Ciranda de Poder - Parte 3
O que eu ofereço a vocês é a oportunidade de recuperarem toda glória e prestígio que os Ivory merecem. Digo isso não apenas como enviado do Lord, mas como primo de Rigel Asterion, a quem eu amava como um irmão. Eu ofereço a vocês um legítimo herdeiro da casa de Asterion, alguém que possam usar como figura centralizadora de suas famílias. Alguém que possam educar desde a mais tenra infância como o líder que necessitam.
Naquele instante Ludovic teve a certeza de que havia conseguido capturar a atenção de todas as pessoas presentes naquela sala quando viu-se alvo de vinte e três pares de olhos azuis.
Mas Betelgeuse, em especial, parecia incapaz de observar outra coisa se não o sobrinho, como se fosse aquela a primeira vez que visse o ruivo em toda a sua vida. Seria possível que ele afinal trazia consigo a sua tábua de salvação?
- E não é uma criança qualquer. Ele é o filho de Kamus Deneb Ivory, que embora seja um renegado ainda possui o sangue dos Asterion nas veias, sendo o caçula do grande Stephanio; e de Frida Grygiel, neta do Barão Ptior Grygiel, um dos generais de Grindelwald, que lutou lado a lado com Kamus Asterion, antigo e respeitado líder desta família.
O sorriso no rosto do comensal ampliou-se ainda mais ao notar que mesmo os mais austeros e contidos dos Ivory não conseguiam refrear uma expressão de espanto diante das palavras dele.
- Minha oferta é essa criança ainda não nascida. – ele concluiu, quase sentindo o triunfo emanar de cada uma daquelas palavras.
A sala permaneceu silenciosa. Os membros do conselho encaravam-se entre si e roubavam olhares de esguelha para Ludovic, mas nenhuma ousava dizer qualquer palavra. Alguns demonstravam surpresa, outros descrença, mas impresso na maioria daquelas faces estava a esperança. Esperança de terem diante de si uma chance para o retorno aos áureos tempos do clã.
Betelgeuse Ivory, entretanto, parecia ainda incapaz de processar o choque que aquela notícia havia lhe trazido. Quase não ousava acreditar... Pois o que deixara os lábios de Ludovic parecia perfeito demais para ser real.
Aquilo poderia salvá-la. Um bebê, filho de Kamus... Um neto seu! A criança, é claro, teria de ser criada dentro da Casa de Asterion e lá dentro ninguém poderia interferir. Ao menos aquele era o seu último reduto. Ela poderia criar a criança da forma que quisesse, moldá-la de forma a melhor atender seus interesses... Poderia fazer daquele bebê o que quer que ela quisesse que ele se tornasse. Até mesmo o seu marionete.
Um pigarreio baixo se fez ouvir e todas as cabeças se voltaram para a origem do som: Irina.
- Sr. Black-Thorne, – ela iniciou – por mais deleite que as suas notícias nos tragam, eu me sinto obrigada a apresentar uma pequena falha no que, eu certamente acredito, seria um plano maravilhoso. – Irina encarou-o, tentando passar alguma cordialidade em seus olhos frios – Mesmo que esse suposto bebê seja mesmo filho de Kamus Ivory, como o senhor alega... Na verdade, sobretudo se ele realmente for o filho de meu sobrinho mais jovem, o que o faz crer, Sr. Black-Thorne, que meu sobrinho entregaria o infante de bom grado aos seus braços já que ele claramente demonstrou que não tem intenções de manter laços com esta família? E, ainda mais... – a mulher ergueu sua voz consideravelmente nesta – O que faz o senhor acreditar que tem alguma ínfima chance contra o meu sobrinho quando todos aqui nesta sala sabem tão claramente que Kamus derrotou-o e mandou-o para uma prisão imunda onde o senhor permaneceu junto com a escória da sociedade por mais de dezesseis anos?
Ludovic sentiu o ódio surgir dentro dele, incandescente, queimando-lhe o peito. Talvez, se sua missão não fosse tão importante, ele se daria o luxo de matar aquela mulher arrogante naquele mesmo instante, a despeito dos demais membros do conselho. Sua derrocada pelas mãos de Kamus, dezesseis anos atrás, ainda se configurava como uma das lembranças mais amargas de sua vida. O primo lhe roubara não apenas a liberdade, mas a chance de viver ao lado das pessoas que lhe eram mais caras.
Contudo, o comensal se conteve. Havia muito em jogo ali, não apenas os interesses do mestre, mas os dele próprio. Afinal, caso o acordo fosse selado, ele teria com aquilo a tão almejada vingança contra o primo.
- Como a senhora mesma disse, isso ocorreu dezesseis anos atrás, eu aprendi com meus erros. – o homem respondeu, com uma expressão dura e séria – Não planejo atacar Kamus diretamente, mas alcançar meus intentos usando o elo mais fraco da corrente: Frida.
A tensão no ar poderia ser cortada com uma faca. Apesar de suas palavras contidas, os olhos verdes de Ludovic irradiavam uma dose palpável de fúria.
Leonid Ivory havia deslocado discretamente uma das mãos até um bolso do casaco, sentindo ali o peso da adaga que carregava. Não permitira que aquele inglês encostasse um dedo em sua mulher. Se aquele ruivo tentasse alguma coisa, estaria morto antes mesmo de conseguir sacar a varinha.
- A polonesa trabalhou para meu mestre durante a primeira guerra, mas nos traiu. Ela procurou um de meus associados recentemente, fingindo estar ao nosso lado e oferecendo a criança como garantia de segurança dela própria. Obviamente, isso não passa de um blefe. Contudo, fingimos aceitar o acordo, afinal, o que ela nos oferecia era proveitoso demais para ignorarmos. A minha intenção é fazer com que ela acredite estar em segurança, e, assim que a criança nascer, matar Frida com minhas próprias mãos, e trazer o bebê para vocês.
Tão logo o comensal terminou de falar, Betelgeuse Ivory levantou-se altivamente de sua cadeira.
- Bem, está dito então. – a mulher manifestou-se com a imponência que fez vários dos presentes lembrarem-se porque afinal o grande Stephanio havia tomado aquela inglesa como esposa – Meu sobrinho apresentou sua proposta e respondeu às inquirições de minha cunhada. Proponho agora que levemos essa oferta à deliberação. – disse ela, não querendo dar tempo a nenhum outro conselheiro para que continuassem interrogando Ludovic.
Deveria apressá-los para que deliberassem naquele momento, enquanto muitos ainda estavam sob o encanto da notícia de um novo descendente de Asterion e a chance de que houvesse uma resposta favorável à aliança com o Lord das Trevas era maior.
- Nossa matriarca falou com sabedoria. – concordou Gustav Ivory, que parecia ser um dos poucos aliados de Betelgeuse – Devemos todos levar a proposta do Sr. Black-Thorne em julgamento e retornarmos com a resposta definitiva em uma hora.
Em seu assento, Ludovic anuiu educadamente.
Um a um, os Ivory foram levantando-se de seus assentos, Leonid e Irina liderando o cortejo e o mesmo sendo fechado por Betelgeuse e Ludovic que deixaram, de braços dados, a sala de reuniões, prevendo que aquela uma hora seria igualmente inquietamente para ambos.
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