Tuesday, March 18, 2008

No More Sorrow - Parte 1


Kamus Ivory parou em frente à uma porta de madeira escura onde o número 420 estava estampado em latão dourado. Retirou do bolso interno da capa uma chave pequena e igualmente dourada, observando-a por apenas um instante antes de colocá-la na fechadura e girá-la, produzindo um leve ruído que indicava que a tranca havia sido aberta. Modo engraçado esse que os trouxas tinham de trancarem suas casas, pensou consigo mesmo.

Segurou a fechadura, girando-a até que a porta se abrisse com um pequeno ruído e espiou o apartamento silencioso e ligeiramente escuro. Pelo jeito ela não se dera ao trabalho de abrir as cortinas.

Entrou, fechando a porta o mais silenciosamente possível antes de embrenhar-se na moradia. Encontrou quem procurava sentada no sofá, com os longos cabelos loiros caindo como um manto ao redor da face feminina e contrastando com o estofado azul escuro. O rosto da polonesa estava vazio de expressão e os olhos castanhos fixos em algum ponto indefinido da parede à frente dela.

Kamus guardou a chave que ela lhe dera de volta em um de seus bolsos antes de se aproximar. Frida não esboçou reações quando ele sentou-se ao lado dela, apenas movendo-se para deitar sua cabeça no ombro do Auror quando ele abraçou-a pelos ombros e fez menção de trazê-la para mais perto.

Ivory não disse nada nos segundos que se seguiram, limitando-se a escorregar seus dedos entre os fios dourados em uma lenta carícia.

Frida fechou os olhos enquanto sentia as mãos de Kamus deslizarem pelas mechas de seus cabelos e o calor do corpo dele trazendo o conforto que ela necessitava. Aquilo fazia com que ela se sentisse um pouco melhor, contudo, a polonesa estava exaurida por tudo o que ocorrera nos últimos dias, e, especialmente, por tudo que ela sabia que ainda estava por vir.

- Eu estou cansada... – ela deixou escapar como um murmúrio quase inaudível por entre os lábios.

Kamus aproximou-se ainda mais, descansando seu queixo sobre a cabeça dela. Na verdade, todos eles estavam cansados... E aquele era apenas o começo da guerra.

- Frida... Você esteve ao meu lado quando algo semelhante ocorreu com Adhara em abril. Então, agora... Eu desejo fazer o mesmo por você. – disse o Auror, de forma firme, porém ainda serena. Sabia que, acima de tudo, a polonesa precisava de conforto naquele momento.

Ela deixou um sorriso triste se formar em seus lábios, aquelas palavras de Kamus significavam para ela talvez bem mais do que ele pudesse supor ao dizê-las. A mulher afastou-se delicadamente do abraço dele, encarando-o com seriedade. Havia algo que o Auror precisava saber, algo que não poderia ser adiado. E, aquele era o momento de contar a ele.

- Eu descobri uma coisa importante enquanto você esteve fora em missão, queria ter dito a você antes, mas com tudo o que ocorreu, nós não tivemos uma oportunidade de conversarmos a sós depois que você voltou, e, eu precisava de um momento apenas de nós dois para poder lhe falar.

Ivory franziu levemente a testa, curioso em saber qual tipo de notícia poderia ser responsável por colocar uma expressão tão séria e determinada no rosto de Frida:

- E o que seria? – perguntou ele.

- Eu estou grávida – ela respondeu de modo direto, não havia razão para adiar a notícia.

Foi impossível para Kamus evitar ou mesmo disfarçar sua surpresa. Há um tempo mais longo do que conseguia lembrar-se o Auror não se via pego fora de guarda daquela forma.

- Tem certeza? – foi a única pergunta que sua mente conseguiu formular naquele momento.

Frida assentiu.

- Eu já fiz os exames no St. Mungus. Os curandeiros confirmaram o resultado.

Kamus soltou-se dela com lentidão e apoiou-se no encosto do sofá. Pelo que pareceram minutos ele permaneceu silencioso, tentando fazer aquele fato penetrar em sua mente. Ele seria pai... Novamente. Mas daquela vez a notícia parecia ainda mais inesperada do que quando a recebera dos lábios de Anabelle dezesseis anos antes.

- De... Quanto tempo? – ele questionou, sem encarar a polonesa.

A mulher suspirou levemente.

- Três semanas.

O Auror arqueou o tronco para a frente, apoiando os cotovelos em seus joelhos e escondendo o rosto entre as mãos, os olhos fechados.

Como isso poderia estar acontecendo? Ele não era mais um jovem de vinte e poucos anos que ainda amargava o luto de ser expulso de sua família e não se importava com o que aconteceria no dia de amanhã... Anos se passaram e ele tinha uma experiência falha como pai desabrochando bem diante de seus olhos e o lembrando que não deveria cometer o erro de originar uma criança novamente. Então como ele pôde ter deixado o controle escapar pelas suas mãos dessa forma?

Havia uma guerra acontecendo, exatamente como da outra vez... E ele não julgava que agora soubesse algo mais sobre ser pai além do que sabia quando Anabelle falecera e ele se vira com um bebê em seus braços para criar.

Mas ainda assim... Era a sua responsabilidade e Kamus sabia que não poderia fugir dela. E mesmo sabendo que talvez estivesse destinado a fazer aquela nova criança sofrer e pagar pelos seus erros da mesma forma que havia feito com Adhara... Ainda assim, não poderia fugir.

Talvez aquela fosse a sua faceta mais egoísta afinal. Ele trazia sofrimento às pessoas apenas para manter sua honra e sua palavra.

continua...

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