Finalmente chegou o final de semana. Só Merlin sabe como foi difícil esperar por ele. Ainda assim, me enrolei um pouco mais nas cobertas, indecisa entre descer ou ficar mais um pouco no dormitório, pensando. Preferi a segunda opção.
Definitivamente, aqueles dois Intragáveis conseguiram transformar Hogwarts em um verdadeiro saco. As coisas que eles fazem, e principalmente dizem, são de azedar qualquer um. Às vezes eu e Sat nos encaramos, perplexos, com a mesma pergunta estampada no rosto: meu, que p* é essa? Luke também está irritadiço, os sonserinos bocós que entraram no esquemão sangue-puro dos Carrows se divertem em chatear os Lufanos e eu temo que o ruivo acabe fazendo alguma besteira... Se bem que, dependendo do nariz que ele resolver quebrar, será um enorme prazer assistir à cena.
Porém, mais do que qualquer outra coisa, o que de fato me preocupa é Meridiana. Ela não está em seu modo normal. Repudiou publicamente o sobrenome paterno, não conversa mais conosco e se desentendeu com Lucien. Sat está emputecido, quis tirar satisfação, mas achei melhor impedi-lo. Não sei o que Meri pretende, e algo me diz para não tornar as coisas, para ela, mais difíceis do que já devem estar; independente de suas motivações, romper com tudo o que lhe fora até então muito caro não era tarefa fácil, mesmo para uma Black-Thorne. E, por meu lado, apesar da dor de aparentemente não mais tê-la como irmã-companheira, não me cabe julgá-la ou criticá-la pelas atitudes que tomou; eu amo um Comensal da Morte, meu telhado também é de vidro.
Jack miou e, ronronante, tocou meu rosto com a pata; era o sinal de que desejava deixar a cama e eu, como dona de estimação exemplar, deveria acompanhá-lo. Como a fome já me rondava e de nada adiantaria me esconder debaixo do edredom, levantei-me e me preparei para descer ao salão; pelo menos os elfos domésticos da escola ainda não tinham sido contaminados pelos Irmãos Cenoura Crua e Cenoura Cozida.
Pobres raízes, serem comparadas com aqueles dois mer... Ah, deixa pra lá.
Um estranho burburinho assaltou meus ouvidos enquanto deixava o dormitório, e pareceu causar estranheza nas outras sonserinas que, como eu, também haviam esticado um pouco mais o tempo sob as cobertas. E não tive como segurar uma careta quando me deparei com a cena que se desenrolava em minha sala comunal.
Estávamos todos lá, pelo menos aparentemente. Os alunos da Casa da Serpente se espalhavam pelos sofás de couro preto, pelos tapetes, recostavam-se nas paredes, observados por Filch e pelo Intragável Amycus Carrow, o Cenoura Crua, ambos de pé à entrada de nossa Sala Comunal. Divisei Sat sentado no parapeito de pedra de uma das janelas; trocamos nosso agora costumeiro olhar de ninguém merece e, sem dar atenção a ninguém, fui até meu amigo e me sentei ao seu lado, recostando-me na grade.
- Veja bem o que só os incomparáveis Cenouras podem nos proporcionar: uma preleção antes do café. Não é uma maravilha? – disse Satanio, caprichando na acidez do sorriso – Cenourinha Cozida estava presente até agora a pouco; deu uma saída rápida, mas já deve estar de volta. Ela sabe o quanto você ficaria decepcionada, Rav, em não vê-la logo ao acordar.
- Mal posso esperar para rever a querida Tia Alecto – emendei, no mesmo tom – Nem sei como consegui esperar quase doze horas para poder vê-la novamente!
Terminei a frase com uma careta, e Sat riu torto.
- Oh, que felicidade, parece que ela está de volta! – comentei, pois a porta de nossa Sala Comunal de repente se abriu, dando passagem à intragável mulher e também... a ele.
A porcaria do meu coração enlouqueceu; comecei a tremer. Depois do banquete de abertura, eu não mais vira o Senhor de Meu Coração tão de perto. Apenas uma vez o divisei, rapidamente, caminhando pelo corredor que levava ao gabinete da direção.
- Se você ficar grata à Cenoura Cozida por ela ter trazido o Morcegão, esqueço nossa amizade e te dou um soco, Rav – resmungou Sat, ameaçador.
