Tuesday, September 02, 2008

Acordo de Cavalheiros - Parte 2


-Embora eu não tenha conseguido localizá-la desde então, tive notícias de que minha sobrinha passou uma temporada no St. Mungus, e tudo indica que ela esteja sob os cuidados de Frida e, possivelmente, Kamus - o ódio e o desprezo pelo casal podiam ser percebidos em cada sílaba pronunciada pelo comensal - Imagino as mentiras e os venenos com que estão enchendo a cabeça da minha sobrinha.

Jarno nada disse, o que foi interpretado por Ludovic como um indicativo de que deveria prosseguir em seu relato.

-Contudo, acredito que esses últimos dois meses comigo foram bem instrutivos para Meri, mas preciso ter garantias de que meu trabalho não terá sido em vão. Como eu estarei fora nos próximos meses a serviço do Lorde, gostaria que você ficasse de olho nela para mim, a visitasse em Hogwarts, porque eu sei que ela irá para lá. Preciso de alguém que consiga anular os efeitos que esta nova convivência com Frida e Kamus possa ter causado a ela.

Jarno deslizou, pensativo, o indicador pela beirada da taça de vinho.

- Deixe-me ver se ho capito sua idea, Ludovic. Você quer que io pare la mia vita soltanto per guardare sua sobrinha? Sabe que anch’io tenho meus próprios planos e compromissos... além de un’altra rubia para cuidar – emendou, malicioso.

Se Ludovic não conhecesse o jeito de ser de Jarno, possivelmente teria tomado a fala do conde como uma ofensa pessoal, contudo, sabia que o italiano gostava de jogos de palavras e pequenas insinuações.

-Como se isso fosse realmente lhe aborrecer, Jarno - o inglês emendou - Contudo, no que diz respeito à "outra ruiva", isso remete à segunda parte da minha proposta.

- Davvero? Prossiga, então; confesso que sono curioso... – disse o italiano, recostando-se melhor na cadeira.

Ludovic deu um novo gole, sentindo-se vitorioso diante do interesse renovado de Jarno. Era divertido o modo quase infantil com que o amigo se deliciava com aquele tipo de ardil.

-Entenda, com a minha posição oficial de diplomata do Ministério Bruxo, a situação do nosso acordo vai precisar de alguns ajustes. Não fica de bom tom que a minha sobrinha, praticamente minha filha, apareça grávida e solteira. Além disso, para você se aproximar dela em Hogwarts, precisaremos de uma razão convincente, a qual Snape ou qualquer outra pessoa não poderá contestar. Portanto, imagino que já tenha intuído que estou lhe concedendo a mão de Meridiana em casamento. Uma mínima mudança nos nossos planos originais, compreende?

Jarno encarou Ludovic por uns instantes e soltou uma risada tão macia quanto maldosa.

- Si, si, tutto questo va molto bene, meu caro, é, uma proposta meravigliosa, ma... Credo che devo lembrá-lo de que a poligamia non’è adotada nella Europa, eh? Io já sono noivo della mia Caríssima.

O ruivo sorriu ao lembrar de Madeleine Sinn, a eterna noiva de Jarno Camposanto. Fazia cerca de dois, talvez quase três anos, que os dois estavam comprometidos e ainda não haviam consumado o casamento. Aquela era exatamente a brecha que Ludovic encontrara para colocar seu plano em movimento.

-Eu tenho consciência disso, Jarno. Não estou dizendo para ficar noivo das duas, apenas de Meridiana. - o comensal respondeu, sério, de modo que não deixaria ao conde dúvidas sobre suas intenções - Conheço os Sinn há mais tempo que você, meu caro. Posso dizer que nossas famílias possuem passados em comum. Imagino que a pequena Maddie não esteja tão ansiosa em casar com você... ela aprecia mais a sua companhia que o seu sobrenome, não?

- Ma non’è uma questão de sobrenome, Ludovic, ma si...

-Deixe-me terminar, meu amigo. - o ruivo levantou a mão, interrompendo o que quer que o moreno fosse dizer - Muitos anos atrás, minha irmã nos envergonhou ao romper o noivado dela com Maxwell Sinn, tio da sua "carissima". Talvez seu enlace com minha sobrinha seja um modo de "reparar" esse erro, uma vez que os Sinn não possuem um herdeiro homem. Meridiana pertencendo a você, seria um modo de pertencer à Madeleine. Além disso, duvido que a sua carissima queira te dar um herdeiro. Você sabe que os Camposanto precisam de alguém para continuar seu legado tanto quanto os Black-Thorne precisam. Com sorte, teremos uma menina para seguir as linhas da minha família e um menino para seguir as linhas da sua.

Jarno considerou a fala do ruivo, e chegou à conclusão de que fazia um imenso sentido.

- Sei coberto de raggione, Ludovic, questo plano é belíssimo e, veramente, resolve il problema de nossas dinastias. Intanto, tutto é perfetto enquanto conversamos qui, em questa casa, e l’azione é ainda una hipótese. Ma, guarda, io estarei entre due donne com personalidade; la mia Caríssima pode anche divertirsi com questa situazione, ma... E Meridiana? Non me parece che lei vá aceitar essere la sposa di um’uomo che tem uma outra donna...

-Existem muitas formas de amor, Jarno. Acho que Meridiana pode aprender a amá-lo sem se importar em dividi-lo com Madeleine. Não são todas as pessoas que conseguem uma completude como a minha e da minha amada Lucy, ou aquela que meus pais compartilhavam. Além disso, - o ruivo sorriu com clara malícia - eu não quero que você fique sozinho na Itália quando precisar dos serviços da minha sobrinha aqui na Inglaterra. Entenda que o destino dela é se tornar meu braço direito, meu pequeno anjo da morte.

Jarno levantou-se da cadeira e aproximou-se da ampla janela do salão. Entre uma e outra nuvem escura insinuava-se uma nesga de luar, uma luz branca e suave que lhe lembrou a pele de Maddie. Sim, teria problemas com sua Carissima quando lhe expusesse o plano de Ludovic, mas acreditava que seria apenas um arroubo passageiro de Maddie; por fim, ela acabaria tomando gosto pela coisa e, se bem a conhecia, chegaria até a gostar de ter Meridiana como sua... irmãzinha.

O italiano fechou os olhos quando um arrepio de prazer percorreu sua espinha. Sim; aquilo, ao fim e ao cabo, seria uma deliciosa aventura...

- Va bene, caro Ludovic – disse ele, finalmente, tornando sorridente para perto do ruivo e estendendo-lhe a mão – Sono d’accordo, aceito lisongeado la bella Meridiana come sposa.

Ludovic sorriu com igual enlevo, apertando firmemente a mão de Jarno. As coisas saíram exatamente do modo como ele desejara, e, agora poderia partir para cumprir a missão que o mestre lhe incumbira sabendo que sua adorada sobrinha estaria em boas mãos em sua ausência.

-A ocasião pede um brinde, meu caro - o ruivo desvencilhou-se do aperto de mão do amigo, servindo-se com outra dose de vodca para depois encher a taça de Jarno com mais vinho.

- Un brinde al'amore? - o conde perguntou, erguendo a taça com um perigoso meio sorriso.

-Também - Ludovic respondeu com uma discreta curva em seus lábios - Mas, principalmente ao futuro e a todos os louros que colheremos de lá.

Ambos os homens ergueram os copos de cristal, que se tocaram em um discreto tilintar, fazendo com que a luz da lua se refletisse, distorcida, nos conteúdos dos recipientes. Algo não muito diferente do modo como a realidade se refletia no interior daqueles homens.

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