Sunday, March 08, 2009

Filhos da Serpente


Aquelas primeiras semanas em Hogwarts estavam sendo as mais estranhas desde que ela entrara para a escola.

Adhara nunca tinha visto o castelo tão vazio. Apenas agora ela se dava conta de quantos alunos com ascendência trouxa Hogwarts abrigara... Sem dúvidas o corpo discente havia sido reduzido ao menos pela metade e os sonserinos, que em geral sempre foram a minoria, pelas próprias exigências impostas por Salazar Slytherin para admitir alunos em sua Casa , subitamente tornaram-se uma presença muito mais pronunciada pelos corredores. Os uniformes verde e prata pareciam ter se multiplicado e nunca haviam tido tantos calouros selecionados para a Sonserina quanto naquele ano.

Era tão desconcertante a forma como todas as portas se abriam automaticamente para quem carregava o emblema da serpente no peito, enquanto os alunos das demais Casas pareciam ter que se esforçar o dobro do normal para ter acesso aos privilégios e oportunidades inatos a qualquer sonserino. Ela poderia ter se deixado embriagar por tal poder e influência se os tempos fossem outros... Ela era uma sonserina afinal de contas, e a ambição também fazia parte de si. Mas o poder que eles ofereciam não era o tipo de coisa que ela queria. Ela era ambiciosa, mas não era cega. E não estava disposta a sacrificar coisas que hoje lhe eram caras demais...

E assim ela evitava o salão comunal da Sonserina tanto quanto podia, feliz por passar o tempo em lugares mais ensolarados – e menos sufocantes. Kyle havia se revelado uma companhia constante, e ela sentia-se feliz e grata por ter o primo caçula ali consigo. Tinha que confessar que sentira um pouco de medo de acabar sozinha agora que se manter muito próxima à Meridiana seria prejudicial aos planos da ruiva.

Por falar nisso, a briga de Meri e Lucien já estava encontrando espaço no círculo de fofocas da escola – ou seja, nos banheiros femininos de Hogwarts –, e provavelmente seria a principal manchete da próxima semana. Tinha que se lembrar de contar à prima que o ardil dela funcionara.

Mas por mais que estivesse tentando escapar pela tangente, rastejando discretamente para longe do perigo como toda boa cobra faria, aquilo se tornou um tanto impossível quando Theodore Nott a emboscara pessoalmente durante o almoço daquele dia e pedira que o esperasse no salão comunal depois do jantar, alegando que tinham assuntos para tratar.

Adhara estava andando sobre um fio bastante fino e sabia disso. Agora que os Comensais – e quem se aliava a eles – passaram a ser a voz dominantes dentro da escola, Nott era alguém muito mais influente do que jamais sonhara e ele não estava se fazendo de rogado em tirar proveito dos novos privilégios. Ele era razoavelmente esperto, extremamente ambicioso, e agora tinha um senso de segurança que certamente o tornaria mais audacioso. Ela deveria ter cuidado.

- Boa noite, prima.

Ela levantou o rosto ao ouvir aquela voz, percebendo que quem esperava finalmente chegara. Theodore lhe sorria, cordial e confiante, enquanto tomava lugar na poltrona logo à sua frente. Aquela era outra coisa em que Adhara tinha reparado: as cadeiras de espaldar reto haviam desaparecido e o número de poltronas se multiplicara na sala comunal da Sonserina. Uma clara tentativa de propiciar mais conforto para a nova elite de Hogwarts.

- Boa noite. – ela respondeu educadamente.

De imediato ela percebeu que o senso de auto-importância realmente fizera maravilhas por Nott. O rapaz sentava-se na poltrona como se fosse um rei e a vastidão verde e prata que se estendia diante de seus olhos fosse seu domínio. Até mesmo ela deveria estar sendo vista sob uma nova luz.

- Fico feliz que tenha atendido ao meu convite. – o sorriso de Theodore se ampliou mais um pouco, como se fosse um gesto mais pessoal.

