Saturday, July 20, 2013

Mamãe

Mina puxou a cadeira para perto da janela, de modo a ficar um tanto afastada do burburinho que os alunos faziam no salão comunal. Através da janela, ela podia ver as nuvens que se avolumavam, prenunciando uma noite chuvosa. Ela observou por algum tempo a capa do livro que repousava em seu colo. Na capa verde, em letras douradas, estava o título: "Crime e Castigo". Mina tirou os óculos, que só usava por causa da miopia, esfregou os olhos e se pôs a ler.

Pouco depois, como sempre acontecia quando ela estava com um livro, tinha se desligado do mundo. Se os gêmeos explodissem a torre naquele exato instante, Mina não perceberia. Estava envolvida demais pela história. O tempo foi passando, a sala foi esvaziando, e, como ela pensara de início, tinha começado a chover. O barulho das gotas de chuva contra a vidraça combinado com as letras pequenas que a faziam forçar os olhos para lê-las, acabaram por deixá-la sonolenta. E antes que Mina pudesse se decidir a levantar e ir para seu dormitório, já tinha dormido na poltrona. O livro escorregou das mãos dela para o chão, fazendo um barulho surdo. Mas ela não notou. Mina estava sonhando.

Estava diante do castelo MacFusty, em plena primavera. Sob as duas faias gêmeas que ela vira crescer, estavam seus pais, seus avós e uma criança de no máximo três anos. Os cabelos estavam presos em duas tranças e ela usava um delicado chapéu, que parecia querer voar, enquanto ela corria atrás de uma borboleta.

- Mina, não corra desse jeito, vai cair! - a voz suave de Lucy MacFusty soou em tom de reprimenda.

Dito e feito. A criança caiu, ralando o joelho e logo começou a chorar, estendendo os braços para a mãe. Mas a mulher não se moveu.

- Você tem que aprender a se levantar sozinha. - Jonathan respondeu ao pedido mudo da filha.

Nesse momento, o quadro da Mulher Gorda se abriu, dando passagem a Meridiana. A garota observou seu salão comunal por alguns instantes, percebendo que não estava sozinha. Pé ante pé, caminhou até a poltrona virada para a janela, encontrando Mina, que dormia pesadamente. Meri viu que perto da poltrona na qual a garota repousava havia um livro grosso e pesado. Abaixou-se para pegar. Crime e Castigo? Uma leitura um tanto quanto complexa para alguém tão nova... - pensou Meridiana, surpresa, ao ver o título do livro. Repentinamente Mina começou a gemer, fazendo uma careta de dor em seu sonho, o que deixou a quintanista ligeiramente preocupada.

- Hei. - Meridiana chamou suavemente, tentando não assustar a outra menina.

Mina abriu os olhos. Sem óculos, e ainda sob influência do sonho, ela estendeu os braços, abraçando o pescoço do vulto que ela mal via em sua frente.

- Mamãe...

Meri se assombrou com a atitude da garota. Deveria ter sido um sonho muito ruim para ela acordar tão confusa. Apiedando-se da situação da menina, Meri correspondeu ao abraço e fez com que Mina recostasse a cabeça em seu ombro. E com a voz mais suave que conseguia fazer disse:

- Shhh... Calma, vai tudo ficar bem... Não tem com que se preocupar...

O dia já quase amanhecia quando ela afinal acordou. Mina olhou para o teto embaçado por alguns instantes, tentando descobrir onde estava. As gotas de chuva no vidro lembraram a garota da noite anterior; provavelmente dormira no salão comunal.
Ela levantou-se, procurando seus óculos e quando afinal os colocou, percebeu que não estava sozinha. Havia uma garota ruiva na poltrona em frente a que ela dormira. Ela ainda estava dormindo e, em seu colo, estava o livro que Mina lera na véspera.
Mina levantou-se, tentando não fazer ruído, enquanto se lembrava vagamente do que acontecera. Estivera sonhando com seus pais.
Sabia que acordara em algum ponto da noite e tivera a impressão de ter visto a mãe. Mas Lucy MacFusty jamais iria aparecer em Hogwarts.
Então, a pessoa que abraçara devia ser... Mina se debruçou sobre a face da outra garota. Como era mesmo o nome dela? Droga! Porque tinha que ser tão esquecida para nomes?
Nesse momento, a ruiva deu mostras de despertar e Mina imediatamente aprumou-se, assustada. Ela olhou para as escadarias que levavam ao dormitório e suspirou. Não tinha como sair correndo. Coçando a cabeça, ela observou Meridiana abrir os olhos completamente, e olhar para ela.

- Bom dia - disse Meri sorrindo para a garota à sua frente - Espero que tenha dormido bem... Quando eu cheguei aqui ontem à noite você estava um pouco agitada, e como eu não sabia qual era o seu dormitório, achei melhor passar a noite na sala comunal com você.

Mina piscou os olhos, atônita. Aquela garota estava querendo dizer que...

- Você... passou... a noite... aqui... comigo?

- Claro, como eu te disse, você parecia precisar de ajuda. Que tipo de colega de casa eu seria se não te desse uma mãozinha?

Mina não conseguiu conter um sorriso. Mas em seguida ficou séria de novo.

- Não precisava. Quer dizer, a gente nem se conhece direito.

Foi a vez da outra sorrir.

- Não seja por isso. - respondeu a ruiva, estendendo a mão. - Meu nome é Meridiana Johnson e estou no quinto ano.

Mina observou a mão estendida da colega por alguns instantes, antes de apertá-la esfuziantemente.

- Eu sou Mina MacFusty. Sou um ano mais nova que você.

- Você é do clã MacFusty? Do pessoal que trabalha com dragões? Que fantástico!

A garota apenas assentiu com a cabeça, um meio sorriso nos lábios. Aquela situação era tão estranha, quase surreal... Ser pajeada por uma completa estranha e ser tratada com tanto carinho sem motivo algum...

- Johnson...

- Pode me chamar de Meridiana.

- Bem, Meridiana... Posso te fazer uma pergunta? - Mina mordeu os lábios ligeiramente - Por um acaso, eu falei alguma coisa enquanto dormia?

- Você estava chorando e chamando por sua mãe quando eu cheguei...

- Eu te abracei, não é? Me desculpe. - o rosto de Mina adquiriu uma tonalidade avermelhada.

- Que isso, Mina, não tem problema nenhum... - percebendo que a garota mais jovem estava visivelmente constrangida, Meridiana tratou de mudar de assunto - Você está lendo Crime e Castigo?

- Hum-hum. Já leu?

- Ainda não, mas sou doida para ler. Adoro literatura em geral, e todo mundo fala que esse livro é fantástico. Um ensaio sobre a natureza humana de acordo com meu pai.

- Ele tem razão. É a terceira vez que eu leio e nunca me cansei dele. Se quiser, posso te emprestar quando eu terminar. Eu também sou uma apaixonada por literatura.

- É mesmo? Que legal! Quanto ao livro, muito obrigada, eu adoraria. Mas acho melhor corrermos para o Salão Principal se ainda quisermos comer alguma coisa decente no café da manhã. Vamos?

Mina apenas assentiu com a cabeça e acompanhou a colega pela passagem. Por algum estranho motivo, ela sentiu vontade de puxar conversa com a jovem ao seu lado.


- Então, Meridiana... Que tipo de livros você gosta? 

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