Retaliação - Parte Final
- Vá até o terceiro andar e pegue o primeiro corredor à esquerda, você vai achar uma tapeçaria de um grupo de centauros olhando as estrelas. Aponte a varinha para a tapeçaria e diga “Regulus et Denebula”, haverá uma porta na parede depois disso. Entre lá e se esconda. Não pare pelo caminho. Não converse com ninguém. Eu vou até a Enfermaria pegar alguma coisa para a sua mão antes que mandem Theodore para lá.
Adhara disse aquilo tudo aos sussurros enquanto galgavam os degraus de mármore e adentravam o hall do castelo. E, no instante seguinte, Kyle não sentia mais os dedos dela apertando seu braço, sua prima estava deslizando para longe dele, os cabelos ondulando e as vestes farfalhando, e o lufano se viu sozinho em meio à torrente de alunos que entrava e saía do Salão Principal no horário de almoço.
O rapaz abaixou a cabeça, tentando não chamar a atenção para si. Provavelmente ninguém sabia da briga ainda, mas era apenas uma questão de tempo até a notícia se espalhar pelo castelo como fogo em rastilho de pólvora. Definitivamente haveria conseqüências não muito agradáveis para o que ele fizera, mas Kyle não estava nem um pouco arrependido.
Não foi difícil achar a tapeçaria que Adhara descrevera. Era grande, com pelo menos dois metros de altura. Seguindo as instruções da sonserina, ele usou o feitiço que fez com que as estrelas bordadas na tapeçaria começassem a se mexer, agrupando-se em uma formação específica, que parecia ser a de uma constelação que Kyle não reconhecia.
A tapeçaria se transformou em uma porta de madeira, igual a todas as portas de sala de aula de Hogwarts. Quando Kyle entrou, a passagem selou-se atrás dele e o garoto imaginou que, do lado de fora, a porta deveria ter desaparecido e voltado a ser uma peça de arte.
A sala era arredondada, espaçosa, mas não chegava a ser realmente grande. Ao contrário do resto do castelo, o piso ali era de madeira e estava forrado por um tapete com estampas florais. Os únicos móveis eram uma mesa de madeira mediana e duas cadeiras, também de madeira. Kyle enxergava um toque distintamente feminino naquela arrumação.
Havia um janelão com parapeito interno, cuja vista dava para os terrenos da escola. Ele se aproximou, à esquerda enxergava uma parte do lago bem ao longe e, à direita, uma cabana de aparência rústica e os restos do que um dia deveria ter sido um grande canteiro de abóboras, plantadas pouco antes da orla da Floresta Proibida.
Kyle desviou o olhar para a mão, ela não saíra completamente ilesa do soco, estava esfolada nas juntas dos dedos. Talvez fosse resultado da imensa cara de pau de Nott. O rapaz sorriu para si mesmo diante deste pensamento jocoso, foi então que ele ouviu o clique da porta sendo aberta atrás de si.
Ele se virou de imediato, Adhara já estava fechando a porta e trazia consigo um vidrinho com um ungüento amarelo e uma toalha pequena.
A morena rumou para Kyle, o rosto bastante grave e sério, e, sem dizer nada, indicou para que ele se sentasse em uma das cadeiras. Depois de acomodados, Adhara abriu o vidro e empapou a toalha com o ungüento. O líquido tinha um cheiro forte e até um pouco desagradável. Ela segurou a mão machucada do garoto com a maior delicadeza possível e começou a espalhar o remédio.
Aquilo ardia, mas Kyle não reclamou. Na verdade, o silêncio dela o incomodava muito mais.
- Que sala é esta? – ele perguntou, tentando quebrar o clima pesado.
- Apenas mais uma entre as centenas de salas secretas do castelo. Meu pai me falou sobre ela no verão e disse para eu usá-la, caso precisasse de um esconderijo ou de um lugar para conversar com discrição.
Adhara então suspirou e levantou seus olhos para o primo. A expressão de seriedade não havia deixado-a, mas ao menos seus olhos estavam mais brandos.
- Kyle, o que estava pensando? Por que fez aquilo? – ela o questionou e, embora não houvesse mais sombra da irritação de antes, a morena ainda não parecia feliz.
- Porque o Nott merecia e como você mesma não podia dar uma lição nele, alguém teria que fazer. Decidi que seria eu.
Ela meneou a cabeça e soltou a mão dele.
