Thursday, February 19, 2009

Aniversário


- Ei, ei, ei! O que você pensa que está fazendo, rapazinho?

Com cuidado, Mina tirou os óculos da boca de Kieran, observando as lentes sujas de baba, enquanto o menino a encarava curioso. Ela suspirou, colocando os óculos sobre a escrivaninha, antes de se sentar no chão, só então soltando o irmão.

- Temos que fazer alguma coisa sobre essa sua fixação com meus óculos. Uma hora dessas, você pode acabar se machucando. – ela observou, sentando-o de frente para ela.

Kieran balbuciou qualquer coisa em resposta que, em sua linguagem de bebê tanto poderia significar “arranje lentes então” quanto “estou com fome. Quando é a hora da mamadeira?”.

Ela, por sua vez, deu um meio sorriso, deixando que ele se abaixasse para começar a engatinhar, explorando o ambiente ao redor. Foi só então que ela desviou a atenção dele, mergulhando nos próprios pensamentos.

Estava completando dezesseis anos naquele dia. No ano anterior, houvera uma festa surpresa dada pelos amigos em Hogwarts – ela, Meridiana e Selune tinham apagado as velas juntas e depois, Raven a puxara para dançar ao redor da fogueira uma das danças típicas escocesas... Tinham cantado e dançado e ela não se lembrava de ter estado tão feliz quanto naquela ocasião.

Que diferença para agora... O avô chegara à França de manhã cedo com uma chave de portal e eles tinham seguido direto para as Hébridas. Holly estava lá para recebê-los – o cheiro de bolo de chocolate que vinha da cozinha dando as boas-vindas. Godfrey não estava lá. E ninguém lhe explicara o porquê da ausência do tio.

Ela mal se apercebera dos parabéns que recebera, contudo. Alegando o fato de ter que arrumar suas coisas, rapidamente subiu para seu quarto com Kieran. Lá, em menos de meia hora, estava com as malas desfeitas – tinha levado muito pouca coisa para o Japão.

Na verdade, quando chegara de Hogwarts, ela não tivera tempo sequer de desfazer o malão. Apenas jogara os uniformes para o lado e enfiara de qualquer jeito o que levaria na viagem. Freyr acabara por ficar na escola e ela pedira a McGonagall que entregasse sua gata para Selune – tinha certeza que Freyr ficaria bem mais feliz em passar aquele tempo com Lucky, em vez de partir para o outro lado do globo.

No dia seguinte seria o aniversário da francesinha. Como estaria Sel? Será que estava bem?

- Mia, mi!

Mina piscou os olhos, voltando a realidade, percebendo que Kieran acabara de se enfiar debaixo da cama. Sorrindo de leve, ela engatinhou até ele, puxando-o de lá.

- Sinto muito, maninho, mas o que tem aí embaixo não é para você brincar.

- E o que você está escondendo debaixo da cama que Kieran não pode brincar?

Ela voltou-se para a porta, que acabara de ser aberta, revelando Lusmore.

- Não é nada demais. Eu achei que talvez pudessem ser úteis, mas acabou que não serviram de muita coisa.

Fechando a porta atrás de si, ele sentou-se no chão diante da prima, observando-a em silêncio por alguns instantes.

- Você não pode ficar dessa maneira para sempre.

- Ficar de que maneira? – ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.

Ele deu de ombros.

- Deprimida desse jeito. Holly e seu avô estão preocupados. – ele afastou uma mecha que escorrera para o rosto dela – É seu aniversário, Mimuca. Um pouco de riso não lhe faria mal.

- Eu não estou com muito espírito para rir, Lusmore. – ela respondeu.

O rapaz respirou fundo.

- Eu vou embora amanhã, Mina.

O semblante dela mudou para uma expressão de preocupação.

- Como assim, “vai embora”?

- Vou procurar Godfrey. Me juntar à Resistência.

- Tio Godfrey?! – ela praticamente pulou em pé – Lusmore, do que você está falando?

Por alguns instantes, ele apenas a encarou em silêncio, antes de se levantar também, os olhos claros anormalmente sérios.

- Você sabe por que seu avô não esperou sequer para que chegássemos à Inglaterra antes de nos trazer? Por que era tão impreterível que você não se comunicasse com ninguém ou qualquer coisa do tipo?

