Sunday, March 23, 2008

Chegada no Japão


Quantas cores uma pessoa pode ter? Nas últimas horas, ela tinha certeza que já passara pelos mais diversos tons do púrpura ao azul, chegando inclusive ao verde musgo raquítico que respondia por si só a qualquer pergunta do tipo "olá, como vai, tudo bem?".

Nunca se sentira tão enjoada na vida. Já andara de barco inúmeras vezes e jamais ficara daquele jeito. Provavelmente, aquilo que estava sentindo era um reflexo físico de todas as tensões pelas quais passara nos últimos dias e da viagem feita a conta-gotas, com paradas por todo o continente.

A impressão que tinha é que, enquanto viajavam, tentavam despistar algum Corredor X invisível ou coisa do tipo, quase como se estivessem sendo perseguidos, o que, na opinião dela, era muito ridículo. Depois de tudo o que acontecera, que interesse dois adolescentes viajando com o tio podia despertar?

Tinham passado três dias estacionados na Ucrânia, num hotel caindo aos pedaços, e só Merlim sabia o porquê. Enquanto passava o dia trancada no quarto lendo qualquer coisa que lhe caísse em mãos e resmungando alguma coisa em resposta sempre que Lusmore se dignava a lhe dirigir a palavra, Godfrey sumia pela cidade e, de vez em quando, eles o encontravam no bar do hotel conversando com um tipo estranho.

Foi após conhecerem a pessoa mais bizarra do mundo que a tensão que o tio mantinha desde que tinham saído das Hébridas pareceu se desvanecer. O nome do "amigo" do domador era Salmonov, e ele usava meias de cores e tamanhos diferentes, um velho kilt gasto por cima de calças femininas tipo legging e possuía os bigodes mais amarelados que ela já vira, além de falar com um sotaque estranho - o que, depois Mina veio a perceber, devia-se a falta dos dentes caninos.

Godfrey e Salmonov pareciam ter muita coisa a conversar. Tanto que o tio acabara decidindo que era melhor ela e Lusmore continuarem a viagem para o Japão e, depois, ele se juntaria aos dois em Suzuko, a principal cidade bruxa de lá.

Mina suspirou, enquanto ouvia a prima tagarelar alegremente sobre tudo o que tinha planejado para sua estada ali enquanto caminhava ao seu lado. Não fazia nem dez minutos que tinha desembarcado e já estava tonta com tanto falatório. Ok, a bem da verdade, não é como se ela fosse a pessoa mais quieta do mundo... Mas, nesse exato instante, ela gostaria imensamente de um pouco de silêncio para controlar as voltas que sua cabeça estava dando.

Logo atrás delas, seguiam Lusmore e Rylan com as malas, conversando animadamente. Gostaria de sentir-se tão disposta quanto eles.

- Mas você realmente não parece bem, Mina. - Hilde observou, refreando um pouco de seu entusiasmo - Eu sinto muito por estar falando tanto e sendo tão insensível... Você quer que eu te leve na enfermaria?

- A idéia de mal chegar e já ter que ir parar na enfermaria não me é muito agradável, Hilde... - ela suspirou, mas ainda assim sorriu, agradecida - Minha mãe deve ter alguma coisa para melhorar essa dor de cabeça. Ela entende bastante de remédio.

Mina voltou a olhar para frente, o sorriso vacilando ligeiramente. Isso, obviamente, se sua mãe estivesse lá - fosse onde fosse "lá" - para recebê-la. Nem Lucy nem Jonathan tinha aparecido no cais para recebê-la e ela tinha certeza que Godfrey os avisara de sua chegada.

A caminhada e o ar puro, aos poucos, fizeram-na se sentir melhor. Ainda não tinha muitas condições de admirar a paisagem, mas, em seu subconsciente, a imagem da escola japonesa de magia já começava a se projetar como um lugar muito diferente de Hogwarts.

Estavam agora subindo uma alameda e logo Mina viu se juntar às suas dores a falta de fôlego proveniente de sua total e completa falta de resistência física. Tinha realmente que começar a providenciar algum remédio para aquilo. Talvez correr um pouco de manhã, depois dos treinos de arco e flecha.

Nesse instante, ela viu aparecer diante de si uma pequena vila, com alamedas floridas e bem cuidadas e charmosos chalés de madeira. E, à soleira de um dos primeiros chalés, estava uma figura muito conhecida sua, alta, elegante e orgulhosa: Lucy MacFusty, sua mãe.

Lucy sempre fora uma pessoa mais prática que qualquer outra coisa, muitas vezes dominando a atenção de todos, especialmente do marido. Sem ela, Jonathan ficava completamente perdido, já que não tinha o menor senso de organização. Ela não mudara muito da juventude para a maturidade: tinha o rosto bonito, a pele bem cuidada e olhos claros e imperiosos. Os dois partos pelos quais passara poucas marcas lhe tinham deixado - apesar de Kieran ter nascido há apenas três meses, ela já tinha voltado à forma anterior.

- Bom dia, Mina. - Lucy cumprimentou a filha, adiantando-se para ela. - Hilde.

- Ohayo*, tia. - Hilde respondeu com um sorriso - Eu acho que a Mina não está se sentindo muito bem. Talvez fosse bom levá-la para se deitar um pouco, não?

Lucy lançou à filha um olhar analítico, antes de tomá-la pelo ombro, guiando-a para dentro de casa. Hilde esperou alguns instantes até que Ryl e Lusmore alcançassem o chalé e, pouco depois, estavam todos dentro da casa. E, enquanto era guiada pela mãe, Mina não pode deixar de pensar que, finalmente, teria um pouco de paz.

*Ohayo - Bom dia

Nota: Hilde e Rylan fazem parte do elenco de Hopelessly Addicted, do Mahou Gakkou Amaterasu. Para quem quiser um pouco mais sobre as férias da Mina, recomendando a leitura do volume 3A da série mencionada.

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