era seguro.
Ele suspirou, seu olhar vagava sem foco pela paisagem conhecida, até que ouviu o ruído da fechadura sendo aberta. Quando se virou o rapaz encontrou primeiramente os olhos esmeraldinos de Meridiana. Lucien sentiu uma pontada no peito e um desejo súbito e incontrolável de apertar sua fraulëin em seus braços e beijá-la. E teria feito exatamente aquilo se não tivesse reparado que Meri não estava sozinha: Adhara adentrava a sala logo atrás da prima.
- Boa noite – disse a sonserina, cumprimentando Lucien com o tom polido que sempre empregava quando conversava com o austríaco.
- Gute Nacht – ele respondeu no mesmo tom, sem perceber que dissera aquilo em alemão. O deslize, entretanto, não escapou de Adhara, que notou que o rapaz deveria estar mais ansioso do que deixava transparecer.
O lufano desviou o olhar para Meridiana, que o recebeu com um terno sorriso. Ela se aproximou, dando um beijo delicado nos lábios dele, e, depois enlaçando a mão do rapaz, voltou sua atenção para a prima.
Adhara sorriu levemente ao observar a interação carinhosa do casal. Ao menos ainda restava aquele pequeno consolo a eles. Reconhecendo que os dois esperavam que ela esclarecesse o motivo pelo qual marcara aquela pequena reunião, a morena encostou-se ao tampo da mesa de madeira – a única mobília que havia na sala – e cruzou seus braços. Ela olhou primeiro para Meri, e depois para Lucien, antes de falar:
- Bem, o que eu tinha para dizer a vocês na verdade é bastante simples, mas como não podemos mais ser vistos juntos pelo castelo, achei melhor chamá-los aqui. – Adhara fez uma pausa – A encenação de vocês deu certo. A escola inteira está achando que o seu namoro terminou.
A ruiva baixou os olhos. Embora aquela fosse uma boa notícia ainda lhe era dolorido lembrar o quão difícil foi fingir tudo aquilo, mesmo sabendo que fora necessário. Sentiu a mão de Lucien comprimir a sua um pouco mais fortemente, como se ele tentasse lhe transmitir força. Ela levantou o rosto, dando um sorriso triste para ele, antes de voltar-se também para a prima.
- Não sei se a parte mais difícil já passou ou está prestes a começar – Meridiana falou.
- Talvez as duas coisas. – respondeu Adhara, com uma melancolia idêntica à da prima – Eu também falei a Theodore Nott sobre você. Sobre a sua vontade de se tornar uma comensal. Não sei se ele está convencido de que o que eu disse é verdade, mas ao menos a semente está plantada.
- Pode ser um caminho – Meridiana assentiu.
Lucien apenas franziu o cenho, o que não passou despercebido à Adhara. Pelo visto não agradava ao austríaco a idéia de ver Meri tão próxima de alguém tão pegajoso e desprezível como Nott. Também não agradava à sonserina, contudo, apesar de insuportável, o primo tinha influência suficiente para tornar crível a “conversão” da grifinória aos demais.
- Você acha que ele vai aceitar uma aproximação de minha parte? – Meridiana perguntou. – Ele mesmo dissera que não tinha interesse em nenhuma outra prima a não ser você.
Adhara girou discretamente os olhos à última menção de Meri. Não sabia o que havia feito de errado para merecer tamanha atenção de Nott.
- Bem, você disse que estava disposta a sujar as mãos. Enganar Theodore e conseguir a confiança dele pode ser apenas a primeira de várias manipulações que você terá que executar.
A ruiva assentiu, com uma expressão pensativa.
- O que exatamente você sugere que eu faça? – questionou Meridiana.
A sonserina deu de ombros.
- Olha, Meri, Theodore não é particularmente brilhante, mas também não é particularmente ingênuo. Ele cresceu entre cobras e está acostumado com elas. Eu digo que você deve tentar a abordagem mais óbvia. – ela então encarou a ruiva – Bajule-o. O ego de Theodore é grande... Diga que quer conhecê-lo melhor, que está interessada no outro lado da nossa família. Flertar um pouco com ele talvez não fizesse mal também... – Adhara tomou cuidado de não encarar Lucien quando fez esta última sugestão. Tinha o namorado de Meri em grande consideração, mas sua prima estava lhe pedindo um conselho, e ela estava sendo o mais sincera e prestativa que podia.
