Monday, December 01, 2008

Oxigênio - Parte 1



Encostada em uma árvore, Selune levantou o rosto sentindo os raios de sol da tarde que escapuliram pelas frestas da folhagem incidirem carinhosamente sobre sua pele. Ela olhou para baixo, Tristan estava de olhos fechados, a cabeça deitada no colo da namorada. Um sorriso de deleite podia ser visto nas feições do rapaz enquanto sentia os dedos delicados da loirinha percorrem com ternura em seus cabelos.

Aquele era o último dia em que estaria juntos, pelo menos apenas os dois, em muitos meses. No dia seguinte, Selune partiria para cursar o sétimo ano em Hogwarts e, uma semana de depois, seria a vez de Tristan iniciar seus estudos em Direito Bruxo na Academia de Estudos Alquímicos.

Com alguma sorte, ele poderia arrumar uma brecha e ver a namorada durante os passeios escolares a Hogsmeade, caso contrário, apenas se veriam nas férias de Natal.

Talvez não fosse tanto tempo assim, contudo, para os apaixonados, qualquer separação tende a parecer uma eternidade.

Foi exatamente pensando nisso que o rapaz planejara aquela tarde. Tristan praticamente "seqüestrara " Selune da mansão dos Priout, trazendo-a para o casarão onde ele residia com os pais.

Havia pedido para providenciarem um piquenique nos amplos jardins da casa, ressaltando que deveriam caprichar no petir gateau, afinal, era a sobremesa favorita de Selune.

Assim que eles chegaram via Flu na casa dos McCloud, ele a conduziu até os terrenos externos, tapando os olhos dela com as mãos. Entre o divertida e o curiosa, Selune se deixou guiar. Quando finalmente sentiu os dedos de Tristan se afastando de seus olhos, ela não conseguiu refrear um grito de alegria ao ver o que o namorado providenciara: a tolha xadrez e a cesta de guloseimas em contraponto com o verde das folhas e o colorido das flores que adornavam os jardins dos McCloud.

Em um impulso, Selune se virou, jogando-se no pescoço de Tristan em um abraço entusiasmado.

-Eu amei! - ela falou.

Desse modo, a tarde transcorrei de forma divertida e agradável, até aquele momento em que se encontravam, em silêncio, apenas apreciando a alegria de estarem um ao lado do outro.

Tristan abriu os olhos, percebendo que Selune estava entretida, olhando para o céu que se escondia por entre a copa da árvore.

-Está feliz, minha cara? - ele perguntou, chamando a atenção da moça para sim.

Contudo, não foi com um sorriso que Selune encarou o rapaz, mas com uma ligeira careta de desgosto.

-Por favor, não me chame de "minha cara", é como tia Mildred me chama quando quer me passar uma descompostura.

-E como devo chama-la? - ele perguntou, divertido.

-Sel para dias ensolarados e felizes como os de hoje, Selune para os momentos em que eu estiver triste e você precise me abraçar para me consolar... - ela respondeu com seriedade, embora um brilho de contentamento pudesse ser percebido no fundo dos orbes anis.

-E quando estivermos os dois felizes além de qualquer explicação? - Tristan perguntou.

Selune abaixou o rosto, selando os lábios do namorado com um rápido beijo, que se escondeu de quaisquer possíveis olhares alheios sob a cortina de fio dourados do cabelo da moça.

Afastando-se um pouco dele, mas com o rosto ainda próximo, ela respondeu, sorrindo.

-Acho que pode me chamar de Srta Poppins, mister Bert, afinal, aquele foi nosso primeiro dueto.

-Hoje, então, será Srta Poppins. Minha sempre doce e supercalifragilisticexpialidocious Mary Poppins.

O sorriso no rosto da francesinha se tornou mais amplo, e ela abaixou mais uma vez o outro, respondendo ao comentário de Tristan com um beijo.

-Eu tenho mais uma coisa para você - ele falou, logo após Selune se afasta.

Sentando-se, então, ao lado da namorada, ele levou a mão até o paletó que deixara próximo da árvore, retirando de lá uma caixinha minúscula e sua varinha.

-Engorgio - ele pronunciou, fazendo com o que o objeto aumentasse de tamanho, entregando o embrulho para Selune.

Sel pegou o presente, abrindo com cuidado o embrulho para não estragar o papel de seda que o envolvia. Os olhos da francesinha mal podiam acreditar no que via. Uma pequena caixa de metal, creme com detalhes dourados na laterais e o delicado desenho de uma lua crescente na tampa. Ao abri-la, um suave melodia começou a tocar. Dentro de uma bola de vidro que flutuava ao ritmo da composição, a imagem de uma moça loira, com roupas do séc. XVIII, ao piano, e, um rapaz de fraque, tocando violino ao lado dela surgiu.

-É a música que nos compomos juntos... - ela murmurou, olhando para Tristan.

-Mandei fazer especialmente para você. Para que a Srta Poppins possa sempre estar ao lado de Mister Bert, pelo menos em coração.

Selune não conseguiu mais segurar as lágrimas que teimavam em escapar-lhes dos olhos desde que escutara a melodia. Durante tanto tempo a felicidade parecia lhe escapar entremeio aos seus devaneios e às brumas daquele passado confuso que outrora lhe assombrava o inconsciente. Contudo, agora, não fosse a situação que circundava o mundo bruxo, a francesinha poderia dizer para si mesma e para todos, que a vida não poderia ser mais perfeita.. Tal sentimento rebentou-lhe no peito com tamanha força que duas teimosas lágrimas escaparam por suas bochechas rosadas.

- Desculpe, non queria chorarr... Parce que je suis si heureux ... Alors heureux ...(1)

Tristan sorriu, esticando a mão delicadamente até o rosto de Selune limpando as lágrimas com as pontas dos polegares.

-Je t'aime, ma fée bleue(2) - ele disse.

- Je vous aime, mon noble Chevalier - a loirinha respondeu, as bochechas levemente rubras.

E, enquanto o vento soprava por entre as folhas das árvores, em um murmúrio que parecia acompanhar a melodia que soava da caixinha de música, Tristan e Selune trocaram mais um beijo, ambos ansiando que o período que passariam separados fosse apenas míseros grãos de areia na ampulheta do Tempo comparado a todos os momentos felizes que teriam no futuro que planejavam construir juntos.



(1) Porque eu estou tão feliz ... Tão feliz
(2) Eu te amo, minha fada azul
(3) Eu te amo, meu nobre cavaleiro.

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