It's the end of world as we knew it - Parte 11
Gritos. Urros. Uivos. Sons indefinidos de feitiços aleatórios.
Meridiana sentia como se estivesse imersa em um poço de piche, tão escuro estava o corredor em que ela e Raven haviam se dirigido para voltarem para o QG. A ruiva não tinha a mínima idéia do que realmente estava acontecendo, contudo, não precisava pensar muito para chegar à conclusão que estava acontecendo uma batalha na penumbra que tinha diante de si.
Ela soube ao sentir algo lhe raspar, afiado, na altura da coxa, e o sangue quente começar a escorrer pela ferida. Laminus. Ela lera sobre aquele feitiço no livro de Arte das Trevas que ganhara de Frida, pouco antes de embarcar de volta para Hogwarts no ano anterior.
-Mas que m... - Raven começou a dizer, mas não teve tempo de terminar a fala.
Quase que por reflexo, Meridiana jogou o corpo no chão, trazendo a amiga consigo. Se ficassem abaixadas, teriam menos chances de serem atingidas por algum encantamento perdido.
-A gente não pode ficar aqui - a ruiva, falou baixinho.
-Eu sei que não! - Raven retorquiu no mesmo tom - Se ficarmos aqui, vão nos encontrar e seremos alvos fáceis. Tem alguma sugestão?
-Vamos voltar por onde viemos - Meridiana sugeriu.
-Eu não vou fugir, Meri! - a sonserina exclamou.
-Nós não vamos fugir, vamos dar a volta e chegar no QG pelo outro lado do castelo - a ruiva disse.
-Não tem como, Meri. De onde estamos precisaríamos sair do castelo para conseguir contornar até o outro caminho de acesso.
-Se conseguirmos descer até a cozinha, podemos fazer isso sim, Rav. Esqueceu do Covil do Dragão?
A sonserina anuiu, quase sorrindo. Meridiana tinha razão, a passagem secreta sobre a qual Satanio contara a eles era o que precisavam. Dessa forma, as duas saíram se arrastando pelo chão de pedra até se verem livres da confusão da batalha. Podendo levantar-se, as duas então seguiram o mais rápido que conseguiam para o lugar onde ficava uma grande tapeçaria ornada com um dragão, entre a entrada da cozinha e o corredor que levava para as masmorras, e era a entrada do Covil.
Apenas quando chegaram no amplo átrio do esconderijo foi que Raven percebeu que um filete fino de sangue escorria pela perna de Meridiana.
-Meri! Você está machucada! - ela exclamou, correndo até a amiga.
Meridiana balançou a cabeça, tentando tranqüilizar a sonserina.
-Foi só um corte, não foi muito fundo. Está latejando, mas acho que dá para agüentar.
Raven puxou com força um pedaço da camisa branca da escola, rasgando uma tira e estendendo-a para Meridiana. Para a surpresa da sonserina, a ruiva começou a rir, enquanto amarrava a tira em volta da coxa.
-Desculpa... - ela disse, levantando o rosto para a morena - Sei que não é hora para isso, mas, de repente me senti dentro de um filme B de ação, sabia?
- Sem problema, desde que você me deixe ser o Jackie Chan – devolveu Raven, com uma risadinha nervosa – E agora, dá pra você andar direito? Dê-me a sua mão, ou então se apóie em mim pra não forçar muito a perna.
As duas caminharam de mãos dadas pela orla da floresta por muito mais tempo do que imaginavam. Meridiana mancava um pouco, o que acabou atrasando a marcha de ambas, uma vez que Raven não queria deixar a amiga sozinha.
Estava escuro e não havia indício de presença alguma. O que talvez fosse um bom sinal, afinal, desde o incidente com Umbridge e a expulsão de Firenze, não era possível prever qual a reação dos centauros frente a humanos, apesar de Meridiana se lembrar bem do que Lusmore lhe dissera sobre eles: que centauros também eram regidos pela Antiga Magia, e eram mais tolerantes com os bruxos que respeitavam a magia dos sentimentos. O bardo acrescentara que centauros, tal qual o povo de Sidhé que um dia habitou as Hébridas ou os Sereianos, eram mais antigos e mais sábios que os humanos, e reconhecer humildemente a nossa ignorância diante daquele povo poderia ser o suficiente para aquietar o espírito do mais indômito deles.
