Minhas queridas mafiosas...
Mina mordeu ligeiramente os lábios, observando o céu claro que se descortinava através da janela do quarto de hotel em que estava. No dia seguinte, seria seu aniversário. E, no dia seguinte, seu avô estaria chegando à França para levá-los para casa.
Casa... Eles seriam encerrados nas Hébridas tão logo chegassem, numa prisão feita de névoa e magia. Quando chegaram a Paris, uma prima de Lusmore – Charlotte – já estava com todas as instruções de Vincent, esperando-os.
Ela os tinha avisado que as ilhas estavam protegidas por magia antiga e completamente fechadas para o mundo exterior. Não havia como mandar corujas, nem usar lareiras, aparatar ou qualquer coisa do tipo.
Para entrar nas Hébridas, apenas de barco, acompanhados de alguém que conhecesse o caminho; que pudesse abrir a passagem da redoma que agora os separava do resto do mundo. Quando chegasse lá, ela ficaria trancafiada como um passarinho numa gaiola. Não teria como saber o que estava acontecendo com os amigos.
Mesmo agora, ela não tinha permissão para entrar em contato com qualquer um de seus conhecidos. Estava no escuro quanto ao destino e paradeiro de Meri, Herman, Lore, Sam, enfim, de todos que lhe eram caros...
Sob sua cama, repousavam duas caixas que, ela tinha esperanças, talvez lhe servisse de alguma coisa. Comprara-as ainda no Japão. Mas agora não era hora de pensar nelas. Independente do que o dia seguinte lhe reservava, havia coisas que não poderia deixar para trás.
Coisas que precisavam ser ditas...
Assim, ela se sentou na cama, apoiando-se contra a parede, enquanto abria um caderno no colo, ponderando por algum tempo antes de começar a escrever. Nas Hébridas, ela não teria como se comunicar com ninguém. Tinha que mandar aquelas cartas antes de partir.
Finalmente, a tinta azul começou a percorrer as páginas do caderno, traçando com sua letra pequena palavras e sentimentos.
“Minhas queridas mafiosas:
A maneira como nos separamos foi um tanto drástica e dramática... mereço o título de Drama Queen, não? Eu não teria partido se tivessem me dado alguma escolha e mesmo agora, não posso tomar decisões por mim mesma – amanhã voltarei para as Hébridas e lá ficarei presa; não haverá como me comunicar com vocês, nem como receber resposta dessa carta.
Fico satisfeita, entretanto, que possa lhes escrever antes de começar meu “exílio”.
Muitas coisas ficaram estranhas entre nós nos últimos dias na escola. Muitas coisas precisavam ser ditas e foram silenciadas e tenho consciência de que a culpa disso ter acontecido é inteiramente minha.
Cavei um fosso entre nós, me entrincheirei no alto do meu orgulho e arrogância... não estava preparada para dividir com vocês meus medos – pois era principalmente medo que eu sentia.
Mas eu não quero mais fugir. Eu gostaria de poder dizer essas palavras a vocês pessoalmente. Mas não sei onde estão, não sei se estão bem, se precisam de alguma coisa... E nem saberei.
E só agora compreendo o que deve ter sido para vocês meu silêncio. Por isso, eu lhes peço desculpas. Desculpas por ter sido tão egoísta. Por ter me recolhido em mim mesma quando tudo o que vocês queriam era me ajudar.
É melhor me despedir agora. Não se espantem com a forma sob a qual essa carta chegará em vocês. É um feitiço que aprendi no Japão e foi a única maneira que encontrei de conseguir fazer com que minha mensagem chegasse a vocês.
Por último, quero que saibam que as amo. Mais que amigas, vocês são minhas irmãs. E eu espero que algum dia possamos voltar a nos sentar no QG, ou em qualquer outro lugar, para rirmos, conversarmos besteira e comermos toneladas de doces enquanto Fofoso pula em nossas cabeças.
Saudades,
Mina MacFusty.”
Ela soltou a caneta sobre a cama, espreguiçando-se. Em seguida, com extrema delicadeza, ela arrancou as duas páginas, dobrando-as, antes de arrancar duas outras, começando a moldar aves de origami.
Hilde ensinara aquilo para ela. Era mais seguro que corujas... Consumia-lhe as forças, contudo. Da primeira vez em que tentara fazer os pássaros de origami, ficara tonta, quase vomitara...
O fato de que estava ligeiramente acamada naqueles dias talvez explicasse. Bem, teria agora que suportar um pouco mais para dar ‘vida’ àqueles pedaços de papel. Era necessário que as cartas chegassem a Lore e Sam.
Finalmente, as dobraduras ficaram prontas e, respirando fundo, ela soprou sobre cada uma delas, enquanto tentava concentrar-se no encantamento.
O primeiro origami, aos poucos, transmutou-se, assumindo uma penugem marrom, antes de abrir o bico, cantando.
Bem-te-vi... bem-te-vi...
Ela sorriu. O segundo origami também tomou forma e, pouco depois, ela encarava o casal de pássaros empoleirados em seu dedo. Sua respiração agora estava rasa e ela sentia uma ligeira pontada na nuca.
Mas conseguira.
Caminhando até a janela, Mina se inclinou sobre o parapeito, antes de estender a mão para o céu lá fora.
- Não descansem até encontrá-las... Por favor...
Cantando em resposta, as aves pularam de seu dedo, planando para o céu azul. Assim que os perdeu de vista, Mina seguiu para a cama, ligeiramente cambaleante. Lhe restava agora dormir até o dia seguinte. E esperar por uma resposta que talvez levasse anos para chegar...
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