Saturday, July 20, 2013

Riso Eterno

Pela janela aberta, Adhara observou o vulto branco de sua coruja desaparecer no céu noturno. Fechou os olhos, apreciando a brisa gelada que invadia o quarto e batia contra o seu rosto.
Abriu os olhos e virou-se observando vagamente o aposento. Era a sua última noite naquela casa, suas vestes e livros já estavam guardados dentro do malão, juntamente com a varinha, caldeirão e demais equipamentos, até mesmo a vassoura que ela quase nunca usava, mas mesmo assim teimava em levar consigo para a escola todo ano.

Aproximou-se da cama e pegou uma manta escura que estava espalhada sobre o colchão e embrulhou-se nela, de um modo que cobria a camisola negra.
Deixou o quarto, os pés descalços fazendo contato com o assoalho escuro e frio. Desceu as escadas e caminhou por outro corredor até chegar a uma saleta quase que escondida.
Abriu a porta de madeira com cuidado, espiando o aposento. A lareira crepitava no fundo da sala, atrás da poltrona estofada onde um homem repousava adormecido.

Adhara entrou na saleta e fechou a porta atrás de si, tomando cuidado para não fazer barulho. Aproximou-se lentamente do pai e desviou da mesa repleta de papéis que havia na frente dele.
Estava preocupada, Kamus se ausentara por quase uma semana sem dar notícias, quando questionou-o sobre o motivo de sua viagem a única resposta que Adhara obteve foi: “são assuntos de trabalho, não deve se preocupar com isso.”
E desde que voltara, Kamus passava grande parte do tempo trancado no escritório, fazendo o que, ela não sabia.

Observou-o enquanto dormia, parecia tão tranqüilo, tão diferente do homem que conhecia. Retirou a manta que a envolvia e colocou-a sobre o pai, cobrindo-o para que não viesse a sentir frio.
Sua mão repousou sobre o rosto de Kamus, com feições sempre tão sérias, e ela sorriu levemente, aproximando-se dele, seus lábios encontraram a face do pai, depositando ali um beijo.
Adhara afastou-se, ainda sorrindo, mas ficou apreensiva ao vê-lo se remexer na poltrona, temeu tê-lo acordado.

- Anabelle... – o nome escapou como um sussurro dos lábios de Kamus.

Adhara deu alguns passos para trás, afastando-se, o pai mais uma vez escapava-lhe por entre os dedos... Será que até mesmo em sonhos ele a veria como a mãe?

Deu meia volta e saiu correndo do escritório, não se preocupava mais em fazer barulho ou não.
Subiu a escada aos tropeços e seus passos apressados ecoaram pelos corredores. De volta ao quarto, bateu a porta com força para fecha-la e escorregou lentamente, ainda apoiada na porta, caindo sentada no chão, a respiração arfante. Virando o rosto para a direita, Adhara deparou-se com o espelho de sua penteadeira. Levantou-se e caminhou até ele, mirando o seu reflexo.

Através dos cabelos cinzentos e dos olhos azuis ela viu sobressair-se como uma sombra difusa o rosto sorridente de sua mãe. Pegou o primeiro objeto que tinha ao seu alcance e jogou-o contra o espelho, quebrando-o; os cacos voaram por todo o quarto, cobrindo o chão com um tapete belo e cortante.

Mas, através dos estilhaços de espelho, Anabelle Timms continuava a sorrir para a filha, como sempre fizera.


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