Tuesday, May 20, 2008

Ciranda de Poder - Parte 1


A sala de jantar da casa de Asterion era um dos lugares mais requintados que Ludovic Black-Thorne julgara já ter conhecido, e ele não conhecera poucas casas de tradicionais famílias puro-sangue. Todo o ambiente era decorado em infinitas matizes de marfim, do teto ao piso lustroso. Os tapetes de pele eram tão altos que parecia quase como estar caminhando sobre nuvens macias. Sem dúvidas era um ambiente de extremo bom gosto e ele não poderia esperar menos de sua tia Betelgeuse, afinal nisso ela parecia-se muito com sua finada e querida mãe.

Desde que chegara ao clã Ivory sentiu-se quase como se estivesse em sua própria casa. A ostentação, as tradições, o glamour que somente bruxos dignos e de sangue tão puro quanto o dele poderiam possuir estava presente em cada pequeno detalhe. Desde as carruagens puxadas por granianos que serviam como o principal meio de transportes entre as terras do clã - era quase como se os Ivory fossem donos de uma pequena cidade à parte de Moscou - às vestimentas e os modos das pessoas ali dentro.

Todos eram polidos, espirituosos, inteligentes... Perfeitos exemplos de tudo o que um bruxo de estirpe deveria ser. Olhando ao seu redor, Ludovic podia ver claramente porque seu primo Rigel era um bruxo assim tão esplêndido, não haveria como ser diferente com a criação magnífica que recebera.

Com a chegada dos seguidores do Lorde das Trevas ao poder, Ludovic viera à Rússia como um enviado oficial do Ministério Bruxo Inglês, situação bastante diferente daquela que ocorrera pouco mais de um ano atrás, quando se encontrara às escondidas com a tia, à beira do lago de uma das propriedades.

Naquele instante, ele estava sendo recebido com as devidas honras que um emissário de um governo estrangeiro merecia. Ele estava sentado à mesa de um grande banquete, circundado pelos membros das principais casas do clã russo.

Ludovic pegou a taça de vinho tinto se encontrava diante dele e sorveu um gole, deleitando-se com o saber cítrico e levemente adocicado da bebida.

- A verdade sobre a hospitalidade dos Ivory faz jus aos relatos sobre ela – o ruivo disse, pousando a taça na mesa e dando um meio sorriso.

Da ponta da mesa, Betelgeuse Ivory lhe sorriu.

- Ora, mas não poderíamos dispor de menos para um representante do ministério inglês que também ocorre de ser meu querido sobrinho e alguém tido em tão alta conta por nosso último líder, meu falecido Rigel. – disse a mulher.

A própria Betelgeuse parecia deleitada por ter Ludovic ali e, especialmente, por estar tendo a oportunidade de exercer sua liderança perante os demais patriarcas do clã.

- Realmente, minha cunhada... – uma voz suave soou à direita da mesa, vinda de uma mulher ainda bela apesar da idade, com seus longos cabelos castanhos presos em um coque ornamentado – Você tem um sobrinho esplêndido.

Betelgeuse agradeceu-lhe com um ligeiro meneio de cabeça, mas Ludovic percebeu que a expressão no rosto da tia parecia estar mais fechada.

- Obrigada, Irina.

- Quem deve agradecer sou eu – o comensal retomou a palavra – e, espero, sinceramente, que este seja apenas o primeiro de nossos encontros. Se a proposta que trago ao líder do clã for aceita, creio que este será o começo de uma relação deveras frutífera para todos os interessados.

- Uma proposta? – a mulher chamada Irina manifestou-se novamente – Ora, Betelgeuse, você anda escondendo cartas na manga, minha cara?

- Do que isso tudo se trata? – o homem que sentava à direita de Irina, e também era o marido da mesma, bateu com o pulso na mesa, seus olhos azuis soltando farpas ao encarar Betelgeuse enquanto seu tom de voz aumentava perigosamente – Você iria aceitar a proposta dele – disse, indicando Ludovic com um gesto um tanto grosseiro – sem consultar a ninguém? Iria passar por cima de todos nós? Quem você pensa que é, sua estrangeira?!

- Já chega, Leonid!

Todos os ocupantes da mesa voltaram-se até a outra ponta desta, onde um homem de meia-idade havia se levantado. Ele era alto e tinha um bom porte, seus olhos eram tão azuis quanto o céu em um dia claro, os cabelos eram completamente grisalhos e tinha um bigode igualmente farto e grisalho.

- O que quer que nosso ilustre visitante tenha a relatar – e ele curvou sua cabeça à Ludovic, em um gesto de educação e desculpas – será abordado em uma reunião que contará com a presença certa de vossas senhorias. Tenho certeza de que essa é a vontade da nossa líder.

E então todos os olhares se voltaram para a outra ponta, esperando pelo pronunciamento de Betelgeuse, alguns deles, especialmente os homens, a encaravam como se desafiassem-na a discordar.

A mulher parecia um pouco mais pálida que de costume e apertava o guardanapo de pano entre uma das mãos. Ela esboçou um sorriso nervoso.

- É claro, Gustav. Essa era a minha intenção desde o início. – sentenciou Betelgeuse.

- Esplêndido! – exclamou Irina, sorrindo para todos ali e segurando firmemente o braço do marido – Agora que estamos todos de acordo, por que não voltamos a apreciar nosso jantar?

Todos os convidados pareceram concordar com a sugestão da mulher, voltando a apreciar a vasta variedade de iguarias que compunham a mesa do banquete, assim como a conversas mais amenas e triviais.

Ludovic pegou novamente a taça de vinho, sorvendo o líquido cor de sangue sem conseguir refrear um sorriso malicioso. Somente naquele instante, ele constatou que o poder que a tia possuía dentro do clã era bem menor do que ele supunha.

Era verdade que ele amava Betelgeuse, ela era um reflexo de Marguerith, era sangue de seu sangue, contudo, era apenas uma sombra do que a adorada mãe de Ludovic foi um dia.

A liderança do clã parecia fragmentada, e os joguinhos de provocações e auto-afirmações que Ludovic presenciava naquela mesa eram deleitosos aos olhos do comensal. Portanto, a tia que lhe perdoasse, mas, talvez aquela situação fosse bem mais proveitosa para ele do que supusera anteriormente.

Sabendo exatamente o que dizer, Ludo poderia facilmente manipular todos ali, levando a cabo tanto os interesses do mestre quanto os dele próprio. Era apenas uma questão de saber como girar aquela ciranda de poder.

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