Thursday, May 28, 2009

Plano Anti-Cenouras – Parte Final


- Acordem! Acordem, suas preguiçosas!! O professor Carrow quer todo mundo no salão da escola agora! Andem, levantem-se!!

Dei um pulo na cama, mordendo o lábio para não xingar ao ser acordada daquele jeito por nossa nova monitora, que até então eu não tivera a mínima curiosidade de saber quem era. Também mordia o lábio para não rir, já que, se o Cenourão nos queria todos tão cedo no salão, era sinal de que tudo tinha dado certo.

Enfiei as roupas de qualquer jeito, tirei uma primeiranista do caminho do banheiro para poder lavar o rosto, engoli rápido o conteúdo de um vidrinho que já trazia no bolso da veste e despenquei escada abaixo, empurrando e sendo empurrada por outras garotas não menos curiosas. Os rapazes já se aglomeravam na Sala Comunal, e, assim que ficou claro que estávamos todos despertos e a postos, nossos monitores nos conduziram pelos corredores das Masmorras.

O burburinho era inevitável; os sonserinos se perguntavam por que motivo tio Cenoura Crua desejava nossa companhia assim tão cedo. A pretexto disso, percebi que Satanio se aproximava lentamente de mim, com uma cara de sono que mal escondia sua satisfação.

- Acho que vai chover – ele murmurou, passando seu braço pelo meu.

- Trovejar – respondi, enfiando a mão no bolso de minha veste e contrabandeando um vidrinho para o bolso da veste do loiro.

- Café da manhã? – ele perguntou, displicente.

- Proteção – murmurei de volta – Depois explico.

Quando alcançamos o final da ala das Masmorras, o Lesmão, suando em bicas, tomou a dianteira de nosso cortejo, ombreado pelos monitores. Não fui capaz de reprimir uma careta de desprezo para o nosso covarde atual diretor; fosse ainda Severus o responsável por nossa Casa, ele se nos apresentaria altivo e impassível...

Chegamos aos corredores principais e um murmúrio de espanto percorreu os sonserinos. Parecia que o Cenourão não desejava apenas a nossa companhia, mas a da escola inteira. Satanio mordeu o lábio e olhou para a ponta dos sapatos quando viu a massa de alunos e os respectivos diretores das Casas caminhando para o salão principal. Uma pontada de preocupação me fez cutucá-lo de leve.

- Beba de uma vez o que eu passei para você, Sat, por favor – murmurei – É uma poção de contenção de alegria, para que nossos sorrisos de gato de Cheshire não nos entreguem. Já tomei a minha.

- Ah, então é por isso que você está com essa cara de paisagem? – ele comentou, arqueando a sobrancelha – Me dá um minuto, então.

Quando passamos por um banheiro masculino, Sat nele entrou por alguns minutos e depois se juntou a mim novamente, esbarrando sem querer em Pansy Parkison ao retornar.

- Onde você estava até agora, Goddriac? – ela perguntou, desconfiada.

- Caminhando ao lado de Raven, minha querida, e no presente momento estou exatamente atrás de você – ele respondeu, displicente – Até um pouco atrás estive no banheiro, porque achei que não seria bonito deixar uma poça no meio do salão principal.

A garota fez uma careta de nojo.

- O que foi? – ele prosseguiu, mantendo o tom – Não tenho culpa de ter sido praticamente arrancado da cama por aquele idiota do Nott.

- Você não devia falar assim do Theodore, pode se arrepender depois – Pansy devolveu, com um sorrisinho torto – E você deve estar se sentindo bem sozinha, não, Raven, agora que a sua amiguinha Johnson acordou para a vida e se tornou Black-Thorne – ela completou, me encarando.

- Vá dormir, Parkison – respondi, com um suspiro de enfado – E olhe para frente, estamos quase chegando.

Com uma careta de desprezo, Pansy nos deu as costas. Realmente nos aproximávamos do salão e, mesmo com a poção contendo meus possíveis sorrisos de triunfo, ela não tinha o poder de sossegar meu coração, que me socava desesperado no peito. Porém, não era medo ou angústia que o descontrolavam, mas a sensação de que o plano tinha sido bem sucedido. Afinal de contas, se assim não fosse, porque o Cenoura nos convocaria com tanta urgência?