Meridiana mordeu os lábios ante a sinceridade de Dhara, apesar de sentir o corpo de Lucien se tencionar minimamente ante à menção de um flerte com Nott.
- Vou levar o que disse em consideração quando me aproximar dele. – foi apenas o que ela respondeu.
A ruiva se aproximou da prima, dando-lhe um abraço que apenas aqueles curtos momentos de clandestinidade permitiam.
- Obrigada, por tudo.
Dhara correspondeu silenciosamente ao abraço da grifinória e deu um breve sorriso para Meri quando se afastaram.
A ruivinha então se aproximou do namorado, dando-lhe um beijo longo e apaixonado, prontamente correspondido pelo rapaz. Meridiana pousou as mãos no rosto de Lucien, encarando-lhe nos olhos.
- Eu te amo, não se esqueça. Isso sempre vai ser o mais importante.
- Eu sei, fraulëin. – ele respondeu, depositando um beijo na fronte dela – Eu sinto o mesmo, você sabe disso.
Ela assentiu, soltando-se do namorado, caminhando em direção à saída, uma vez que era melhor que não a vissem com nenhum dos outros dois.
Presente
Este desenho maravilhoso foi feito pela Dani Salomão, que, na minha opinião, tem um belo futuro como desenhista. Nas palavras dela, é o modo como ela vê a Raven nesses conturbados tempos de ditadura comensal. Eu fiquei particularmente apaixonada pela forma como ela conseguiu deixar transparecer toda a introspecção e dúvidas da sonserina diante daquele mundo sem sentido em que se vê imersa.
Aquelas primeiras semanas em Hogwarts estavam sendo as mais estranhas desde que ela entrara para a escola.
Adhara nunca tinha visto o castelo tão vazio. Apenas agora ela se dava conta de quantos alunos com ascendência trouxa Hogwarts abrigara... Sem dúvidas o corpo discente havia sido reduzido ao menos pela metade e os sonserinos, que em geral sempre foram a minoria, pelas próprias exigências impostas por Salazar Slytherin para admitir alunos em sua Casa , subitamente tornaram-se uma presença muito mais pronunciada pelos corredores. Os uniformes verde e prata pareciam ter se multiplicado e nunca haviam tido tantos calouros selecionados para a Sonserina quanto naquele ano.
Era tão desconcertante a forma como todas as portas se abriam automaticamente para quem carregava o emblema da serpente no peito, enquanto os alunos das demais Casas pareciam ter que se esforçar o dobro do normal para ter acesso aos privilégios e oportunidades inatos a qualquer sonserino. Ela poderia ter se deixado embriagar por tal poder e influência se os tempos fossem outros... Ela era uma sonserina afinal de contas, e a ambição também fazia parte de si. Mas o poder que eles ofereciam não era o tipo de coisa que ela queria. Ela era ambiciosa, mas não era cega. E não estava disposta a sacrificar coisas que hoje lhe eram caras demais...
E assim ela evitava o salão comunal da Sonserina tanto quanto podia, feliz por passar o tempo em lugares mais ensolarados – e menos sufocantes. Kyle havia se revelado uma companhia constante, e ela sentia-se feliz e grata por ter o primo caçula ali consigo. Tinha que confessar que sentira um pouco de medo de acabar sozinha agora que se manter muito próxima à Meridiana seria prejudicial aos planos da ruiva.
Por falar nisso, a briga de Meri e Lucien já estava encontrando espaço no círculo de fofocas da escola – ou seja, nos banheiros femininos de Hogwarts –, e provavelmente seria a principal manchete da próxima semana. Tinha que se lembrar de contar à prima que o ardil dela funcionara.
