Reconhecimento - Final
O rapazinho deixou-se cair de qualquer jeito sobre a cama, cansado, apoiando a cabeça sobre os braços e observando, pensativo, o teto. Estava cansado. E quando dizia cansado, não era exatamente no sentido físico. Aqueles dois últimos dias tinham sido de uma avalanche de informações e sentimentos para ele. E Kyle não sabia se estava realmente preparado para aquilo.
Primeiro fora a "visita" que fizera à mansão Black-Thorne, onde a ruiva que acabara de conhecer na sala estivera presa nos últimos meses. A destruição da casa, o ambiente carregado de ódio que ele parecia pressentir, a verdadeira cela que servira de cárcere para a prima... Tudo aquilo fora quase como um soco no estômago. Ele tivera de se controlar para não demonstrar o que estava sentindo diante do auror que acompanhara, a ânsia tentando engolfá-lo enquanto ele imaginava o terror que se passara entre aquelas paredes transportado para quinze anos antes...
Depois, o reencontro com a mãe. Ele percebera a tristeza dela. O corpo inteiro de Lucy parecia reverberar com aquele sentimento e, mais que isso, os olhos da mulher eram suficientes para que ele pudesse reconhecer a culpa que a mãe carregava. Kyle só agora começava a compreender o que levara a mãe a atitudes tão extremas.
Mas, ainda assim, ele não fora capaz de ultrapassar a barreira que sua mágoa impusera entre eles. Ainda não estava suficientemente pronto para tanto. Talvez porque a realidade ainda não tivesse penetrado completamente em seu cérebro. Talvez porque ele ainda tivesse alguma esperança...
Esperança de quê? Que o pai não fosse um assassino, um psicopata que feria todos os que entrassem em seu alcance? Que ele, Kyle, algum dia tivesse sido desejado, tivesse sido amado?
Ele suspirou, percebendo afinal o que realmente o movera naquelas últimas semanas. Não tinham sido as mentiras da mãe. Nem o desejo de encontrar o pai. Ele tinha fugido da idéia da rejeição. De ter sido gerado não por amor, mas por ódio. Lucy não o quisera... ele nascera por um abuso, pela violência a que ela fora submetida...
Durante quinze anos, ele fora um fantasma diante dos olhos de Lucy Reinfield.
Por que ela o tivera afinal? Por que decidira lhe dar a vida? Por que cuidara dele, por que o ninara, por que... por que aceitara ser sua mãe?
Ele cerrou os olhos, sentindo algo quente na garganta, como se fosse um soluço. Apesar de tudo, ela o amara incondicionalmente... Ou não? O que ele fizera afinal? O que estava fazendo?
Nesse instante, Kyle ouviu uma batida leve na porta. O garoto sentou-se na cama, respirando fundo, tentando se recompor.
- Pode entrar - ele disse.
Segundos depois, Kyle via a prima no batente. Meridiana cerrou a porta atrás de si, encostando-se na porta, observando o rapaz, em silêncio. Ela observou cada linha do rosto do primo, cada detalhe mínimo... Era inegável que o rapaz deveria ter herdado muito da família de sua mãe, contudo, havia resquícios de Ludovic ali...
Especialmente os olhos... verdes... como os do tio...
Contudo, não era o comensal que ela via refletido nas orbes esmeraldinas do garoto... era ela própria... um misto de raiva... culpa... curiosidade...
Ela também tinha quinze anos quando Ludovic entrou em sua vida... Ela também descobrira que o pai mentira sobre a morte da mãe para protegê-la... Ela também procurara por respostas...
E, as conseqüências de tudo aquilo não foram as melhores. Contudo, mesmo que ela houvesse desejado, Meridiana nunca teve a chance de optar por não ter o tio em sua vida. Kyle ainda tinha essa oportunidade. Ela não poderia deixar que acontecesse com ele, o que aconteceu a ela.
- Vá embora. - foi o que ela disse para ele - Volte para a Grécia o mais rápido que puder.
Ele arregalou ligeiramente os olhos, surpreso pela maneira abrupta com a que ela dissera aquilo.
- Não. – ele respondeu antes que pudesse perceber o que estava acontecendo – Eu não posso ir.
- Você não entende? – ela continuou, quase exasperada, a urgência de que ele escapasse daquilo antes que fosse tarde demais fazendo com que continuasse sem perceber que, talvez, aquela conversa não estivesse fazendo muito sentido; ainda que, para ambos, fizesse todo o sentido do mundo – Ele ainda não sabe sobre você... Você ainda tem uma chance... Tem uma escolha...