- Menos, Diabo Loiro, menos. As coisas não são assim, também não – respondi, tranqüilizando-o – Vamos prestar atenção, parece que o show vai começar.
Severus deu um passo à frente da aglomeração – agora silenciosa – de sonserinos e falou:
- Como eu disse a todos na abertura do ano letivo, Amycus e Alecto Carrow serão, de agora em diante, os responsáveis diretos pela ordem e pela disciplina em Hogwarts. Entretanto, em razão da importância da Sonserina, ambos acharam que vocês merecem uma atenção especial, e estão aqui agora para falar-lhes em particular.
O Senhor de Meu Coração dirigiu seu profundo olhar aos Intragáveis e, obviamente, Amycus logo tomou o lugar de Severus; com um sorriso de triunfo que beirava o sinistro, correu os olhos por nós e, cruzando as mãos às costas, começou:
- Vocês não têm idéia do prazer que me invade ao contemplar aquela que pode ser considerada a nata de Hogwarts... Aquilo que esta escola tem de melhor... Os filhos da Casa da Serpente, a qual anos atrás também me orgulhei – e até hoje me orgulho – de integrar. Vocês, novatos e veteranos, todos jovens de boa estirpe e procedência, são o futuro do mundo bruxo! Guardem bem isso! O futuro!
Uma careta de desagrado torceu meus lábios. Sat suspirou, entediado.
- Vejo grandes nomes presentes aqui – prosseguiu o Cenoura, após uma pausa que ele deve ter acreditado dramática – Malfoy... Parkison... Nott... Ivory... Goddriac... Todos provenientes de famílias antigas, sangues-puros legítimos, plenamente capazes de darem aos demais alunos desta escola o real significado do que é ser bruxo! Do que é ser temido, respeitado! Do que é ser... superior. Porque é isso que todos vocês são: superiores!
Aquilo começou a me fazer mal. Satanio trocou comigo um olhar preocupado. Eu não estava gostando nada do rumo daquele discurso, e o que me pareceu a princípio uma gigantesca palhaçada tomava lentamente ares de uma coisa maior... e bastante perigosa.
- Meus caros sonserinos, não vou lhes adiantar muita coisa neste primeiro de vários outros encontros. O que desejo hoje é apenas conscientizá-los de sua superioridade e importância em Hogwarts; quero que me ajudem, e também ao nosso Diretor, a velar pela qualidade de nossa escola, para que ela não se torne novamente uma porta aberta para qualquer um. Guardemos o ideal de Salazar Slytherin, cuidando para que apenas os melhores tenham lugar neste castelo! – exclamou Amycus, apontando dramaticamente em nossa direção, sendo acolhido por uma animada salva de palmas e por alguns assobios.
O Senhor de Meu Coração, assim como eu, Satanio e também Adhara, que divisei sentada mais à frente, em um dos sofás de couro, permaneceu de braços cruzados. Depois de alguns minutos, assim que a ovação terminou, Severus trocou um olhar com o Cenoura e nos declarou simplesmente dispensados, retirando-se logo em seguida com os Intragáveis e Filch em seus calcanhares. A sala comunal foi se esvaziando, mas tanto eu quanto meu amigo loiro nos deixamos ficar para trás.
- Mas que tremenda palhaçada! – exclamou Sat, entredentes, saltando do parapeito – Será que teremos que aturar essa chatice todos os sábados de manhã? Infelizmente, vou precisar passar mal em todas essas deliciosas ocasiões; você vai me ajudar com umas poções estratégicas, não vai, Ravenzinha?
- Sat, parece palhaçada, mas esse papo todo me pareceu muito sinistro – murmurei, também descendo do parapeito – Essa história de futuro, de sangue, de superioridade... Já fizeram esse discurso antes e o resultado foi devastador.
Sat enfiou as mãos nos bolsos e fitou os bicos das botas. Depois, sacudindo a cabeça, afastou do corpo o braço direito, formando um arco convidativo para o meu próprio braço.
- Ainda é cedo para nos preocuparmos demais, Rav... Vamos fazer assim: deixemos o inimigo se armar, para então pensarmos em como faremos para desarmá-lo; pode ser?
Assenti, em silêncio, e aceitei o braço que ele me oferecia. E, ainda em silêncio, caminhamos para o nosso desjejum.
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