Mas por mais que estivesse tentando escapar pela tangente, rastejando discretamente para longe do perigo como toda boa cobra faria, aquilo se tornou um tanto impossível quando Theodore Nott a emboscara pessoalmente durante o almoço daquele dia e pedira que o esperasse no salão comunal depois do jantar, alegando que tinham assuntos para tratar.
Adhara estava andando sobre um fio bastante fino e sabia disso. Agora que os Comensais – e quem se aliava a eles – passaram a ser a voz dominantes dentro da escola, Nott era alguém muito mais influente do que jamais sonhara e ele não estava se fazendo de rogado em tirar proveito dos novos privilégios. Ele era razoavelmente esperto, extremamente ambicioso, e agora tinha um senso de segurança que certamente o tornaria mais audacioso. Ela deveria ter cuidado.
- Boa noite, prima.
Ela levantou o rosto ao ouvir aquela voz, percebendo que quem esperava finalmente chegara. Theodore lhe sorria, cordial e confiante, enquanto tomava lugar na poltrona logo à sua frente. Aquela era outra coisa em que Adhara tinha reparado: as cadeiras de espaldar reto haviam desaparecido e o número de poltronas se multiplicara na sala comunal da Sonserina. Uma clara tentativa de propiciar mais conforto para a nova elite de Hogwarts.
- Boa noite. – ela respondeu educadamente.
De imediato ela percebeu que o senso de auto-importância realmente fizera maravilhas por Nott. O rapaz sentava-se na poltrona como se fosse um rei e a vastidão verde e prata que se estendia diante de seus olhos fosse seu domínio. Até mesmo ela deveria estar sendo vista sob uma nova luz.
- Fico feliz que tenha atendido ao meu convite. – o sorriso de Theodore se ampliou mais um pouco, como se fosse um gesto mais pessoal.
Adhara meramente assentiu, como se estivesse pronta para ouvir o que ele tinha a dizer. Percebendo que tinha a atenção da morena, Nott iniciou sua fala:
- Tive a felicidade de falar com a Profª. Carrow esta manhã, e ela me informou que é de interesse da Direção, bem como do Lord, que continuemos com as atividades do grupo que tínhamos no ano passado. Pelas notícias que tive, nossos líderes que se formaram no último ano estão agora galgando bons postos no Ministério e sendo deveras úteis à causa. O alto comando está satisfeito com os resultados obtidos com aqueles que já foram recrutados desde os tempos de escola. – o tom dele era sereno e agradável, como se nada mais no mundo pudesse lhe dar tanta satisfação quanto estar ali, saboreando aquele momento rodeado por outros de sua espécie – Assim, eu gostaria de confirmar se você está interessada em me auxiliar a encontrar mais pessoas que partilhem dos nossos objetivos?
Adhara ouvia a tudo com educação e pretenso interesse. Claramente Theodore ainda a tomava como aliada... De certa forma aquelas eram boas notícias, ao menos sua espionagem para o Olho do Grifo, no ano anterior, não fora descoberta.
Ela não tinha, de forma alguma, a intenção de continuar pretendendo ser uma Jovem Comensal, não agora que isso já não era mais necessário. Mas, ao mesmo tempo, não queria se indispor com eles. Afinal, agora eles dominavam Hogwarts e o governo bruxo e, se ela bem conhecia um pouco da natureza dos Comensais, eles não iriam se abster de perseguir um aluno que os desafiasse. Além do mais, ela tinha que pensar em seu pai e na madrasta... Kamus trabalhava no Ministério da Magia e Frida estava fazendo um jogo perigoso para garantir a segurança dela e de seu irmão ainda não nascido... Qualquer erro que cometesse dentro da escola certamente se repercutiria fora dela, contra a sua família. Ninguém estava livre de represálias.
E foi por isso que ela sorriu levemente para Nott naquele momento.
- Bem, eu ainda não sei o que vou fazer depois que me formar, Theodore. De qualquer forma, já me sinto bastante satisfeita com tudo o que foi conquistado até agora... A escola está em boas mãos. Nosso mundo está caminhando para um bom rumo. O que mais eu poderia querer? Acho que minha obrigação, como seguidora de Slytherin, já está cumprida.