Ele abaixou os olhos, meneando a cabeça.
- Eu não posso. – ele repetiu.
Mas por que ele não podia? O que ainda procurava ali? O que queria de verdade? Kyle já tinha respostas suficientes para suas perguntas. Então, o que ele ainda precisava?
A verdade é que ele jamais poderia voltar a ser a pessoa que fora antes. Ele não poderia voltar para a Grécia e fingir que nada daquilo tinha acontecido.
- Não se pode fugir do destino. - ele disse, encarando a prima com um olhar firme.
Fora aquilo que sua madrinha lhe ensinara, desde menino, que por mais que fujamos do passado, ele volta a nos confrontar de alguma maneira. Ele percebera, finalmente, que ir embora não tornaria as coisas mais simples, que invariavelmente ele teria que confrontar a verdade. Melhor que fosse agora, melhor que fosse por escolha dele.
Meridiana deixou-se escorregar pela porta, sentando no chão, encostando novamente a cabeça nos joelhos, sem deixar de encarar o primo. Definitivamente havia sangue Thorne nas veias do rapaz. Ele era teimoso e determinado. Como ela própria. Como Elizabeth um dia fora. Como Aldebaran era, segundo Frida. E, até mesmo Ludovic era, a seu modo doentio e distorcido.
- Ludovic não deveria ser o destino de ninguém... - ela murmurou - Especialmente se ele decidir que ama você...
Dessa vez, ela realmente o pegou de surpresa.
- Me... amar?
Meridiana anuiu, com um leve movimento de cabeça.
-Você é filho dele... com a mulher que ele chama de "esposa"... Ele vai te amar, Kyle, eu tenho certeza que vai.
- Eu ainda não entendi. – ele confessou.
A moça deu um sorriso amargo e quase sarcástico.
- No fim das contas, meu tio... seu pai... é um homem de família. É o que ele quer, uma esposa, uma filha e herdeira... Imagino a felicidade dele quando souber sobre você....
Nesse ponto, o sorriso da moça desapareceu, e ela virou momentaneamente o rosto, sentindo lágrimas querendo surgir no canto dos olhos. Meridiana respirou fundo para se conter, antes de voltar a falar, ainda sem encarar Kyle.
- Contudo, aquilo que Ludovic chama de amor é algo bem distante do que eu entendo sobre esse sentimento. Ele quer dominar, controlar, moldar você ao que ele achar melhor ou correto... e, se ele acredita que não é mais capaz de te resgatar de seus "pecados", ele te mata, como fez com minha mãe... - ela soltou um suspiro - De uma forma ou de outra, o amor de Ludovic destrói aqueles que são "a razão do afeto dele".
O rapaz assentiu, compreendendo, enquanto se sentava ao lado dela no chão. Os dois permaneceram em silêncio por algum tempo, cada um com seus próprios, pensamentos, antes que ele se voltasse para a prima, encarando-a com seriedade.
- Obrigado, Meridiana.
- Obrigado por que, Kyle? - ela perguntou.
Ele deu um ligeiro sorriso, o primeiro, talvez, desde que chegara à Inglaterra.
- Por ter sido sincera. – ele respondeu – Por se preocupar comigo.
Meridiana apenas assentiu, pousando delicadamente a mão sobre a do primo recém-descoberto, deixando que os dedos de ambos se entrelaçassem, tal qual a linha negra e retorcida do destino que parecia estar sendo amarrada em volta de ambos. Talvez Kyle estivesse certo... talvez não houvesse realmente modo de fugir de tudo aquilo
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NOTA SOBRE OS PRESENTES DE ANIVERSÁRIO Bem...respondendo à Amy. Como disse na semana passada, a Anna Telles ganhou o poster - diga-se de passagem, ela acertou um bocado de coisa.
Mas, tirando ela, praticamente ninguém se arriscou.
E, para completar, os livrinhos que seriam os brindes se extraviaram no correio.
Portanto, me vejo em um dilema (1) dou os livrinhos para quem nos deu presentes de aniversário? , (2) faço um sorteio?, (3) deixo para uma próxima promoção?
Enfim, estou trocando idéias com os membros do Expresso sobre essas possibilidades, mas ainda não chegamos a um veredito.
É isso. Beijos mil.
ps- Dia NOVE de setembro é aniversário de Amaterasu. Preparem-se para a festa!!!!
E, além disso, dia 13 de setembro também tem a pré-estréia do novo projeto do Grupo Marca Rubra (mais conhecido como esses doidos que escrevem o Expresso e o Amaterasu)
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