Entretanto, caminhando por entre as árvores em direção à cabana de Hagrid, o que as duas jovens encontraram não foi um dos centauros, mas fogo. E novos gritos ecoando pela noite. A casa do guarda chaves estava em chamas. Alguns vultos se destacavam do cenário, mais à frente, um homem loiro e grande, que cruzava os portões de Hogwarts tendo um garoto de cabelos também dourados em seus calcanhares. Outro garoto tentava se levantar, tendo às costas três comensais da morte, facilmente identificáveis por seus trajes. E à frente dele, havia um homem que gritava algo a plenos pulmões a ponto de Meridiana e Raven conseguirem compreender as palavras dele apesar da relativa distância.
- NÃO... ME CHAME DE COVARDE! – e, ao gritar, o rosto de Severus ficou inesperadamente desvairado, desumano, como se sentisse tanta dor quanto Canino, que gania e uivava de algum ponto perto da casa de seu dono, talvez até de dentro dela, em meio às chamas.
- Por todas as hostes celestiais!! É Severus!! Ele precisa de ajuda!! – exclamou Raven, apavorada com o grito do Senhor de Seu Coração e firmemente disposta a correr até ele, o que só não fez por ter sido segura pela capa por Meridiana.
- Rav, aonde você vai? Nós precisamos chegar ao QG! – disse a ruiva, tentando acalmar a sonserina, que se debatia – E veja, ele acaba de lançar um feitiço, está plenamente capaz de se defender... do Potter?!? – completou Meridiana, um tanto incrédula.
- Potter? E eu quero lá saber de Potter? – exclamou Raven, ainda tentando se desvencilhar da amiga – Olha lá, Meri, é claro que Snape está em perigo, tem alguma coisa atacando-o... Pelo Eterno, é um hipogrifo! Meri, me larga! Eu preciso ir lá ajudá-lo! O hipogrifo vai matar Severus!!!
Num último esforço para se desvencilhar, Raven conseguiu soltar-se e chegou a começar a correr; estacou, porém, ao perceber que o Senhor de seu Coração havia conseguido escapar aparatando, deixando para trás o hipogrifo raivoso que voava em círculos sobre os portões da escola.
Raven virou-se e olhou para Meridiana, que a encarava com olhos tristes. A sonserina baixou os olhos, caminhou até a amiga e, ao olhá-la novamente, assustou-se com a expressão de pânico que marcava a face de Meri.
A moça erguera os olhos esmeralda em direção ao céu ao perceber, depois de praticamente encerrado o drama que se passou diante dela e a amiga, uma luz esverdeada, bem diferente do prata da luz lunar, incidindo acima delas. Meridiana sentiu o gelo tomar conta de seu coração e as pernas fraquejarem momentaneamente ao ver, logo acima da Torre de Astronomia, a Marca Negra, que tremeluzia contra o escuro da abóbada celeste como se fosse a própria morte encarnada.
Alguém havia sido morto em Hogwarts naquela noite. Meridiana temia que fossem os seus amigos a perecerem. Ela não queria pensar naquela possibilidade; entretanto, quem mais poderia ser? Até aquele instante, ela teve esperanças de que conseguiriam dar um desfecho feliz para o caso, entretanto, a esperança fora completamente devorada pela serpente que saía impetuosa pela boca da caveira acima da Torre mais alta do castelo.
Parada ao seu lado, com a mesma expressão de pânico no rosto, Raven olhava a Marca Negra, que fascinava como um enigma de necessária resolução, mas cuja resposta ninguém realmente desejava saber...
Meridiana olhou uma última vez para onde Potter, Hagrid e Canino estavam. O professor de Tratos de Criaturas Mágicas apagava as chamas de sua casa com um jato de água que saía da ponta de um enorme guarda-chuva cor de rosa; entretanto, Meridiana se sentia tão entorpecida que não chegou a estranhar o fato de Hagrid usar um objeto tão peculiar para invocar um encantamento, tampouco o fato de ele estar fazendo magia.
Ela virou-se em direção ao castelo, não era necessária naquele local. Ela precisava voltar. O que quer que houvesse ocorrido, ela precisava saber. A dúvida sobre o destino dos amigos lhe parecia muito pior. Seguida de perto por Raven, aos poucos ela foi galgando o aclive que levava às portas de carvalho maciço, as pernas pareciam pesadas, não pela ferida na coxa, mas pelo cansaço que seu corpo começava a querer reclamar.
