All that I was meant to be
O dia havia amanhecido excepcionalmente límpido, livre da habitual névoa londrina. O sol brilhava morno e cálido sobre as pessoas aglomeradas nos jardins do casarão da família Ivory naquela manhã de final de agosto. Eram muito poucos, cerca de uma dúzia, pareciam pontos perdidos na imensidão dos gramados. Mas fora o pretendido por Kamus e Frida: terem apenas as pessoas mais próximas para testemunharem a celebração de seu casamento.
Adhara e Meridiana estavam lá. A morena postada ao lado direito de seu pai no pequeno altar e a ruiva um pouco afastada, na ala esquerda, preparada para ficar ao lado da tia quando a polonesa chegasse.
Outros rosto presentes eram o de Kyle e Lucy – ou melhor, Cassandra O’Neil – assim como Lucien von Weizzelberg, acompanhado do pai, Alexis, da madrasta, Valentine, e da nova irmã, Selune Priout. Jack Mercury e Angus McAllister, amigos de longa data de Frida, também estavam lá, este último junto de sua afilhada, Raven Sinclair.
Os convidados estavam acomodados em cadeiras brancas dispostas pelo gramado, metade de cada lado do pequeno tapete branco que formava o corredor por onde Frida passaria a caminho do altar. A decoração era discreta, toda em branco com detalhes dourados e arranjos de narcisos – a flor favorita de Frida – adornando alguns pontos. Tudo fora feito de acordo com o gosto da polonesa.
Kamus estava sobre o altar, esperando pela noiva. O russo trajava vestes tradicionais na cor negra, a única mudança mais acentuada em sua aparência eram os cabelos recém cortados. Seu rosto não expressava nervosismo ou ansiedade. Na verdade, não expressava nada. Ivory não parecia um homem prestes a se casar.
Por dentro, o estado do Auror não divergia muito do que demonstrava. Ele tinha certeza daquela decisão, assim não havia razão para nervosismo.
As love is fading,
From all the things that we are
But are not saying.
Can we see beyond the scars
And make it to the dawn?
Uma música suave começou a ecoar nos jardins, vinda de um órgão enfeitiçado, postado ao fundo da “nave” improvisada. Frida caminhava lenta e graciosamente pelo alvo tapete que se entendia sobre o gramado. Um vestido branco e comprido, sem ornamentos, de alças largas e decote em V delineava o corpo dela, deixando que a saliência ainda bastante discreta do início de gravidez se insinuasse. Os cabelos estavam parcialmente presos, deixando que os fios dourados que estavam soltos pendessem como cascatas nos ombros da mulher. Nas mãos, ela trazia um buquê de narcisos.
Frida dirigiu o olhar para o noivo, sorrindo. O rosto dele parecia a mesma máscara de impassividade. A mulher se lembrou, quase divertida, de quando conhecera Kamus, anos atrás, o modo como ele lhe parecia uma esfinge impossível de decifrar. Contudo, agora, mesmo ele mantendo a face séria, ela sabia que ele estava feliz, ela podia ver o brilho que se escondia por detrás dos olhos azuis meia-noite.
Ela decifrara parte do enigma que era aquele homem, contudo, não por completo. Aquilo não a assustava, muito pelo contrário, ela se sentia grata pela oportunidade de passar o resto dos dias de sua vida conhecendo mais e mais aquele homem que aprendera a amar.
And open up to
The ways you made me feel alive,
The ways I loved you.
For all the things that never died,
To make it through the night,
Love will find you.
A medida que caminhava em direção a Kamus, Frida não pôde deixar de imaginar o quão estranha e surpreendente a vida poderia ser. Era a segunda vez que passava por aquele ritual. E, em ambas as vezes, se casou com quem amava.
Conhecera Kamus como o primo de Aldebaran... Como um jovem arrogante e petulante, talvez até inconseqüente. Agora ela se via diante de um homem maduro e mais consciente de si.
Contudo, ela mesma se tornara outra pessoa no decorrer daqueles anos. Toda a amargura, ambição e revolta que ela possuíra na juventude se desvaneceram no decorrer dos anos.
A verdade é que, se não tivesse conhecido Aldebaran, nunca teria aberto seu coração para o amor. Se não fosse seu primeiro marido, ela nunca teria sido capaz de, agora, amar Kamus, como ele merecia.
Exatamente por isso, ela sabia que a união dela com Kamus, por mais insólita que pudesse parecer para alguns, vista de fora, era uma das maiores certezas que possuía naqueles tempos tão imprecisos de guerra. Frida sabia que, onde quer que Aldebaran estivesse, estava velando pela felicidade dela e do primo.
What about today?
What if you’re making me all that I was meant to be?
What if our love never went away?
What if it’s lost behind words we could never find?
Baby, before it’s too late,
What about now?
