Friday, December 26, 2008

Winter


de Selune pra Darien

I should know who I am by now
I walk the record stand somehow
Thinkin' of winter
The name is the splinter inside me
While I wait



Darien caminhava sem pressa para a torre da Corvinal, as mãos enterradas nos bolsos até os pulsos, mergulhado até o pescoço em seus próprios pensamentos. Tão pouco tempo, tanto havia mudado e agora era difícil estabelecer todas as fronteiras que definiam quem era ele. Um rapaz recém chegado de um lugar estranho, outro planeta além das ilhas britânicas, a cor dos cabelos, um marco da mudança, uma referência explícita, um tanto não intencional cheia de intenção, da casa de Rowena Ravenclaw.

Veio do Canadá com o firme propósito de fazer tudo diferente: já que a mudança era inevitável, as coisas tinham de melhorar. A vida de seus pais não podia ficar mais complicada, sua vida não poderia ficar mais complicada e, por Merlin, ele, um garoto de pouco mais de uma década merecia um roteiro de vida com mais romance, um pouco menos de questões existenciais.

And I remember the sound
Of your November downtown
And I remember the truth
A warm December with you


"Mon Dieu" - pensou o corvinal - "commant posso dar uma virada se tudo o que faço é girar 360º graus e acabar, como no começo, olhando para o mesmo lugar, para trás, para... casa?”

Balançou a cabeça para reorganizar sua cabeça: precisava entender que o Canadá não era mais sua casa, sua vida não era mais a mesma e era vital se acostumar e tratar de sobreviver. Em quê isso poderia ser tão difícil?
Olhou por cima dos ombros em direção às mesas onde há apenas alguns minutos pudins, tortas, suspiros, mariolas e outras guloseimas, alguns alunos entoavam uma canção natalina, enquanto outros se empenhavam em não deixar uma migalha sequer como prova do surto de gula, sorrindo, se cumprimentando, as bochechas rosadas por causa do friozinho persistente e dos excessos de cerveja amanteigada.

Eram todos rostos que não conhecia bem, nomes que ainda não sabia dizer de cor, rostos que emolduravam sorrisos que escondiam histórias que poderiam ser um sem número de adjetivos.

Mesmo que se conhecessem há mais tempo, mesmo alguns que fossem amigos desde o primeiro ano na escola, todos eram mundos à parte, cada um senhor de um universo particular escondido sob o véu onde se podia ler apenas a superfície óbvia: nome de casas, pureza de sangue, posses, cargos no time de quadribol, esforço de proximidade com o garoto que sobreviveu, ódio ao garoto que sobreviveu.

E bem lá no fundo, soterrado por camadas e camadas de rótulos, um mistério ainda restaria e isso faria de cada um único num mar de estranhos numa terra estranha, compartilhando parte de suas histórias, tentando aproveitar do melhor jeito esse momento.

But I don't have to make this mistake
And I don't have to stay this way
If only I would wake


Um suspiro escapou do peito enquanto mirava o teto desfazendo-se em neve encantada. Um esboço de sorriso tilintou no canto de seus lábios: a cena não seria presságio de coisas ruins. O céu seria sempre o mesmo, ainda seria o céu natalino, onde quer que ele estivesse. Era isso, então, o que ele tinha de ter diante dos olhos: estava numa das mais antigas escolas de magia e bruxaria do mundo, com toda sua grandeza, sua história – história que, agora, era dele também. Seu lar era onde seu coração fixasse morada e seu coração romântico estava já se afeiçoando às velhas paredes de Hoggy. Um jeito simples de adquirir contentamento, isso é o que era!

Já andava a pequenos trotes quando percebeu que já havia passado pela aldrava de bronze em forma de águia e respondido qualquer coisa sobre os mundos dentro dos mundos.

No aconchego da sala comunal, escorregou para uma poltrona bem próxima às grandes janelas em arco que davam para as montanhas. A neve dançava lá fora, um ballet branco e de compasso suave que projetava pequenas sombras no tecido de seda azul e bronze das paredes, todo o lugar se enchendo de líquida luminosidade.

“Eu devo me misturar bem à composição de cena por aqui...” ele passava a mão pelos cabelos, meditando a respeito da sobreposição de tons de azul combinado às estrelas pintadas no teto. “Isso pode ser útil se um dia precisar me esconder da Murta.” – mentalmente tomou nota deste ponto de relevância para sua vida futura.

- Cara, você definitivamente combina com a decoração, eu devo dizer...

