Wednesday, April 02, 2008

Tudo tem um preço - Parte 3


Lucien caminhou por algum tempo, tentando parecer o mais descontraído possível. À medida que ele se aproximava do endereço que o pai lhe entregara, notava que as ruas se tornavam mais estreitas e tortuosas, as casas mais escuras, e as pessoas que via transitando por ali eram bem diferentes das que ele estava acostumado a ver. Roupas pretas, cabelos coloridos, alguns espetados, outros parcialmente raspados, correntes, piercings.

Embora não estivesse acostumado com aquele tipo de ambiente que parecia circundá-lo, o rapaz não se fez de rogado, não se sentiu chocado ou tampouco intimidado. Ele chegou até ali com um propósito e faria o que fosse necessário para cumpri-lo.

A primeira coisa que o rapaz constatou foi que sua aparência discreta deveria chamar por demais a atenção em um lugar com tantas pessoas "diferentes". Os jeans desbotados e o tênis escuro talvez não chamassem tanto a atenção, mas a camiseta talvez estivesse "colorida" demais, apesar do tom azul mais escuro.

Lucien parou em um beco estreito, vasculhando a mochila para encontrar a camisa preta que separara para a viagem. Não era o ideal, mas minimizaria o contraste que ele fazia com os demais transeuntes.

Deu mais alguns passos até parar diante de uma porta escura de metal fosco, acima havia um letreiro de néon vermelho onde se podia ver a imagem de um cão com três cabeças e os dizeres Hades Gate. Estava no lugar correto.

Empurrou a porta, sentindo um cheiro forte e pungente de fumaça lhe dar as boas vindas. Caminhando por um corredor estreito, notou que os clientes do pub não eram muito diferentes dos que ele vira nas ruas.

Uma luz mortiça iluminava precariamente o estabelecimento. Nas mais diversas mesas do lugar, as pessoas conversavam em meio ao som pulsante da música do ambiente, enquanto bebericavam o conteúdo de seus copos. Líquidos de cores estranhas e fugidias, outros fumegantes... Nenhum reconhecível para o rapaz. Outros pareciam se divertir na pista de dança.

Lucien seguiu a passos firmes até o barzinho, sentando em um dos bancos, tentando olhar discretamente para o barman. O homem devia ter cerca de trinta anos, talvez um pouco mais, os cabelos espetados em tom verde. Quando ele se aproximou de Lucien, encarando-o com olhos de gatos, notadamente resultantes de lentes de contato, o austríaco constatou que ele tinha, de fato, a tatuagem em forma de olho na mão direita.

O homem fitou Lucien por algum tempo, como se o estivesse avaliando, até que resolveu quebrar o silêncio, perguntando, em um tom bem-humorado:

- O que traz um rapaz tão distinto como você a um lugar como este?

O moreno ficou sem reação em um primeiro momento, hesitando sobre qual passo tomar na conversar que começara a se desenrolar. Pigarreou, antes de começar a falar, tentando retomar o controle de si mesmo e da situação.

- Você é Omar? Me recomendaram uma de suas bebidas - Lucien começou - Dizem que não tem outra melhor em Londres.

O homem sorriu, mostrando uma linha de dentes brancos e alinhados que, de certa maneira, contrastava com sua aparência desleixada.

- Qual delas seria?

- Draconis Sangreal.

Um ligeiro arquear de sobrancelha foi tudo o que Lucien conseguiu como reação. O barman se virou, seguindo até um canto afastado do balcão, abaixou-se para pegar a garrafa, trazendo-a consigo e servindo uma dose generosa no copo que postou na frente de Lucien. O rapaz pegou a bebida, sorvendo um gole. O líquido desceu quente e áspero pela garganta de Lucien, fazendo com que ele tossisse um pouco, afinal não estava acostumado com bebida tão forte.

O homem de cabelos verdes riu, perguntando:

- Posso fazer mais alguma coisa por você?

Lucien, que ainda tossia um pouco, retirou a mão de frente da boca, respondendo do modo mais sério que conseguiu no momento:

- Eu gostaria de falar com Thémis ou com uma das musas.

Os olhos do outro brilharam.

- Eu acho que tenho a coisa certa para você. O que você precisa é de um pouco de diversão.

O homem olhou discretamente para um dos cantos do pub, onde uma moça de cabelos roxos, um quimono curto do mesmo tom, ele fez um sinal para que ela se aproximasse.

- Leve o garoto para dançar. - o barman pediu, ao que ela respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso.

No segundo seguinte, Lucien se viu puxado pelas mãos até a pista de dança. A moça nada dizia, só se deixava levar pelo som quase hipnótico da música. O moreno se contentou em tentar acompanhá-la.

London calling to the imitation zone
Forget it, brother, an' go it alone
London calling upon the zombies of death
Quit holding out and draw another breath
London calling and I don't wanna shout


Ela se aproximou dele, falando ao pé do ouvido do rapaz, para que ele conseguisse ouvi-la em meio ao barulho alto da música.

- Quando a próxima canção começar, você me puxa para fora da pista de dança, e me abraça, como se fôssemos um casal de namorados, e assim podemos sair daqui sem chamar a atenção.

- E minha mochila? - ele perguntou, se aproximando dela, lembrando-se que todos os seus pertences estavam lá dentro e que o barman a recolhera quando a moça o levou para dançar.

- Vai estar te esperando para o lugar aonde vamos - ela respondeu...

- Mas... - Lucien ainda tentou argumentar.

- Sem mais perguntas por ora - ela respondeu, sorrindo para tranqüiliza-lo.

O ritmo da música mudou repentinamente, se tornando mais frenético que a anterior.

Darling you´ve got to let me know
Should I stay or should I go?
If you say that you are mine
I'll be here 'til the end of time
So you got to let know
Should I stay or should I go?


Era a deixa para ele puxá-la para fora da pista. Quando eles se aproximaram da área destinada às mesas, Lucien sentiu a mão da moça enlaçá-lo pela cintura e a cabeça dela repousar em seu ombro. Por breves segundos, o rapaz desejou que aquela mão e aquela cabeça pertencessem a uma ruiva de olhos esmeralda, sentiu falta do perfume de jasmim que ela emanava. Mas era por causa de Meridiana que estava ali. Se aquela moça de cabelos roxos lhe desse a mínima pista para que ele encontrasse a namorada, ele faria o que fosse necessário. Assim, postou a mão, nos ombros da desconhecida, trazendo ela para bem perto de si, de modo que convencessem no papel de casal a que estavam se prestando.

Subiram a passos trôpegos pelas escadas do bar até alcançarem a saída que dava acesso à rua. Andaram abraçados ainda por alguns quarteirões e, quando estavam afastados o suficiente, ela se soltou dele.

- E agora? - Lucien perguntou, enquanto andava lado a lado com a moça.

- Agora você vai dizer como chegou até nós e o que quer exatamente. - ela ordenou com a voz imperiosa, os olhos escuros faiscando em determinação.

Notas: Omar e tatuagem em forma de olho são homenagens cara-de-pau e explícitas a Desventuras em Série, que, especialmente Meri e Mina, amamos. As músicas desse post são da banda The Clash (London Calling & Should stay, should I go), uma das pioneiras do punk rock.

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