Wednesday, April 16, 2008

Promessa - Parte Um


Um som soturno de cravo enchia, naquela manhã, a sala de música do casarão dos Priout. As notas pungentes de Toccata and Fugue in D Minor de Bach preenchiam cada lacuna do ambiente, enquanto Selune deixava que cada um daqueles acordes vibrasse dentro dela, transbordando em música a ansiedade que ela sentia crescer em si.

Pois, era apenas aquilo que ela podia fazer no momento, deixar-se perder na música a frustração de não poder fazer nada concreto a respeito da guerra. Meridiana estava desaparecida e seu irmão partira, sem se despedir, para um lugar que apenas Alexis sabia onde era. O próprio padrasto, a mãe e a avó trabalhavam com cautela no ministério. Os amigos estava espalhados pelo país, alguns mesmo até fora dele.

A moça se sentia a própria princesa encastelada, incapaz de fazer o que o desejo de seu coração demandava: ajudar aqueles que ela amava.

Depois que a mãe lhe retirara, finalmente, todos os véus que obscureciam os fatos que levaram às mortes de Sebastian e Noah Priout, o desejo de Selune de se firmar mais no mundo aumentara.

Com isso, a frustração se ampliava. Fosse outra época, talvez ela não estivesse tão desconfortável com a rede de proteção que se formava ao redor dela.

As mãos dela deixaram que os dedos se perdessem ligeiros pelas teclas, o corpo acompanhando a melodia com mesmo furor. Ela cerrou os olhos esperando que o fel amargo que sentia dentro de si se diluísse completamente na música.

Quando Selune abriu os olhos, sentia-se um pouco melhor. Ela sorriu melancolicamente para si própria ao constatar que, justamente ela, que sempre fora fã fervorosa da Donzela de Rohan, Eówyn, acabara se tornando a Senhora de Rivendell, Arwen Undomiel.

Agora ela percebia o quão injusta havia sido com a elfa. Eowyn teve a sorte de encontrar uma brecha que lhe permitisse ir a campo lutar, enquanto a Arwen foi negado esse privilégio. Ela era a "filha do rei", a senhora do palácio, os preceitos e regras que a circundavam não davam a ela a opção de partir para lutar lado a lado com seu amado. Não quando ele se foi sob a benção do conselho, não quando foi preciso negociar com o próprio pai a decisão de se tornar uma mortal e viver o resto de seus dias ao lado de Aragorn caso ele retornasse.

Selune descobriu que era preciso ter forças quase sobre-humanas para aceitar a dor de ser deixado para trás, de se tornar ignorante sobre o bem estar de todos a quem amava, de saber que a ela restava apenas um interminável e doloroso esperar... Nem mesmo um estandarte de boa sorte, como Arwen enviara para Aragorn através de seus irmãos, ela poderia enviar para aqueles com quem se preocupava.

A moça suspirou ruidosamente, sentando, no beiral da janela da sala de música, sobre uma das pernas, enquanto deixava a cabeça se apoiar sobre o joelho da outra, observando pela fresta das cortinas alvas o dia que transcorria fora dos portões de "seu reino".
Selune se sentia obstinada em fazer sua vontade. Caso surgisse a brecha, ela se permitiria novamente a se tornar Eowyn. Enquanto isso, faria o melhor que podia dentro das possibilidade que as amarras que lhes eram impostas permitiam.

Um toque leve na porta chamou a atenção da moça, acompanhando de passos leves de uma das criadas da casa.

-Miss Priout - a mulher de meia idade chamou, entregando um cartão para a moça - Visita para a senhorita.

Selune observou a letras impressas no papel retangular. Aquele era um tipo de introdução formal, quase em desuso mesmo entre os bruxos mais nobres. Portanto, foi com imensa surpresa que viu o nome de Tristan McCloud no cartão.

-Pode traze-lo até aqui, Brenda, e, se puder providenciar um chá para nós dois. - a mocinha respondeu.

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