A expressão de Nott vacilou naquele momento.
- Quer dizer então que você não quer continuar?
A morena forçou-se a continuar sorrindo e mantendo a sua fachada de tranqüilidade.
- O que há para continuar, Theo? Você não percebe? Nós já vencemos. Mas talvez... – ela acrescentou, em um tom pensativo – Talvez Meridiana se mostrasse interessada em auxiliá-lo. Ela parece ter reavaliado muitos de seus conceitos durante o tempo que passou sob os cuidados do Sr. Black-Thorne neste verão.
Adhara sentia-se intimamente enojada ao maquiar daquela forma a tortura pela qual Meri passara e ainda mais enojada por fingir respeito à Ludovic, mas, se aquilo pudesse ajudar a prima em seus intentos, ela mentiria de bom grado.
Nott pareceu um pouco desconcertado por aquelas palavras, mas não necessariamente contrariado. Adhara concluiu que era uma boa deixa para terminar aquela conversa, enquanto Theodore ainda não havia se recuperado do golpe para contra-argumentar.
- Se era só isso que você precisava falar comigo, então eu peço licença para me recolher. – ela disse, já se levantando – Boa noite, Theo. – acrescentou, achando que chamá-lo pelo apelido havia rendido bons resultados.
- Sim. – o rapaz levantou-se, parecendo lembrar das boas maneiras – Boa noite, Dhara.
Ela quase tremeu de desgosto diante do tratamento tão íntimo, mas supunha que não havia muito o que fazer quanto aquilo. Melhor tolerá-lo do que criar problemas.
Assim, após um educado meneio de cabeça, Adhara rumou para o seu dormitório.
COM O APOIO DA CRIMSON MARK FANFICS (ou seja, os responsáveis pelo Expresso, Amaterasu e New Dawn)
Era uma casa grande, localizada num centro movimentado da cidade. Ele deu um meio sorriso, os olhos brilhando por debaixo das lentes dos óculos escuros que usava. De alguma forma que ele não saberia explicar, sentia que aquele lugar era simplesmente certo. Seu instinto lhe afirmava que aquilo era, simplesmente perfeito. O que quer que isso significasse.
Mas ele nunca fora de desconfiar de seus instintos antes, ainda que eles não fizessem sentido. Afinal, eles nunca tinham estado errados antes.
Ao lado dele, a loira cruzou os braços, esperando que ele saísse daquele estado de muda contemplação.
- Eles já sabem da minha chegada? – o rapaz perguntou finalmente, voltando-se para ela.
- Sabem apenas que terão um novo companheiro a partir de hoje. – Euterpe respondeu – Clio veio mais cedo para organizar tudo e arranjar seu quarto.
- Muito amável da parte dela. – ele riu – Acho que é uma boa idéia que eu dê uma boa olhada debaixo do colchão antes de me deitar nele... Provavelmente haverá cobras e escorpiões esperando para me darem boas-vindas também.
Foi a vez de Euterpe sorrir.
- Você sabe que nós amamos você, priminho. – ela observou com uma voz quase doce, enquanto atravessavam a rua.
- Claro que sei, eu tive demonstrações suficientes desse amor no passado. – ele respondeu.
- Mas não se preocupe. – ela piscou o olho – Clio tem um novo alvo em mente. Ela não terá muito tempo para você.
- E imagino que você também não. – Lusmore meneou a cabeça – É uma pena, realmente...
Ela riu.
- Você não mudou nada esses anos todos, Lusmore.
- Eu tenho certeza de que você teria ficado muito desapontada se não fosse assim. – ele respondeu simplesmente, enquanto paravam à porta do casarão.
Euterpe riu com o canto da boca, tirando um chaveiro com uma boneca um tanto descabelada da bolsa, entregando-o a ele.
- Cortesia do meu avô. São suas chaves de agora em diante.
- Tio August sempre teve uma maneira interessante de mostrar que se importa... – ele também sorriu, antes de girar a fechadura, destrancando a porta.
