Sunday, April 06, 2008

Exílio


“Edimburgo, Escócia, aos quatro dias do sétimo mês do ano de 1997.

Caro Isaac,

Primeiramente, eu estou bem, obrigada. Espero que esta também lhe encontre em boas condições. Está fazendo bom uso de sua temporada em Paris?

Em segundo, obrigada por sua carta, devo lhe dizer que ela chegou na hora certa.

Como já deve ter notado pelo remetente, estou passando uma temporada em Edimburgo. É onde meus avós maternos possuem residência em uma área trouxa. Os dias por aqui são deveras tediosos, os únicos sons que costumo ouvir quando estou dentro de casa é o barulho que os sininhos das bicicletas - aquele veículo trouxa de duas rodas movido à força humana, creio que você saiba do que se trata - fazem quando as crianças passeiam pelas ruas do subúrbio.

Nunca estive em uma área tipicamente trouxa antes e, apesar de minha avó ser bruxa e manter-se informada sobre o que anda acontecendo em nosso mundo, a paz e tranqüilidade que cerca este lugar chega a ser bizarra. As mortes ainda não chegaram por aqui, mas sabemos que é uma mera questão de tempo.

Sobre o que você me perguntou a cerca de Mina... Bem, para a sua sorte, parece que todos os bruxos aqui na Escócia conhecem os MacFusty ou então tem algum grau de parentesco com eles. Pelo que ouvi dizer, Mina foi passar as férias no Japão com um primo, parece que existem alguns MacFusty perdidos até por lá. Mas isso é tudo o que sei.

Quanto à França e a proposta de seus pais... Devo reconhecer que a idéia de que você e Cecille se transfiram para Beauxbatons não é de todo ruim. Se já sabíamos desde o ano passado que Hogwarts não era a fortaleza que todos julgavam, agora então, com a morte de Dumbledore... Não é difícil de imaginar.

Na verdade sequer sabemos se haverá uma Hogwarts para a qual regressarmos no próximo ano. Ainda não houve nenhum pronunciamento oficial sobre isso.

Em termos práticos, toda a sua família estará mais segura aí na França. Você esteve envolvido em certas coisas durante o último ano letivo... E não sabemos exatamente quais conseqüências ainda podem ocorrer. Talvez aquilo que houve em junho seja apenas uma pequena parcela.

Mas de qualquer jeito, você já é maior de idade pela nossa lei... E cabe a você tomar a decisão de permanecer na França ou voltar para cá. Apenas esteja ciente de que as coisas aqui na Inglaterra pioraram - e muito - durante o último mês. O seqüestro de Meridiana é prova disso. E, não, ainda não tivemos qualquer notícia sobre ela, mas agradeço pela sua preocupação.

Enfim, o que quer que você escolha, espero que te faça feliz. Você ainda tem um certo tempo até setembro, então não se apresse a tomar uma decisão.

Dê minhas lembranças à Cecille.

No aguardo de mais notícias,

Adhara Katrine Ivory.”


Paris, a cidade luz. Cidade dos amantes, dos poetas, da boemia. Em outra época, ele talvez aproveitasse os dias que passava caminhando por entre casais enamorados e turistas empolgados com tudo o que os cercava.

Para ele, contudo, aquela estada na França não era férias... mas exílio. Ninguém o consultara se queria partir, deixar para trás a Inglaterra, os amigos, tudo o que conhecia, tudo o que lhe era familiar.

De certa forma, aquilo o fizera perdoá-la. Isaac agora sabia o que era não ter escolha diante das ordens de sua família, sabia o que era ser arrastado de casa para outro país. Mas ele, ao menos, despedira-se dos amigos.

Um sorriso amargo atravessou os lábios do rapaz enquanto ele via a Torre Eiffel aproximando-se à medida que seus passos o impulsionavam para frente. Ao menos tivera alguma notícia dela... Adhara lhe escrevera dizendo que, pelas notícias que conseguira em Edimburgo, Mina estava no Japão.

