Visita - Final
Meridiana seguiu na frente, ainda completamente calada. O moreno puxou a cadeira para que ela se sentasse, postando-se, logo em seguida, no lado oposto da mesa, defronte a ela. No mesmo instante em que se acomodaram, duas pequenas perdizes apareceram nos pratos. A ruiva continuou impassível, enquanto o italiano também ignorava a comida. Recostado na cadeira com estudada displicência, Jarno continuava encarando a menina tal qual um predador encara a sua presa. Depois, aproximando-se da mesa, apoiou a cabeça nas mãos e comentou com voz macia:
- Fico feliz que esteja usando i miei regalli. Eu soube, quando a conheci no mezzo dalla fiesta degli Star, que por baixo daquela giovane strega com jeito de ragazza se escondia una donna troppo bella.
A moça mordeu de leve o lábio inferior, tentando conter a resposta malcriada que se formava dentro dela. Detestava aquele tipo de joguinho de sedução barata, mas queria saber exatamente por qual motivo Camposanto estava ali, por que ela estava vestida daquela maneira, e por que Ludovic arquitetara tudo aquilo.
-Talvez você devesse ir direto ao ponto, Camposanto - disse Meridiana, esforçando-se para se manter impassível.
O Conde sorriu ainda mais, fechando os olhos de puro deleite. A mocinha à sua frente se mostrava um desafio interessante. Uma vontade ferrenha a ser habilmente quebrada e conquistada. Parecia-lhe, no fim das contas, que seu acordo com Black-Thorne lhe trouxera muito mais vantagens que as que ele acreditara serem possíveis. A sobrinha de seu "tutor" era um prato extremamente apetitoso, com ares de ser... apimentado. Fingindo não ouvir a pergunta de Meridiana, Jarno pegou a garrafa de vinho tinto que estava sobre a mesa, e pacientemente a desarrolhou; serviu para si uma dose. Ergueu a taça, girando-a levemente entre os dedos e aspirou o odor da bebida, antes de degustar com indiscutível prazer o líquido cor de sangue.
-Ma che falta de educação a minha... - o conde falou, com um meio sorriso - Deveria ter servido um pouco para você também. Ti piace un pò di vino, carissima?
Os olhos verdes da moça chispavam de raiva, e aquilo divertia imensamente Jarno. Ele conscientemente estava testando até que ponto iria a paciência da jovem ruiva. E paciência não lhe faltaria: o Conde adorava ruivas.
-Respondendo às suas dúvidas, tuo zio ed io abbiamo um acordo de cavalheiros. Pelo que conversei com il Signor Black-Thorne, ele deseja não apenas tê-la como braço diretto a serviço del Signor Oscuro, mas voglia herdeiros para perpetuar o legado de sua famiglia. Ludovic deseja que eu tenha um filho com você.
A vista de Meridiana se turvou momentaneamente com o choque daquela revelação. Quando achava ter conhecido o limite de loucura de Ludovic, um novo acontecimento fazia quem que a dimensão da insanidade dele se ampliasse. A moça respirou fundo, tentando se recompor. Seus dedos deslizaram discretamente sobre a mesa, alcançando o garfo de prata até o momento intocado. Fosse o que fosse que Jarno quisesse fazer, ela não facilitaria as coisas para ele.
-Então você veio aqui para cumprir sua parte no acordo? - ela perguntou, tentando manter sua voz fria e neutra.
O italiano riu, divertido, os olhos brilhantes de satisfação.
- No, mia bellissima. Non bisogna di preocuparsi. Não vou forçá-la a nada. Tuo zio não gostaria, tampouco io. Come questo vino, sei uma beldade para ser degustada suave e lentamente. Esperarei pela hora certa. Hoje foi apenas uma... formalização do acordo.
Jarno levantou-se de sua cadeira e aproximou-se lentamente de Meridiana. Seu andar lembrava o de um felino, suave e gracioso, porém extremamente ameaçador. Os olhos castanhos do Conde a fitavam atenta, hipnoticamente. A jovem sentia que não podia desviar seus olhos dos do homem, e nem podia sair do lugar. Jarno ajoelhou-se ao lado da cadeira dela e, aproximando-se ainda mais da ruiva, sussurrou-lhe ao ouvido, com um tom quente, macio, ainda mais afável que o utilizado durante toda a conversa:
- Ma questo non significa che io não possa pegar um regallo esta notte...
Em um último esforço, a ruiva ergueu o garfo, tentando acertar Camposanto com ele. Mas a mão do italiano envolveu o pulso de Meri, fazendo com ela soltasse o objeto. No instante seguinte, ela sentiu os lábios quentes do Conde colando-se aos seus, forçando passagem. Meridiana estava fraca demais para resistir, e acabou por se deixar beijar por Jarno. Quando ele a soltou, ela estava ligeiramente sem ar. Uma ânsia se formava na boca do estômago.
Camposanto levantou-se, satisfeito com seu prêmio. Não tão satisfeito caso ela o tivesse beijado por vontade própria, mas já era um começo.
- Scusatemi, mia bellissima, ma tenho que partir. Mio tempo con te è finito. Espero muito em breve vê-la de novo...
Fazendo uma pequena reverência, Jarno partiu em direção à parede maciça, que mais uma vez dissolveu-se para dar-lhe passagem. Meridiana permaneceu sentada, estática, com a cabeça encostada no tampo da mesa, as lágrimas quentes descendo rosto afora. Pequenos espasmos percorriam seu corpo pequeno, a ânsia crescendo.
Agora Meri tinha consciência de que só lhe restava uma única solução. A solução que não só frustraria permanentemente os planos do tio, como também daria a Meridiana a liberdade final. Ela apenas precisava fazer tudo com calma para que o tio não desconfiasse do que ela estava planejando. Em breve, Meridiana estaria fora daquela prisão, de um jeito ou de outro...
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