Pouco depois ele estava numa sala decorada com bom gosto, colocando sua sacola de viagem junto ao sofá, observando o ambiente, enquanto Euterpe sumia para o interior da casa, certamente indo procurar os outros habitantes do casarão.
O sorriso que ele não deixara de ostentar por nenhum instante desde a entrada alargou-se, tornando-se um tanto malicioso quando Euterpe voltou, acompanhada da irmã gêmea e de três outras pessoas que ele conhecia muito bem.
Herman e Samantha, embora surpresos ao ver a figura do bardo recostado contra o sofá, com os braços cruzados, pareciam genuinamente contentes. O terceiro membro do time deles, contudo, que, por acaso, vinha mais à frente, não parecia tão feliz.
- Hei, Cyan. Como vai a vida? Um osso muito duro de roer? – ele cumprimentou, sentindo um prazer secreto em provocar o rapaz.
Isaac apenas balançou a cabeça.
- Mahala. – ele cruzou os braços.
- Você não deveria estar no Japão? – Herman perguntou.
- Ou nas Hébridas? – Sam completou, aproximando-se também – Mina...
- Ela me disse que tinha escrito para você e Lorelai. – ele respondeu, voltando a atenção para a moça – Mina ficou nas Hébridas sob a proteção do avô. O porto foi fechado e as ilhas estão protegidas por magia. As comunicações também foram cortadas, mas ao menos ela está segura.
Samantha assentiu, abaixando ligeiramente os olhos, pensando na carta que recebera da amiga na véspera do aniversário dela, poucos dias atrás.
- É bom ter você por perto de novo, Lusmore. – Herman adiantou-se, dando um meio sorriso.
- Eu ouvi dizer que você é um homem casado agora, Herman. – ele respondeu, de bom humor – De todas as novidades que recebi desde que cheguei, essa foi, sem dúvida, a mais surpreendente.
Ao ver seu cunhado ficando vermelho, Sam deu um leve sorriso. Teve a esperança que o jeito de ser de Lusmore ajudasse a amenizar o clima que estava entre eles. Os três ex-alunos de Hogwarts ainda estavam se acostumando com sua nova vida.
- Não somos desalmados e dessa vez seu quarto já está pronto, não irá precisar desperdiçar magia para ter seu canto. - a morena sorriu para o bardo. - Seja bem vindo Lusmore.
Ele sorriu em resposta.
- Cuidem bem de mim. – ele exclamou, rindo, enquanto a seguia para conhecer seu novo quarto.
Não muito longe, ele ouviu alguns homens praguejando contra o tempo e a falta de peixes. A noite estava úmida, havia cheiro de maresia no ar, misturado a qualquer coisa que lembrava sardinhas fritas.
Com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta de couro surrada, ele parecia apenas mais um marinheiro sujo ou um bêbado que esquecera o caminho de casa. Contudo, se houvesse alguém para observá-lo em meio à decrepitude daquela parte da cidade, certamente acharia a postura quase marcial e a maneira atenta com que ele observava tudo a sua volta um tanto deslocada naquele cenário.
O homem parou diante de um dos becos não muito longe de um pequeno píer, observando o poste que iluminava parcamente a calçada. Por alguns instantes, ele observou as sombras que se estendiam a partir de seus pés, antes de encostar-se junto à parede, tirando uma das mãos do bolso, portando agora um velho e elegante cachimbo de madeira.
Ele acendeu o cachimbo, dando uma longa baforada para, em seguida, soltar pequenos anéis de fumaça. Roubou um olhar do relógio de pulso, meneando ligeiramente a cabeça. A pessoa que esperava encontrar ali estava atrasada.
Como se em resposta a esse pensamento, ele ouviu algo cair suavemente no chão, não muito atrás dele, seguido por passos cautelosos, quase silenciosos não fossem para os ouvidos bem treinados do domador.
Imediatamente ele se virou, tirando a outra mão do bolso, revelando sua varinha. Das sombras do beco, um rapaz todo vestido de negro emergiu, como se tivesse se materializado a partir do nada.
O rapaz sorriu, tirando a boina que ocultava seus cabelos escuros, revelando o rosto até então coberto, olhos de um profundo azul-cobalto que, sob a luz direta do poste, pareciam quase contas de vidro.
