Friday, December 05, 2008

Oxigênio - Parte 3


Antes que desse por si, Selune se sentiu sendo tragada por um vazio súbito sob seus pés. Mas, diferentemente de aparatação ou de transporte via chave portal, ela não foi sugada pelo umbigo ou desapareceu em meio a redemoinhos indomáveis. A forma que o vento se deslocava era mais constante, quase mais gentil, por assim dizer. Devia ser coisa mais antiga do que qualquer coisa compreensível às mentes restritas do ministério – coisa de Valentine, possivelmente. Como não sabia o que esperar da aterrissagem, preparou seu espírito para uma eventual queda quando sua viagem chegasse ao fim. Ela estava de saltos, por Merlin!

Com grata surpresa e um sonoro “ops” ela aterrissou exatamente nos braços surpreendentemente fortes de um mordomo calvo que, com muito profissionalismo e polidez a devolveu a seu habitat natural – a terra firme. Antes que ela pudesse formular qualquer pergunta, ele empunhou a varinha e murmurou uma seqüência inaudível de palavras que fizeram seus cabelos serem repuxados de leve, provavelmente colocando ordem no trabalho feito pelo deslocamento “gentil” de ar.

Logo em seguida, ele lhe ofereceu um envelope rubro com uma mão, estendendo a outra na direção da caixinha prata; efetuada a troca fez um outro sinal mudo para que o seguisse em direção à Casa de Cristal: uma construção redonda, com o teto abobadado que muito lembrava o Royal Albert Hall de Londres, só que inteiro feito em vidro brilhante. Ao tentar espiar o que ia lá dentro, uma cortina de névoa se ergueu pelas paredes, mal permitindo que uma luz muitíssimo fraca pontilhasse a superfície polida.

- Feitiço de discrição, hein? É, acho que driblar as regras não é uma opção. Já a carta é free trial...

Minha querida!

Mal consigo expressar o quão feliz estou de você ter aceito seguir as pistas que a trouxeram até mim.

A sensação é como se mil estrelas houvessme se desprendido do céu e estivessem a iluminar minha noite-vida e você, minha lua azul, tão rara, tão única me julgasse digno de sua presença.

Perdoe-me o devaneio piegas – eu havia prometido a Alexis me controlar nas palavras para não assutá-la, mas aparentemente não sou tão hábil quanto ele em controlar o caminho das ridículas frases de amor.

Enfim, já está quase no fim. Agora basta que você siga esse sorridente homem que aparou sua queda – Albert, que sabe que sucumbi miseravelmente a uma meia dúzia de clichês, e a noite mal começou! Ele irá indicar a entrada.

Do seu,

Tristan.


Selune sorriu embevecida. Tristan descrevera as sensações pelas quais ela passava: a febre de clichês, suspiros e colocações piegas – ridículas! E deliciosamente viciantes! Se o bom Albert pudesse ver o desejo louco que passava por seu coração, ele certamente se retiraria discretamente do local sem nem lhe mostrar a entrada. Uma garota pulando no pescoço do jovem McCloud com tamanha ânsia poderia ser perigoso à integridade física de seu patrão.

No entanto, o bom Albert não lia pensamentos; se lia, decidiu que a sorte estava do lado dos amantes sedentos e loucos. Com um sorriso compreensivo nos lábios indicou uma abertura no vidro de 2x2 metros que havia surgido ao seu toque suave.

Dentro da Casa de Cristal, através do teto abobadado a Lua brilhava como pendurada por um fio invisível no céu aveludado; seu séquito de mil estrelas a circundava, como prestando homenagens a rainha da noite. Algumas, envergonhadas, pareciam se desprender do céu, vindo pairar a centímetros do chão, cintilando um caminho que levava até a outra extremidade do grande salão.

Lá estava ele, recostado num piano de cauda negro ao fim do caminho de luzes, impecável em seu terno cinza-chumbo sobre a camisa na cor exata do vestido que ela agora usava. Sem tirar os olhos da moça loira que estava no lado oposto do salão e maneou de leve a cabeça e os primeiros acordes de uma melodia já tão conhecida de Selune começou a preencher cada canto do amplo ambiente, cada canto da sua alma, da dele mesmo. Os olhos do rapaz brilhavam e sorriam hipnóticos ao perceberem nos dela o reconhecimento: o onipresente Albert estava tocando Claire de Lune.

Como num pas-de-deux, sincronicamente eles começaram a caminhar um em direção ao outro a um ritmo compassado que faria com que o encontro fosse no exato ponto onde estava o centro do grande salão de vidro. As estrelas que se desprendiam do céu encantado eram, na verdade, milhares de fadas que agora, ao som da peça de Debussy, começaram a girar por todo o salão, suas luzes cintilantes se refletindo no vidro, multiplicando-se ao infinito.

Um tanto tímido, Tristan tomou a mão da namorada entre as suas e a beijou tão leve que Selune quase que só sentiu sua respiração.

- Você está tremendo! – ela observou espantada. Está tudo bem com você?

- Eu... eu estou bem, sim. Só um pouco nervoso com o rumo que as coisas tomaram e com o que resultou disso, que é a razão pela qual eu a chamei aqui hoje. Há uma coisa que preciso contar a você. Confessar, na verdade. E pedir. – ele expirou forte, claramente sem jeito, algo nada comum em se tratando de Tristan McCloud. - Isso é absolutamente novo pra mim, perdoe-me a falta de jeito...

- Você está me assutando um pouco, Tristan. - Selune estreitou um pouco os olhos numa tentativa vã de ver algum mínimo vestígio do que ia por trás daqueles insondáveis olhos cor de folha-seca. Nada além do doce e enigmático olhar de Tristan. – Bem, disse ela, eu estou ouvindo.

