No More Sorrow - Parte Final
Era tarde e Adhara já estava deitada, esperando o sono chegar, quando ouviu batidas à porta do seu quarto.
Não precisava realmente pensar muito para saber quem seria. Somente o pai viria visitá-la aquele horário.
Ela sentou-se sobre a cama, apoiando as costas nos travesseiros colocados rente à cabeceira antes de tatear pela varinha sobre sua mesinha de cabeceira e, com um floreio, atear fogo sobre os castiçais espalhados pelo aposento.
- Entre.
Kamus Ivory surgiu pela porta, iluminado parcialmente pela brecha de luz provinda do corredor. A sonserina notou que ele ainda estava vestido com a mesma roupa com a qual deixou a casa para ir até o funeral de Nicholas Johnson.
O Auror cerrou a porta atrás de si, adentrando o quarto em seguida.
- Precisamos conversar.
Ela anuiu, já esperando por aquele tipo de coisa, e sabendo também que o mais recomendado era permanecer em silêncio visto que, sempre quando o pai a procurava dizendo que gostaria de falar-lhe, era ele quem ditava os rumos que a conversa teria.
Kamus caminhou até ela, parando ao lado da cama e, em seguida, conjurou uma poltrona para sentar-se. Fitou Adhara com cuidado, atentando para os círculos escuros sob os olhos dela e também para as pupilas vermelhas. O rosto dela parecia mais fino, mais magro, indicando que a garota também deveria ter perdido algum peso durante a última semana.
- Você almoçou? Jantou? - questionou ele.
Adhara deu de ombros, fitando as mãos cruzadas sobre o colo a fim de evitar os olhos do pai.
- Comi alguma coisa. - murmurou, achando que seria melhor do que admitir que tudo o que tinha no estômago eram duas torradas e um pouco de chá que tomara no desjejum.
Ivory reconheceu a mentira no ato, entretanto achou melhor não insistir naquele assunto, afinal Adhara era tão geniosa que de pouco iria adiantar. Ao invés disso, optou por abordar o real tópico que o trouxera até ali:
- Terei que viajar novamente, devo partir no próximo dia ou nos seguintes. Agora que Ludovic tem uma refém...
- Eu sei. - a garota o interrompeu, sem olhá-lo. Não queria ouvir mais nada sobre aquele Comensal ou mesmo sobre o que estava acontecendo fora daquela casa. Era... Perturbador demais.
Kamus assentiu, compreendendo a vontade da filha.
- Durante esse meio tempo você ficará na casa de seus avós. - encerrou ele.
- O quê? - e nesse momento ela virou o rosto tão depressa que sentiu o pescoço estralar - Não! - negou, com a voz ligeiramente alterada, os olhos presos nos do Auror.
Ivory, entretanto, sequer piscou diante do rompante dela.
- Não sei por quanto tempo minha viagem irá durar e Frida tem assuntos a resolver fora do país na mesma época. Sob hipótese alguma você irá ficar sozinha e sem supervisão nesta casa.
- Eu já fiquei sozinha incontáveis vezes e...
- Eu não confio em você para ficar aqui sozinha, Adhara!
Ela parou, os lábios entreabertos, uma expressão surpresa no rosto, os olhos fitando ao pai como se aquela fosse a primeira vez que o visse. E, de fato, aquela era a primeira vez que via Kamus Ivory levantar-lhe a voz.
- Você está doente. - completou Kamus.
Adhara fechou o cenho de imediato e seus dedos apertaram os lençóis com força.
- Eu estou bem. - ela disse em um sibilo quase raivoso.
- Não. - o Auror discordou em um tom duro - Você está depressiva, instável, anêmica.
- E foi a Frida quem lhe disse isso? - perguntou, lembrando-se das várias vezes durante a semana anterior em que o rosto da polonesa aparecia, preocupado, por entre uma fresta na porta de seu quarto enquanto ela fingia dormir para não ter que atender a nenhum dos chamados.
Se possível a face de Kamus pareceu endurecer ainda mais.
- Eu não preciso que Frida me diga nada para saber o que está acontecendo com você.
Adhara meneou a cabeça diante daquilo, abraçando os joelhos sobre a cama e escondendo seu rosto em seguida.
- O senhor não sabe de coisa alguma. - disse, baixinho, a voz saindo abafada contra seus braços.
O Auror sentiu uma ligeira dor em seu peito ao ver a filha daquela maneira. Frida estava sofrendo naquele momento, Adhara parecia miserável e propensa a fazer qualquer bobagem, o mundo estava se esfacelando ao redor deles em uma velocidade absurda e agora havia uma criança chegando, uma criança que já estava sob a mira de um plano pérfido antes mesmo de nascer. E pela primeira vez em anos Kamus sentia como se tivesse peso demais sobre seus ombros.
- Você está certa. - ele fechou seus olhos e suspirou, cansado, havia sido um dia terrível, e tudo estava longe demais de ter um fim - Se eu pudesse viver o seu sofrimento no seu lugar, Adhara, eu o faria. Mas a sua dor é sua apenas... E eu não posso fazer nada além de tentar poupá-la de mais dor.
Adhara apertou as pálpebras e abraçou seus joelhos com ainda mais força. Ouvir aquelas palavras vindas de eu pai havia sido exatamente como assistir ao desabar de uma fortaleza: dolorido e desalentador.
Talvez ele estivesse certo afinal... Talvez estivesse mesmo doente e desesperadamente necessitada de ajuda. Mas havia tanto acontecendo... Havia tanta gente morrendo, tantos passando por situações traumáticas que simplesmente abrir sua boca e dizer um simples "não me sinto bem" parecia algo terrivelmente egoísta naquele momento.
Ela sentiu um dos braços do pai rodear-lhe antes que um beijo fosse depositado em seus cabelos e encolheu-se ligeiramente naquele toque protetor e carinhoso. Mas tão logo surgiu, ele desapareceu e Adhara se viu sozinha uma vez mais na quietude de seu quarto.
* Para quem quiser ler os posts das semanas anteriores, basta clicar AQUI
Nota: Bem, respondendo a algumas dúvidas. A relação de Kamus e Frida não é algo necessariamente novo, dando uma relida no sequestro da Dhara e no enterro de Dumbledore, vocês vão perceber que já insinuávamos isso. A questão é que, até então, os postes eram basicamente da perspectiva dos personagens mais jovens, como a Meri e a Dhara.
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