Payback – Parte 2
Meridiana observava com os murmurinhos da platéia de sonserinos que estavam em volta dela. Não havia nenhum rosto cuja expressão não fosse de verdadeiro espanto, mesmo naqueles cujo deleite era notável.
Mesmo com todo o posicionamento pró-comensal que ela vinha demonstrando desde que se propusera a fingir diante dos colegas, parecia inconcebível – e quem sabe ousado – uma grifinória estar às portas da Sonserina com um lufano completamente detonado a tira colo.
Estereótipos acabaram se tornando uma verdade praticamente incontestável em Hogwarts no decorrer dos séculos.
“É hora de quebrar paradigmas”, a ruiva pensou consigo mesma. Mesmo que no caso dela fosse simulação, grifinórios não eram todos heróis, tampouco sonserinos eram todos vilões.
As conversas pareciam ter se ampliado, crescendo da porta da ala da casa das serpentes até onde a ruiva se encontrava, à medida que Theodore Nott e seu séquito abriam caminho por entre os outros alunos.
Meridiana sorriu de lado, satisfeita em perceber que o plano estava funcionando tão bem quanto um relógio suíço. Raven conseguira reter Satanio na ala, Theo aparecera sem problemas. Bastava apenas esperar um pouco até que Adhara pudesse dar as caras.
- Era exatamente o que você queria, não, primo? – a ruiva perguntou, dando um sorriso pretensamente malicioso – Um pouco de sangue derramado para compensar o que ele tirou de você.
- Bloody hell... – Blaise Zambini murmurou, assombrado, do lado direito de Theodore ao ver o estado deplorável do lufano.
Nott, entretanto, não foi tão efusivo em sua reação. Na verdade, exceto pelo arremedo de um sorrisinho jocoso, o sonserino manteve sua expressão guardada e evitou fitar por muito tempo a figura do quintanista machucado, preferindo focalizar sua atenção nos olhos de Meridiana.
- Você até que foi rápida, Black-Thorne. – ele comentou, embora sua voz não indicasse, ainda, sinais de satisfação.
- Sabe que foi mais fácil do que pensei. O garoto é muito crédulo. – Meridiana falou, apontando com a cabeça Kyle, que ainda flutuava inconsciente. A moça tentava não notar o modo como o sangramento causado pela nugá sangra nariz dos Weasley começava a empapar o cabelo do primo caçula. – Uma palavra doce, o sorriso certo, nada muito difícil de se fazer para convencê-lo me acompanhar, e, como eu tinha o elemento surpresa ao meu lado e mais experiência no manejo de varinha, não foi complicado nocauteá-lo.
Theodore assentiu e então deu alguns passos à frente, na direção da ruiva. O burburinho havia silenciado desde que Nott chegara com Blaise e Pansy e toda a ala sonserina observava, transfixada, enquanto Theo circundava Meridiana e Kyle, como um professor que avalia com olhos severos o trabalho de seu aluno.
A ruiva tentou manter uma expressão impassível enquanto o sonserino fazia a “vistoria”, torcendo para que tenha sido realmente convincente nos detalhes, e, feliz, por ter colocado o primo caçula para dormir. Duvidava que Kyle conseguisse permanecer quieto em meio a toda aquela atenção.
Depois de ter dado uma volta inteira ao redor dos dois, Nott parou novamente em frente à Meridiana. A grifinória sustentou o olhar impassível de Nott, mas só conseguiu respirar realmente quando uma expressão nojenta de deleite tomou as feições dele. Theo havia mordido a isca.
- Eu não achei que você tivesse a força necessária em você, Black-Thorne. Bom trabalho. – ele finalmente concedeu.
- Confesso a você que foi bastante divertido deixá-lo assim, especialmente agora vendo o quanto apreciou, primo – Meridiana respondeu, sorrindo de lado, internamente divertindo-se por sua extrema sinceridade naquele instante estar ajudando a tornar ainda mais crível aquela encenação.
Theo deu um meio sorriso e chegou mesmo a abrir a boca para fazer algum outro comentário, mas foi interrompido antes, por uma voz bastante conhecida:
- O que está acontecendo aqui?