Kamus acompanhou com atenção cada movimento da mulher. Os passos serenos e seguros que a levaram até ele, o sorriso afetuoso que ela lhe dirigia e a expectativa disfarçada que passava pelos olhos castanhos dela quando lhe estendeu a mão, esperando que ele a tomasse. O Auror não a fez esperar, enlaçando aqueles dedos entre os seus e guiando a noiva para o seu lado, diante do juiz de paz.
O russo soube que ele e Frida eram “iguais” desde a primeira vez em que a viu. Ele sabia quem era o avô da polonesa, o papel que ele tivera junto a Grindewald e o terror que assolara a Europa continental na primeira metade do século. Ele sabia, pois seu próprio avô, de quem ele herdara o nome, esteve intimamente envolvido em tudo aquilo, ocupando exatamente a mesma posição que o Barão Grygiel.
Ele sabia o que acontecera à família de Frida após a derrocada de Grindewald. Sabia em que meio a loira havia sido criada após a morte dos pais... Eles eram tão semelhantes... Era fácil, fácil demais, que Frida, em meio à sua fragilidade, se tivesse permitido ser manipulada, ser manchada. Exatamente como o próprio Kamus o fora.
Quando Aldebaran lhe revelou que Frida trabalhava para o Lord das Trevas aquilo veio apenas a corroborar suas certezas a respeito da mulher. Naquela época, ele não via Frida por mais do que ela era: uma traidora.
To start a new day.
This broken heart can still survive
With a touch of your grace.
Shadows fade into the light.
I am by your side,
Where love will find you.
Estaria mentindo se afirmasse que não sentira uma ligeira desconfiança da mulher quando ela retornara à Inglaterra, dois anos atrás, se dizendo disposta a ajudar a capturar Ludovic Black-Thorne. Entretanto, Aldebaran havia morrido acreditando nela... Ao menos aquela consideração ele devia à memória do falecido primo que tanto fez por ele.
E hoje, Kamus não poderia se sentir mais grato por ter dado a Frida aquele voto de confiança. Ela o surpreendera de mais formas do que seria possível enumerar... Ela o ajudara, o apoiara, o consolara, o aconselhara... Fora sua primeira aliada em anos. A primeira pessoa que conseguiu se aproximar dele o suficiente para notar as incertezas e o remorso que eram escondidos sob a sua máscara, pois ela própria carregava fardo semelhante.
Frida passou a estar presente em sua vida de tal forma que se tornou irracional não amá-la.
Ela não era a primeira mulher que amava, aquilo era verdade. Assim como ele também não era o primeiro amor da loira. Mas aquele fato não trazia desconforto a nenhum dos dois. Frida fora a esposa de seu primo... Seu quase irmão. Talvez, para quem não conhecesse Kamus e Frida, e para quem não tivesse conhecido Aldebaran a fundo, acreditasse que a atitude de os dois, ao se envolverem e gerarem um filho e hoje se casarem, fosse algo reprovável aos olhos da sociedade. Uma traição à honra dos mortos.
Mas Kamus sabia que não estaria segurando a mão dela naquele dia se seus caminhos não tivessem sido trilhados daquela forma por algo maior do que eles próprios – de forma que os ligava eternamente, um ao outro.
What about today?
What if you’re making me all that I was meant to be?
What if our love, it never went away?
What if it’s lost behind words we could never find?
Baby, before it’s too late,
What about now?
O juiz de paz iniciou sua fala, cumprimentando os presentes e ressaltando a importância da cerimônia que realizariam a partir daquele momento. O voto que fariam naquele dia somente poderia ser quebrado por forças que não dependiam de nenhum deles.
- Eu prometo que vou amar e cuidar de você... – Kamus iniciou os votos, com ambas as mãos de Frida seguras entre as suas e seus olhos fixos nos da noiva.
- E negarei todos que ficarem entre nós. – ela continuou, os olhos também fixos aos dele.
A ponta da varinha do juiz de paz passou a exalar um brilho dourado conforme os noivos diziam seus votos, até que um feixe de luz irrompeu e circundou o casal, como uma fita brilhante.
Now that we’ve come this far,
Just hold on.
There is nothing to fear,
For I am right beside you.
For all my life,
I am yours.
- A partir deste dia e até o fim dos tempos... – disse Kamus.
- Até que a morte nos separe. – encerrou Frida.
Aros de luz dourada se fecharam ao redor deles, solidificados pelo juramento que proferiram.
O Auror apertou as mãos de Frida por um momento antes de curvar-se para depositar um beijo nos lábios de sua, agora, esposa.
Os convidados levantaram-se de seus assentos, aplaudindo a união, e o feitiço que envolvia os noivos brilhou mais forte por um instante antes que eles se separassem e o aro de luz desaparecesse como uma névoa para se materializar nos anulares esquerdos de Kamus e Frida.
A promessa realizada naquela manhã permaneceria presente na memória dos que a testemunharam, pois era por dias de felicidade como aquele que lutavam, e eram lembranças como aquela que os guiariam pelo longo caminho que os esperava até que o fulgor destes momentos pudesse se repetir todos os dias.
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