Wednesday, December 03, 2008

Oxigênio - Parte 2



- Tristan?



Devia ser pouco mais de 21:30. Selune abriu os olhos devagar, consciente de que havia dormido muito menos que o necessário e perfeitamente ciente de que não havia sido a luz insistente da lua cheia escapando por entre as cortinas leves que a tinha despertado. A última coisa que se recordava antes de abrir os olhos era de Tristan olhando para ela com um sorriso doce nos lábios, chamando por ela quase num solfejo. A impressão de sua presença foi tão vívida que havia enchido o ar com um cheiro meio cítrico, meio amadeirado que era a mais antiga lembrança que ela tinha de amá-lo. Um perfume leve, mas persistente, invadindo todo o lugar, tomando-a como uma lufada de calmaria em meio a tantas preocupações.



O silêncio geral que pairava indicava que todo o mundo ainda estava dormindo, a exceção dela mesma e do perfume de Tristan, que criara vida própria e saíra Londres a fora para despertar namoradas incautas no meio da noite. Enquanto ela deslizava pela lateral da cama, colocando-se de pé, seus olhos esquadrinharam o quarto em busca de um vestígio de que não era apenas sua saudade exigindo a presença dele ou sua imaginação a pregar-lhe peças – essas duas andavam de conluio a favor da memória quase balsâmica do moço, como se ter passado o dia anterior com ele não houvesse sido o suficiente.



Olhou para Lucky e Freyr que descansavam enroscados em seu pequeno dossel debaixo da cama e não pôde evitar o sorriso quando passou por sua mente procurar exatamente ali por alguma pista – quem além dela cogitaria tal possibilidade?



- Francamente, Selune! Volte imediatamente a dormir que você... - Sua cabeça tombou para o lado, os olhos apertados tentando confirmar que, de fato, havia um par de olhos âmbar muito brilhantes observando com hipnótica curiosidade no chão, do outro lado da cama.



- Mas o que...



- Prrr-uhuhu!



Selune caiu sentada enquanto uma coruja prateada voava elegantemente até o batente da janela, estendendo a pata direita com uma calma pomposa.



- Séneca! Mon Dieu, que susto! – somente a coruja de Tristan para ser tão cheia de etiqueta, ao menos tanto quanto é possível a um animal treinado a entrar sem bater aonde não foi chamada.



Assim que o papel com o selo dos McCloud foi aberto o a coruja prateada piou e, com um leve aceno de cabeça virou as costas e ganhou o céu.



Minha menina, bom dia!



Hoje é um dia como tantos outros, mas é um dia especial para mim. Por isso, contando com alguns gentis cúmplices, decidi que deveria torná-lo especial para você também. Você encontrará ao longo de suas tarefas rotineiras pequenas instruções que a trarão até mim antes do amanhecer.

Por favor, seja boazinha, siga as instruções e não tente trapacear. Também não atormente o pobre Lucien, ele não sabe de nada além do que você mesma sabe e, honestamente, ele deve estar dormindo a essa hora.

Agora, por favor, vá até seu banheiro e depois ao closet; lá irá encontrar as primeiras instruções. Se assim você desejar, nos veremos em breve.



Atenciosamente,



Tristan McCloud




- Atenciosamente... Aff! Você pode tirar um bruxo de Kensington, mas não pode tirar Kensington de um bruxo – disse ela referindo-se às maneiras nobres do namorado criado em meio a títulos e pompa no famoso “bairro Real” de Londres. Mas ela bem sabia que sua implicância não era nada sério. O jeito cavalheiresco de Tristan seguramente estava na lista das 10 coisas que ela amava fingir odiar.



No banheiro, sobre o lavabo diante do espelho havia uma tiara prateada com uma lua crescente do tamanho de um pomo de ouro incrustada na lateral esquerda, completamente cravejada de cristais furta-cores. Ao lado, havia uma pequena nota escrita em um papelete azul com os dizeres “Use-me”.



