O sol escondia-se no horizonte de Hogwarts, tingindo de laranja-escuro e
lilás o céu que descortinava-se sobre o imponente castelo localizado entre
colinas verdejantes. O verão britânico estava cada vez mais próximo, e com ele
chegava a temporada de revisões e simulados pré-exames. A biblioteca, antes
lugar freqüentado somente pelos alunos mais aplicados, havia tornado-se refúgio
e ponto de encontro para a maioria dos estudantes, sobretudo os do quinto e
sétimo ano.
Foi tentando escapar desse caos que Adhara Ivory escolhera instalar-se
no salão comunal da Sonserina para colocar em ordem toda a matéria daquele dia.
A garota suspirou, mesmo ali, nas masmorras, ainda estava um pouco calor;
embora ela tivesse certeza de que o restante do castelo deveria estar ainda
pior. Nesse momento considerava-se uma grande afortunada por habitar a escura e
gélida ala das serpentes. Sem aviso ela sentiu um par de mão com dedos longos e
finos levantar os seus cabelos e colocar os fios pouco mais claros que o ébano
por cima do encosto da cadeira em que estava sentada, um gesto cortês para
amenizar o calor que tanto lhe incomodava. Adhara não moveu-se, esperando que o
responsável por aquilo entrasse em seu campo de visão.
Theodore Nott contornou a mesa e parou em frente a janela que dava a
garota uma uma visão do exterior do castelo. Nott fitou o céu de início de
noite, não dirigindo o olhar para a prima.
- Você deveria ir comer alguma coisa, o jantar já foi servido no Salão
Principal. Não é bom ficar em jejum por tanto tempo. - disse o sonserino.
- Passei na cozinha antes de vir para cá. Você não precisa se preocupar
tanto comigo, primo. - ela respondeu com irônia.
- É natural que eu me preocupe. - Nott virou-se para a garota - Você é
da família, devemos zelar de quem tem o nosso sangue.
Adhara cruzou os braços, não permitindo que o seu rosto denotasse
qualquer expressão.
- Eu não irei zelar pelo Draco. E nem por você.
Theodore sorriu.
- Tudo bem, eu não eperava que a atitude fosse recíproca da sua parte.
De qualquer jeito, você é a minha prima favorita, Adhara.
A garota abriu a boca para retrucar que aquilo pouco significava, pois
Theodore não tinha outra prima, quando um súbito pensamento a conteve. Estava errada,
ela não era a única prima que ele possuía. Recentemente Adhara descobrira que,
além do sextanista Trowa Barton, havia outro estudante da Grifinória com quem
ela mantinha laços consangüíneos: Meridiana Johnson, cuja mãe fora prima de
Kamus Ivory. O modo como Theodore salientara que ela, Adhara, era a sua prima
favorita, levava a garota a crer que talvez ele já soubesse do parentesco que
tinham com a grifinória de cabelos rubros. Mas também existia a hipótese de que
Nott tivesse dito aquilo sem pensar. Talvez o melhor fosse jogar uma isca e ver
se o primo revelava o que ela queria saber.
- E não existe outra pessoa que também mereça a sua preocupação?
Theodore franziu a testa, era esperto o suficiente para perceber que
Adhara estava tentando extrair-lhe uma confissão. Desde que soubera por Draco
Malfoy que seu tio Kamus estivera em Hogwarts para conversar com Adhara e a
garota Johnson, deduziu que a prima havia descoberto sobre o parentesco com a
ruivinha grifinória. Apenas lhe chateava o fato de Kamus não tê-lo convidado
para participar da conversa, tinha grande curiosidade de conhecer o seu tio e
também para saber o que ele dissera a Adhara e como estaria desenvolvendo-se o
relacionamento dela com Meridiana Johnson.
- Se está falando da Johnson, aquela grifinória não tem muita relevância
para mim.
- Então você já sabia... - Adhara estreitou os olhos - Desde quando?
- Já faz alguns anos. Uma vez ouvi a garota comentando que o seu
sobrenome do meio era Black-Thorne, então perguntei à minha mãe e ela confirmou
que a sua prima, Elizabeth, havia deixado a família para unir-se a um trouxa e
acabou tendo uma filha.
Adhara confirmou com a cabeça. Kamus não mencionara a
"traição" de Elizabeth, mas ela já havia deduzido pelo sobrenome
Johnson que o pai de Meridiana deveria ser um trouxa. Guardou os materiais em
silêncio e resolveu recolher-se ao dormitório, já havia tido conversa o
suficiente com Theodore por um dia. Mas antes de deixar a sala comunal ainda
ouviu a voz dele por uma última vez:
- Durma bem, prima.
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