Sunday, May 18, 2008

Meridiana estava deitada na cama de seu cárcere. Abraçava a boneca de porcelana que o tio lhe dera de presente em seu primeiro dia de prisão. Uma pequena cópia dela própria: encaracolados cabelos de nylon vermelho e pequenos olhos verdes pintados com esmero.

No dia anterior, a jovem feiticeira fora submetida a mais uma aplicação de secreção de besouro da melancolia. Ainda sentia no corpo os efeitos. Estava com os membros completamente adormecidos, sem ânimo nem mesmo para comer. Os olhos se perdiam em um ponto indefinido do aposento. Queria apenas ficar ali, deitada... Foi quando então que ouviu passos ecoando atrás de si. O tio havia chegado.

O comensal contornou a cama, dando um beijo no rosto da menina. Meri não se mexeu, continuou fitando o espaço vazio diante de si.

Ludovic sentou-se no chão, ao lado da cama, observando a sobrinha com um olhar de ternura, ou pelo menos aquilo que ele supunha ser esse sentimento. O ruivo passou os dedos suavemente pelo rosto de uma ainda estática Meridiana.

-É realmente incrível o quanto você se parece com a sua mãe, Meri.

Os olhos esmeraldas da garota moveram-se para fitar o rosto do tio ao ouvi-lo mencionar a falecida irmã. Aquela foi a única reação que Meridiana foi capaz de esboçar.

-Elizabeth era uma jóia rara e preciosa. Uma bruxa estupenda. Com muito talento, personalidade forte e grande inteligência. Era uma exemplar único dentre os membros da nobreza bruxa. Eu tinha muito orgulho da minha irmãzinha... Ela teria tido um futuro formidável se não tivesse se deixado contaminar de modo tão vulgar e virado às costas para as nossas tradições e nosso sangue. Mas você, minha querida sobrinha, pode ter tudo o que minha amada irmã renegou. Pode atingir uma glória que a doce Betsy jamais sonhou alçar. Vejo um potencial imensurável em você, pequena. Você é a herdeira legítima do sangue e do poder dos Black-Thorne. Tenho certeza que me fará muito orgulhoso!

A jovem ruiva sentiu um leve espasmo percorrer por seu corpo entorpecido. Seu estômago revirou ao imaginar que tipo de orgulho Ludovic esperava dela. Traições e assassinatos, certamente. Coisas pelas quais ela sempre sentiu repulsa. Meridiana era incapaz de trair alguém... Não, isso não era uma verdade completa. Havia sim, uma única pessoa que ela trairia sem pestanejar: o homem que estava sentado ao seu lado. O assassino de sua mãe e de seu pai.

E tal traição seria, em breve, consumada. Bastava que a garota desse o primeiro passo para desferir o golpe final contra seu tio. E aquele era o momento perfeito para colocar em movimento as engrenagens do pequeno plano que concebera. Lutou contra o estupor que dominava seu corpo e sua alma, dizendo, quase em um sussurro:

-Você tem razão, tio... Sou uma Black-Thorne... Preciso começar a agir como tal...

Ludovic fitou Meridiana por alguns segundos, com o olhar intrigado na face. Será que finalmente conseguira trazer a sobrinha para o seu lado?

-O que quer dizer com isso, minha querida?

A ruiva suspendeu a respiração por breves segundos, tomando fôlego para dizer as difíceis palavras que pronunciaria a seguir:

-Eu... eu... quero fazer a iniciação...

-Você sabe o que isso significa, Meridiana? Você terá que matar alguém. Um trouxa imundo, é verdade, mas você se recusou a matar aquele elfo doméstico que eu trouxe para o seu treinamento.

-Não duvide de mim, tio - esforçou-se a menina para dizer, quase em um fio de voz.

O comensal sorriu de plena satisfação, beijando a fronte da sobrinha.

-Estou muito feliz com a sua decisão, minha querida. Desde que te vi pela primeira vez, tão pequena, tão frágil, saindo do St. Mungus com sua mãe, eu soube que um dia você seria minha. Minha criança, minha herdeira. E que nosso destino seria ficarmos juntos para sempre, sempre e sempre.

Ludovic sentia-se em estado de puro deleite. Finalmente a filha de sua irmã se tornaria sua verdadeira pupila e daria continuidade ao futuro glorioso dos Black-Thorne. Em breve, ela portaria a Marca Negra e seria uma servidora do mestre como Ludovic era agora. Lutariam lado a lado, extirpando toda a impureza que se instaurara no mundo mágico. E ambos seriam uma força a ser temida.

O homem levantou-se, pousando um beijo no rosto da sobrinha.

-Vou me ausentar por alguns poucos dias, irei ao exterior realizar uma missão de suma importância para o mestre. Quando voltar, providenciarei os detalhes de sua iniciação. Enquanto isso, trouxe um presente para que não se sinta tão sozinha. Até breve, meu anjo.

Escutando os passos de tia ecoando cada vez mais distantes, Meridiana fechou os olhos, deixando-se levar pela doce escuridão. Gastara todas as parcas forças que lhe restavam naquela jogada... E o tio parecia ter acreditado plenamente no blefe dela... As coisas estavam saindo exatamente do jeito que ela queria.

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