Meri viu o sonserino franzir o cenho e virar o corpo para trás, na direção de onde a voz de Adhara vinha, um tanto abafada pelas dezenas de alunos.
Como se pressentissem que finalmente a última estrela do espetáculo havia chegado, os espectadores sonserinos foram abrindo caminho para que a morena passasse pelo corredor. À Meri parecia até que estava assistindo a Moisés separando o mar vermelho. Aquele, entretanto, estava mais para um mar verde e prata.
Adhara caminhou por entre os colegas de Casa com a altivez a que Meridiana, depois do convívio próximo com a prima, já havia se acostumado. Naquele momento a grifinória pôde constatar que, apesar do Sr. Ivory também ser uma pessoa que impunha extremo respeito, a altivez dele era algo sutilmente diferente da de Adhara... Seu padrinho era como um iceberg flutuando ao sabor das ondas de um mar gelado, e nunca se sabe quando ele irá causar algum estrago. Dhara era mais como um vulcão borbulhando sob a superfície e prestes a explodir. Era assim que ela parecia aos olhos de Meri agora, e a ruiva se sentiu internamente orgulhosa da capacidade de atuação de sua prima.
Dhara parou ao lado de Theodore, mas tão afastada dele quanto podia. Ela lançou um olhar fulminante para o primo sonserino por um instante e então os olhos dela registraram silenciosamente a figura estropiada de Kyle e, em seguida, pousaram sobre Meri.
- O que você fez? – ela perguntou, com um tom gélido.
- Apenas ensinei ao lufano onde é seu devido lugar. – a ruiva respondeu, fingindo indiferença – E, sinceramente, Dhara, não sei o que te interessa nesse garotinho aqui a ponto de tanto tumulto.
- Oh, eu sei o que ele tem que interessa à Ivory. – disse Pansy, com um sorrisinho de escárnio, e arrancando risinhos maliciosos de vários outros alunos, principalmente as garotas.
Meri acabou também se juntando ao coro de risos, afinal se queria convencer Theo que, apesar de grifinória, ela, por dentro, tinha o cerne de uma puro-sangue elitista, ali estava uma oportunidade perfeita para fingir que se assemelhava a garotas da laia da Parkinson.
Adhara virou-se para Pansy com uma expressão de tédio.
- É, e provavelmente é algo que você nunca experimentou. – ela respondeu com desdém.
Aquilo fez a cor fugir do rosto de Parkinson e calou a boca de todas as garotas que estavam rindo. Vários garotos fizeram sons de aprovação e incentivo e Meri girou os olhos ao perceber que, para eles, nada seria mais divertido que ver Dhara e Pansy se engalfinhando ali mesmo. Garotos podiam ser realmente muito bobos quando queriam.
A morena, no entanto, não havia esquecido que o foco daquela “operação” eram Meri e Kyle, ela poderia trocar amabilidades com Pansy Parkinson quando quisesse. Por isso, ela se voltou novamente para a prima.
- Honestamente, eu não sei o que está acontecendo com você, Meridiana. Será que você consegue ouvir as palavras que estão saindo da sua boca? – Ela fez uma pausa, encarando a ruiva com um olhar incisivo. – Eu sei que o que aconteceu nas férias foi difícil e você pode até estar um pouco confusa agora... Mas você não conversa mais com nenhum dos seus amigos. Você terminou com Lucien a troco de nada. E agora isso? – ela apontou Kyle, que ainda flutuava atrás de Meri, pingando sangue falso – Eu nem te reconheço mais. – Dhara finalizou, em um tom calculadamente mais baixo e ameno.
Meridiana sentiu uma pontada na altura do estômago ao escutar as “acusações” da prima. Embora cada uma delas fosse uma ação planejada para aquilo que Meri acreditava ser melhor para salvaguardar seus amigos, apenas naquele instante ela teve plena ciência dos sacrifícios que estava fazendo e daqueles que estavam por vir.
- Apenas abri meus olhos para a verdade, Adhara, e descobri quem eu realmente devo ser. – a grifinória finalmente respondeu com a voz altiva e determinada, camuflando a ligeira turbulência que se instaurara momentaneamente dentro dela.