The walk has all been cleared by now
Your voice is all I hear somehow
Calling out winter
Your voice is the splinter inside me

While I wait


Em seu solilóquio ton sur ton não havia percebido que a poucos metros de sua poltrona, junto à janela em arco, havia uma profusão de almofadas aglomeradas num pufe improvisado sobre o tapete azul meia-noite. Afundado em meio a este trono de rei plebeu, observando-o através do reflexo nas vidraças, um jovem de olhos castanhos brilhantes, sorriso fácil e o rosto mais amistoso que vira nestes primeiros meses em Hogwarts.

- Jamal Keene. – o estranho se apresentou, acenando bobamente para o próprio reflexo no vidro.

- Uh... Darien Semog. – ele também respondeu para a janela, se sentindo ligeiramente tolo.

- E então, também esperando que as toneladas de comida sejam processadas até que possa recuperar o uso pleno de suas faculdades mentais?

- Bem, na verdade não. Só... pensando. – como o garoto continuasse a olhar para ele com interesse, continuou – sobre as mudanças, você sabe. E a vida, o universo e tudo o mais.

- Wow, isso tudo hoje, na véspera de Natal... É um pensador? Um racionalista? Um ébrio de suco de abóbora? – o estranho sorriu para o reflexo, ainda demonstrando interesse gentil sobre a vida azul de Darien. No entanto, ao mesmo tempo, seus olhos estavam fixos do lado de fora, como se algo de extrema importância estivesse se desenrolando lá em baixo.

And I remember the sound
Of your November downtown
And I remember the truth
A warm December with you
But I don't have to make this mistake
And I don't have to stay this way
If only I would wake


- Na verdade, só um curioso... um entusiasta da vida. - sem perceber, Darien se levantou e foi se aproximando da janela até estar tão colado ao vidro como o colega de olhos castanhos; ajoelhou-se do lado do rapaz e preparou uma pergunta que não chegou a deixar seus lábios. Ao pé das montanhas, em meio a neve que ainda caía graciosa, centenas de pontos luminosos flutuavam em um compasso ritmado: elipses para cima, para direita, para baixo, para a esquerda, numa nuvem de luminosidade que fazia parecer que todas as montanhas flutuavam.

- É uma suspensão de ignis fugit. Uma espécie de partícula mágica luminosa que se forma da dispersão de pólen de uma flor que só nasce aos pés das montanhas que circundam Hogwarts. No inverno, em geral nos sete dias antes do ano novo, a flor dispersa essa pólen, em seu ciclo normal de vida mágica. Devido às altas concentrações de manipulação mágica feita por anos e anos aqui nos terrenos da escola, a natureza acabou precisando arranjar um modo de escoar os refugos e aí... isso acontece.

Darien estava maravilhado. Nunca vira algo tão interessante. Aliás, como assim ninguém nunca contara isso a ele?

- É claro que sempre existe a possibilidade de serem fadas comemorando o fim de ano... Jamal olhou os olhos azuis do colega azul e sorriu.
I could have lost myself
In rough blue waters in your eyes
And I miss you still


Darien observou o moreno e, em meio a um sorriso, olhou de volta para o ignis fugit e deixou seus olhos vagarem na luminosidade contrastante com a neve que ainda caía calma; por fim sentiu o peso do sono pesarem suas pálpebras e, antes que começasse a per der o equilíbrio, levantou-se rápida mas discretamente. Tão logo alcançou sua poltrona um ramo de visgo aleatório começou a flutuar no exato espaço que esteve entre os dois.

- É...Acho que essa é a nossa deixa o sono está nos vencendo e o castelo já começou a pregar peças para nos fazer ir para cama mais depressa. Dessa forma– disse Jamal, acenando enquanto se arrastava para os dormitórios – boa noite, Azul, foi um prazer conhecê-lo. E... Feliz Natal!

- Feliz Natal, Jamal. E até qualquer dia!

Não fazia dez minutos que se conheciam e a sensação de familiaridade era absolutamente sem sentido; no entanto, mas a ele parecia que Jamal era alguém em quem ele poderia vir a confiar sem reservas, um possível futuro verdadeiro amigo.

And I remember the sound
Of your November downtown
And I remember the truth
A warm December with you
But I don't have to make this mistake
And I don't have to stay this way
If only I would wake


Para quem não sabe, Darien é franco-canadense e se mudou para Hogwarts apenas no terceiro ano, portanto esta fic se passa durante O Prisioneiro de Azkaban

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