Not too early, but too late
A cruz é um dos simbolismos mais antigos usados pela humanidade. Emprestada a diversas religiões, para cada uma delas tinha seu próprio significado: ela poderia ser uma representação do sol no Extremo Oriente, ou uma mórbida aranha a girar em sentido anti-horário, trazendo marcas e lembranças de um passado doloroso e cruel.
Podia significar tormento, suplício – a palavra Cruz vinha afinal do latim, Crucio, como a Maldição Imperdoável. Podia ser uma rosa dos ventos, a apontar cada um dos pontos cardeais, ao mesmo tempo em que representava os quatro elementos. Ou a união do divino, na linha vertical e do mundano; a horizontal.
Vida ou morte, todos os significados de que ele conseguia lembrar-se para a figura de uma cruz estavam representados naquela sala: o Ankh sobre a porta; o cruxificado na parede atrás da mesa, a cruz grega na moldura do espelho, a suástica na imagem de Buda, a pequena cruz celta em pé sobre a escrivaninha, as bandeiras da Escócia e da Inglaterra lado a lado – a cruz de Santo André e a cruz de São Jorge...
Godfrey McKinnon não era um homem de se impressionar facilmente. Mas o escritório de August Chenoweth sempre exercera sobre ele um estranho misto de fascínio e temor. E não era apenas pelas cruzes que imperavam por todo o aposento. Dos livros aos objetos sobre sua mesa, August parecia ter se cercado de tudo aquilo que havia de mais representativo da Cultura Humana.
Naquela tarde, contudo, pela primeira vez desde que passara a freqüentar a casa do velho jornalista, o domador não deu atenção a qualquer uma das metáforas escondidas por trás daqueles objetos. Ele estava mais preocupado com aquilo que trouxera enrolado dentro do forro do casaco, e com os significantes que existiam por trás dele.
- Clio já tinha me ligado de madrugada para avisar, mas eu não tinha como sair sem despertar uma suspeita. – August quebrou o silêncio que se instalara entre eles após o pôster ser desenrolado sobre sua mesa – Ela passou a madrugada no jornal, junto com vários outros funcionários... Mas ninguém sabe quem fez isso, ninguém viu como foi feito, não há nada, nem uma única pista que possa nos levar ao autor ou autores dessa façanha.
- O pessoal da limpeza já estava quase terminando de rasgar todos os papéis quando eu cheguei. – Godfrey confessou – E havia uma turma de aurores por perto, além de vários outros funcionários do Ministério. Eles estavam furiosos.
- Não é para menos. Ninguém ousou a acusá-los tão abertamente até agora. – o jornalista suspirou, sentando-se em sua cadeira, massageando a nuca – Eu só não entendo como conseguiram fazer isso sem serem pegos. Isso simplesmente não me entra na cabeça. Dentro do Beco Diagonal, Godfrey! Como eles conseguiram burlar a vigilância?
O outro apenas meneou a cabeça em resposta, os olhos claros encontrando-se com os do velho.
- O que realmente me preocupa, August, é quem são eles. Desde a morte do Professor Dumbledore, a Ordem começou a se fragmentar; não há mais um nome que consiga agregar as opiniões e valores de todos que estão envolvidos com a Resistência. Com isso, nós perdemos força; nos deixamos levar pelas picuinhas de esse e aquele grupo, por pessoas que estão mais interessadas em fortalecer o próprio poder do que em se opor verdadeiramente ao que está acontecendo.
- Mais que isso, Godfrey... – Chenoweth suspirou, cansado – Estão surgindo grupos que acham que nós somos tão culpados quanto os Comensais. Que não fazemos o suficiente. Que estamos apenas nos escondendo como velhos covardes. Meadowes veio discutir comigo no outro dia pelo fato de eu estar “monopolizando” a juventude.
- Ele deve ter ouvido sobre a casa que você fez o filho de Alexis comprar. Não deixa de ser verdade, contudo. Todos os adolescentes que me aparecem, eu mando para você. Nenhum deles está muito satisfeito com isso.
August suspirou.
- Dorcas era muito jovem quando foi assassinada. Ele deveria entender o que estou tentando fazer. Mas parece que a morte da irmã apenas o deixou mais amargo. Ele sacrificaria quem fosse necessário para ter uma chance de vingança. – o mais velho abaixou ligeiramente a cabeça – Eu sei que é contra as regras, mas juntar os mais jovens num lugar só, onde eles pudessem ter um pouco de liberdade... Nós devemos isso a eles.
Ele desviou o olhar para o papel sobre sua mesa, um anúncio de propaganda do Profeta Diário pixado com letras rubras e raivosas: Aquele que se rende é meu inimigo. Aquela era apenas uma das muitas inscrições que tinham surgido durante a noite em vários muros e paredes do Beco Diagonal.
- Eu temo que isso seja só o começo. – August continuou – Palavras são o primeiro degrau na escalada do terror. Não sou um profeta, Godfrey, mas eu sinto que daqui para frente, comecemos a nos deparar com alguns atos extremistas. Eles acabarão colocando inocentes na linha de fogo.
- Eles já colocaram. – o domador respondeu – Todos os dias eu me deparo com faces cada vez mais juvenis querendo abrigo, proteção ou vingança. Eu não sei como o Hades' Gate e Omar conseguiram se tornar tão populares. – ele olhou para a mão enluvada, pensando na tatuagem que havia sobre o couro de dragão.
- Os amigos de sua sobrinha estão todos comigo. – August observou – Mercury e Cyan me encontraram através de minhas netas. A jovem Blair veio com Peter, Mahala também está conosco... Se Mina estivesse aqui...
- Eu a despacharia de volta para casa no mesmo instante. – Godfrey o interrompeu – Eu não posso impedir que todos que chegam até mim entrem nessa vida, August. Muitos estão desesperados, muitos não têm absolutamente mais nada a perder. Mas, se eu pudesse, eu jamais traria essas crianças para você ou para qualquer outro núcleo de resistência.
August deu um meio sorriso.
- Eles estão ficando mais jovens a cada dia que passa. A juventude parece ter muito mais consciência do que está acontecendo; os velhos, como nós, só fazem se acovardar e correr para debaixo da cama.
Godfrey se levantou.
- Eles estão perdendo a inocência cedo demais. E, cedo demais, nós os estamos perdendo.
- Ou talvez sejamos nós que tenhamos agido tarde demais, Godfrey. – o jornalista respondeu, melancólico – Não tão cedo... mas sim, muito tarde...
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