Tempestade (not ready to make nice)
A chuva desmoronava sobre toda Londres, que estava ensopada até os ossos, dentro ou fora das paredes das casas.
Com a onda de calor, o ciclo evaporação-condensação-chuva-evaporação parecia eterno; ao invés de findar, mais e mais nuvens se acumulavam cinzas-chumbo como o céu da cidade, desabando torrencialmente tudo o que foi retido.
Equação acertada a que diz que tudo o que é represado no silêncio em algum momento há de romper o dique, e dificilmente haverá meios de deter a vazão, em geral barulhenta. A única alternativa sensata é lhe permitir livre curso e esperar o estio para contabilizar e acertar os estragos.
Mas ninguém consegue se centrar nisso em plena tempestade. Munidas de seus guarda-chuvas negros e imbuídos de um motivo extra para olhar para o chão, transeuntes moviam-se ligeiros e mutuamente indiferentes, à caça de um abrigo. A força das águas era tamanha que era possível que um ser humano se desmanchasse em lágrimas e ninguém sequer se apercebesse disso. Alguém já dissera numa canção sobre guardar o pranto e esperar pelo tempo chuvoso, para desaguá-lo em segura umidade.
Indiferente ao caos do trânsito e à correria dos que tentavam desesperadamente chegar sob um teto qualquer, uma jovem caminhava em meio à tempestade, parecendo não sentir o enregelante contato das gotas somadas ao vento frio. Uma mecha de seu cabelo muito loiro colava-se ao rosto, movendo de quando em vez pelo curso da água que escorria da face ao solo.
O corpo da menina era acometido de espasmos regulares em quase sincronia com o estrondo dos trovões que pareciam ribombar séculos de dores impingidas à natureza que a um observador inadvertido confundiria com susto provocado pelo estrondo.. Mas a moça loira não temia o som das trovoadas, possível era que sequer as ouvisse.
As lágrimas que misturavam-se às gotas de chuva não davam pistas do estado de espírito que acometia a moça loira. No entanto, Selune se amparava nas armações da ponte, pois os soluços chacoalhavam seu corpo com força, quase a derrubando ao chão. O pranto acompanhava o desabar do céu. Anos de frustração, culpa, medo, ódio, enclausurados juntos no fundo da alma, para que ela nunca os tivesse de encarar, encarar a dor de ter perdido o pai sem saber como, sem saber porque, mas na verdade –a pior de todas as coisas – ter uma estranha certeza de ter algo a ver com toda a história.
Às vezes tinha sonhos, pesadelos para ser mais precisa, em que homens estranhos e sem rosto pareciam rodea-la, em murmúrios desconexos.
A sensação de pânico aumentara depois da morte de Dumbledore, depois do que se sucedera aos amigos em Hogwarts, e, especialmente, depois do que acontecera à Meridiana e ao pai dela.
Seu irmão estava sofrendo muito, e, Selune, simplesmente não sabia o que fazer. A verdade é que havia coisas demais que ela não sabia.
A única certeza que tinha era que precisava voltar para casa, afinal, saíra sem avisar ninguém. Assim, a passos pesados, ela tomou o caminho de volta, lutando contra a tempestade que tentava empurra-la para trás, esperando, que, pudesse aprender a fazer aquilo com as outras tormentas que rodeavam sua vida e a de todos que amava.
Notas: No período de hiatus, o Lugui mandou dois presentes maravilhosos e um e-mail-comentário de derreter o coração. Quem quiser conferir os presentes, basta clicar aqui
O blog de fics o CEBES (Centro de Ensino de Encatamentos do Sudoeste) está de volta, contando as venturas e desventuras de bruxos brasileiros. Para conferir, basta visitar: www.cebes.blogspot.com
No comments:
Post a Comment