“Ele corria cada vez mais rápido, a dor em seu peito intensificando-se.
Viu refletir-se no céu escuro a marca da caveira com uma cobra escapando pela
boca, as estrelas tingiram-se de verde.
O desespero dominou-o. Fechou os olhos e aparatou, lutando contra a
certeza que tentava a todo custo penetrar em sua mente. Quando reabriu os
olhos, desejou jamais tê-lo feito.
Lá estava ela, os cabelos claros e espessos foram cortados em desalinho,
os braços amarrados num ângulo estranho, às roupas rasgadas cobriam um corpo
machucado, o rosto, sempre imaculado, tão parecido com o de uma boneca de
porcelana, estava repleto de cortes e os olhos castanhos, que no passado o
desafiaram, estavam vazios agora.
Sua boca abriu-se deixando escapar um grito de agonia, estava tudo
acabado...”
- Pai... – ouviu uma voz difusa chamando-lhe ao longe – Pai... – estava
cada vez mais próxima.
Kamus abriu os olhos e observou o rosto da filha curvado sobre o seu, os
cabelos compridos e acinzentados caiam ao redor de seus rostos, formando uma
espécie de cortina que os ocultava do resto do mundo.
- O que quer, Adhara? – ela endireitou-se, sentando-se ao lado dele na
beirada da cama.
- Pensei que iríamos ao Beco Diagonal hoje, já que voltarei para
Hogwarts nas próximas semanas e ainda não comprei meu material.
Kamus sentou-se também, observando a filha com interesse por alguns
instantes.
Ela era pequena e frágil, assim como Anabelle, e também tinha as mesmas
feições da mãe, mas os cabelos, lisos e cinzentos, e os olhos azuis escuros
eram como os dele.
Adhara sabia que o pai estava vendo a falecida mãe através dela
novamente. Levantou-se, irritada, e deu as costas para ele, não vivia para ser
uma sombra de Anabelle Timms.
Ela cruzou o quarto e sua mão precipitou-se para a maçaneta da porta,
foi quando sentiu dois braços envolverem-na por trás.
- Me desculpe, filha. – Adhara fechou os olhos, deixando-se ficar no
abraço protetor do pai.
O silêncio reinou no aposento por alguns segundos até que Kamus
interrompeu o contato e afastou-se.
- Vá se trocar, sairemos em meia-hora. – ele disse, sua voz recuperando
o tom sério que lhe era habitual.
Adhara assentiu e saiu do quarto sem encará-lo. Caminhou rápido pelos
longos corredores da casa, o coração apertado ao ver a tristeza do pai.
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