Thursday, February 26, 2009

Fogo - Final


Assim que adentrou o castelo, ela deixou-se encostar, exausta, contra a parede, protegida pelas sombras. Ao menos, estando momentaneamente sozinha, ela poderia se permitir fraquejar, mesmo que um pouco. Os orbes esmeralda, inconscientemente, se voltaram para o fragmento da paisagem externa que as portas permitiam vislumbrar. Relances de vultos e chamas.

Ainda do lado de fora, uma jovem sonserina de cabelos negros se movia de forma sutilmente suspeita próxima à fogueira, aproveitando que as chamas começavam a ceder e os demais alunos que ali permaneceram estavam distraídos demais para repararem nela. Quando surgiu o momento certo, a jovem resgatou um livro quase intacto do monturo chamuscado e, sorrindo, guardou-o com cuidado sob a capa, retirando-se logo em seguida, o mais discretamente possível, para o interior do castelo. Temendo ser vista por Filch ou pelos Intragáveis Carrow, ela teve o cuidado de esgueirar-se nas sombras, cosida à parede.

E foi assim que Raven Sinclair acabou por esbarrar em Meridiana Black-Thorne.

A ruiva piscou os olhos, quase incrédula ao perceber sua melhor amiga tão próxima, era quase como se as mãos do invisível de quem tanto Raven costumava falar houvessem escolhido aquele exato momento para elas se reencontrarem. Desde que entrara em Hogwarts e colocara seu plano em prática, Meri tentou descobrir um meio de contatar a sonserina e contar-lhe a verdade. Aquele acaso não poderia ter sido mais providencial.

Sem pronunciar palavra alguma, Meridiana fixou seu olhar ao de Raven, deixando que um leve sorriso, ainda que cansado, se insinuasse em seus lábios.

A sonserina, por sua vez, tinha um ar confuso, de quem não sabia muito bem o que fazer ou o que dizer. A fria e altiva ruiva que vinha circulando por Hogwarts e que agora atendia pelo sobrenome materno não se parecia em nada com a amiga que Raven aprendera a amar como a uma irmã; entretanto, a jovem que agora encontrara quase por acaso e que gentilmente lhe sorria era exatamente a imagem de sua querida Meri. Isso fez com que Raven retribuísse o sorriso; todavia, uma estranha timidez a fez conter a vontade de abraçá-la... porque, afinal de contas, Raven não esquecera: aquele dia que fora tão triste era aniversário de Meridiana.

A sonserina optou por não deixar a ocasião escapar. Mesmo sentindo-se meio patética, estendeu a mão esquerda e murmurou, com um meio sorriso triste:

- Sei que a ocasião não é muito festiva, mas... Feliz aniversário, Meri.

Meridiana sentiu os olhos querendo começar a lacrimejar, e estendeu a mão em cumprimento, deixando que aquele sentimento misto de tristeza e alegria se expressasse naquele pequenino gesto.

-Obrigada – ela respondeu, com a voz ligeiramente embargada. Olhando rapidamente por cima do ombro da amiga, e, percebendo que ninguém mais se aproximava, ela completou – Vamos conversar em um lugar mais discreto.

Sem deixar margem de negativa para Raven, Meri aproveitou as mãos entrelaçadas e puxou a sonserina consigo pelos corredores semi-iluminados e praticamente desertos.

A reação suave de Meri ao seu desajeitado cumprimento trouxe esperança ao coração de Raven, e foi esse mesmo sentimento que fez a jovem se deixar levar pela grifinória Hogwarts adentro. A urgência do gesto e a necessidade de sigilo pareceram bom augúrio à Raven, e a fez pensar que sua idéia sobre o comportamento de sua amiga e seu empenho em não deixar que Satanio se indispusesse com Meridiana estavam, à primeira vista, indo na direção certa.

Assim que a ruiva percebeu que estavam suficientemente afastadas da entrada do castelo, ela abriu a primeira porta que encontrou, observando, satisfeita, que esta se encontrava vazia. Cerrando a porta atrás de si, quando Raven já estava completamente dentro da sala, a ruiva soltou-se da amiga, cerrando as janelas com pesadas cortinas de veludo, que, para a sorte dela, existiam naquele aposento que ela ainda não identificara.

Apenas após deixar a sala na mais completa penumbra, é que ela se permitiu lançar um feitiço.

- Atra Bilis – a grifinória sussurrou.

Da ponta da varinha surgiram pequenas bolas de luzes multicoloridas e flutuantes lembrando pequenos vaga-lumes, que circundaram as duas amigas.

-Me desculpe – Meridiana falou, encarando uma silenciosa Raven.

A sonserina observou a amiga com atenção. Claro, era a mesma coisa novamente. A mesma teimosia. Como a própria Raven dissera certa vez, sim, a teimosia tem cachos rubros...

- Você pretende novamente carregar o mundo nas costas sozinha, Meridiana Johnson? – disse Raven, por entre um suspiro, estendendo as mãos na direção da amiga.

