Sunday, August 31, 2008

Acordo de Cavalheiros - Parte 1


Ele deixou que seus olhos verdes percorressem as vastas extensões dos terrenos seculares da casa que pertencera à sua família desde a ascensão da Rainha Elizabeth I, e, conseqüentemente do bruxo John Dee, como conselheiro de sua majestade. Como seus ancestrais fizeram anteriormente, Ludovic trocara o refúgio do palacete ao norte da Inglaterra pela comodidade da Mansão próxima a Londres.

O comensal ergueu o copo, sorvendo uma dose da bebida forte, contudo, ao invés do usual "Bafo de Dragão", ele optara por uma dose de vodka glaciana, uma especialidade dos bruxos russos, que ele trouxera de sua última visita aos Ivory. Ludovic virou, desviando o olhar dos jardins para o interior da imensa sala de visitas da mansão.

Os terrenos externos haviam sofrido danos extensos pelos anos de abandono. Com a morte de Marguerite e a prisão de Ludovic, não havia quem pudesse ocupar o lugar. Contudo, a parte interna da casa manteve-se impecavelmente limpa e conservada, graças aos elfos domésticos, que mesmo após a morte de sua senhora, mantiveram a promessa implícita em sua natureza servil de cumprirem eternamente os desígnios de sua falecida mestra.

A sala ainda possuía a mesma suntuosidade que o ruivo se lembrava desde a sua tenra infância. E, em respeito à mãe, ele não alterou absolutamente nada do que ela instruíra aos elfos, a exceção de um pequeno detalhe. Ele mandara que desobstruíssem a entrada do quarto de Elizabeth e voltassem a limpar o local. Aquele seria o quarto de Meridiana quando trouxesse a sobrinha para sua nova casa. Mesmo agora que a menina fora retirada de sua proteção, ele manteve as ordens. Esperava que, apesar da fuga de Meri, ele conseguiria, de alguma forma, trazê-la para o seu lado mais uma vez.

Passos miúdos de um elfo foram ouvidos pouco antes de a porta da sala de visitas se abrir em uma discreta brecha. O ser pequeno e enrugado caminhou em direção a Ludovic, cabisbaixo, incapaz de fitar o seu novo senhor. Mesmo ligado a ele pelos laços invisíveis e praticamente inquebrantáveis da servidão élfica, a pequena criatura se sentia atemorizada diante da presença do homem.

-Me desculpe, meu-senhor-Black-Thorne, meu senhor - o elfo falou, fazendo uma exagerada reverência.

-Diga logo o que o trouxe aqui, Bluffy - a impaciência do comensal podia ser notada apesar do tom baixo de sua voz.

-O senhor Conde das Itália veio visitá-lo, meu senhor - o elfo respondeu.

A boca de Ludovic se curvou discretamente em um esboço de sorriso. Jarno fora mais rápido do que ele previra ao convite que fizera ao amigo.

-O meu-senhor-Black-Thorne pede que o senhor entre, senhor seu Conde - disse Bluffy a Jarno, de volta à ante-sala, curvando-se em meio a uma profunda reverência que quase o fazia rojar-se ao chão. Camposanto sorriu com escárnio, e caminhou até a porta que o separava de Ludovic.

Quando a transpôs, seus olhos de especialista percorreram o ambiente suntuoso e não deixaram de aprovar o que contemplavam. Entretanto, era-lhe certa a superioridade de suas propriedades na Itália, banhadas pelo belíssimo sol meridional que valorizavam e multiplicavam o matiz de seus pertences e de seus jardins.

Também pareceu clara a Jarno di Camposanto a superioridade de sua figura à de Ludovic Black-Thorne. Embora o comensal ruivo fosse bem apessoado, sua discrição e sua predileção por vestes negras pareciam apagá-lo; não fosse o vermelho dos cabelos, Ludovic passaria desapercebido onde estivesse. Exatamente o avesso dele, Jarno, que valorizava ainda mais sua figura, que ele já sabia desde muito jovem ser absolutamente extraordinária.

De pé junto à mesa, Ludovic, em negro, numa veste sem adornos, aguardava que o italiano se aproximasse. E foi o que ele fez, em passos lentos, suaves, felinos, que faziam sua fina capa forrada de cetim ondular maciamente, compondo com extrema elegância o conjunto de sua casaca de veludo marfim e sua bengala de ébano com castão de prata.

Cumprimentou o comensal ruivo com uma bem estudada reverência, executada com naturalidade e fluidez, acompanhada por um sorriso que o italiano sabia praticamente irresistível e que fora motivado por uma doce lembrança que os cabelos ruivos e os olhos verdes de Ludovic lhe evocara.

Os lábios de Meridiana.

- Buona sera, Carissimo. Sono contento em finalmente conoscere questa belissima propriedade – comentou o italiano, com deferência.

Ludovic acenou em cumprimento. O comensal ruivo admitia que ele e o italiano eram diferentes nos mais diversos aspectos. Algumas vezes, incomodava ao inglês o modo como o conde se prendia a aspectos relativamente frívolos e pouco práticos, assim como o anseio perpétuo de Jarno em se destacar em qualquer que fosse o ambiente em que estivesse presente. Para Ludovic, discrição era fator essencial para se alcançar os objetivos. Ele era um predador, gostava disso, e preferia a emoção da caçada, a espreita na escuridão, antes de mostrar plenamente seu poder diante dos inimigos e presas a serem derrubados.

Contudo, ainda assim, Black-Thorne admitia para si mesmo que Camposanto era o mais próximo daquilo que pudera chamar de amigo em sua vida, à exceção, é claro, de seu estimado e falecido primo Rigel Ivory. Foi exatamente em consideração a isso que o ruivo fizera a Jarno a proposta que se referia a Meridiana.

-Boa noite, Jarno - Ludovic falou - Fico feliz que tenha respondido tão prontamente ao meu chamado. Sente-se. Aceita algo para beber? - o inglês completou, dirigindo-se às garrafas que se destacavam em cima de uma mesinha, entalhada em madeira escura, com design vitoriano.

- Grazie, Ludovic - respondeu Jarno, aceitando a cadeira que lhe era oferecida e descalçando elegantemente suas finas luvas de pelica - Vino, per favore. E, tendo em vista que seus chamados ultimamente me têm trazido tanto piacere, nada me resta senão atendê-los prontamente.

Ludovic entregou a taça de vinho para o conde, servindo depois para si mesmo uma nova dose de vodca glaciana. Destilados sempre tiveram preferência no paladar do ruivo. O inglês sentou-se na cadeira defronte a Camposanto para iniciarem a conversa.

-Creio que desta vez também não sairá decepcionado, meu caro - Ludo iniciou, observando atentamente a reação de ansiedade deleitosa que o italiano manifestava - Acredito que já tenha conhecimento do modo abrupto como minha sobrinha deixou nossa propriedade no norte da Inglaterra, sem ao menos se despedir.

Jarno ergueu uma sobrancelha, seus olhos negros brilharam e ele disfarçou um sorriso num gole do excelente vinho. Sim, ele soubera da fuga de Meridiana e ficara deliciosamente surpreso com a esperteza da jovem. Ludovic não era homem capaz de ser enganado por qualquer um.

- E come a fuga da bella signorina Meridiana puó farmi felice? - o italiano perguntou, pousando a taça - Ela está fuora de mio alcance, adesso.

Ludovic sorveu mais um gole generoso da bebida cristalina antes de responder a Jarno.

continua

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