Antes de seguir as ordens, Selune lavou o rosto e escovou os dentes. O que quer que ele estivesse preparando não ia pegá-la desprevenida. Aproveitou e deu uma disfarçada na cara de sono com um feitiço Maquilage Vanittitas básico, já que sua varinha estava providencialmente à mão. Tão logo terminou essa etapa, Selune pegou a jóia entre os dedos, um tanto desconfiada; assim que tocou seu cabelo, correntes prateadas foram se desprendendo do arco e se enrodilhando pelos cachos, arrumando-os num coque elegante, mas despojado.



Sabendo que ainda não havia terminado, e conhecendo um pouco do namorado, Selune virou o papalete azul para encontrar, sem surpresa, uma outra mensagem: “Perfeito, amor! Agora vá até o closet”



Com cautelosa pressa ela dirigiu-se ao cômodo de onde, ela agora percebia, emanava uma suave luz dourada. Então ela viu: duas dúzias de fadas cintilantes voavam ao redor de um longo vestido azul celeste que flutuava languidamente bem no meio do ambiente. O tecido era etéreo e as dezenas – não! Centenas – de estrelas bordadas, agrupavam-se mais abundantemente no corpete e, na medida que iam avançando rumo à barra, ficavam mais e mais raras.



Havia ali um bilhete com os dizeres “Vista-me”; ela obedeceu, percebendo que a peça se ajustava perfeitamente em seu corpo.



Do mesmo modo que ocorreu com o outro bilhete, este a enviava de volta a seu quarto; sem surpresa ela percebeu sobre a cama um envelope vermelho colocado ligeiramente à frente de um par de sandálias azuis de cetim com a já esperada nota de “Calce-me”. Estas, por sua vez, estavam à frente de uma caixinha prata com escritos em alto relevo. Resolveu seguir a ordem de disposição e pegou primeiro a carta.



Oi, meu anjo!



Mal posso esperar para vê-la vestida de céu... No entanto, agora preciso que você siga as próximas instruções à risca, por mais tolas que pareçam as especificações.




- Ah, muito fácil para você falar! - ela retorquiu - Não é você que tem uma lendária falta de talento para saltos Luís XV que já serviu de tema para extensas palestras de etiqueta da Tia Mildred...



Eu sei, perdão pelos saltos. Mas a Victoria me garantiu que para esse tipo de ocasião o salto é o mais indicado. E ela também disse que você subestima a graça que há em você; seria meramente uma questão de confiança, calma, tendo sempre mente que se deve “flutuar ao invés de caminhar” – seja isso o que for.



- Pffff! – Selune revirou os olhos, absolutamente descrente.



Vamos! Não seja tão pessimista, sim? Eu sei que você vai se sair bem.



Um outro ponto que precisamos abordar aqui: como pode perceber, a ocasião é um pouco formal. Embora eu mesmo seja avesso a esse tipo de coisa, em estando comigo esses eventos serão uma constante, agora em razão de meus compromissos de trabalho. Se quiser desistir irei entender perfeitamente, sem ressentimentos. Mas caso esteja estranhamente com vontade de seguir com o plano, calce as sandálias e depois, com cuidado leia o que está gravado na tampa. E segure a caixinha. FIRME.



Até... cedo ou tarde.



Tristan.




Enquanto calçava as sandálias Selune pensava se não era suficientemente clara sobre o que sentia pelo namorado. Nunca sentira tamanha felicidade, uma sensação quase palpável de que as coisas estavam em seu lugar - e por lugar dela entenda-se onde quer ele estivesse – mesmo que significasse eventos sociais. Não fosse a guerra e todas as atrocidades acontecendo tão perto de seu nariz, seria possível que tivesse de esvaziar a alma diariamente num grito frenético para não explodir de alegria. E isso era assustador. Reconfortante, mas assustador.



- Ok. Vejamos “Me leve agora/ onde esperam por mim sem demora/ Prometo que não intento ma / Casa de Cristal! Casa de Cristal! Casa de Cristal!”?. Agora por que segurar firme e com cuidaaaaaaa...

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