Friday, August 22, 2008

O machado desceu mais uma vez, certeiro, sobre a acha de madeira, partindo-a ao meio; Luke perdera a conta de quantas vezes repetira aquele movimento na última hora. Os braços lhe doíam, as mãos estavam cheias de calos, o suor colava-lhe a camiseta ao corpo e, ao seu lado, uma pilha de achas crescia sem parar. Era mais madeira do que a lareira de sua avó consumiria nos próximos meses, mas... ele precisava rachar lenha. Simplesmente precisava, ou sufocaria de mágoa. As palavras que Raven lhe atirara na casa de August Sinclair, mesmo já se tendo passado algum tempo desde então, ainda o aborreciam profundamente; tudo bem que ela estava preocupada com Meridiana e tudo o mais, ele também estava, mas isso não justificava de forma alguma a atitude da sonserina. Não mesmo!

- Miaaaauuu!

O ruivo cravou o machado no toco de árvore que lhe servia de suporte e encarou Venom, o gato que fora de sua antiga namorada Katarina Star e que agora, por idéia de Raven, tornara-se seu animal mágico. O gato parecia avaliar o dono e, sinceramente, não gostar do que via; isso pareceu bem claro a Luke que exclamou, apontando na direção do felino sentado na grama:

- Miau o quê, posso saber? Sim, eu ainda estou emputecido com Raven e não vou esquecer essa desfeita tão cedo! E ela que não pense que apenas uma corujinha é suficiente para me amolecer! Não mesmo!

De fato, no dia seguinte à fuga de Meridiana ele recebera uma coruja de Raven, um bilhete que dizia: Meri está livre e segura; agora tudo ficará bem novamente. Apenas e tão somente isso, e nem sequer um singelo desculpe pela grosseria com que a sonserina o tratara. Então a lembrança espiaçou a mágoa e o rapaz apanhou um novo pedaço de madeira para descarregar-lhe o machado, mas foi interrompido em sua intenção pelo som de uma voz suave, porém carregada de autoridade:

- Já chega, filho. Mesmo que você pusesse abaixo toda a Floresta Negra, isso não aliviaria a mágoa de seu coração. Descanse esse machado, vamos.

Com um suspiro, Luke atirou o pedaço de madeira de volta à pilha e encarou com tristeza a pequena, porém altiva senhora de longas tranças grisalhas que lhe falara.

Kassia Kalderash. Parecia ao ruivo, desde quando menino até hoje, que sua avó materna nunca mudara de aparência. Apesar da aparente fragilidade, era possível sentir o poder que emanava a velha cigana. E também era absolutamente perceptível o amor que ela dedicava ao neto, por ele retribuído na mesma medida.

- Mas, vó, eu preciso tirar essa mágoa daqui de dentro – justificou-se Luke, batendo com o punho na altura do peito – Rachando lenha, é como se eu a extraísse de mim a cada golpe do machado.

- Sim, filho, você disse bem: é como se extraísse. Entretanto, tudo o que você consegue com isso é transferir a mágoa de seu coração para a madeira – explicou Kassia, envolvendo uma acha entre suas mãos finas – Posso senti-la pulsando na casca, encharcando os veios, corrompendo a seiva. E é por isso, meu filho, que precisarei tratar magicamente toda essa madeira antes de poder colocá-la em minha lareira; se eu a usar como está, em vez do aconchego que seu calor comumente nos proporciona, o que obteremos ao queimá-la será a frieza do seu ressentimento.

- O que eu faço então, vó? – perguntou o rapaz, vexado.

- Já experimentou tentar perdoar quem magoou você? – ela perguntou, prendendo ternamente a mão do rapaz entre as suas.

- Isso vai ser difícil, vó, pelo menos por agora.

- Que seja, mas você conseguirá. Conheço o poder do sangue que você traz nessas veias – disse a mulher, com um sorriso – Agora venha comigo, há uma limonada esperando por você na cozinha. Nada como limão para expurgar qualquer mal.

- Eu já disse que amo você, vó? – perguntou Luke, apertando Kassia num abraço de urso.


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August Sinclair observava a sobrinha absorta a mexer o chocolate quente, e teve uma irrefreável sensação de dejà vu.

- A última vez que vi alguém mexer um chocolate dessa maneira, Raven, a pessoa em questão fez seu primeiro desdobramento astral e ficou em estado de estase por três dias – comentou, com um sorriso sonhador.

- Hã? O que foi, titio? – perguntou a jovem, estremecendo de leve – O senhor por acaso está falando da Tia Ondina?

- Sim. Ela devia ser pouca coisa mais nova que você quando isso aconteceu. Flora entrou em pânico, Stella não parava de resmungar e Alex, como vocês jovens costumam dizer, achou o acontecimento o maior barato.

Raven riu, e August também sorriu, satisfeito.

- Sabe, filha, é bom ver você alegre novamente. Achei que isso nunca mais ia acontecer...

- Agora estou mais tranqüila, tio, minha irmã está de volta – disse Raven, pousando a caneca de chocolate sobre a mesa – Mas eu ainda me preocupo com as seqüelas que a maldade daquele cretino possam ter deixado em Meri... Ludovic Black-Thorne é um sujeito extremamente cruel, titio, e só Merlin sabe o que aquela cabeça doente pode ter planejado para sacanear minha amiga!...

August meneou a cabeça em assentimento. E, aproveitando a receptividade da sobrinha, emendou:

- Imagino como isso deve incomodar você, filha. Porém, acredito que não seja só isso o que vem lhe preocupando de uns tempos para cá...

Raven suspirou e afagou a orelha de Jack, que dormia esparramado em seu colo.

- Titio, como é que a gente explica para uma pessoa que fez uma tolice sem tamanho, disse o que não devia e a magoou sem querer? – perguntou, corando de leve.

- Bem, filha, um jeito de fazer isso é procurar essa pessoa e dizer exatamente o que você me disse, acrescentando um pedido de desculpas – respondeu August, com simplicidade.

- Hm... E se a pessoa não quiser aceitar as desculpas? – arriscou Raven.

- Acho que depende muito de quem for, filha. Se essa pessoa tiver cabelos vermelhos, acredito até que possa demorar um pouco, mas ela irá aceitar – respondeu Sinclair, com uma piscadela.

- O senhor é impossível, titio – sentenciou Raven, escondendo um sorriso na caneca de chocolate quente.

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