Sunday, April 20, 2008

Missão


Quando Lucien aceitou trabalhar para August Chenoweth em troca de ajuda para localizar Meridiana, o rapaz tinha a idéia “romântica” e até mesmo ingênua de que passaria seus dias em meio a pelejas contra comensais, infiltrações e missões de vida e morte.

Entretanto, desde que ele chegara, o velho jornalista havia designado o austríaco para trabalhos mais burocráticos e administrativos. Lucien percebeu que, por mais que ele tivesse desejo de sair o país afora caçando Ludovic ou qualquer outro comensal, Chenoweth não era irresponsável ou desesperado a ponto de colocar um garoto completamente despreparado em um campo de batalha.

O rapaz tinha uma rotina puxada. Ele treinava feitiços de defesa e ataque indicados por August pelas manhãs, à tarde cuidava e organizava os papéis e arquivos do homem, e, à noite, lia os livros que o senhor lhe emprestava.

Faziam as refeições juntos, onde conversavam sobre política, filosofia, literatura, história, mas, sobretudo, a respeito da guerra.

Aos poucos, Lucien foi se inteirando do trabalho de Chenoweth, e percebendo que todas aquelas pequenas coisas que realizava, eram importantes para o funcionamento da organização. August repetia ocasionalmente que “a perfeição mora nos detalhes. Nós temos que agir como engrenagens bem lubrificadas para trabalharmos em perfeita sincronia uns com os outros, em vez de criar fricção”.

Era por isso que Lucien levara bastante a sério a primeira grande tarefa que August lhe incumbira. Tudo o que o homem dissera foi que precisava comprar uma casa grande, para cerca de oito a dez pessoas, a maioria pouco mais velha ou da idade de Lucien. A única exigência era um lugar que permitisse acesso a telefone e internet, uma vez que o velho jornalista acreditava que meios trouxas poderiam ser bem empregados contra os comensais que tanto desprezavam qualquer aparato de origem não-mágica.

Os demais detalhes, ele deixaria a critério do rapaz.

Ele pensou consigo em todos os aspectos que poderiam tornar a casa mais prática para seus intentos e ao mesmo tempo confortável para seus ocupantes.

Deveria ser grande, preferencialmente com quartos individuais, cozinha ampla e funcional e mais de um banheiro. Em um lugar tipicamente trouxa, que fosse majoritariamente ocupado por estudantes, de modo que uma casa cheia de jovens não chamasse a atenção.

Foi então que ele se lembrou de Elephant & Castle. O bairro era perfeito!

Embora Lucien fosse estrangeiro, e morasse na Grã-Bretanha não fazia muito tempo, ele podia dizer que conhecia a cidade relativamente bem. Quando começara a namorar oficialmente Meridiana, nas últimas férias de Natal, ela resolvera leva-lo aos pontos não necessariamente turísticos da cidade, mas que eram importantes da perspectiva da moça

Elephant & Castle foi um desses lugares. Ele ainda se lembrava deles dois, caminhando abraçados, pela London Road, enquanto ela contava a triste história do príncipe Charles I, que em 1625, se apaixonara perdidamente pela Enfanta de Castilla. Contudo, o amor dos dois não acabou se concretizando por questões políticas, pois o príncipe herdeiro não podia se converter ao catolicismo para desposar sua amada princesa tal qual exigiam os espanhóis.

O drama vivido pelo jovem, no entanto, foi perpetuado pela abertura do pub, batizado de Enfanta de Castilla, o nome sofreu corruptelas até se tornar conhecido como Elephant & Castle, embora nunca houvesse existido nem elefantes nem castelos por lá.

O bairro não era necessariamente bonito, o principal shopping do lugar era considerado por muitos como uma das mais feias construções de toda a capital. Ainda assim, Meridiana amava aquele lugar. Havia a efervescente presença dos estudantes advindos da London South Bank University e da London College of Printing . E também dos imigrantes, especialmente africanos e hispânicos, e de seus descendentes que ocupavam o local. E como se aquilo não fosse o suficiente, ainda existiam livrarias e sebos.

Lucien quase sorriu ao se lembrar do brilho nos olhos de sua ruivinha ao contar tudo aquilo, mas o sorriso foi sufocado pela saudade, e pela preocupação. A falta que ela fazia doía mais do que ele imaginava ser capaz de suportar.

O rapaz inclinou-se na janela da casa que visitava naquela tarde. Ela preenchia todos os critérios que tanto ele quanto August estipularam, com a vantagem de ser ponto de fácil acesso aos pontos de ônibus e metros do bairro.

Definitivamente, Elephant & Castle era o local perfeito para os propósitos deles, pois era também uma das uma das principais artérias no tráfego e comunicação entre linhas de ônibus, metrô e trem de Londres. Sem contar sua privilegiada posição próxima ao Rio Tamisa, e o fato de ser ponto de ligação entre as áreas Norte e Sul da capital.

Um lugar onde poderiam passar despercebidos e teriam fácil acesso a meios de transportes. Lucien não tinha dúvidas da aprovação de August, portanto, foi com esta certeza que ele respondeu à pergunta que o agente imobiliário acabara de lhe fazer, assim que Lucien se afastou da janela.

-Eu vou ficar com a casa!

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