Visita - Parte 1
A ruiva abriu os olhos, piscando-os algumas vezes. Depois de tantos dias naquele cárcere já se acostumara com a penumbra constante em que vivia imersa. Sentou-se na cama, o corpo bastante dolorido pela última visita de Ludovic. O acesso de fúria dele ante a tentativa de fuga da sobrinha no dia anterior deixara marcas no corpo da menina. Meridiana podia ainda ver as impressões dos dedos do tio nas manchas arroxeadas presentes em seu antebraço. Deixou um gemido baixo de dor escapar por entre os lábios quando tentou se levantar. A cabeça ainda estava pesada. Efeito da poção entorpecente que Ludovic lhe ministrara quando finalmente se cansou de castigá-la.
Desceu da cama, um pouco cambaleante. O contato dos pés com o chão frio fez com que seus sentidos se alertassem, ainda que precariamente. A passos trôpegos decidiu se dirigir à pia, já consertada, para lavar o rosto. Parou de estanque, quando percebeu, aos pés da cama, uma grande caixa de papelão branco. Abaixou-se para pegar o objeto. Sentou-se na beirada da cama. Ao retirar a tampa da caixa, uma expressão surpresa surgiu em seu rosto. No interior havia um vestido vermelho, de festa. Longo e de alças, com um generoso decote revelando as costas, sapatos de salto no mesmo tom; acompanhava um pequeno estojo preto que continha um colar dourado ornamentado com esmeraldas, brincos e um delicado relógio fazendo conjunto. Um pequeno papel branco se desprendeu quando Meri abriu o estojo. Ao passar os olhos no conteúdo do bilhete, reconheceu imediatamente a letra do tio: Você vai ter uma visita esta noite. Esteja pronta às 7 horas da noite.
Meridiana pegou o pequeno relógio, observando as horas. Passava das seis. Talvez ela devesse simplesmente ignorar as instruções do tio. Não havia razão alguma para obedecer a Ludovic, especialmente depois do tratamento que ele lhe dispensara no último encontro. Mas, apesar dos pesares, toda aquela situação a intrigava. Ela não conseguia imaginar quem poderia ser essa estranha visita, especialmente levando em consideração o vestido que lhe fora enviado. Definitivamente, aquele não era o tipo de roupa com que Ludovic a presentearia.
Assim, movida pela curiosidade - e pelo desejo inconsciente de abafar a frustração pela tentativa malfadada de fuga - , Meridiana dirigiu-se ao chuveiro para preparar-se para o misterioso visitante.
Quando terminou a ducha, percebeu que a mesa de refeição estava posta para dois, com direito a castiçais, velas e talheres de fino acabamento. Uma certa ansiedade começou a forma-se na altura do estômago de Meridiana. A situação se tornava cada vez mais bizarra e incompreensível.
Após vestir-se, dirigiu-se à pequena penteadeira que Ludovic havia providenciado. Na realidade, a prisão de Meridiana assemelhava-se mais ao quarto de uma pequena princesa a um calabouço.
A menina olhou-se no espelho. Aquela roupa fazia com que ela parecesse bem mais velha do que na verdade era. Sentia-se estranha, quase indecente ao vestir aquilo. Considerando o que acontecera na noite anterior, ela tinha uma boa aparência, apesar do decote amplo, o tecido fino e insinuante cobria a maior parte das manchas roxas e do vergões que ganhara de "presente" do tio.
Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir a voz soturna do tio, dizendo: "Ela já deve estar lhe aguardando". Olhou na direção em que Ludovic sempre costumava surgir. Como sempre a parede se dissolvera magicamente, mas, pela abertura, ao invés do ruivo, surgiu um homem alto, pele morena cor de jambo, cabelos compridos na altura dos ombros. Olhos penetrantes que pareciam avaliar a moça da cabeça aos pés, praticamente despindo-a. Um sorriso malicioso formou-se nos lábios dele:
-Buona notte, mia bella signorina. Da molto tempo não nos vemos pessoalmente... desde a festa dos Star, non’è vero, minha caríssima?
A moça de cabelos carmesim levantou-se de supetão da penteadeira. Não conseguiu reprimir a expressão de surpresa ao ver o Conde Jarno Massimo de Camposanto diante de si. O mesmo Jarno que assediou Raven na festa de Katarina Star há mais de um ano. O mesmo Jarno que a atacou na festa, embora ela não se lembre dos detalhes, apenas de Lucien a resgatando. O mesmo Jarno responsável pelos textos do Olho da Serpente.
Jarno caminhou até a moça com elegância e firmeza. Tomou uma das mãos da ruiva, beijando-a com delicadeza.
-É un piacere revê-la, signorina, murmurou, com um tom quente na voz.
A ruiva sentiu um arrepio de asco ante o toque. O italiano era um homem belíssimo, ela não poderia negar, mas, mesmo com seu jeito inebriante e sedutor, quase hipnotizante, ele era um monstro aos olhos de Meridiana. Tanto pela associação a seu tio quanto pelas atrocidades às quais ela sabia que ele estava direta ou indiretamente ligado.
Meri puxou a mão para si. Jarno nada comentou; apenas ampliou o sorriso e avaliou mais uma vez a jovem, com um olhar aveludado.
-Acho que nossa ceia nos aguarda, caríssima - disse ele, apontando a mesa.
continua...
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