Os Primeiros Dias do Resto de Suas Vidas- Parte 5
Raven perambulava, sozinha, pelos jardins de Hogwarts.
O resgate de seus amigos, na véspera, não fora suficiente para sossegá-la; passou o resto da noite praticamente em claro, presa às lembranças do que ocorrera: o ataque dos Comensais, Severus Snape aparatando à porta da Escola, a Marca Negra no céu, a dor de Mina... e o pior de tudo, Dumbledore morto.
A sonserina até então nunca se dera conta do quanto gostava do Diretor; achava que nutria por ele apenas a admiração natural que alguém como Dumbledore era capaz de inspirar por conta de seu invejável currículo. Porém, agora que não estava mais ali, que sua figura alta e prateada não mais circularia, protetora, pelos corredores do castelo e nem pronunciaria seus inspiradíssimos discursos, parecia a Raven que Hogwarts perdera metade de sua força e grande parte de seu sentido.
E, além de tudo isso, um grande medo se aninhava na alma da jovem: com Dumbledore morto, Voldemort certamente se sentiria mais forte, mais livre; um inimigo relevante havia sido retirado de seu caminho. Seria Potter capaz de, sem seu auxílio, derrotar o Senhor das Trevas? Imersa em tristeza como estava, Raven chegava seriamente a acreditar que não...
Involuntários, seus pés a levaram exatamente ao ponto do jardim onde ela e Meridiana viram Severus ser atacado pelo hipogrifo. Um suspiro dolorido escapou do peito da moça; onde andaria o Senhor de seu Coração? Onde fora? Teria ido salvar Draco, que corria desembestado naquela ocasião? Teria ido atrás dos Comensais para combatê-los? Ou... para juntar-se a eles? Essa última opção gelava o coração de Raven, mas ao mesmo tempo lhe parecia tão remota! Dumbledore não poderia ter se enganado tanto assim, por tantos anos. E ninguém é capaz de sustentar uma mentira como essa por tanto tempo, mesmo se tratando de Severus Snape... Não, não.
Um latido grave cortou o fio do pensamento de Raven. Bastante chamuscado por conta do incêndio da véspera, Canino abanava o rabo, placidamente deitado à porta da cabana de Hagrid, ainda bem estragada. Porém, via-se que seu proprietário já iniciara alguns reparos, e a jovem podia ouvi-lo movimentando-se dentro da casa; então, sem pensar muito, fosse por solidariedade, fosse por fuga, Raven afagou as orelhas de Canino, passou por sobre ele e bateu à porta do meio gigante.
- Hagrid? É a Raven! Precisa de alguma ajuda? – ela perguntou, enquanto batia.
- Oh, Raven!?... Um momento, um momento, vou abrir para você... – foi a resposta que, em tom sofrido, se fez ouvir.
A moça mal pôde conter uma exclamação de penalizado espanto ao ver Hagrid. Seu rosto molhado de lágrimas ainda trazia as marcas do ataque da noite anterior, com cabelos e barba cheios de falhas, por conta do fogo; seus olhos, já naturalmente pequenos, estavam ainda menores, de tão inchados.
- Entre, entre... – ele disse, enxugando os olhos na manga da camisa – Só não repare a bagunça, estou tentando dar um jeito aqui... Mas já consegui arrumar algumas coisas...
- Esquente não, Hagrid – comentou Raven, em tom conciliador – Se quiser, ajudo a consertar mais coisas. Não sou tão boa em feitiços como a Meri, mas dá pro gasto...
- Ah, obrigado, obrigado... Soube que seus amigos estiveram sumidos e foram achados, a Professora Minerva me disse... Eles estão bem?
- Sim, Hagrid, estão... Só muito abalados por conta do que... do que aconteceu... A Mina foi parar até na enfermaria, coitadinha... Ela não deu conta... da notícia...
A tristeza fez Raven calar-se; Hagrid emitiu um forte soluço. Desolado, deixou-se cair em sua desengonçada poltrona. Sem saber muito bem o que fazer, Raven aproximou-se do meio-gigante e apoiou a mão em seu enorme ombro.
