Saturday, July 20, 2013

Entre primos

O sol escondia-se no horizonte de Hogwarts, tingindo de laranja-escuro e lilás o céu que descortinava-se sobre o imponente castelo localizado entre colinas verdejantes. O verão britânico estava cada vez mais próximo, e com ele chegava a temporada de revisões e simulados pré-exames. A biblioteca, antes lugar freqüentado somente pelos alunos mais aplicados, havia tornado-se refúgio e ponto de encontro para a maioria dos estudantes, sobretudo os do quinto e sétimo ano.

Foi tentando escapar desse caos que Adhara Ivory escolhera instalar-se no salão comunal da Sonserina para colocar em ordem toda a matéria daquele dia. A garota suspirou, mesmo ali, nas masmorras, ainda estava um pouco calor; embora ela tivesse certeza de que o restante do castelo deveria estar ainda pior. Nesse momento considerava-se uma grande afortunada por habitar a escura e gélida ala das serpentes. Sem aviso ela sentiu um par de mão com dedos longos e finos levantar os seus cabelos e colocar os fios pouco mais claros que o ébano por cima do encosto da cadeira em que estava sentada, um gesto cortês para amenizar o calor que tanto lhe incomodava. Adhara não moveu-se, esperando que o responsável por aquilo entrasse em seu campo de visão.

Theodore Nott contornou a mesa e parou em frente a janela que dava a garota uma uma visão do exterior do castelo. Nott fitou o céu de início de noite, não dirigindo o olhar para a prima.

- Você deveria ir comer alguma coisa, o jantar já foi servido no Salão Principal. Não é bom ficar em jejum por tanto tempo. - disse o sonserino.

- Passei na cozinha antes de vir para cá. Você não precisa se preocupar tanto comigo, primo. - ela respondeu com irônia.

- É natural que eu me preocupe. - Nott virou-se para a garota - Você é da família, devemos zelar de quem tem o nosso sangue.

Adhara cruzou os braços, não permitindo que o seu rosto denotasse qualquer expressão.

- Eu não irei zelar pelo Draco. E nem por você.

Theodore sorriu.

- Tudo bem, eu não eperava que a atitude fosse recíproca da sua parte. De qualquer jeito, você é a minha prima favorita, Adhara.

A garota abriu a boca para retrucar que aquilo pouco significava, pois Theodore não tinha outra prima, quando um súbito pensamento a conteve. Estava errada, ela não era a única prima que ele possuía. Recentemente Adhara descobrira que, além do sextanista Trowa Barton, havia outro estudante da Grifinória com quem ela mantinha laços consangüíneos: Meridiana Johnson, cuja mãe fora prima de Kamus Ivory. O modo como Theodore salientara que ela, Adhara, era a sua prima favorita, levava a garota a crer que talvez ele já soubesse do parentesco que tinham com a grifinória de cabelos rubros. Mas também existia a hipótese de que Nott tivesse dito aquilo sem pensar. Talvez o melhor fosse jogar uma isca e ver se o primo revelava o que ela queria saber.

- E não existe outra pessoa que também mereça a sua preocupação?

Theodore franziu a testa, era esperto o suficiente para perceber que Adhara estava tentando extrair-lhe uma confissão. Desde que soubera por Draco Malfoy que seu tio Kamus estivera em Hogwarts para conversar com Adhara e a garota Johnson, deduziu que a prima havia descoberto sobre o parentesco com a ruivinha grifinória. Apenas lhe chateava o fato de Kamus não tê-lo convidado para participar da conversa, tinha grande curiosidade de conhecer o seu tio e também para saber o que ele dissera a Adhara e como estaria desenvolvendo-se o relacionamento dela com Meridiana Johnson.

- Se está falando da Johnson, aquela grifinória não tem muita relevância para mim.

- Então você já sabia... - Adhara estreitou os olhos - Desde quando?

- Já faz alguns anos. Uma vez ouvi a garota comentando que o seu sobrenome do meio era Black-Thorne, então perguntei à minha mãe e ela confirmou que a sua prima, Elizabeth, havia deixado a família para unir-se a um trouxa e acabou tendo uma filha.

Adhara confirmou com a cabeça. Kamus não mencionara a "traição" de Elizabeth, mas ela já havia deduzido pelo sobrenome Johnson que o pai de Meridiana deveria ser um trouxa. Guardou os materiais em silêncio e resolveu recolher-se ao dormitório, já havia tido conversa o suficiente com Theodore por um dia. Mas antes de deixar a sala comunal ainda ouviu a voz dele por uma última vez:

- Durma bem, prima.


No comments: