Fogo - Parte 1
Havia escuridão. E havia silêncio.
Apenas o brilho de algumas tochas e o som seco de passos se faziam ver e ouvir.
Angústia. Opressão. Sensação de que nada de bom resultará daquele aglomerado de pessoas paradas em círculo, mal iluminadas pelas tochas.
As perigosas tochas.
E os livros. Muitos livros. Montes deles, empilhados de qualquer jeito, sem o mínimo respeito, no meio do círculo. E a pilha só faz aumentar, pois a cada vez uma pessoa do círculo atira ao monte mais um volume.
Meus olhos, irritados pela fumaça, fixam alguns títulos. Todos, de alguma forma, ligados aos trouxas.
Alguém se aproxima perigosamente deles com uma tocha.
Meu coração se aperta. Meus pés estão grudados ao chão. Eu faço força, cravo as unhas nas palmas das mãos.
Inútil. Estou presa, e também muda.
A sombra de cachos vermelhos passa por mim. Do outro lado da pilha de livros agora fumegantes, distorcida pelo calor das chamas, a face do Senhor de Meu Coração.
Por que não faz nada? Por que permite isso?
Impotência? Conivência?
Então as chamas se apagam, e eu fico só.
Só, frente à pilha de literatura fumegante.
O desgosto, misturado à fumaça, cai de meus olhos.
É quando meu coração dispara: uma lombada intacta!
Em meio às cinzas, a encadernação amarelada contrasta insolente com a escuridão.
Sorrio, enquanto chamusco meus dedos no resgate do precioso butim. Sorrio mais, quando vejo o título que agora protejo entre as mãos.
Uma história trágica.
Amor e ódio.
Heathcliff e Catherine.
O Senhor do Meu Coração e eu.
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