Mina puxou a cadeira para perto da janela, de modo a ficar um tanto
afastada do burburinho que os alunos faziam no salão comunal. Através da
janela, ela podia ver as nuvens que se avolumavam, prenunciando uma noite
chuvosa. Ela observou por algum tempo a capa do livro que repousava em seu
colo. Na capa verde, em letras douradas, estava o título: "Crime e
Castigo". Mina tirou os óculos, que só usava por causa da miopia, esfregou
os olhos e se pôs a ler.
Pouco depois, como sempre acontecia quando ela estava com um livro,
tinha se desligado do mundo. Se os gêmeos explodissem a torre naquele exato
instante, Mina não perceberia. Estava envolvida demais pela história. O tempo
foi passando, a sala foi esvaziando, e, como ela pensara de início, tinha
começado a chover. O barulho das gotas de chuva contra a vidraça combinado com
as letras pequenas que a faziam forçar os olhos para lê-las, acabaram por
deixá-la sonolenta. E antes que Mina pudesse se decidir a levantar e ir para
seu dormitório, já tinha dormido na poltrona. O livro escorregou das mãos dela
para o chão, fazendo um barulho surdo. Mas ela não notou. Mina estava sonhando.
Estava diante do castelo MacFusty, em plena primavera. Sob as duas faias
gêmeas que ela vira crescer, estavam seus pais, seus avós e uma criança de no
máximo três anos. Os cabelos estavam presos em duas tranças e ela usava um
delicado chapéu, que parecia querer voar, enquanto ela corria atrás de uma
borboleta.
- Mina, não corra desse jeito, vai cair! - a voz suave de Lucy MacFusty
soou em tom de reprimenda.
Dito e feito. A criança caiu, ralando o joelho e logo começou a chorar,
estendendo os braços para a mãe. Mas a mulher não se moveu.
- Você tem que aprender a se levantar sozinha. - Jonathan respondeu ao
pedido mudo da filha.
Nesse momento, o quadro da Mulher Gorda se abriu, dando passagem a
Meridiana. A garota observou seu salão comunal por alguns instantes, percebendo
que não estava sozinha. Pé ante pé, caminhou até a poltrona virada para a
janela, encontrando Mina, que dormia pesadamente. Meri viu que perto da
poltrona na qual a garota repousava havia um livro grosso e pesado. Abaixou-se
para pegar. Crime e Castigo? Uma leitura um tanto quanto complexa para alguém
tão nova... - pensou Meridiana, surpresa, ao ver o título do livro.
Repentinamente Mina começou a gemer, fazendo uma careta de dor em seu sonho, o
que deixou a quintanista ligeiramente preocupada.
- Hei. - Meridiana chamou suavemente, tentando não assustar a outra
menina.
Mina abriu os olhos. Sem óculos, e ainda sob influência do sonho, ela
estendeu os braços, abraçando o pescoço do vulto que ela mal via em sua frente.
- Mamãe...
Meri se assombrou com a atitude da garota. Deveria ter sido um sonho
muito ruim para ela acordar tão confusa. Apiedando-se da situação da menina,
Meri correspondeu ao abraço e fez com que Mina recostasse a cabeça em seu
ombro. E com a voz mais suave que conseguia fazer disse:
- Shhh... Calma, vai tudo ficar bem... Não tem com que se preocupar...
O dia já quase amanhecia quando ela afinal acordou. Mina olhou para o
teto embaçado por alguns instantes, tentando descobrir onde estava. As gotas de
chuva no vidro lembraram a garota da noite anterior; provavelmente dormira no
salão comunal.
Ela levantou-se, procurando seus óculos e quando afinal os colocou,
percebeu que não estava sozinha. Havia uma garota ruiva na poltrona em frente a
que ela dormira. Ela ainda estava dormindo e, em seu colo, estava o livro que
Mina lera na véspera.
Mina levantou-se, tentando não fazer ruído, enquanto se lembrava
vagamente do que acontecera. Estivera sonhando com seus pais.
Sabia que acordara em algum ponto da noite e tivera a impressão de ter
visto a mãe. Mas Lucy MacFusty jamais iria aparecer em Hogwarts.
Então, a pessoa que abraçara devia ser... Mina se debruçou sobre a face
da outra garota. Como era mesmo o nome dela? Droga! Porque tinha que ser tão
esquecida para nomes?
Nesse momento, a ruiva deu mostras de despertar e Mina imediatamente
aprumou-se, assustada. Ela olhou para as escadarias que levavam ao dormitório e
suspirou. Não tinha como sair correndo. Coçando a cabeça, ela observou
Meridiana abrir os olhos completamente, e olhar para ela.
- Bom dia - disse Meri sorrindo para a garota à sua frente - Espero que
tenha dormido bem... Quando eu cheguei aqui ontem à noite você estava um pouco
agitada, e como eu não sabia qual era o seu dormitório, achei melhor passar a
noite na sala comunal com você.
Mina piscou os olhos, atônita. Aquela garota estava querendo dizer
que...
- Você... passou... a noite... aqui... comigo?
- Claro, como eu te disse, você parecia precisar de ajuda. Que tipo de
colega de casa eu seria se não te desse uma mãozinha?
Mina não conseguiu conter um sorriso. Mas em seguida ficou séria de
novo.
- Não precisava. Quer dizer, a gente nem se conhece direito.
Foi a vez da outra sorrir.
- Não seja por isso. - respondeu a ruiva, estendendo a mão. - Meu nome é
Meridiana Johnson e estou no quinto ano.
Mina observou a mão estendida da colega por alguns instantes, antes de
apertá-la esfuziantemente.
- Eu sou Mina MacFusty. Sou um ano mais nova que você.
- Você é do clã MacFusty? Do pessoal que trabalha com dragões? Que
fantástico!
A garota apenas assentiu com a cabeça, um meio sorriso nos lábios.
Aquela situação era tão estranha, quase surreal... Ser pajeada por uma completa
estranha e ser tratada com tanto carinho sem motivo algum...
- Johnson...
- Pode me chamar de Meridiana.
- Bem, Meridiana... Posso te fazer uma pergunta? - Mina mordeu os lábios
ligeiramente - Por um acaso, eu falei alguma coisa enquanto dormia?
- Você estava chorando e chamando por sua mãe quando eu cheguei...
- Eu te abracei, não é? Me desculpe. - o rosto de Mina adquiriu uma
tonalidade avermelhada.
- Que isso, Mina, não tem problema nenhum... - percebendo que a garota
mais jovem estava visivelmente constrangida, Meridiana tratou de mudar de
assunto - Você está lendo Crime e Castigo?
- Hum-hum. Já leu?
- Ainda não, mas sou doida para ler. Adoro literatura em geral, e todo
mundo fala que esse livro é fantástico. Um ensaio sobre a natureza humana de
acordo com meu pai.
- Ele tem razão. É a terceira vez que eu leio e nunca me cansei dele. Se
quiser, posso te emprestar quando eu terminar. Eu também sou uma apaixonada por
literatura.
- É mesmo? Que legal! Quanto ao livro, muito obrigada, eu adoraria. Mas
acho melhor corrermos para o Salão Principal se ainda quisermos comer alguma
coisa decente no café da manhã. Vamos?
Mina apenas assentiu com a cabeça e acompanhou a colega pela passagem.
Por algum estranho motivo, ela sentiu vontade de puxar conversa com a jovem ao
seu lado.
- Então, Meridiana... Que tipo de livros você gosta?
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