Fogo - Parte 2
A moça de cabelos ruivos circundou a fogueira, tentando se afastar de tudo e de todos. Sentou-se em um canto não muito próximo, porém não muito distante das labaredas.
Amycus Carrow anunciara com muito orgulho, naquela manhã, que todos estavam convocados para a grande fogueira de purificação. Todo o material trouxa que existia na escola seria confiscado e exposto nos terrenos, onde ele, juntamente com a irmã, fariam as honras de lançarem inflamare sobre a pilha de “objetos e livros mentirosos que poderiam contaminar as mentes superiores da juventude bruxa”.
Meridiana sentiu o estômago embrulhar ao escutar todas aquelas palavras cheiras de ódio, preconceito e intolerância. Foi-lhe custoso manter uma expressão aparentemente neutra diante daquele anúncio.
Contudo, estava-lhe sendo muito pior sentar à margem do fogaréu, assistindo a todo acervo de filmes, livros e outros objetos, muitos deles oriundos do acervo do Clube de Teatro outros doações de Miss Rennard para a disciplina de Estudos Trouxas.
Embora a ex-professora, que felizmente saíra da Inglaterra meses antes do ascensão dos comensais ao ministério, sendo substituída por Charity Burbage, atualmente desaparecida – o que, nas atuais circunstâncias era equivalente ao termo “assassinada”- tivesse empenhado em quebrar a tradição não-teatral de Hogwarts, a atual diretoria fez o “favor” de enterrar quaisquer vestígios daquele esforço.
Tudo estava se transformando em cinzas... Não apenas os livros, mas as almas de todos que ali viviam. Eram tempos sombrios, não havia mais dúvida alguma.
Os orbes verdes fitavam hipnoticamente os papéis queimados. Sentia-se não chocada e impotente que não conseguia reagir a não ser observar. Considerando a posição que ela fingira assumir na escola, talvez aquele estupor fosse uma benção. Ninguém saberia que por trás daquela expressão impassível, o coração da ruivinha se via apertado.
Estavam destruindo parte importante do passado dela... livros que lera mesmo antes de entrar em Hogwarts, alguns escutados através da voz carinhosa de seu pai... as peças de ensaiaram em manhãs risonhas de sábado... outras que encenaram... o filme que vira com Lucien no Dia dos Namorados... tantas e tantas coisas que faziam parte da identidade dela e da identidade daquela escola.
Era um modo cruel de apagar o passado, reduzir tudo a um nada incompreensível.
Meri mordeu os lábios, de leve, lembrando-se que cerca de um ano atrás, ela estivera também naqueles terrenos diante de uma fogueira. A festa que prepararam para ela, Mina e Selune. Uma festa que celebrava a vida, ao contrário da reunião daquela noite.
De modo altivo e impetuoso, ela se levantou. Suportara mais do que necessário para manter sua aparente adesão ao regime dominante. Mais do que aquilo, era masoquismo. Se alguém a questionasse, bastaria dizer que estava cansada e saíra para se deitar. Era plausível.
Assim, ela seguiu em direção ao interior do castelo, dando uma última olhada para a grande pira que ardia inclemente, alguns alunos rindo e cantando ao seu redor, outros tanto, quietos, talvez em um pranto silencioso como o dela.
-Feliz Aniversário, Meridiana Black-Thorne – ela murmurou para si mesma antes de entrar pelas portas duplas de carvalho.
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