Havia pessoas do lado de fora, alunos e alguns professores, a maioria deles usando pijamas e tendo no rosto uma expressão confusa e assustada. Meridiana esquadrinhou a multidão, tentando ver se algum dos amigos estava ali, mas não reconheceu nem os desaparecidos quanto os demais. Repentinamente, as pessoas começaram a caminhar para uma direção, e a ruiva deixou-se levar pelo fluxo.
Foi quando ela o viu no chão. Os olhos cerrados e o corpo deitado em um ângulo bizarro, os cabelos e a barba alva contrastavam com o verde escuro do chão. Demorou algum tempo para que ela compreendesse realmente o que havia acontecido. Dumbledore estava morto.
A moça virou o rosto assim que tomou plena consciência do fato. Sentiu-se culpada, a sensação que lhe pesava sobre o peito era que observar o corpo de Dumbledore daquele modo era algo quase obsceno. Uma falta de respeito. Ela sentiu formar-se na garganta um desejo de gritar com todos ali para irem embora, mas ela não conseguiu. A voz simplesmente negou-se a sair.
Parada a seu lado, com uma expressão de incredulidade mesclada à dor, Raven chorava silenciosamente. Era difícil para a sonserina acreditar que o querido barbaças estava morto, logo ele, que com seus cabelos prateados e seu ar ancestral parecia ser praticamente eterno...
Através da nuvem turva e embotada de lágrimas que começavam a se formar no canto dos olhos, Meridiana reconheceu a vice-diretora se aproximando. O robe de McGonagall estava rasgado e podiam-se nele ver vários arranhões. A mulher seguiu direto até onde estava Dumbledore, depois disso Meri a viu conversando com Hagrid e com outra garota ruiva que Johnson reconheceu como Ginny Weasley.
Contudo, para a surpresa da sextanista, após fazer tudo isso, a professora veio em direção a ela e Raven.
- Me acompanhem, por favor - Minerva disse em um tom que parecia exausto, como de fato era. Nunca antes em sua vida a professora de Transfigurações se sentira tão exaurida.
- Nossos amigos... - a ruiva começou.
-Ainda não foram encontrados - a professora interrompeu - mas creio que seja melhor discutirmos o assunto em particular – Vamos, venham comigo.
- Rav? – murmurou Meri, chamando a amiga para acompanhar Minerva. Porém, a sonserina não se mexeu; permanecia como que grudada à grama, o rosto coberto pelas mãos, o corpo trêmulo por soluços silenciosos. Sem saber o que dizer, e também tomada por infinita tristeza, Meri apenas passou o braço em volta dos ombros de Raven e a amparou, trazendo-a consigo, caminhando em seguida à professora.
Ao contornar um dos corredores levava à sala que fora de Dumbledore, Minerva e as jovens encontraram dois alunos da Lufa-lufa que vinham exatamente na direção contrária. Eram Lucien e Luke, e pareceram bastante aliviados ao verem Meri e Raven em companhia da professora.
- Notícias do pessoal? – perguntou Meri, aflita, a Lucien.
- Não, nada ainda. Eu e Luke estivemos procurando com Satanio, mas nem sinal deles – o rapaz respondeu, preocupado – Foi quando vimos a Marca Negra e estávamos indo para lá ver o que aconteceu. Sat disparou na frente, preocupado com Yvaine...
- Então eles também sabem? – Minerva perguntou a Meri, que assentiu, silenciosamente.
- O que aconteceu? Quem...? – começou Luke, aproximando-se de Raven, que ainda chorava baixinho.
- O... o professor Dumbledore, ruivo... Você pode acreditar nisso? – ela murmurou, a voz embargada, erguendo as mãos num gesto de desamparo – O professor Dumbledore morreu!...
O assombro tomou a expressão dos rapazes, seguido pelo pesar. Raven voltou a chorar, e Luke a abraçou.
- Sr. Hunter, acho que seria melhor se acompanhasse sua amiga à enfermaria; enquanto isso, você, Meridiana, prossiga comigo até a sala do Diretor... – disse Minerva, contendo o tremor em sua voz – O Sr. von Weizellberg também pode vir conosco, já que ele também está a par do desaparecimento de seus amigos.
E assim, eles se separaram.
por todos acima
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