Promessa - Final
Poucos segundos depois o rapaz alto de cabelos castanhos médio e olhos tom de mel cruzou a porta, aproximando-se de Selune em passos claramente aristocráticos e concisos.
Ele a cumprimentou com um aceno de cabeça, tomando a mão de Selune e depositando nela um suave beijo conforme pregava a etiqueta, o que fez a moça perceber que o assunto que trazia Tristan ali era demasiadamente formal.
-Pode se sentar, Mr. McCloud - ela disse, indicando o divã de veludo azul, sentando-se defronte a ele no outro móvel.
-Achei que havíamos passado da fase de nos chamarmos pelos sobrenomes, Selune - o rapaz apontou, dando um esboço de sorriso.
-Foi você quem começou com todas as formalidades padrão, Tristan, apenas estou seguindo o protocolo.
O rapaz abaixou o rosto, meneando a cabeça de modo divertido.
-Talvez eu tenha exagerado no tom, - ele levantou a cabeça, encarando Selune com uma expressão séria - contudo, o assunto que me trouxe aqui é importante e merecia ser tratado como tal.
Selune abriu a boca para perguntar exatamente o que seria aquele assunto, contudo, Brenda adentrou o recinto, trazendo a bandeja de chá.
-Obrigada, Brenda - a francesa disse, enquanto a criada fazia uma mesura antes de sair da sala. - Prefere seu chá com creme ou açúcar, Mr McCloud?
-Creme, por favor.
Selune entregou a xícara a Tristan, esperando que ele provasse o líquido quente antes de perguntar o que o trouxera ali.
-Então... - ela falou, dando a deixa ao rapaz.
-A história é um pouco longa e preciso ir ao começo de tudo para que você possa entender o que me motivou a visita-la hoje - Tristan começou, pousando o chá no carrinho que Brenda trouxera. - Yvaine me contou que comentou com você, na festa de Slughorn, sobre os planos de minha tia Gèneviève e da Madame du Lac de acertarem um casamento entre nossas famílias.
-Tia Mildred - Selune deixou uma careta de desaprovação surgir espontânea em seu rosto, o que não passou despercebido ao rapaz, que quase riu ante o gesto.
Apesar do formalismo e da etiqueta esmerada, sua tia-avó não era má pessoa, e a menina a sabia incapaz de fazer qualquer coisa que a ferisse ou prejudicasse; muito antes pelo contrário, iria fazer o que estivesse a seu alcance para que Selune fosse muito feliz. O problema, entretanto, era que na atual idade em que a jovem herdeira dos Mont-Blanc Priout se encontrava, o que Mildred julgava ser importante para a felicidade era um bem ajambrado casamento.
-O que você não sabe, Selune, é que elas realmente levaram o plano adiante, apresentando a idéia aos meus pais.- Tristan prosseguiu - Sinto confessar, mas, meus pais não são pessoas muito fáceis. Eles realmente levam a sério o fato de termos uma ascendência nobre. Eles apenas aprovam minha amizade com Yvaine porque acham que é de bom tom pessoas da nossa classe agirem como benfeitoras de pessoas da classe social de Yvy.
- Sacre bleu... - a loirinha deixou escapar, visivelmente horrorizada.
-Eu sei que não é um comportamento muito digno - ele estreitou os olhos, sério. - Mas eles são assim. A questão é que eles procuraram sua mãe e sua avó propondo o nosso enlace.
Selune arregalou os olhos, estupefata com a notícia. Sua mãe e Vovó Vicky nunca comentaram sobre aquilo.
-Elas duas declinaram o pedido, pois queriam que você escolhesse por si própria com quem se casar. Contudo, eu admito que fiquei curioso sobre você, pelo modo como sua tia te descreveu, pela insistência dos meus pais, e a observei de longe por algum tempo. Até que nos encontramos naquela reunião do Clube do Slughorn e cantamos juntos.
-Você foi lá para me ver? - ela perguntou, ligeiramente confusa.
Tristan meneou a cabeça.
