Awaking - Parte 1
Pequenas estrelas cristalinas desciam do céu, juntando-se em flocos alvos e gélidos que cobriam o labirinto envolto em brumas que ela percorria. A capa de veludo vermelho com detalhes de cashmere branco revestia o vestido rosa longo e rodado que usava.
Selune percorria a passos incertos por caminhos desconhecidos, volta e meia apoiando-se na parede de pedra escura do labirinto. Ela não sabia a quanto tempo estava percorrendo aquelas trilhas, mas, parecia-lhe que eram por quase uma vida inteira.
Ela começava a sentir as pernas cansadas, desejando sentar-se no chão, e deixar que a neve a cobrisse por completo. Estava cansada, apenas cansada...
Antes que tal desejo a dominasse por completo, ela viu a luz bruxuleante tremular convidativa a poucos passos de distancia. Seus olhos anis se surpreenderam não com a visão de um caramanchão no centro do labirinto, mas sim ao constatar que em pé nas escadas do mesmo, estendendo-lhe uma mão convidativa estava uma pessoa que não via desde que era menina.
Sebastian Priout.
Ela não refreou o impulso de se atirar nos braços daquele que por tantos anos pranteou. Era deleitoso sentir os braços protetores dele envolverem-na novamente.
-Papa, vous m'avez manqué beaucoup (1)... - ela balbuciou, sem conter as lágrimas.
-Também senti sua falta, mon petit papillon. - ela respondeu, afagando os cabelos da filha - Precisamos conversar. Há algo que eu preciso te contar.
Sebastian afastou-se momentaneamente da filha, fazendo com que ela sentasse ao lado dele, na escada do caramanchão.
-O tempo que eu tenho é curto. - ele continuou, sacando a varinha do bolso interno da casaca azul marinho que vestia.
Com um gesto preciso e seguro, ele fez surgir um pergaminho extenso, escrito com letras douradas. Era uma árvore genealógica, a árvore da família de Selune, pois, ao pé do pela, ela podia ver seu nome completo escrito em caligrafia arredondada.
A francesa levantou a cabeça, tentado ver os nomes das pessoas cujas histórias precediam à dela própria. Havia muito nomes, alguns em gaélico, contudo, o inicio do pergaminho se perdia me meio as brumas.
-Há coisas que você deve priorizar, papillon (2). Coisas importantes demais para serem deixadas de lado.
Selune assentiu sem despregar os olhos do pergaminho, percebendo que um risco escarlate cortava o nome de seu pai e seu avô. Aos poucos, os nomes da árvore foram se embaralhando, girando e girando e girando no papel a ponto de quase causar náuseas na loira.
Quando ela conseguiu firmar a vista, percebeu que agora, em letras negras, estava impresso um texto no lugar dos nomes dos Priout, e acima dele, o símbolo de uma serpente dourada se destacava.
Na era em que o signo do etéreo se aproximar
E a estrela da guerra mais visível se fizer
Quando de alquimia e trovão se fizerem imagens vivas
Sob os auspícios da donzela traída
Há de nascer o Sem Alma
Aquele que possui o direito
Aquele que possui o poder
Aquele que triunfará sobre a morte
Sem Alma, herdeiro do oroborus
Sem Alma, sem sombra, sem Senhor
O Sem Alma virá
E pelo sangue há de governar
Sangue do sangue, carne da carne
Há de cair diante dele
Da morte fará ele sua aliada
Ele, que nada perde
E aqueles, que tudo perderam
Contra a corja humana,
Contra os traidores do sangue
-O que isso quer dizer? - ela perguntou, virando-se para o pai de maneira ansiosa. Contudo, Sebastian apenas meneou a cabeça, em negativa.
Um trovão forte ressoou por todo o lugar, Selune sentiu como se ele tivesse ressoado, na verdade, dentro dela própria. Podia sentir o tremor reverberar por dentro de seus ossos.
Ela levantou os olhos celestes em direção ao céu, cada vez mais negro e turbulento. Quando voltou a pousar as vistas em seu pai, Sebastian começava a se tornar uma imagem translúcida que parecia se desbotar aos poucos.
-Eu preciso ir - ele disse.
-Papa... Papa... S'il vous plaît, n'allez pas...(3) - ela murmurou.
-Eu te amo, papillon. Confie em Alexis e cuide de sua mãe por mim. - Sebastian disse, já praticamente existindo como um vulto etéreo.
-Papa!!!!!!!!!!!!!! - ela gritou ao ver o pai desvanecer completamente.
No instante seguinte, Selune sentiu seu corpo erguer-se com violência. Sua respiração era ruidosa e pesada. Um suor frio escorria de sua testa, e fortes espasmos tomavam conta de seu corpo. Ela piscou os olhos várias vezes, incapaz de reconhecer onde estava.
Até que uma fresta de luz surgiu, e a moça percebeu que por ela surgia sua mãe, usando um camisola de seda, recoberta por um robe, e seu padrasto, também em trajes de dormir.
Valentine sentou-se na cama da menina, abraçando a filha, até que ela se acalmasse. Selune murmurava baixinho palavras a princípio incompreensíveis.
-Shhh, vai ficar tudo bem - a mulher murmurou - tudo bem...eu estou aqui.
Alexis acendeu a luz do quarto, observando o estado lastimável que a enteada se encontrava. Contudo, ele ficou ainda mais preocupado quando as feições de Valentine se tornaram pálidas.
-Ela está se lembrando, Alexis. - a mulher falou com uma pontada de desespero.
(1) Senti tanto a sua falta
(2) Borboleta
(3) Por favor, não se vá.
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