Tuesday, May 13, 2008

Um fio de esperança - final


Esquecendo a sede, a fome e a fraqueza, tomada quase por completo pela esperança de finalmente fugir dali, Meridiana empurrou o guarda-roupa, descobrindo, com um sorriso amplo a lhe tomar o rosto, que havia um buraco abaixo dele. Contudo, ele estava gradeado.

Ela sentou-se no chão e envolveu os dedos nas grades, fazendo força para move-la, mas aquilo só fez com que ela se cansasse e se sentisse ligeiramente zonza. Entretanto, Meridiana não iria desistir tão fácil, ao quando, pela primeira vez em dias, ela tinha diante de si uma oportunidade de se livrar daquele suplício.

A moça levantou os olhos, vasculhando o recinto meticulosamente, tentando descobrir se poderia usar alguma coisa para ajudar a mover o gradil. A busca dela acabou por fazer com que ela notasse os dois canos de metal debaixo da pia. Ela correu até lá, percebendo, aliviada, que eram possíveis de desenroscar.

Depois de um tempo, ela estava novamente sobre a grade, com a alavanca improvisada. A água que escorria por debaixo da pia desfalcada tornava o chã um pouco escorregadio, mas não chegou a atrapalhar a tarefa da ruiva, que, conseguiu fazer com que a grade finalmente cedesse.

Ela arrastou com dificuldade o gradil de ferro para depois fitar com inegável satisfação, a passagem escura e completamente acessível que agora existia aos seus pés. Ela era mais escura que um poço de piche, mas, Meri não sentiu medo ao, cuidadosamente, deixar que seu corpo descesse por ela. As mãos procurando falhas nas paredes para que pudesse se apoiar. Qualquer coisa que a aguardasse nas entranhas sombrias daquele acesso lhe pareciam mais convidativo que permanecer prisioneira de Ludovic.

A medida que fazia descia pelo buraco, sentindo a água vinda da ausência cano que furtara da escorrer-lhe pelo corpo, empapando-lhe as roupas e os cabelos, mas paradoxalmente, deixando os sentidos dela alerta, Meridiana se sentia mais leve e confiante, de que, no final daquele caminho estreito e obscuro, haveria uma saída.

Finalmente, ela sentiu o chão firme sob seus pés. Ateando no escuro, descobriu uma nova passagem. Um túnel se insinuava na parede maciça. Sem pestanejar, Meridiana entrou no túnel. Mas, a medida que ela andava, ele parecia ficar cada vez mais estreito, e estava começando a encher-se de água. Ela precisava andar arqueada, uma das mãos estendida para frente em busca do caminho, enquanto a outra tateava a parede. Em determinado momento, ela sentiu algo rastejando em seu braço e sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.Prendeu a respiração por alguns segundo, tentando não imaginar o que poderia ter sido aquilo.

Por minutos que pareceram horas, ela andou, andou e andou. Até que, finalmente, ela viu o caminho se tornar cada vez mais claro. Mais alguns metros e ela saiu do buraco estreito, dando de cara com a ampla galeria de uma caverna subterrânea. No alto, havia uma passagem mais estreita que a do túnel, mas grande o suficiente para que Meridiana pudesse sair dali.

A luz do dia iluminava parcialmente as pedras da caverna, e a ruiva quase chorou de alegria ao perceber a luz do sol pela primeira vez em meses. Estava perto de sua liberdade.

Com o coração acelerado, ela começou a escalar a parede disforme, com muitos mais entrâncias que a entrada pela qual descera antes. Mais rápido do que ela imaginava, estaria fora dali.

Foi então que ela sentiu dedos firmes agarrarem a sua perna e a puxarem para baixo. No instante seguinte, ela estava caída na pequeno lago que já se formava no chão da caverna. Ludovic apontava a varinha para ela. A ponta brilhando ameaçadoramente, mas, Meri sabia que não era o Avada. Ele não tornaria as coisas tão fáceis. A moça teve vontade de chorar, mas se conteve, entretanto, não conseguia se mover dado o esforço e a frustração.

Black-Thorne se aproximou, erguendo a sobrinha em um impulso. As mãos pesadas dele comprimiam violentamente os braços de Meridiana. Um pouco mais de pressão e ele poderia quebra-los. Ela trincou os dentes por causa da dor, mas não soltou nenhum gemido.

-Tudo o que eu faço é professar meu amor de pai por você, Meri. Te preparar para seguir seu caminho como minha sucessora, como a herdeira legitima dos Black-Thorne - Ludovic disse, os olhos crispando em fúria - E é assim que você me paga por todo o bem que estou lhe fazendo? Nós vamos voltar para o seu quarto, minha querida. E depois que eu selar a passagem, vamos ter uma conversa séria como nunca tivemos antes.

A ruiva não respondeu, continuava com os dentes cerrados, o máximo que conseguiu foi lançar um olhar desafiador ao tio. Não havia o que responder, não havia o que temer, não quando ela sabia que nada impediria Ludovic de despejar sobre ela toda a ira que Meridiana enxergava no fundo das orbes do tio.

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