Ciranda de Poder - Parte 2
Betelgeuse Ivory acordara apreensiva naquele dia, visto ter dentro de si a ciência de que dentro de poucas horas o seu futuro diante do clã – se é que fosse haver algum futuro ao seu aguardo – estava para ser decidido em uma assembléia sobre a qual gozava de pouca a nenhuma influência.
O papel que exercia entre os Ivory e a envergadura pela qual atendia: “A Grande Matriarca”, eram frutos do respeito que alguns ali ainda deviam aos seus finados marido e filho mais velho. Dentro de si, Betelgeuse bem sabia, ela realmente era uma estrangeira, exatamente como Leonid Ivory a acusara de ser... E os Ivory não gostavam de estrangeiros.
Provavelmente os mais conservadores dentre eles sequer enxergavam com bons olhos a visita de Ludovic e estariam mais do que prontos a recusar qualquer proposta que o inglês trazia consigo.
E Betelgeuse encontrava-se nervosa especialmente com respeito àquilo... Qual seria o motivo que trouxera Ludovic à Rússia? Tivera pouquíssimo tempo a sós com o sobrinho desde que ele chegara, especialmente após aquele fatídico jantar. Leonid e Irina pareciam ter se precavido para que não passasse muito tempo com o Comensal... Talvez temerosos demais que Betelgeuse pudesse vir a ter um trunfo diante do conselho do clã, afinal eles também não sabiam que boas novas Ludovic trazia da Inglaterra.
Seria algo relacionado à filha de Kamus?
Ela bem se lembrava da garota que havia conhecido há pouco mais de um ano... Havia cruzado olhares com a jovem por não mais do que um minuto, mas fora o suficiente para perceber que ali estava o que precisava para garantir sua supremacia entre os Ivory.
Eles poderiam não querer a ela, Betelgeuse, como sua líder, mas uma menina com sangue Ivory e, mais ainda, a última descendente legítima de Stephanio Ivory, uma herdeira da Casa de Asterion... Era algo que os membros daquele clã dariam tudo para ter entre seu seio.
A Casa de Asterion, lar da linhagem dos descendentes diretos de Allardon, o mais velho dos irmãos bruxos que fundara o clã, desde os primórdios vinha gerando os líderes que levaram aquela família à glória.
Muitos dentro dos Ivory acreditavam que sem a liderança de um descendente de Allardon o clã estaria amaldiçoado. E aquela, Betelgeuse sabia, era a única razão pela qual ainda exercia uma ínfima soberania no clã: eles hesitavam retirar formalmente o poder da Casa dos herdeiros de Allardon e receberem a sua maldição.
Se Ludovic apenas tivesse sucedido com o plano de trazerem a menina de Kamus para a Rússia... O Comensal tivera a garota à sua mercê e a deixara escapar por entre os dedos... E se agora o inglês não trouxesse consigo uma carta tão boa quanto Adhara então Betelgeuse temia que não haveria aliança alguma com o Lorde das Trevas.
Mas seu querido sobrinho portava serenidade e, ela ousaria arriscar, até mesmo triunfo em seus olhos verdes enquanto esperava quietamente em seu lugar junto à mesa de reuniões para que as formalidades daquela manhã tivessem início.
Quando Gustav Ivory, da Casa de Anachor, levantou de seu lugar para dar abertura à sessão daquele dia, Betelgeuse sentiu algo tremer dentro de si e ela não soube dizer se o presságio era de algo bom ou ruim.
- Senhor Black-Thorne, – começou Gustav, com sua voz retumbante – por favor, condena-nos a honra de sua palavra.
Ludovic levantou-se, cumprimentando a todos os representantes dos Ivory meneando a cabeça em uma leve reverência. A expressão do homem era aparentemente neutra, contudo, quem conhecesse o ruivo mais profundamente poderia ver um brilho de sagacidade no fundo de seus olhos.
- Venho diante de vocês como representante oficial do governo bruxo inglês. Embora, nosso atual ministro seja Pius Thicknesse, creio que muitos já deduziram que o Herdeiro do Grande Slytherin, o Grande Lord das Trevas, é o nosso verdadeiro líder.
O inglês fez uma pausa nesse instante, a fim de avaliar qual seria a receptividade dos Ivory às suas palavras e notou que três ou quatro entre eles - Irina Ivory inclusa - assentiram discretamente. Dessa forma, sentiu-se impelido a continuar:
- Há muito, meu mestre deseja firmar laços com os Ivory. O Lorde acredita que uma aliança entre o clã Ivory e nossa organização seria de proveito mútuo. Ele propõe que os Ivory nos ajudem com suas influências e recursos na conquista de toda a Europa oriental. Em troca, ele se dispõe a ceder seus assassinos, incluindo os gigantes que se uniram à nós, para exterminar todos os inimigos de seu clã. Usando os assassinos do mestre, nenhuma das outras famílias poderia acusá-los de qualquer coisa. Assim, a Rússia passaria ao controle total dos Ivory. E tudo o que o Lord pediria em troca seria uma aliança mútua e contínua e a não interferência no resto da Europa Oriental. - o comensal discursou.
Betelgeuse, sentada em seu lugar, apesar do rosto impassível, sentiu a apreensão crescer, ela ouvira exatamente as mesmas palavras no ano anterior, se o sobrinho não trouxesse algo mais consistente, todo aquele teatro que encenavam naquele instante, não parecia de ser meramente uma perda de tempo.
- Talvez, possa parecer pouco para pessoas cujas origens se confundem com os primórdios da história desta terra – Ludovic fez uma pequena pausa, deixando que um meio sorriso insinuasse em seus lábios – Contudo, a cada dia que passa, o poder de seu clã declina vertiginosamente. Houve um tempo em que a mera menção do nome dos Ivory trazia um misto de terror e admiração tanto entre aqueles que circulavam nas altas esferas de poder da sociedade mágica quanto entre os parias que viviam de burlar a lei, seu poder ia muito além das fronteiras russas. Acreditem em mim quando digo que os Ivory não incutem o mesmo respeito que antes. Eu pude observar isso em minhas viagens à Europa Oriental no último ano a serviço do mestre. Em terras mais distantes, vocês são motivo de descrença, como uma instituição em desuso, prestes a se esfarelar.
Irina percebeu os pulsos de Leonid cerrarem-se perigosamente por sob a mesa e a face do russo se contorcer em um esgar de fúria mal contido. Testemunhar a ruína do clã era a maior dor de Leonid e ela deveria reconhecer que aquilo doía dentro dela própria.
Apesar de ser casada com o líder da Casa de Fiodor, Irina também era uma Asterion em suas origens, era a irmã de Stephanio e tia de Rigel. Ela tinha correndo igualmente em suas veias o sangue do venerável Allardon.
- O que eu ofereço a vocês é a oportunidade de recuperarem toda glória e prestígio que os Ivory merecem. Digo isso não apenas como enviado do Lord, mas como primo de Rigel Asterion, a quem eu amava como um irmão. Eu ofereço a vocês um legítimo herdeiro da casa de Asterion, alguém que possam usar como figura centralizadora de suas famílias. Alguém que possam educar desde a mais tenra infância como o líder que necessitam.
continua...
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