- Hei, Godfrey. – o moreno cumprimentou – Você sabe, eu devo confessar que prefiro você assim. Verde não combina muito com seus olhos.
Godfrey deu um meio sorriso. Um pouco mais cedo, naquela noite, eles tinham se encontrado no Hades’ Gate. A cabeleira verde que usava sob a identidade de Omar certamente era algo que chamava a atenção.
- E você parece um coveiro. – Godfrey respondeu, guardando a varinha e adiantando-se para ele num abraço – Seja bem-vindo, Lusmore. Que notícias traz das Hébridas?
- Não as melhores, eu suponho. – ele respondeu – Embora eu tenha certeza de que o fato de Mina ter ficado lá e bem guardada possa lhe trazer algum alívio.
Godfrey assentiu.
- Certamente. Quando eu descobri que você estava na cidade, temi que...
- Ela está bem. – Lusmore reafirmou, levantando os olhos para o céu – Está certamente melhor que nós, pelo menos, com a barriga cheia de comida da tia Holly e dormindo profundamente sob cobertas quentes.
O homem riu.
- Uma maneira polida de alertar sobre minha hospitalidade. Desculpe por essa recepção de hoje, Lusmore. Eu não queria colocar você para fora daquela maneira no bar... muito menos recebê-lo no frio. Vamos andando. Eu vou arranjar alguma coisa para você comer.
Sem esperar resposta, ele começou a caminhar, sendo logo seguido pelo rapaz.
- Eu entendi sua reação no bar. Você não queria que me reconhecessem. – Lusmore observou – Eu tenho a impressão de ter reconhecido Euterpe lá. Está na moda cabelo verde, por acaso? Ela parecia ter um musgo vivo na cabeça.
- É um bar punk, Lusmore, o que você esperava? – o homem respondeu, parando diante de um dos armazéns aparentemente abandonados, tirando do bolso então um pequeno papel dobrado, entregando-o nas mãos do rapaz – Abra. Ou não vai conseguir nenhum lugar quente para descansar os ossos.
- Fidelius? – o moreno questionou, lendo o endereço das docas e o número do armazém – Número 13... apropriado, não?
- Eu agradeceria se você falasse mais baixo. – Godfrey observou – Há gente demais querendo meu pescoço, Lusmore. Não vamos facilitar a vida deles, não é?
O outro apenas riu em resposta. Minutos depois, estavam ambos em uma espaçosa sala – se é que se podia chamar de divisórias as muitas caixas que se faziam de “paredes” entre um espaço e outro.
Com a varinha, Godfrey conjurou fogo para a lareira que, certamente, parecia um tanto deslocada a se considerar que eles estavam em um dos armazéns do porto de Londres. Bem, eles eram bruxos. Para todos os efeitos, eles também se encontravam um tanto deslocados naquele mundo.
- Eu acho que ainda tenho algumas latas de sopa. – Godfrey observou – Vou...
- Esqueça, Godfrey, eu já jantei antes de vir encontrá-lo. – Lusmore sentou-se no chão, abraçando um joelho, enquanto observava o fogo, pensativo – A Resistência não tem casas melhores que essa, Godfrey? Você parece um rato num buraco de esgoto.
O homem deu um meio sorriso em resposta, sumindo por alguns instantes por trás de uma das caixas, antes de voltar com uma colher, um abridor e uma lata de sopa de ervilha, largando-a junto ao fogo antes de se sentar ao lado de seu visitante.
- É uma descrição bem apurada, considerando que cheguei a passar algumas semanas utilizando um bueiro como porta de entrada. Não, Lusmore, eu não moro aqui. Na verdade, eu não moro em lugar algum. – ele deu um suspiro cansado – Já é arriscado demais o fato de o Hades’ Gate ser um ponto de encontro fixo da Resistência e que gente demais saiba que aquele porão é uma das nossas portas de entrada. Eu nunca costumo dormir uma semana seguida no mesmo lugar.
- Mas esse armazém está sob o fidelius, não está? – Lusmore questionou, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.
