Friday, April 04, 2008

Tudo tem um preço - Final


Lucien sentiu-se repentinamente zonzo, como se uma urgência em ser plenamente sincero reverberasse por todas as fibras de seu ser. O rapaz cerrou os punhos, tentando conter aquela vontade quase incontrolável. Intuitivamente ele concluiu que deveria haver veritasserum diluído na bebida que tomara há pouco no pub, e, por mais que fizesse esforço, temendo que, talvez houvesse caído em uma armadilha, ele acabou por dizer tudo o que a moça requisitara.

- Meu pai... Alexis von Weizzelberg... foi ele quem me enviou, ele disse que vocês poderiam me ajudar a encontrar a minha namorada, Meridiana Johnson...

- A garota que foi seqüestrada? - a moça perguntou, arqueando de leve a sobrancelha, ela lembrou-se de ter lido uma nota pequena no Profeta Diário sobre o ocorrido.

O austríaco assentiu. Ela deu um ligeiro suspiro em resposta.

- Eu vou te levar até Thémis, vamos precisar fazer uma aparatação acompanhada.

O rapaz sentiu os dedos da mão da moça se entrelaçarem aos seus, embora parte dele ainda estivesse um pouco receosa, algo na voz da desconhecida fazia com ele confiasse nele. Além disso, tinha chegado tão longe... Era melhor se agarrar àquela esperança tênue de conseguir alguma pista para salvar sua fraulëin a continuar preso à nenhuma esperança.

Lucien cerrou os olhos bicolores, sentindo o corpo ser puxado com força. Ele já havia feito o teste de aparatação e conseguira a habilitação, mas, entre aparatar si mesmo para onde quisesse e ser arrastado por outra pessoa sabe-se lá para onde havia uma grande diferença.

Quando o rapaz abriu os olhos novamente, estava em uma biblioteca que pareceu a Lucien bem antiga. Um senhor de cabelos grisalhos, com um exemplar do Profeta Diário e um cálice de xerez, encarava, com simpatia, os recém-chegados.

- Olá, querida. Aliás, você ficou muito bem com essa cor. – ele sorriu, antes de voltar-se para o rapaz – E parece que temos visita... Onde você encontrou esse distinto senhor?

- É um presente de Omar. – ela respondeu, dando um meio sorriso – Desculpe, vô, eu tenho de voltar ao pub. O senhor tem mais alguma coisa para mim?

- Não querida, obrigado.

Com um último aceno, então, ela desaparatou, deixando-os sozinhos. O velho dobrou seu jornal, levantando-se, sem deixar a postura simpática.

- Meu jovem, você sabe quem eu sou? Digo, quem realmente sou?

- Não. Eu sei apenas que o senhor é Thémis. – ele respondeu, ainda sentindo os efeitos da poção da verdade.

- Mas eu sei quem é você, Lucien von Weizzelberg, e sei quem você procura. – ele sorriu, de forma quase deliciada.

Por alguns instantes, os dois apenas se encararam, Lucien na expectativa, sem saber exatamente o que esperar do personagem que tinha diante de si.

- Eu sou August Chenoweth, senhor Lucien. – ele finalmente se apresentou –A moça que o trouxe aqui era minha neta, Euterpe Chenoweth. E, quanto a Omar... Bem, acho que manterei ainda esse segredo.

Lucien estreitou ligeiramente os olhos, recordando-se de algumas ocasiões em que ouvira aquele nome. Hogwarts. Olho do Grifo. Profeta Diário.

- O senhor era o editor-chefe do Profeta, não é? – ele perguntou por fim.

- Exatamente. – August sorriu, cruzando os braços enquanto se apoiava contra sua mesa – Acredito que já tenha ouvido falar de mim. Durante esse último ano, você esteve ajudando uma pessoa que me é muito cara. Pois embora eu seja tio de Lusmore; que você também conheceu, e nada tenha a ver com os MacFusty, tenho Mina como uma sobrinha de consideração.

Lucien assentiu.

- Isso significa que o senhor vai me ajudar?

- Eu não sou um filantropo, senhor Lucien. – foi o que o outro respondeu – Não ajudo indiscriminadamente todos os que me procuram. Eu também tenho meus interesses. Tenho pessoas a quem devo proteger. E, para fazer isso, eu cobro um preço pelas informações que tenho.

- E qual o seu preço? – Lucien perguntou.

- Nada que você possa pagar. – August retrucou, sem deixar por um momento a face simpática – Em tempos como os nossos, informação é uma mercadoria cara, senhor Lucien.

O rapaz ficou calado, sem saber como reagir. Não era possível que tivesse ido tão longe para acabar de mãos vazias. August, contudo, ainda não terminara.

- Existe algo, porém, de que eu preciso, mas que também é uma mercadoria não apenas cara, mas rara hoje em dia. – ele descruzou os braços, aproximando-se e, pela primeira vez desde que aquele estranho diálogo começara, os olhos do homem demonstravam mais do que um leve divertimento.

- E o que seria? – o jovem questionou, sabendo que aquela seria sua última cartada.

- Lealdade. – foi a resposta de August.

Lucien assentiu, compreendendo o peso daquilo que o homem lhe pedia.

-Se for para trazer Meridiana de volta, senhor, eu lhe pagarei com toda a lealdade que existe em minha alma se necessário.

-Perfeito - o homem respondeu, estendendo a mão para Lucien.

O rapaz apertou a mão de August, selando o acordo. O austríaco estava sendo sincero, para resgatar Meridiana, ele faria qualquer coisa, até mesmo descer à parte mais profunda do inferno se este fosse o desejo de Chenoweth.

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