Pela janela aberta, Adhara observou o vulto branco de sua coruja
desaparecer no céu noturno. Fechou os olhos, apreciando a brisa gelada que
invadia o quarto e batia contra o seu rosto.
Abriu os olhos e virou-se observando vagamente o aposento. Era a sua
última noite naquela casa, suas vestes e livros já estavam guardados dentro do
malão, juntamente com a varinha, caldeirão e demais equipamentos, até mesmo a
vassoura que ela quase nunca usava, mas mesmo assim teimava em levar consigo
para a escola todo ano.
Aproximou-se da cama e pegou uma manta escura que estava espalhada sobre
o colchão e embrulhou-se nela, de um modo que cobria a camisola negra.
Deixou o quarto, os pés descalços fazendo contato com o assoalho escuro
e frio. Desceu as escadas e caminhou por outro corredor até chegar a uma saleta
quase que escondida.
Abriu a porta de madeira com cuidado, espiando o aposento. A lareira
crepitava no fundo da sala, atrás da poltrona estofada onde um homem repousava
adormecido.
Adhara entrou na saleta e fechou a porta atrás de si, tomando cuidado
para não fazer barulho. Aproximou-se lentamente do pai e desviou da mesa
repleta de papéis que havia na frente dele.
Estava preocupada, Kamus se ausentara por quase uma semana sem dar
notícias, quando questionou-o sobre o motivo de sua viagem a única resposta que
Adhara obteve foi: “são assuntos de trabalho, não deve se preocupar com isso.”
E desde que voltara, Kamus passava grande parte do tempo trancado no
escritório, fazendo o que, ela não sabia.
Observou-o enquanto dormia, parecia tão tranqüilo, tão diferente do
homem que conhecia. Retirou a manta que a envolvia e colocou-a sobre o pai,
cobrindo-o para que não viesse a sentir frio.
Sua mão repousou sobre o rosto de Kamus, com feições sempre tão sérias,
e ela sorriu levemente, aproximando-se dele, seus lábios encontraram a face do
pai, depositando ali um beijo.
Adhara afastou-se, ainda sorrindo, mas ficou apreensiva ao vê-lo se
remexer na poltrona, temeu tê-lo acordado.
- Anabelle... – o nome escapou como um sussurro dos lábios de Kamus.
Adhara deu alguns passos para trás, afastando-se, o pai mais uma vez
escapava-lhe por entre os dedos... Será que até mesmo em sonhos ele a veria
como a mãe?
Deu meia volta e saiu correndo do escritório, não se preocupava mais em
fazer barulho ou não.
Subiu a escada aos tropeços e seus passos apressados ecoaram pelos
corredores. De volta ao quarto, bateu a porta com força para fecha-la e
escorregou lentamente, ainda apoiada na porta, caindo sentada no chão, a
respiração arfante. Virando o rosto para a direita, Adhara deparou-se com o
espelho de sua penteadeira. Levantou-se e caminhou até ele, mirando o seu
reflexo.
Através dos cabelos cinzentos e dos olhos azuis ela viu sobressair-se
como uma sombra difusa o rosto sorridente de sua mãe. Pegou o primeiro objeto
que tinha ao seu alcance e jogou-o contra o espelho, quebrando-o; os cacos
voaram por todo o quarto, cobrindo o chão com um tapete belo e cortante.
Mas, através dos estilhaços de espelho, Anabelle Timms continuava a
sorrir para a filha, como sempre fizera.
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