-Sozinha não – ela deu um meio sorriso culpado, imaginando que, pelo tanto que Raven lhe conhecia, a amiga já lhe havia deduzido seus planos. – Eu tenho Lucien para me apoiar nos bastidores, também os meus primos e agora, você.

- Hm – resmungou Raven, cruzando os braços – Eu ainda acho isso perigoso demais, Meri. Sei que você é forte e inteligente o suficiente para manter o disfarce aqui na escola, ainda mais se levando em consideração que juntando os dois cérebros dos Cenouras não dá pra fazer nem metade... O que me preocupa é aquele psicopata do seu tio. Ele não é um imbecil. Temo que ele acabe por forçar você a fazer algo sujo, ou maldoso... Como é que você vai fazer? Como vai resistir, se não pode? Como poderemos ajudá-la? Isso é o que me preocupa, Meri, você não tem idéia do quanto!

A grifinória colocou as mãos nos ombros da sonserina de forma apaziguadora.

-Shhh... Calma, Rav, uma coisa de cada vez. Vamos pensar primeiro nas coisas primeiras. Por enquanto, aqui na escola, vocês podem me ajudar repassando qualquer informação que eu conseguir para a Lore, imagino que ela não vá ficar de braços cruzados, e, quem sabe com sorte, talvez para Neville ou a Weasley, eles dois certamente não vão ficar parados. Vou tentar ser os olhos e ouvidos de vocês dentro dos Jovens Comensais.

-E depois? – Raven insistiu, ainda preocupada – Você ainda não respondeu à minha pergunta.

Meridiana balançou a cabeça, estreitando os olhos ao voltar a encarar a sonserina.

-Eu sei que ele não é um imbecil, mais do que qualquer pessoa sei do que ele é capaz – a ruiva mordeu os lábios com força antes de prosseguir – exatamente por isso armei essa farsa. Enquanto eu estiver aqui na escola meu contato com ele vai ser mínimo, não vou dar razões para ele desconfiar...

- Esse é o ponto, Meri – disse Raven, franzindo o cenho – até quando ele permitirá que você fique aqui na escola? Quem garante que ele não resolverá levar você de volta para, hm, terminar a sua educação?

-Rav, eu acabei de fazer dezessete anos esta noite – Meri respondeu, de modo suave e paradoxalmente firme – Se a situação chegar a um extremo desses, minhas possibilidades de locomoção são muito mais amplas, se você me entende. E não, adianta, Rav, pensar em todos os “Ses” que podem ocorrer a Ludovic. Eu preciso me preparar para o agora, caso contrário, não serei capaz de lidar com meu tio quando chegar a hora.

- Bem, você tem razão – anuiu Raven, com um suspiro – É como dizia meu pai, conviver com o mal para conhecê-lo, compreendê-lo e saber vencê-lo... Sei que você é suficientemente capaz para lidar com tudo isso, Merizinha, na verdade sempre foi, talvez até mais do que qualquer um de nós... Todavia, não são os danos físicos que aquele cretino possa lhe infligir que me preocupam.

A ruiva abaixou os olhos, incapaz de responder à amiga. Ela não conseguia imaginar se havia ainda algo pior que Ludovic pudesse lhe fazer do que já fizera antes, se ainda sobrara alguma coisa dentro dela que ele já não houvesse destruído ou chegado muito próximo de fazê-lo. Contudo, em se tratando de seu tio, nenhuma lógica humana era capaz de decifrar os meandros daquela mente distorcida.

-Eu não sei o que te dizer para te deixar mais tranqüila, me desculpe... de novo.

Raven sorriu, e pousou a mão no ombro de Meri.

- Não precisa se desculpar, Meri. Você apenas está fazendo aquilo que acha que é o certo, ainda que o caminho que você escolheu me faça ter vontade de arrancar meus cabelos. Porém, uma coisa é certa: tranqüila ou não, estarei ao seu lado para o que você precisar. Não hesite em me convocar. Eu posso não ser muito esperta e nem muito boa em feitiços, mas farei tudo o que estiver em meu alcance para ajudar você nessa tarefa difícil. Pode contar comigo sempre, minha irmã.

Meridiana sentiu os olhos novamente se encherem de lágrimas, mas ainda assim, não chorou. Ela preferiu lançar-se em direção a Raven, envolvendo-a em um abraço.

-Obrigada... É o melhor presente de aniversário que você poderia ter me dado. Eu também te amo, maninha, do fundo da alma.

Emocionada, Raven retribuiu o abraço de Meri e, diferentemente da ruiva, deixou as lágrimas correrem livres. Mais do que qualquer coisa, a sonserina estava aliviada por ver que estivera certa em pensar que o comportamento da grifinória era na verdade uma encenação, e também por perceber que, por mais que o mal e a crueldade estivessem se infiltrando em toda parte e parecendo corromper tudo à sua volta, algumas coisas ainda permaneciam puras e intocadas, mesmo que fossem coisas simples e gentis como a amizade entre duas jovens.

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