Quando entramos no salão, uma cena no mínimo burlesca se desenrolava frente ao grande quadro de avisos. Filch irritado, Amycus Carrow vermelho como um tomate, Alecto Carrow pálida como um fantasma, alguns alunos de várias casas bastante espantados e alguns professores a custo sérios encaravam, cada um a seu modo, um enorme cartaz firmemente pregado ao quadro, no qual se lia em grandes letras vermelhas:

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma florde nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,pisam as flores matam o nosso cão,e não dizemos nada.
Até que um dia,o mais frágil delesentra sozinho em nossa casa,rouba-nos a lua e,conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada já não podemos dizer nada.


Meu rosto endureceu quando tentei sorrir ao ver nossa obra revolucionária exposta aos olhos de praticamente toda Hogwarts, resistindo bravamente aos repetidos feitiços que o Cenourão, quase apoplético, lançava para tentar arrancá-la do quadro. Wallus Firmare, o feitiço que Darien tão prontamente me ensinara e que eu e Satanio ensaiáramos às escondidas na sala precisa por três dias daquela ansiosa semana de preparativos, fora simplesmente perfeito. Encarei Sat e pude ver no brilho de seus olhos o enorme sorriso que minha poção, graças a Merlin, conseguia conter.

Procurei Darien com o olhar, em meio aos Corvinais, e o achei mais ao fundo, com Jamal, disfarçando um sorrisinho orgulhoso. Porém, como todos naquelas proximidades não tiravam os olhos do espetáculo proporcionado pela ira do Cenoura Crua, não me preocupei com a possibilidade de alguém ligar o Cabelo Azul àquela façanha.

- Raven, acho melhor chamarmos Madame Pomfrey para acudir o Cenoura, pobrezinho – comentou Sat, ao meu ouvido – Mais um feitiço perdido, ele explode.

De fato, a impressão que tínhamos era a de que Amycus Carrow entraria em combustão, de tanta ira. E, malgrado seu, quanto mais se esforçava em destruir o cartaz, mais atenção ele chamava, a ponto de haver alunos lendo à meia voz, ou uns para os outros, aquele que era um de meus poemas prediletos de Maiacovsky. E eu fazia votos para que a advertência do poeta preenchesse corações e mentes daqueles que o liam.

Percebendo que os esforços do irmão redundariam em nada, Cenoura Cozida deixou seu aparente estupor e pousou a mão no ombro de Amycus. Este, trêmulo do esforço e, era visível, também de pura raiva, encarou-nos todos e exclamou, apontando-nos sua varinha:

- Quem foi o insolente que ousou desafiar minha autoridade? Quem foi o engraçadinho que pensa que pode fazer o que bem entende dentro desta escola? Esta infâmia aqui é a prova de que Hogwarts ficou jogada às traças por todos esses anos, sob o falso comando de um bruxo velho que permitia a vocês acreditar que estavam em suas próprias casas! Pois fiquem avisados de que esse tempo acabou, ouviram! Acabou!

Um murmúrio de indignação mesclado ao medo se fez ouvir entre os estudantes. Carrow ergueu imperiosamente a mão, e o silêncio retornou.

- Não pensem vocês que isso vai passar em branco! – ele retomou, emputecido, literalmente espumando enquanto gritava – Não descansarei enquanto não descobrir quem foi, ou quem foram os responsáveis por esta palhaçada! E, quando puser minhas mãos nele, ou neles... Eu chego a sentir até pena – completou, com um sorriso cruel.

Lamentei pelos alunos novatos, que se encolheram, amedrontados, diante da ameaça do Cenoura. Porém, por meu lado, não chegava a sentir medo; eu e Sat fôramos muito cuidadosos tanto nos preparativos quanto na execução, e déramos a sorte inesperada de não cruzarmos com ninguém no caminho, na noite anterior, enquanto nos dirigíamos ao salão principal. A Mão do Invisível acolhera nossa pretensão e, protetora, nos auxiliou todo o tempo.