Ele a envolveu num abraço cálido, afundando o rosto em seus cabelos e inspirando profundamente, como se para guardar o perfume dela num frasco dentro de sua memória. Lentamente Tristan começou a se mover ao som da melodia, guiando-a num bailar suave e terno. Ela se deixou levar, a cabeça pousada em seu peito; ficaria ali o tempo que fosse necessário, a vida inteira, até que ele estivesse pronto.

- Você sabe – começou ele – que nossa história foge um pouco do usual, para dizer o mínimo. Tudo se desenrolou como um romance do século XIX, desde a intervenção de nossas famílias – bem, tia Mildred e Tia Géneviève, para ser exato -passando pelas festas do Professor Slughorne e pelo calhorda do Campossanto. Entretanto, para bem ou para mal, aquele estafermo foi responsável pelo nosso primeiro beijo, que você, inclusive, pensou ter sido dado pelo Mercury.

- Own, você vai usar isso contra mim para sempre, não vai? – ela o olhou com ar suplicante. Por dentro, no entanto, ela estava se roendo de vontade de comentar a propensão Jane Austen que a história dos dois tinha de se desenrolar, incluindo este comentário.

- Desculpe-me, não é essa a intenção. Muito embora a expressão em seu rosto me deixe um tanto tentado a dizer isso mais umas duas ou três vezes. Você fica adorável quando sem jeito. E, nesse tempo que estamos juntos, a cada dia você fica mais confiante e, portanto, mais atrevida, logo, menos sem jeito. – ele estava sorrindo. Não havia sequer um traço de repreensão verdadeira em sua voz.

- Ei! Será que podíamos pular para a parte em que você me conta do nosso misterioso primeiro beijo? Prefiro esse trecho à pequena digressão em que agora nos encontramos...

- Ah, sim, o primeiro beijo. Esse é o primeiro ponto de uma relativamente longa lista que tenho para abordar com você hoje. Acho que nunca tive a oportunidade de me desculpar adequadamente por isso.

- Você está se desculpando por ter me beijado? - Ela parou de dançar abruptamente, seus olhos arregalados com a surpresa.

- NÃO! Quer dizer, sim. Quer dizer, não! Quer dizer, não me arrependo do que aconteceu, mas da forma como aconteceu. Por tê-la beijado num impulso, sem ter sua permissão para tal. Não foi muito cavalheiresco de minha parte Você estava semi-consciente e eu devia ter me controlado. Deus, isto está sendo realmente mais difícil do que eu imaginava! – ele segurou a base do nariz entre o polegar e o indicador, um sinal clássico de nervosismo. Num voleio rápido e firme ele conjurou a banqueta do piano que estava tocando sozinho sem que eles pudessem precisar desde quando.

- Entenda. Eu jamais me arrependeria de tê-la beijado, Selune. Aquele beijo foi a prova de tudo o quanto eu não admitia sentir, um interesse que foi esculpido em mim quando Madame Mildred falou sobre você para minha tia Géneviève, e que se confirmou quando eu a vi na reunião do Slug Club. Tão idealista, tão divertida, cheia de boas intenções, perspicaz e talentosa... Você era sim incrivelmente interessante, apaixonante e avoadamente atraente; ali eu soube que não me tinham enganado.

- Você viu isso tudo numa noite apenas?

- Seus olhos dizem tanto sobre você e você sequer percebe... Sim, eu vi. E eu também vi que estava prestes a me tornar irremediavelmente cativo desses olhos. Eu não só fiquei feliz com a idéia como nada fiz para tentar impedir. Nunca em minha vida havia sido uma pessoa crente em histórias de amor. O mundo em que eu vivia girava em torno de outro tipo de laço, a conveniência, o interesse e só. As outras histórias eram somente histórias para encantar as pessoas, nada mais. Mas você, de uma forma completamente irracional, fazia-me pensar que talvez fosse possível, que talvez eu também tivesse direito ao meu quinhão de amor fabuloso no mundo. Por isso eu intentei fazer as coisas do jeito correto, porque era algo que eu queria que desse certo. Porque eu sabia que essa impressão estava gravada em mim... para sempre.

Ele se calou e continuou olhando-a nos olhos; havia tanto ainda por dizer escondido sob a íris marrom-dourada, apenas aguardando o momento de se deixar relvelar.

- É surreal, não é? – disse ela - Eu mesma me espantei em como foi fácil aceitar que era você quem me tinha roubado um beijo aquela noite... - ela balançou a cabeça em negativa, para corrigir o erro que havia cometido - Não! Perdoe, não aceitar... constatar. E roubar também não é o termo certo. Não se rouba algo que já se possui. De algum modo além da razão, aquém da magia, eu sempre fui sua, Tristan McCloud.

- É por isso, Selune Priout, que contrariando toda a razão, a lógica do tempo, as convenções mais modernas, e, talvez agradando nossas tias mais do que elas mereçam, eu quero - preciso te pedir uma coisa. Sei que são tempos de guerra, que você deve voltar a Hogwarts em breve, mas de modo algum quero que se sinta coagida em concordar, caso não se sinta pronta. – segurando as mãos da jovem entre as suas ele se ergueu, fazendo com que ela fizesse o mesmo.

- Você quer que eu faça um voto perpétuo, lhe doe um órgão ou algo do tipo? – ela olhou fingindo desconfiança, um meio sorriso nervoso no canto dos lábios.

- Algo do tipo. – ele suspirou profundo, se colocou de joelhos e retirou do bolso a caixinha prateada que trouxera Selune até ali. Lá dentro havia um anel de diamantes que cintilou ainda mais quando uma dezena de fadas aproximou-se do casal , criando um halo dourado em volta dos dois – Selune Priout, você quer se casar comigo?

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