Thursday, March 20, 2008

No More Sorrow - Parte 2


Frida observava Kamus, pensando consigo que compreendia a reação dele. Afinal, não era uma hora oportuna para trazer uma criança à vida, não com o mundo ao redor se esfacelando a uma velocidade absurdamente assustadora.

Era também verdade que a polonesa nunca imaginara que teria uma chance de ser mãe, tampouco sabia se, por tudo o que fizera em sua juventude, merecia esse tipo de benção. Exatamente por isso, ao se envolver com Kamus, ao encontrar nele bem mais que um mero aliado, ela tomara tanto cuidado. Ainda assim, aconteceu, e ela não viraria às costas àquela criança.

- Eu não estou pedindo nada a você – ela disse de forma suave, pousando a mão no ombro do Auror - mas queria que você soubesse.

Kamus pousou uma das próprias mãos sobre a da polonesa que se encontrava em seu ombro e então virou o rosto, encarando Frida com a mesma feição séria que ela tão bem conhecia.

- Não pense tolices. – disse ele, os olhos azuis passando determinação apesar das dúvidas que sentia – Eu não acabei de dizer que quero estar ao seu lado? Isso não muda nada.

Naquele momento, Frida teve certeza de que Kamus estaria realmente ao lado dela sempre, e que ela também estaria ao lado dele, ela soube que os destinos deles estavam entrelaçados e nada poderia desatar aquele laço

Assim, ela não respondeu, apenas deixou que um sorriso ligeiramente mais leve se imprimisse em seu rosto. O primeiro sorriso verdadeiro em meses, talvez. Aquilo foi o suficiente para Kamus saber que ela havia compreendido

- Ainda assim, existe uma coisa que me preocupa. - ela voltou a falar, sentindo a apreensão embolar-se na altura do estômago, e não importando em demonstra-la na entonação de sua voz. - É uma questão de tempo até os seguidores do Lorde virem atrás de mim, afinal, sou uma traidora da causa. E, desta vez, eu não posso nem quero fugir. Não posso abandonar Meridiana à própria sorte ou... - ela fez uma pausa antes de prosseguir - ou abandonar você.

Ivory virou seu corpo na direção de Frida, permanecendo sentado de frente para ela no sofá. Lentamente, ele estendeu uma de suas mãos para tocar a face da mulher enquanto a outra segurava as mãos da polonesa. Ele sabia, é claro, as implicações daquilo tudo, mas ainda havia algo que Frida não mencionara, um perigo que não se relacionava diretamente à ela, mas que dentre o futuro próximo poderia tornar-se uma ameaça.

Se pudesse optar por manter aquilo fora de cena pelo momento, certamente o faria. Frida já tinha mais do que o suficiente com o que se preocupar... Porém, se estavam falando de riscos, seria melhor já estarem cientes de todos eles.

- Considerando tudo o que descobrimos após a Páscoa e a verdadeira razão por trás do seqüestro de Adhara é possível que minha... – ele então parou, parecendo precisar de mais um segundo para conseguir dizer a palavra que se seguiria – Mãe também venha atrás dessa criança.

- Eu não me esqueci disso. - Frida anuiu - Contudo, talvez agora no começo, o fato de Betelgeuse desejar tanto um herdeiro e o Lorde das Trevas almejar uma aliança com os Ivory possa ser uma vantagem para nós, possa ser a solução para não apenas me permitir procurar Meri, mas também salvaguardar a minha vida e proteger nosso bebê.

A loira fez uma pausa antes de prosseguir, percebendo, pelas sutis mudanças da expressão do russo, que ele estava começando a compreender onde ela gostaria de chegar.

- Eu vou tentar convencê-los de que ainda estou do lado do Lorde, que tudo o que ocorreu dezesseis anos atrás foi um equívoco. Vou contar sobre minha gravidez, pois mesmo que não acreditem em mim, ao menos vão poupar minha vida enquanto o bebê não nascer. Com sorte, talvez eu consiga também alguma informação que me leve à Meridiana.

- Você realmente acredita que este blefe irá funcionar, Frida? Eles podem mantê-la viva, como você bem disse, mas não chegarão a confiar em você. Sobretudo Ludovic. Ainda mais quando ele descobrir de quem é a criança que você carrega em seu ventre. – disse Kamus, de maneira soturna.

Frida abaixou ligeiramente os olhos, reconhecendo as possibilidades de falha em seu plano. Já sabia de todas as hipóteses que Kamus enumerara, entretanto aquela era a sua única chance...

- Se é informação o que quer – iniciou o Auror, chamando a atenção dela novamente para si – Existe alguém que poderia obter mais êxito em consegui-las do que qualquer um de nós. E ela sequer precisaria se esforçar. De fato, Ludovic certamente se sentiria deleitado em dividir seus planos com ela.

A loira o encarou, com os olhos cerrados, a mente tentando acompanhar o plano que Kamus lhe expunha.

O Auror sorriu de lado, antes que apenas um nome deixasse seus lábios:

- Lucy Reinfield.

Frida demorou alguns segundos pouco a associar o nome à pessoa, até que ela se lembrou da menina pequena e tímida que encontrara algumas vezes em companhia de Elizabeth anos atrás, a mesma que se tornara vítima de um Imperius lançado por Ludovic e espionara o Departamento de Aurores para o comensal ruivo graças ao seu trabalho como secretária na seção. Aquela a quem Ludovic considerava como sua "esposa".

Frida já havia saído do país quando a história veio a tona na época em que Ludovic havia sido preso, mas soube do ocorrido anos depois. Inclusive do destino que Lucy escolhera para si mesma.

-Ela não pediu autorização para mudar de identidade e sair da Inglaterra? - a polonesa perguntou.- Achei existia uma restrição aos arquivos de casos como o dela.

- De fato existem - Kamus confirmou - mas tenho meios para conseguir descobrir o que precisamos.

-Tudo bem, vamos contatar Lucy Renfield antes de realizarmos qualquer outro movimento - Frida concordou por fim.

A mulher pensava consigo que talvez não fosse justo pedir à Lucy um sacrifício tão imensurável, afinal, ela própria já foi vítima do assédio de Ludovic, e sabia que para ele não havia limites, entretanto, talvez aquela fosse a chance mais concreta que possuíam para resgatar sua sobrinha.

Talvez fosse necessário levar Lucy novamente ao inferno para que pudessem tirar Meridiana de lá.

Kamus notou a expressão de culpa que assombrava os olhos castanhos da polonesa. Para ele entretanto, por mais censurável que aquele pensamento pudesse ser, preferia mil vezes colocar Lucy Renfield cara a cara com seu maior trauma do que deixar Frida e o filho que ela carregava no ventre em perigo.

O Auror se aproximou dela e estendeu as mãos para segurar o rosto feminino, fazendo com que os olhos de Frida o encarassem.

- Vai ficar tudo bem. – disse ele, com um tom firme que desejava que fosse o suficiente para aquietar um pouco os pensamentos dela.

Frida assentiu, embora ainda parecesse um pouco abatida.

- Eu espero... – ela sussurrou.

Com delicadeza Kamus trouxe o rosto dela para ainda mais perto, seus narizes logo se tocando e os olhos não se desviando por nenhum instante até que seus lábios se tocassem.

E ambos realmente gostariam de acreditar que, após muitos percalços, tudo daria certo no final.

continua...

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