- Nós trazemos os refugiados que irão partir do país para cá. – Godfrey respondeu – Mas eu só estou aqui porque não há ninguém para sair essa semana. Afinal, uma coisa é ser Omar... e outra é que eu seja desmascarado como Godfrey McKinnon, o braço direito do líder do clã MacFusty, próximo demais ao coração do Conselho. – ele suspirou – Eles já estão caminhando numa linha muito tênue, tentando manter o equilíbrio, tentando manter as coisas em paz...
Lusmore assentiu minimamente, compreendendo o que o outro domador queria dizer.
- Isso significa que eu não vou poder ficar com você, não é verdade? – ele perguntou, jogando a cabeça para trás, antes de simplesmente deitar-se, colocando os braços cruzados sob a nuca – Bem, eu já esperava algo do tipo... Afinal, você é a porta de entrada.
Godfrey observou-o em silêncio por algum tempo.
- Eu acho que sei o lugar exato onde você poderia se encaixar na Resistência, Lusmore. Ao final das contas, a não ser que eu esteja muito enganado, você já os conhece.
Ele percebeu os olhos do jovem domador se fixarem sobre sua imagem, límpidos e claramente curiosos.
- Do que está falando?
- August me disse que há um pequeno grupo agindo sob as ordens dele... E que todos eles estiveram envolvidos na investigação que Mina estava fazendo sobre os comensais dentro de Hogwarts.
Um ligeiro sorriso atravessou a face do bardo. Ele já tinha uma ligeira idéia de quem poderiam ser seus companheiros. Quando chegara a Londres, a primeira coisa que fizera fora tentar descobrir o paradeiro dos amigos da prima. Afinal, ele prometera isso a ela.
Fora com alívio que ele recebeu a informação sobre o reaparecimento de Meridiana. Traçando o rastro da ruiva, ele também não demorou a descobrir sobre o casamento de Lorelai e Herman, ou o sumiço dos Blair. Também não foi difícil saber quem tinha ou não voltado para a escola de magia.
E, ao final das contas, ele não era conhecido como o “bardo das memórias” à toa...
Acordar era bem fácil. Conseguir dormir foi problemático durante aquelas semanas. Para um corvinal acostumado a sentimentos frios, Darien estava muito mal acostumado às atenções que tivera no final de suas férias, na casa de seu pai.
Surpreendeu-se ao receber durante o café da manhã uma carta de sua mãe, dizendo apenas que estava com notícias boas, alegres e perguntava-o, ao menos, como ele estava diante toda aquela “maluquice”- como Becky bem explicitou – em que se encontrava Hogwarts.
Darien pôs-se a martelar a cabeça de curiosidades, e terminando a carta ficou ao mesmo tempo contente e perplexo: teria um irmão! O pão de centeio recheado com geléia de framboesa que ele comia, ficou pela mesa... assim como todas as gostosuras que aquele banquete matinal o proporcionava.
Enquanto relia a carta, uma alegria o invadiu por inteiro, e aproveitou o pergaminho em que a mão e escrevera, rasgou um pequeno pedaço e escreveu, apenas, “PARABÉNS”, prendeu o pequeno papel ao pé da Coruja de sua mãe... Darien sentia-se muito importante, olhou, e pôde observar Bruce com seu irmão mais novo, e viu-se no lugar do amigo... Sorriu novamente. E no sorriso esqueceu que teria aula em menos de cinco minutos, Transfiguração.
Subiu em direção à aula da Professora Minerva, e Darien estava bem empolgado com a idéia de transfigurar pessoas naquilo que aprendera durante todo esse tempo no colégio. Deu risos internos. Estava rodeado de alunos no corredor, gente atrapalhada com livros enormes e alguns outros vigiando a vida alheia, por puro e mero prazer de provocar uma ou outra detenção depois. Viu ao longe um grupo de meninas se autonomearem as mais belas de Hogwarts, eram secundaristas e das diversas casas que Hogwarts tinha.