As mãos nos bolsos, um cachecol colocado de qualquer maneira para proteger-se do vento frio que amanhecera soprando naquele dia, ligeiramente cabisbaixo, ele se perdia em reflexões. Se ele fora forçado a se mudar para outro país, ela tivera de partir para outro continente. Ele apenas atravessara o Canal da Mancha; ela percorrera quase metade do mundo.

- Je ne sais pas, Francis, je ne sais pas...

Os olhos dele foram atraídos por uma menina de cabelos longos que, à entrada de uma padaria, discutia qualquer coisa com um jovem atendente, que segurava nervosamente seu chapéu de padeiro.

- S'il vous plaît, Charlotte. Je serai fou.

Ela pareceu dar um ligeiro pensamento àquilo que ele acabara de dizer, antes de sorrir como se tivesse acabado de ganhar um presente e, praticamente pendurando-se nos ombros do rapaz, sapecar-lhe um beijo estalado na bochecha.

- Demain je retourne, mon cher.

Virando-se, ela saiu praticamente correndo, quase tropeçando no inglês, que se desviou no último segundo. Isaac deu um meio sorriso, voltando-se para o padeiro, que passava a mão na bochecha que ela tinha beijado.

- C'est l'amour... – o rapaz murmurou quando percebeu o olhar dele, antes de voltar-se novamente para a padaria.

Isaac meneou a cabeça, continuando seu caminho. Tinha de voltar para casa, desde manhã ele saíra sem dar notícia, e àquela altura já passava, e muito, da hora do almoço. Não sentia vontade de voltar, contudo. O ambiente formal e impessoal do hotel em que estavam hospedados parecia oprimi-lo, lembrando-o constantemente de casa.

Aquilo era interessante. Talvez, até um ano atrás, ele não se sentisse tão deslocado naquela situação. Talvez ele pudesse se acostumar com as camareiras e os carregadores, o gerente sempre solícito oferecendo seus préstimos, os atendentes lembrando-o de deixar a chave de seu quarto...

Mas ele mudara. Naqueles últimos meses, ele mudara. Ela o mudara. Por mais tolo que isso pudesse soar, ele devia à Mina uma série de pequenas mudanças na maneira como via o mundo ou mesmo como se portava.

Devia a ela o fato de ter se tornado um pouco mais espontâneo, um pouco menos aristocrático e formal em suas maneiras. Devia a ela o fato de seu mundo ter se expandido do círculo de "nobres" puro-sangue para os amigos que tinham formado o Olho do Grifo, que tinham festejado no QG ou saído em investigações e se colocado em risco por eles... Devia a ela o fato de ter deixado de se preocupar apenas com o que o rodeava de imediato, deixado sua posição de imparcialidade e quase indiferença...
Mina conseguira fazê-lo extremamente contente e extremamente miserável. Mas, independente do que estava fazendo, ela sempre acabava conseguindo atingi-lo.

Isaac voltou a menear a cabeça. Ela tinha o crédito de ter lhe aberto os caminhos, mas ele os seguira por sua vontade. Ele tomara suas decisões sozinho, fosse quando se decidira a protegê-la e ajudá-la, fosse quando se declarara. Tinha consciência de cada um de seus atos.

E, nesse momento, ele tinha uma outra decisão para tomar. Uma decisão que apenas ele poderia fazer e que, talvez, o separasse definitivamente da imagem da jovem domadora...

Ele poderia segui-la agora que sabia onde Mina estava e tratar de resolver a situação deles de uma vez por todas. Ou ele poderia abandonar a família – pois sabia que eles não concordariam –, voltar para a Inglaterra e encontrar uma maneira de se opor àquilo que ele condenava. Podia procurar a Resistência, trabalhando para sua consciência... Ou podia partir atrás dela, seguindo o que lhe ditavam os sentimentos.

Ainda não sabia que direção tomar. Não sabia se estava realmente disposto a se sacrificar por uma causa... Mas ele também não tinha como saber qual seria a resposta de Mina; nem se ela teria uma resposta.

Mas, fosse como fosse, de uma maneira ou de outra, muito em breve, ele estaria deixando o exílio...

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