Adhara cruzou os braços e meneou a cabeça, fingindo pesar.
- Se essa é a pessoa que você realmente é... Então eu não quero mais você na minha vida. – ela disse, encarando os olhos da prima, sendo assistida pelos colegas de Casa que bebiam de suas palavras em um silêncio sepulcral.
Com aquilo, Adhara tirou a varinha do bolso da capa e a apontou para Meridiana, torcendo o pulso duas vezes em um feitiço não-verbal que liberou um jato de luz prateada. Alguns olhos se arregalaram, achando que a morena estava atacando a grifinória. Meri, no entanto, não titubeou, ela sabia, afinal, que o feitiço não era direcionado a si, mas sim a Kyle. Porém, pela segurança da atuação que estavam fazendo, ergueu a própria varinha e assumiu uma posição de defesa.
Como combinado, o feitiço passou raspando por Meri e atingiu Kyle, envolvendo os ferimentos falsos do lufano em faixas e talas e conjurando uma pequena maca na qual o corpo desacordado dele repousou.
A ruiva empertigou-se e encarou a prima com um pretenso olhar fulminante, como se estivesse contrariada por Adhara ter tirado o rapaz da influência do Levicorpus.
- Não importa se vamos lutar do mesmo lado amanhã, o que você fez hoje é indesculpável. – a jovem Ivory continuou, em um tom firme. – Nós terminamos aqui, Meridiana.
A ruiva cruzou meticulosamente os braços, lançando um olhar pretensamente gélido para a morena.
- Se é assim que deseja, Ivory, é assim que vai ser. Garanto que não me fará falta.
Adhara assentiu com uma expressão fria, virando em direção ao corredor, tentando abrir caminho pela multidão que os cercava. Contudo, ao contrário do momento em que ela chegou, os sonserinos ao redor, ou por choque pela cena que se desenrolara ou por acharem que ainda não era hora do “show” terminar e queriam, talvez, um pouco mais de sangue, mantinham-se completamente estáticos.
- É melhor me deixarem ir embora ou vou conjurar um patrono e chamar a McGonagall. – a moça de olhos azuis meia-noite falou, em um tom de voz controlado e paradoxalmente autoritário – Não importa se estamos nas boas-graças do Diretor, atacar um aluno ainda é uma infração grave e eu não quero ter que começar a apontar nomes – ela completou, encarando abertamente Theodore.
- Deixem que ela se vá – disse Nott, com ares de arrogância e condescendência – Eu já estou satisfeito.
Com um último olhar gelado para Theo e Meri, Adhara se foi, levando a figura inerte de Kyle junto de si.
Naquele ponto, ainda de braços cruzados, a ruiva se permitiu sorrir enquanto via os primos se afastando pelo corredor. Possivelmente Nott interpretaria aquele sorriso como uma congratulação da grifinória a si mesma pelo feito daquela noite. Ele não estaria enganado sobre isso, apenas não poderia adivinhar que Meri estava satisfeita era por ter feito o primo sonserino de paspalho sem que ele ao menos percebesse.
Assim que intuiu que Adhara e Kyle já estavam longe o suficiente deles, e que a massa de sonserinos curiosos começava a se dispersar, ela voltou-se para Nott, ainda circundando por seu grupinho de “diletos seguidores”.
- Estarei esperando que cumpra a sua palavra, Theodore, uma vez que cumpri a minha.
- Não se preocupe Black-Thorne, eu tenho boa memória. – consentiu Nott, com um brilho de satisfação no fundo dos olhos castanhos.
Meridiana meneou a cabeça em despedida, seguindo rapidamente para o corredor que levava à saída das masmorras. Embora seu impulso fosse tentar ir atrás dos primos e ver como eles estavam depois do pequeno teatro armado, ela seguiu direto para a torre dos Leões, não podia se arriscar.
Amanhã o castelo inteiro saberia o que aconteceu. Depois daquela noite realmente não haveria mais volta para ela sobre suas decisões. De agora em diante ela seria vista como uma candidata a jovem comensal, exatamente como ela desejara. Meridiana precisava seguir em frente, mesmo em meio a receios e possíveis arrependimentos.
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