- Rav, o Cabeça de Fósforo não vai aceitar uma coisa dessas. Você o conhece tão bem quanto eu.
- Eu sei, Sat, mas eu temo por ele! O Cenoura estava falando sério e acredito quando ele disse, mesmo que veladamente, que é capaz de fazer mal ao Luke de propósito!
- Rav, Carrow & Sua Turma não gostam do Luke por ele ser cigano, não por ele ser lufano, ou nosso amigo. Para eles tanto faz isso, o problema é outro. Casa contrária ou amizade são meras desculpas.
- Então, na verdade, o que você quer dizer é que antes a gente por perto para vigiar o Luke do que nos afastarmos para protegê-lo?
- Muito bem, Moça Corvo, você captou a coisa.
- É, Sat, você tem razão... Por favor, conte para o pessoal da Armada essa conversa fiada do Cenoura. Deve haver outros ciganos em Hogwarts, seria bom eles ficarem alertas. E converse com o Luke, também, veja se consegue colocar algum juízo naquela cabeça dura. Eu me sentirei muito mal se algo de ruim acontecer com ele... E posso saber por que você está sorrindo desse jeito?...
Essa minha conversa com Satanio, depois que deixei correndo a sala de Arte das Trevas, sempre voltava à minha mente de uma forma incômoda. Aquela situação me confundia: ao mesmo tempo em que estava determinada a afrontar o Cenoura, me pelava de medo de que essa atitude de ar heróico acabasse se transformando numa ameaça concreta ao meu amigo Lucas Hunter.
Ainda presa de estranho torpor, contemplei as montanhas e a floresta que cercavam a escola; e, curiosamente, de protetoras outrora, agora elas me pareciam sufocantes, como se também estivessem a serviço dos Comensais da Morte com o objetivo de nos manter cativos em um espaço de fácil captura; e o vento, que balançava levemente meus cabelos, agora me parecia um espião que captava minhas idéias e reflexões e as ia sussurrar diretamente nos ouvidos de Amycus Carrow.
Olá, Raven, como vai? Sou eu, Paranóia, querendo conhecer você melhor...
Balancei a cabeça com firmeza e pisquei os olhos, a fim de afastar essa visitante indesejável; já que era para enfrentar um inimigo poderoso, nada melhor e mais necessário do que lucidez e lógica. Olhei ao meu redor, focando e reconhecendo meus livros e pergaminhos espalhados sobre a grama, minha calça jeans desbotada, meu livro aberto em meu colo, minha blusa listrada, o braço de Luke passado em volta de minha cintura...
Hã? Como assim, o braço de Luke em volta de minha cintura?
Só então me lembrei de que havíamos nos sentado sob uma árvore, num canto do jardim, para estudar Arte das Trevas. Luke tem sérios problemas com essa matéria – na verdade, ele tem problema com tudo o que se refira ao assunto – e me pediu ajuda para pelo menos conseguir entender o que anotava, de muita má-vontade, nos pergaminhos. Porém, não me lembro em que ponto me desconcentrei da realidade e mergulhei na lembrança de minha conversa com Satanio... e nem quando, nesse período, cheguei a ficar tão absorta que até virei as costas a Luke.
Vermelha de vergonha, me virei aos poucos e me recostei na árvore, ao lado do ruivo. Ele, por sua vez, retirou seu braço de minha cintura, largou na grama o livro que estivera lendo e me cumprimentou, solene:
- Bem vinda de volta ao Planeta Terra, Senhorita Sinclair. Espero que tenha feito uma boa viagem.
- Desculpe, Luke, não fiz por mal, eu me distraí... – respondi, corando – Mas isso não era desculpa para você se aproveitar da situação.
Foi a vez de ele corar.
- Fique a senhorita sabendo que eu não estava me aproveitando de situação nenhuma. É que você foi ficando tão distraída, mas tão distraída, que a certa altura achei que iria levantar vôo. Por isso resolvi segurá-la.
Não pude deixar de sorrir.
- Só espero que o motivo que fez você sonhar desse jeito não tenha sido... aquele sujeito. – comentou Luke, enchendo o final da frase de despeito.
Meu sorriso sumiu.
- Eu não estava sonhando com Severus Snape. Estava refletindo! Na verdade, Luke, eu estava era preocupada com você! – retruquei, irritada.
- Preocupada comigo?!? – exclamou Luke, verdadeiramente surpreso – Por quê?
- Satanio não contou nada para você, não?
O Ruivo meneou a cabeça em assentimento.
- Se for a conversa atravessada daquele pulha do Carrow, Rav, o Satanio me contou, sim. E a Armada também já está sabendo. Há outros ciganos aqui na escola, e já estamos em alerta para qualquer eventualidade desde quando tivemos certeza de que Você-Sabe-Quem havia retornado. Nossas famílias também estão em contato constante umas com as outras. Os Roma estão acostumados a ser perseguidos, mas dessa vez vamos nos unir para resistir a qualquer ataque contra nós.
- Os Roma?... – perguntei.
Luke sorriu.
- É o outro nome pelo qual são conhecidos os ciganos... Você não sabia?
- Não, não sabia, e talvez muita gente não saiba... Seu povo é cheio de segredos e mistérios – comentei, com um sorriso – Luke, fico aliviada em saber que vocês estão organizados assim, mas queria lhe pedir novamente, de coração, para não provocar o Cenoura ou aquelas figurinhas carimbadas da Sonserina. E, falando muito sério agora, ruivo, se for preciso você se afastar de minha companhia para evitar problemas, eu compreenderei perfeitamente...
- É isso que você quer? – cortou Luke, de cara amarrada, cruzando os braços.
- Não! Claro que não! Você sabe que não! Mas, se for preciso, eu estou disposta a...
- Ótimo. Eu não quero, você não quer, então o certo é deixar como está – cortou ele novamente, taxativo – E, a propósito, o que você vai fazer no Natal?
Sem entender coisa alguma, encarei Luke com cara de personagem de anime.
- Como assim, Ruivo? O que tem a ver o Natal com a nossa situação em Hogwarts??
- Não tem nada a ver. Mas, se você não tem nada programado para o seu Natal, eu gostaria de convidar você para passá-lo comigo e com minha família, na casa da minha avó. E o convite é para o Sr. Sinclair também; minha avó quer conhecê-lo desde que comentei com ela sobre o azar dele.
Arregalei os olhos, esperançosa.
- Sério, Ruivo?!? Oh, Merlin, será que sua avó conhece alguma cura para ele? Isso seria maravilhoso! Resolveria quase todos os problemas do Tio Augie! Por que você não me disse isso antes?
- Não tive oportunidade! Tudo o que conversamos ultimamente é sobre Cenouras indigestas e assuntos intragáveis como Arte das Trevas – respondeu Luke, pisando no livro-texto da matéria de Amycus Carrow – Estou cansado de ficar o tempo todo pensando nisso e de ver você tensa e com medo; precisamos aproveitar o tempo que ainda temos. Por isso, achei que seria uma idéia saudável para nós chamar você e seu tio para passar o Natal com minha família, em vez de ficarem sozinhos naquele galpão. Você aceita?
- É claro!! Tio Augie também vai adorar a idéia! Ah, Luke, muito obrigada! – exclamei, atirando os braços em torno do pescoço do meu amigo ruivo.
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