- Nem sou capaz de imaginar o seu sofrimento, Hagrid – ela disse, voz embargada – Se é difícil para nós, o quanto não deve ser para você, então! Sei bem o quanto o Professor significava para você...
- Dumbledore foi mais que um pai para mim, Raven! – ele exclamou, por entre soluços – Se ainda tenho este lugar em Hogwarts, foi graças à infinita bondade e à justiça daquele grande coração! Um homem como Alvo Dumbledore nunca poderia ter morrido do jeito que morreu! Assassinado! Traído! E logo por quem ele confiava tanto... Tanto!!
Raven sentiu uma garra apertar seu estômago e outra pressionar sua nuca.
- Hagrid, você está dizendo... que o Professor Dumbledore foi vítima de... uma traição? – ela perguntou, presa de incômodo desespero, sem estar certa de realmente querer saber a resposta. Na mente da jovem um paralelo apavorante demais para sequer ser considerado perigosamente se insinuou...
Hagrid encarou Raven com um mal disfarçado susto em seus olhos molhados e piscos. Mais uma vez falara demais, e a intensidade do olhar da sonserina lhe mostrou com toda clareza que era mais que necessário safar-se daquele aperto.
- Hã, Raven, não foi bem isso que eu disse, é... Veja bem... É que todo assassinato é um ato de traição... Compreenda...
- Hagrid, não me enrole – a moça ordenou, num fio de voz, cravando-lhe no ombro os dedos trêmulos – Quem matou Dumbledore, Hagrid? Quem? Por acaso...?
- Hã... Foi... Ah, Raven, eu sinto muito... Eu não... Ninguém poderia imaginar... Apesar de tudo, Dumbledore confiava tanto nele... – murmurou Hagrid, num misto de dor e pena; não conseguiria dizer, não para ela, não para aquela apaixonada menina...
A sonserina engoliu em seco, e seus dedos apertaram ainda mais o ombro do gigante. Hagrid voltou a chorar ao ver a palidez do rosto da moça, os olhos esbugalhados, o peito arfante...
- Pelo Eterno, Hagrid – ela gemeu, a voz rouca de puro desespero – Então foi... Foi Severus... Severus que...
O gigante apenas assentiu com um meneio de cabeça, e cravou os olhos no chão.
Completamente desorientada, Raven sentiu-se sufocar; parecia-lhe que ia rebentar. Tentou correr para fora da cabana de Hagrid, mas tudo o que conseguiu foi trocar três ou quatro passos trôpegos...
E, daí em diante, apenas trevas.
Quando a sonserina abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi olhos esmeraldas a observarem com uma expressão triste e preocupada.
-Hagrid te trouxe para a enfermaria. Já conversei com Madame Pomfrey, e hoje mesmo você vai poder sair daqui.
Raven apenas assentiu, silenciosamente. Não se sentia capaz de dizer absolutamente nada, pois tanto a mente quanto o coração da moça pareciam ter se embolado em um emaranhado de pensamentos e sentimentos, os quais ela não saberia como desatar.
-Rav... - Meridiana disse, sentando-se na beirada da cama, ao lado da amiga - Hagrid me contou tudo. Eu sei sobre...você sabe...Aliás, eu já sabia, soube na sala comunal, só estava pensando em como te contar.
A morena permaneceu em silêncio, o que, de certa forma, já era esperado por Meri. A moça de cabelos rubros puxou delicadamente a amiga para perto de si, deitando a cabeça de Raven em seu colo. A sonserina continuou sem reação, enquanto a grifinória, inconscientemente, começou a murmurar baixinho uma canção que seu pai costumava cantar para ela quando era pequena e se sentia assustada.
Talvez porque era assim que Meridiana via Raven naquele momento, como uma garotinha a quem ela gostaria de proteger de todo o mal que existia no mundo, apesar de saber o quão impossível era aquilo.
por Raven e Meri
Nota: Essas dolls foram presente da Cellie para o arco "It's the end of the world as we knew it", mas achei que tinha tanto a ver com este post também, que resolvi disponibiliza-las aqui na página principal.
* Para quem quiser ler a versão completa deste arco, basta clicar AQUI
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