A sala de aula não apresentava mudanças gritantes, um quadro diferente ou uma estátua a menos aqui e ali no canto, mais ao fundo, próximo ao quadro negro. McGonnagal estava de pé, o rosto sempre firme e sério como antes, mas o olhar mostrava uma silenciosa tristeza e decepção. Ao menos, o menino pôde sentir a satisfação de a professora estar ali ainda, próxima aos alunos, podendo-os proteger, mesmo que qualquer movimento a custasse a vida.
Quando deu por si, pois a sua cabeça corria para o futuro, Jamal o puxava pelas vestes.
- Ei!!! Está acordado? Ou ainda não retirou a cama das costas?
- Como? – Balançou a cabeça o garoto.
Ele sonhou acordado e nem percebeu que a professora o olhava com certa espantosa reprovação. Darien nem havia chegado perto do que teria de fazer: transformar uma mesa em um bode empalhado! Ao menos a mesa estava peluda. O garoto chegou a pifar a cabeça, pensando na real utilidade daquilo.
- Desculpa, Professora... – Disse um Darien tentando disfarçar o desinteresse pela aula.
- Darien, você está com atenção em alguma coisa hoje? Algo que não seja a escola? – Perguntou-o o próximo amigo.
Darien apenas se limitou a morder o canto esquerdo do lábio inferior, fazendo, depois, um bico de quem reflete sobre o que vai pensar, embora não fosse nada de mais ele contar a Jamal da felicidade que o contemplava. E assim fez.
- Nossa! Que máximo, D! Sua mãe deve estar bastante feliz.
- Será mesmo, Jamal? – Darien recordou-se da frieza que a mãe tinha com ele.
Embora a aula estivesse por terminar, os dois ainda estavam nela e Minerva não tolerava excesso de conversas paralelas. Muito eles tinham de aprender ainda, pois embora o bode fosse empalhado, eles aprenderiam a dar “vida” a ele. Alguns conseguiram até berros do bode, outros conseguiram somente dois passos do animal...
- Azulado, veja isso! – Chamou a atenção, Jamal, fazendo com que o seu animal, que tinha ainda o corpo um pouco amadeirado, mirar os pequenos chifres na direção de alguns Sonserinos.
- Não exagere, Jamal! Nem todos são totalmente ruins assim. Lembra da Raven? E há outros também que não merecem esse julgamento por conta dos antigos alunos que a casa deles teve.
- Eu sei disso, mas que seria engraçado se o bode de alguém saísse correndo atrás de alguns. Ah! Como seria.
Alguns outros alunos que estava por perto, apenas concordaram dando risadas. Darien fez o mesmo. E pensou na vontade de fazer o bode correr atrás do Diretor. Pensamentos infantis, mas que na cabeça do menino faziam sentido, ao menos o deixava sentir-se melhor.
Findada a aula, os rapazes seguiriam para Poções, ao menos Slughorne era um puxa-saco sem fim de alunos como Darien, que faziam as poções totalmente detalhadas e perfeitas, mas a copiar da primeira aula, o rapaz de cabelo azulado não levava muita fé em êxito no dia de hoje em aula alguma. E foi realmente o que havia acontecido até a hora do almoço...
Mesas cheias, falatório habitual, alunos conversando sobre as aulas, uma parte se remoendo de queixas dos novos métodos utilizados, alguns alunos modelavam com os talheres a cremosa sopa de repolho roxo, e poucos sorriam, contentes e tagarelantes: eram os beneficiados pela nova metodologia de ensino de Hogwarts.
Corujas inesperadas apareciam no céu do colégio. Revoadas e loucas, soltando penas das mais diversas cores. Algo parecia estranho, e realmente estava! Algumas famílias comunicavam aos filhos das últimas do ministério, eles estavam sob investigação total e tudo que fizessem, lessem, ou até mesmo pensassem estava sendo vigiado. Inclusive em Hogwarsts.
Darien olhou para os lados, ao menos ele não recebia carta alguma, pois Becky além de morar na Noruega, era conceituadíssima no mundo bruxo por seus trabalhos. Jamal chateava-se pela sua mensagem. Diariamente deveria enviar aos pais os seus passos em Hogwarts, além