O Cenourão, agora, recrutava os professores ali disponíveis para que algum deles retirasse o maldito cartaz do quadro. O Lesmão, por entre suores e pulinhos, desculpou-se dizendo que feitiços não eram sua especialidade, mas apenas as artes do caldeirão. A Profa. Sprout se ofereceu para fabricar um removedor, mas a receita só ficaria pronta em sete dias. A Diretora da Grifinória, com olhos brilhantes por detrás dos óculos, lançou um feitiço que parecia poderoso, mas que também foi inócuo. Por fim, sustentando o olhar agora assassino de Amycus Carrow, o Professor Flitwick segurava o queixo e explicava que aquele feitiço lhe parecia muito peculiar, e exigia concentração para ser desfeito.

Bendita a hora em que preparei a poção de controle para mim e Satanio, caso contrário estaríamos rolando pelo chão de tanto rir. Não sabíamos o que era mais engraçado: se o piti de raiva de Amycus, se a inércia estúpida de Alecto ou a dita concentração do pequeno diretor da Corvinal.

Nisso, outro rumor perpassou os alunos. Estiquei o pescoço na direção para onde todos se voltaram e meu coração falhou uma batida.

Severus.

Enrolado à capa, altivo e frio, dirigiu-se lentamente até onde nos aglomerávamos. Os alunos abriram caminho para que ele passasse e pudesse ficar frente ao quadro de avisos. O Cenourão começou a dizer algo, mas o Senhor de Meu Coração ordenou que se calasse, apenas erguendo a mão. Meu eu interior urrou de satisfação.

Respirei fundo para não ofegar enquanto os olhos negros de Severus percorriam o texto de Maiacovsky. Assim que encerrou a leitura, ergueu uma sobrancelha, ignorou uma vez mais uma nova tentativa de manifestação de Amycus e, dirigindo-se ao Professor Flitwick, disse, ao seu modo perigosamente suave:

- Seria muito pedir-lhe, senhor Professor, que retirasse imediatamente este acintoso cartaz de nossas vistas?

- De forma alguma, senhor Diretor - respondeu Flitwick - Como eu disse ao Professor Carrow, este feitiço é bastante peculiar, uma variante incomum e potencializada do Feitiço Adesivo básico, digamos assim. Existe um antídoto para seus efeitos cuja base é o ácido do estômago de um dragão jovem, mas sua elaboração é bastante trabalhosa e demorada. Porém, creio que há um feitiço mais forte dentro da família Evanescere que pode funcionar neste caso. Vejamos, então. Por favor, afastem-se.

E, tomando posição ao sacar a varinha, o pequeno diretor da Corvinal invocou o feitiço, mas, ainda assim, o cartaz permaneceu preso pelas beiradas. Foi apenas na segunda tentativa que, após uma pequena explosão, nossa preciosa obra soltou-se do quadro de avisos e fez-se pó em pleno ar. Foi quando Severus retomou a palavra:

- Bem, creio que agora não há mais justificativa para não mantermos nossa rotina. O café da manhã será servido e, após isso, que todos retomem suas atividades. Professores, encaminhem seus alunos para as mesas das Casas e, em seguida, para as salas de aula. Srta. Carrow, coordene os trabalhos. Filch, assessore no que for preciso. Quanto a você, Amycus, acompanhe-me até meu gabinete; temos assuntos a tratar.

Por fim, lançou-nos um de seus usuais olhares inexpugnáveis e se retirou a largas passadas, sua capa enfunando-se às suas costas, obrigando o deselegante Cenourão a praticamente correr para alcançá-lo.

Satanio, então, tocou meu ombro e despertou minha atenção para a fila de sonserinos que seguiam Slurghorne para a mesa de nossa Casa; eu o segui, em silêncio. Contudo, por dentro eu sorria, a despeito de tudo, numa estranha satisfação, em notar como era diversa a matéria amorfa donde se moldara o Intragável Carrow do poderoso metal em que se forjara o Senhor de Meu Coração.

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