Tudo tem um preço - Parte 2
O homem fez uma pequena pausa tentando encontrar quais as palavras certas para desfiar o novelo de segredos e mentiras que se tornou o passado de sua família.
-Você sabe que sua Mutter era estudiosa de lendas e mitologias bruxas, era a grande paixão da vida dela.. Pouco depois de nos casarmos e você nascer, ela começou uma pesquisa sobre a veracidade de alguns mitos e como eles se interligavam. No começo ela estudava por curiosidade e necessidade acadêmica, só que, a medida que ela aprofundava nos estudos, mais obcecada ela ficava. A vida dela passou a girar em torno disso...A ponto de ela deixar você de lado e nós dois termos brigas quase constantes...Talvez não tão constantes, pois, confesso que fui um pouco relapso com Alessa. Eu próprio estava imerso demais em meu trabalho, era mais ausente da vida de vocês naquela época...
Lucien notou a expressão do pai, parcialmente iluminada pelo feitiço se transfigurar em uma máscara de melancolia. Era notável o quão tormentoso era para ele relatar tudo aquilo.
-Sua Mutter, na ânsia de descobrir o que ela dizia ser "a verdade de todas as verdades" acabou se envolvendo com pessoas do submundo bruxo, relacionadas com tráficos de artefatos, pergaminhos, informações... - ele continuou - Ela não apenas gastou toda a fortuna que herdara dos seus avós nessa busca como fez algumas coisas de caráter questionável. Envolveu-se por demais com as pessoas erradas, o que acabou custando a vida dela, de certo modo...Ela só parou e me pediu ajuda quando eles ameaçaram você, Sohn. Foi o amor que Alessa sentia por você que fez com que ela retomasse à razão. Embora, um pouco tarde demais para ela própria.
O auror abaixou o rosto, momentaneamente.
-Não houve um dia sequer que eu não me sentisse culpado por não ter percebido a gravidade da situação antes...de não ter feito alguma coisa para salvar Alessa...Será que você pode me perdoar, Sohn, por ter escondido tudo isso de você por tanto tempo?
Lucien baixou o rosto, sentindo uma onda de melancolia pesar sobre ele. Tanto tempo ele se perguntou por que o pai evitava mencionar a falecida esposa, e agora ele entendia as razões, em parte eram para poupá-lo, em parte para poupar o próprio Alexis e a falecida Alessa. Entretanto, deve ter sido pesado para o pai carregar aquele fardo por todos aqueles anos.
O rapaz largou a mochila no chão, aproximando-se de Alexis e envolvendo-o com um abraço.
-Eu...entendo, pai - ele disse, sentindo que o auror retribuía o carinho - Você não tem que pedir desculpas...
Lucien separou-se de Alexis depois de alguns minutos. Aquela enxurrada de informações o deixou desnorteado, e ele sabia que precisaria de tempo para absorvê-las por completo, entretanto, tempo era um luxo que ele não se dispunha.
-Pai - ele começou, de modo firme - apesar de tudo o que me contou, eu estou decidido a ir embora. Eu preciso descobrir uma maneira de ajudar Meridiana.
Alexis anuiu, ele já imaginava que o filho não desistiria de seu intento.
-Eu não vou te impedir, Lucien. Mas também não vou deixar que vá embora de mãos vazias.
O auror enfiou a mão no bolso tirando de lá um papel, entregando-o ao rapaz. Lucien podia ler o nome de um estabelecimento - Hades Gate - e um endereço.
-É um pub. Você vai procurar pelo barman, o nome dele é Omar e possuí uma tatuagem de um olho nas costas da mão direita. Vai pedir um copo de Draconis Sangreal, e, quando Omar se aproximar, você vai dizer que precisa se encontrar com Thémis ou com uma das musas...
Lucien levantou os olhos do papel, encarando o pai com uma expressão de dúvida.
-Todas as informações passam por Thémis - o auror disse, tentando responder à pergunta silenciosa do filho - Se houver alguma pista mínima sobre Meridiana, Thémis é a pessoa mais indicada para te ajudar.
-Obrigado, pai - o rapaz disse, abraçando Alexis mais uma vez, não apenas grato pelo auror tê-lo ajudado, mas principalmente por ter compreendido que Lucien precisava fazer aquilo.
-Tome cuidado - o homem falou.
O rapaz soltou-se do pai, anuindo. Pegou a mochila que estava no chão, e, com um aceno, despediu-se do auror, cruzando o portão em direção das densas sombras da noite.
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