Adhara meramente assentiu, como se estivesse pronta para ouvir o que ele tinha a dizer. Percebendo que tinha a atenção da morena, Nott iniciou sua fala:

- Tive a felicidade de falar com a Profª. Carrow esta manhã, e ela me informou que é de interesse da Direção, bem como do Lord, que continuemos com as atividades do grupo que tínhamos no ano passado. Pelas notícias que tive, nossos líderes que se formaram no último ano estão agora galgando bons postos no Ministério e sendo deveras úteis à causa. O alto comando está satisfeito com os resultados obtidos com aqueles que já foram recrutados desde os tempos de escola. – o tom dele era sereno e agradável, como se nada mais no mundo pudesse lhe dar tanta satisfação quanto estar ali, saboreando aquele momento rodeado por outros de sua espécie – Assim, eu gostaria de confirmar se você está interessada em me auxiliar a encontrar mais pessoas que partilhem dos nossos objetivos?

Adhara ouvia a tudo com educação e pretenso interesse. Claramente Theodore ainda a tomava como aliada... De certa forma aquelas eram boas notícias, ao menos sua espionagem para o Olho do Grifo, no ano anterior, não fora descoberta.

Ela não tinha, de forma alguma, a intenção de continuar pretendendo ser uma Jovem Comensal, não agora que isso já não era mais necessário. Mas, ao mesmo tempo, não queria se indispor com eles. Afinal, agora eles dominavam Hogwarts e o governo bruxo e, se ela bem conhecia um pouco da natureza dos Comensais, eles não iriam se abster de perseguir um aluno que os desafiasse. Além do mais, ela tinha que pensar em seu pai e na madrasta... Kamus trabalhava no Ministério da Magia e Frida estava fazendo um jogo perigoso para garantir a segurança dela e de seu irmão ainda não nascido... Qualquer erro que cometesse dentro da escola certamente se repercutiria fora dela, contra a sua família. Ninguém estava livre de represálias.

E foi por isso que ela sorriu levemente para Nott naquele momento.

- Bem, eu ainda não sei o que vou fazer depois que me formar, Theodore. De qualquer forma, já me sinto bastante satisfeita com tudo o que foi conquistado até agora... A escola está em boas mãos. Nosso mundo está caminhando para um bom rumo. O que mais eu poderia querer? Acho que minha obrigação, como seguidora de Slytherin, já está cumprida.

A expressão de Nott vacilou naquele momento.

- Quer dizer então que você não quer continuar?

A morena forçou-se a continuar sorrindo e mantendo a sua fachada de tranqüilidade.

- O que há para continuar, Theo? Você não percebe? Nós já vencemos. Mas talvez... – ela acrescentou, em um tom pensativo – Talvez Meridiana se mostrasse interessada em auxiliá-lo. Ela parece ter reavaliado muitos de seus conceitos durante o tempo que passou sob os cuidados do Sr. Black-Thorne neste verão.

Adhara sentia-se intimamente enojada ao maquiar daquela forma a tortura pela qual Meri passara e ainda mais enojada por fingir respeito à Ludovic, mas, se aquilo pudesse ajudar a prima em seus intentos, ela mentiria de bom grado.

Nott pareceu um pouco desconcertado por aquelas palavras, mas não necessariamente contrariado. Adhara concluiu que era uma boa deixa para terminar aquela conversa, enquanto Theodore ainda não havia se recuperado do golpe para contra-argumentar.

- Se era só isso que você precisava falar comigo, então eu peço licença para me recolher. – ela disse, já se levantando – Boa noite, Theo. – acrescentou, achando que chamá-lo pelo apelido havia rendido bons resultados.

- Sim. – o rapaz levantou-se, parecendo lembrar das boas maneiras – Boa noite, Dhara.

Ela quase tremeu de desgosto diante do tratamento tão íntimo, mas supunha que não havia muito o que fazer quanto aquilo. Melhor tolerá-lo do que criar problemas.

Assim, após um educado meneio de cabeça, Adhara rumou para o seu dormitório.


Dia do Crepusculo


COM O APOIO DA CRIMSON MARK FANFICS (ou seja, os responsáveis pelo Expresso, Amaterasu e New Dawn)

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