- O que está acontecendo? – ela retrucou, a mesma expressão dele na face de menina.

- O Ministério está sendo controlado por Comensais. – Lusmore respondeu finalmente – Hogwarts está sob influência deles, o novo diretor da escola é o assassino do professor Dumbledore... E todos em idade escolar estão sendo obrigados a freqüentar a escola. Para todos os efeitos, portanto, você ainda está no Japão. Termos vindo diretamente para cá foi uma estratégia para que você não fosse notada e assim, obrigada a partir para Hogwarts novamente. Por você ser menor de idade, eles saberiam imediatamente que você estava na Inglaterra. A magia que está protegendo as ilhas, contudo, impede que eles descubram.

Mina cruzou os braços, abaixando a cabeça, refletindo sobre o que o primo acabara de lhe dizer.

- O que mais você sabe, Lusmore?

Ele suspirou.

- Os nascidos trouxa e mestiços estão sendo perseguidos. Há uma política de exaltação do ‘sangue-puro’. Aqueles que são contra o Ministério e contra os Comensais estão sendo perseguidos e levados para Azkaban. Mas ainda que muitos não apenas abaixem a cabeça, como cooperem com essa gente, outros não têm aceitado silentes o que está acontecendo. – ele deu um meio sorriso – É a Resistência. Estão ligados à Ordem da Fênix, criada por Dumbledore no passado, embora que, com a morte dele, as coisas tenham se fragmentado um pouco.

Mina voltou a erguer os olhos para ele.

- Como você sabe disso tudo? Tenho certeza que esse não é o tipo de manchete que tem saído no Profeta Diário.

Lusmore sorriu.

- Você sabe que eu tenho meus contatos. Enquanto estávamos na França, eu os acionei... Clio e Euterpe me deram toda a ficha que eu precisava. Eu sairei de madrugada e amanhã estarei com tio August.

- E Meridiana? Você sabe alguma coisa dela?

Lusmore meneou a cabeça. Por um momento, ela voltou a abaixar os olhos.

- Entendo... – Mina mordeu ligeiramente os lábios – Lusmore, eu...

- Não peça isso. – ele a interrompeu, meneando a cabeça – Eu não vou levar você comigo, Mina. Eu vou tentar descobrir o que aconteceu com os outros, cuidar deles se for necessário. Mas você fica aqui.

O rosto dela tomou uma coloração rosada e, como se fosse responder, ela entreabriu os lábios. Mas, em seguida, acabou por menear a cabeça, abaixando-se junto à cama e trazendo com ela uma caixa de madeira, estendendo-a na direção dele.

- Isso é um telégrafo. Funciona como uma espécie de rádio. Dentro da caixa, você vai encontrar um livro explicando como ligá-lo e como ouvir e decifrar as mensagens por código Morse. Está na freqüência certa para se comunicar com o par dele, que fica comigo.

Lusmore arqueou uma sobrancelha.

- E o que, exatamente, eu devo fazer com isso? – ele perguntou.

Mina revirou os olhos.

- Através dele, poderemos manter contato, seu idiota. – mais uma vez ela se abaixou, puxando Kieran, que insistia em tentar entrar debaixo da cama, depositando o irmão sobre o colchão – Você poderá me dizer se encontrou o pessoal, se eles estão bem... Pela maneira como ele funciona, não é afetado pelo campo de magia existente na ilha; já que outras maneiras de comunicação estão cortadas...

- Muito bem, isso eu posso fazer. Com a condição de que você se troque agora e dê um jeito nessa cara para que possamos cantar parabéns lá embaixo.

- Certo. – ela deu um ligeiro sorriso – Trato feito.

Lusmore sorriu também e deu as costas a ela, já se preparando para sair, quando a prima voltou a chamá-lo.

- O que houve?

- Holly sabe? – Mina perguntou.

O rapaz meneou a cabeça.

- Você acha que ela me deixaria ir?

Ela mordeu os lábios novamente.

- Eu sei... Mas ainda assim...

- Ela terá você por perto. – Lusmore sorriu mais uma vez – Cuide da minha tia por mim, Mimuca.

Mina assentiu.

- Eu prometo.

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