-Não, eu fui lá por causa de Melinda. Ela estava saindo com Zambini na época, embora, parece que na realidade ele era um dos contatos dela entre os Jovens Comensais que seus amigos investigavam. Ela ainda estava ou está comprometida com Ian McNair. Parte disso Yvy me contou. Mas eu não vim falar da Mel. - ele fez uma pequena pausa - Naquele dia, no clube, eu percebi que poderia me apaixonar por você. Como de fato, me apaixonei. Fui eu quem te beijou na noite da festa de Natal do Slughorn, Selune.
A loirinha levantou de supetão, deixando a xícara de chá se espatifar completamente no chão.
-Ma Morganne... C'etait toi, l'outre nuit? - ela levantou-se, começando a andar de um lado para o outro no pequeno espaço diante do divã.
Tristan levantou-se do próprio assento, colocando as mãos nos ombros da francesinha.
-Eu não queria te perturbar, me desculpe.
Ela balançou a cabeça algumas vezes.
-Non é você que me deixou assim, Trristan. É que eu também soube algumas coisas imporrrtant sobre mon père et mon grand-père...é como se tanta coisa estivesse mudando tan rrapido.
- Eu queria ter te contado antes - o rapaz assumiu - Até prometi a seu irmão que faria isso.
-Lucien sabia? - ela arregalou os olhos, sentindo uma pontada de raiva embolar na garganta - Por que ele não me contou?
-Porque ele achou que era uma coisa que deveria ser resolvida entre nós dois - Tristan respondeu.
Selune anuiu, percebendo que, apesar de todos a tratarem como uma menina, tentando protege-la, eles estavam, ao mesmo tempo, dando o espaço que ela precisava para crescer e decidir as coisas por si só. Mesmo Tristan estava fazendo isso naquele momento.
A francesa respirou fundo tentando se acalmar. O rapaz a observava atento, esperando o próximo ato dela. Selune simplesmente fechou os olhos, pousando a mão no peito do rapaz, sentindo a correntinha de metal sob a camisa dele. A mesma que sentira na noite do beijo. Ela então percebeu que um aroma conhecido se despregava de Tristan. Um cheiro bom, meio cítrico, meio amadeirado, um cheiro no qual ela desejou permanecer mergulhada para sempre na ocasião passada.
Havia também aquela sensação de conforto e reconhecimento que sentiu na noite da festa. Selune confundira seus sentimentos algumas vezes no passado, chegou a imaginar que se apaixonara por Lucien quando o conhecera, o mesmo aconteceu com Herman, tempos depois. Contudo, agora, o que sentia era algo completamente diferente do sentimento fraternal que tinha pelos outros dois.
Era uma necessidade, um anseio, e, ao mesmo tempo, uma completude. Sem querer e sem perceber, ela também se apaixonara por Tristan McCloud.
-Realmente era você - ela disse, abrindo os olhos, o encarando com um sereno sorriso.
O rapaz retribuiu de forma discreta, tirando a mão de Selune de seu peito e beijando a palma dela.
-Você se lembra do que me pediu naquela noite? - ele perguntou.
A loirinha meneou a cabeça em negativa.
-Eu não me lembro de muita coisa...
-Você me pediu para prometer que não iria te abandonar, que não iria te deixar sozinha e com medo nunca.
-E o que você respondeu? - ela perguntou.
- Eu prometi que estaria sempre por perto como estou agora, e nunca iria deixá-la só enquanto você assim quisesse... - Tristan falou - Se for o seu desejo, eu vou manter a promessa.
Selune não respondeu, para a própria surpresa, ela ficou na ponta dos pés, trazendo seu rosto para perto do de Tristan. Sem mais pensar, sem sequer abrir os olhos, buscou os lábios do rapaz, que soube então, qual era a resposta dela. Sem medo, enlaçaram-se num beijo profundo, cheio de ânsia, desejo, cheio da toda verdade que eram ambos até aquele momento e tudo o que poderiam ser dali por diante. Conforme toda a carga represada ia arrefecendo, o beijo se amainava, tornando-se cálido, calmo até que, por fim, selou-se num leve toque de lábios.
Aos poucos, eles se soltaram, e, Selune, ainda se segurando na camisa de Tristan encostou a cabeça no peito dele, murmurando baixinho.
-Eu aceito sua promessa, e quero tentar fazer o mesmo por você.
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