- Se os tempos fossem outros, eles te dariam uma detenção e tirariam pontos da Lufa-Lufa por você ter brigado na escola. Mas agora... – Adhara o encarou e ela parecia quase desesperada para que ele compreendesse a gravidade da situação – Você viu como essa escola está, Kyle. O diretor é um Comensal da Morte, e você bateu no filho de um Comensal. Theodore não é só um cara babaca da escola que implicou comigo, ele é o filho de um agente do alto escalão Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Eles não vão deixar um desafio desses passar em branco. Eu não sei o que vão fazer com você, mas sei que vai ser sério. E a Profª. Sprout não vai poder interceder por você nessa. Ninguém vai poder.
- Eu sei, Dhara. – ele encarou a prima, dando um sorriso para tentar tranqüilizá-la – Mas, qualquer que seja a punição que eu receba, eu não faria diferente. Valeu a pena ver a cara de tacho do Nott toda arrebentada.
Adhara sorriu, mas o gesto foi amargo. Ela estendeu uma das mãos até o rosto de Kyle, afastando a franja castanha que caía sobre os olhos esmeraldinos.
- Kyle, o que quer que digam ou façam comigo, eu não ligo. Eu posso suportar. Mas como você acha que eu me sentiria se visse você ser punido por minha causa? – a mão dela, que antes mexia com os cabelos do primo, encontrou apoio em uma das bochechas do lufano – Eu odeio admitir isso, mas Theodore estava certo em ao menos uma coisa... – e ela sussurrou a frase seguinte – Eu não valho à pena.
- Como você pode dizer isso, Dhara? – o lufano retrucou com desmedida seriedade – Eu não acho isso, a Meri também falaria a mesma coisa se estivesse aqui, assim como a Sra. Ivory, seu pai e qualquer um que realmente te conheça.
Ela suspirou e olhou para o teto da sala. As palavras de Kyle a deixavam, de certa forma, feliz. Era grata pelos esforços do primo, pelo cuidado e a preocupação dele. Mas aquilo também a afligia.
Adhara então voltou a fitar o primo caçula.
- Eu só não quero que ninguém te machuque. – ela começou, com o tom de voz baixo e dotado de mais emoção do que Kyle já a vira usar – A você e ao resto da nossa família... Eu me sentiria péssima se soubesse que qualquer um de vocês se prejudicou apenas para defender algo tão bobo quanto a minha honra. Eu seria desonrada e feliz se apenas soubesse que todos vocês estão seguros...
- Acho que você não entendeu direito o que eu fiz, Dhara. – Kyle a fitou, dando um meio sorriso – Eu não fui atrás de Nott para defender a sua honra, eu fui para ele saber que existem pessoas que gostam de você e estão dispostas a te proteger. Se fosse o inverso, imagino que você faria o mesmo por mim.
A morena arqueou uma sobrancelha.
- De um modo bem menos espalhafatoso e com menos sangue envolvido, é claro...
- Claro. – Kyle concordou, em um tom meio jocoso.
- Mas eu entendo o seu ponto, e você tem razão. – e então, ela finalmente sorriu. Era um sorriso de canto, como o de alguém que dá o braço a torcer um tanto relutantemente, mas, ainda assim, era um sorriso – Eu faria exatamente o mesmo.
Kyle sorriu em resposta, percebendo que finalmente Adhara conseguira compreender o que ele sentia. Foi como se chegassem a um acordo silencioso de que, no fim das contas, eram uma família e estavam ali para se protegerem mutuamente, independente das conseqüências.
- Acho melhor nós sairmos daqui, não? Esconder vai ser pior.
A sonserina acabou tendo que concordar. Quanto mais tempo demorasse para encontrarem Kyle, mais irritados eles ficariam e pior seria a punição do garoto. Assim, mesmo com relutância, ela levantou-se, não se preocupando em recolher o ungüento e a toalha e deixando-os esquecidos sobre a mesa, não era como se alguém mais fosse usar aquela sala ao final das contas.
Quando estavam quase chegando à porta, Adhara parou, dando-se conta de que, afinal, ela sequer agradecera ao lufano por tê-la defendido.
- E, sabe de uma coisa, Kyle? – ela disse, chamando a atenção do rapaz para si.
Ele voltou-se para ela, uma mão na maçaneta e uma expressão interrogativa no rosto. A morena sorriu de maneira conspiratória antes de continuar:
- Você é o melhor primo pavio-curto e super-protetor que uma garota poderia querer.
Kyle riu da fala dela, mas, tinha que admitir, sentia-se intimamente satisfeito por aquilo. Ao menos era uma demonstração de que Adhara o apreciava pelo que ele verdadeiramente era.
Sem dizer nada, ele girou a maçaneta, mantendo a porta aberta para que a prima passasse. Juntos eles deixaram seu esconderijo, prontos para encarar qualquer que fosse a tempestade que se armava para eles do lado de fora.
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